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Ali ibn Abu Talib: A história do quarto califa do Islam

A história de Ali motivou uma grande divisão entre muçulmanos, embora o quarto califa tenha sido um dos homens que mais lutaram pela união do Islam.
  • Ali foi primo e genro do Profeta Muhammad e, desde pequeno, foi cuidado pelo Mensageiro de Allah.
  • Por acompanhar o Profeta como um mestre desde a infância, tornou-se um dos muçulmanos mais sábios de todos os tempos.
  • Ele se tornou o quarto califa do Islam e assumiu o poder em um período de grandes conflitos entre os membros da comunidade islâmica.
  • Por isso, Ali precisou enfrentar várias acusações injustas que motivaram conspirações contra o seu governo.

Ali ibn Abu Talib era primo do Profeta Muhammad e foi o primeiro homem jovem a crer na revelação islâmica. Já na fase adulta, tornou-se genro do Mensageiro de Allah ao se casar com sua filha Fatima Zahra, com quem estabeleceu a linhagem de Muhammad que dura até os dias atuais. Ele foi um dos maiores homens da história islâmica, sendo consagrado como o quarto califa dos muçulmanos.

Durante sua vida, Ali foi honrado pelo Profeta Muhammad diversas vezes e foi apontado por ele como o mestre espiritual de todos os muçulmanos. É considerado um grande exemplo para os adeptos do Islam devido ao seu caráter justo e piedoso. Ele também ficou marcado por ser um exímio guerreiro e suas habilidades o levaram a lutar em quase todas as guerras enfrentadas pela comunidade islâmica.

Seu reinado se encerra após seu assassinato, marcado por um período muito triste para a história islâmica em que a desunião entre os muçulmanos se agrava bastante. O legado de Ali é um dos mais importantes entre os companheiros do Profeta Muhammad, tanto por sua importância histórica quanto pelos aspectos místicos e espirituais que envolvem sua figura.

Vida pregressa

Filho de Abu Talib, Ali nasceu entre os anos de 599 e 600 e era membro da tribo dos Banu Hashim. Quando nasceu, sua mãe Fatima estava realizando a peregrinação à Meca e, no momento que sentiu as contrações do parto, ela entrou para o recinto da Caaba. Ali teve a honra de nascer dentro da Casa Sagrada, algo milagroso que o dotou com uma auréola de santidade que o envolveu em várias lendas, como a de que ele não teria chorado no parto como as outras crianças e que sua mãe não sentiu dores.

Não se sabe muito sobre a infância de Ali, mas ele era muito próximo do Profeta Muhammad quando jovem, viveu sob sua custódia e foi cuidado pelo Mensageiro de Allah como se fosse um irmão mais novo. Devido à sua eloquência e sabedoria, manifestadas de forma precoce, muitos estudiosos estimam que ele possa ter vivido com uma família adotiva no deserto, como era de costume dos coraixitas em Meca, e que ele também tenha acompanhado o Profeta em suas caravanas comerciais, o que teria contribuído para sua educação.

Ele sempre soube que tinha nascido dentro da Caaba e, por causa disso, questionava-se desde cedo como poderia haver na Casa de Deus tantos ídolos de pau e pedra, que nada poderiam fazer por aqueles que os adoravam. Ele também soube através de seu pai, Abu Talib, que no passado um monge cristão havia dito que Muhammad estava predestinado a ser um profeta e, acreditando que isso pudesse ser verdade, espelhava-se na conduta dele como se fosse o seu mestre e guia.

Conversão ao Islam

O Profeta Muhammad começou a ter sonhos. Em um deles, as nuvens e estrelas se prostravam diante dele enquanto voava no céu; em outro, as rochas e árvores chamavam por seu nome, e isso começou a afetá-lo profundamente. Por isso, ele decidiu se retirar da cidade para meditar em uma caverna no Monte Hira, localizado nos arredores de Meca. Enquanto esteve afastado, Ali sempre lhe trazia comida e vigiava os arredores para garantir que tudo ficaria bem.

Certa noite, o Anjo Gabriel se revelou ao Profeta Muhammad, o que o deixou bastante assustado e inquieto. Primeiramente, correu para sua casa para buscar abrigo e, em seguida, contou a sua esposa, Khadija, o que havia acontecido. Então, ela consultou seu primo, Waraqa bin Naufal, que era um padre nestoriano, para ver se ele poderia fornecer uma pista sobre o que havia acontecido.

Quando o padre ouviu os detalhes da história, não teve dúvida de que o anjo que apareceu ao Profeta Muhammad era o mesmo que havia aparecido para o Profeta Abraão e concluiu que Muhammad havia sido escolhido por Deus como Mensageiro. Certa de que isso era verdade, Khadija jurou lealdade a seu marido como um enviado de Allah e, quando soube disso, Ali também fez o mesmo.

Nos primeiros três anos, a religião foi mantida em segredo, pois romper com a tradição dos coraixitas poderia ser perigoso para os muçulmanos. Abu Talib, pai de Ali, não aderiu à religião porque era o líder de seu povo e quis evitar causar comoção, mas sempre apoiou o Profeta e os muçulmanos. O irmão de Ali, Jafar ibn Abu Talib, decidiu que iria refletir sobre o assunto e, mais tarde, converteu-se ao Islam.

Perseguição dos idólatras

A religião começou a ser divulgada publicamente quando o Profeta Muhammad convidou membros proeminentes dos Banu Hashim para um banquete e, durante a reunião, convocou todos aqueles que estavam presentes para apoiá-lo. No entanto, o único que reafirmou sua solidariedade foi o jovem Ali. O tio do Profeta, Abu Lahab, demonstrou uma atitude violenta, ridicularizando a nova fé e dizendo que tudo aquilo deveria ser uma alucinação.

Os idólatras começaram a difamar o Profeta, afirmando que ele era um tipo de mago ou que havia sido vítima de algum jinn (gênio). As hostilidades contra o Islam foram gradualmente aumentando. Os escravos que haviam se convertido, principalmente, começaram a ser torturados com crueldade. Alguns muçulmanos, como Ali, queriam lutar contra os pagãos, mas o Profeta não havia recebido nenhuma autorização para qualquer confronto naquele momento.

O Mensageiro de Allah pediu aos seus seguidores que fossem para a Abissínia, onde havia um rei cristão muito justo que poderia abrigá-los, e lá viveram por alguns meses. Porém, logo foram atraídos por uma falsa promessa de paz por parte dos coraixitas e decidiram voltar para Meca. A forte perseguição ao Islam continuou e os pagãos impuseram um boicote aos Banu Hashim, a tribo do Profeta, impedindo seus membros de fazer negócios e de ceder-lhes suas filhas em casamento, para forçá-los a tirar sua proteção ao Profeta. 

A proteção chegou ao fim quando o chefe dos Banu Hashim, Abu Talib, faleceu. Poucos dias depois, Khadija também morreu, o que abalou não somente o Profeta, mas também Ali que, além de perder seu pai, também perdeu aquela que ele estimava como uma mãe. Este período ficou conhecido na história do Islam como “O Ano da Tristeza”.

Hégira

Em 622, alguns homens do vale de Yathrib haviam se convertido ao Islam e juraram proteger e dar suporte ao Profeta e aos adeptos do Islam. Por isso, o Mensageiro de Allah autorizou seus seguidores a migrar para aquela cidade e, aos poucos, quase todos os muçulmanos que estavam em Meca fugiram, restando apenas o Profeta, Abu Bakr e Ali.

Decididos a dar o último golpe contra o Profeta Muhammad, os coraixitas bolaram um plano para matá-lo em sua casa, mas Deus o avisou do perigo e ele pôde planejar sua fuga. Ele pediu para Ali que dormisse em sua casa e, enquanto isso, foi até seu amigo Abu Bakr para irem juntos para Yathrib. Sem saber da fuga, os pagãos foram até a casa do Profeta, ficaram de vigília a noite toda e, pela manhã, viram que ele havia fugido e apenas Ali estava lá.

Ali ainda permaneceu alguns dias em Meca para quitar todos os negócios que o Profeta havia realizado e, assim que os concluiu, também partiu para Yathrib.

Vida em Medina

Quando o Profeta foi para Yathrib, a cidade passou a se chamar Medina (de Medina an-Nabi, ou seja, Cidade do Profeta). A princípio, ele ordenou aos residentes da cidade que recebessem os imigrantes. Ali foi o único que não se juntou a nenhum habitante do vale e teve a honra de permanecer ao lado do Mensageiro de Allah. 

Ali continuou levando a vida como comerciante e gerindo os negócios do Profeta, que agora estava focado em cumprir suas funções de estado.

Batalhas

A lista dos duelos disputados por Ali é bastante extensa e é, com certeza, uma das maiores do período da Revelação. Ele lutou em quase todas as batalhas travadas pelo Profeta Muhammad e sempre esteve no comando das tropas muçulmanas. Por ser um exímio soldado, foi chamado pelo Mensageiro de Allah de “Haider i Karrar”, que significa “Guerreiro Imbatível”. Após a Batalha das Trincheiras, ele também foi chamado de Asadullah, que significa “Leão de Deus”.

Seu primeiro duelo foi em Badr, onde foi um dos destaques durante a vitória islâmica contra os coraixitas. Em Uhud, alguns muçulmanos desobedeceram as ordens do Profeta de guardar seus postos durante toda a luta e, por causa disso, foram surpreendidos pelos pagãos. Muitos dos companheiros do Mensageiro de Allah fugiram da guerra, mas Ali permaneceu em campo mantendo sua proteção.

Durante os combates, Ali também foi reconhecido por usar uma espada com duas pontas chamada de zulfiqar, que acabou se tornando um ícone lendário para se referir ao nobre guerreiro. 

Casamento

Quando a filha de Muhammad, Fatima Zahra, chegou à maturidade, o Profeta logo pensou em casá-la. Muitos de seus companheiros fizeram proposta, mas ele se manteve em silêncio diante delas, pois aguardava a resposta de Deus para ver qual seria a melhor opção para ela. No entanto, quando Ali propôs casar-se com ela, Allah se satisfez e Seu Mensageiro cedeu a mão de sua filha.

Ali não tinha dinheiro para celebrar a cerimônia e precisou vender a sua armadura. Uthman, a fim de ajudar seu amigo, comprou-a e, logo em seguida, ofereceu-a a Ali como um presente de casamento. A princípio, ele não quis aceitar seu pertence de volta, mas Uthman o convenceu, afirmando que aquilo lhe seria útil para que ele pudesse lutar pela causa de Allah.

A cerimônia foi celebrada de maneira honrosa pelo Profeta. Ali era um homem que não tinha muito dinheiro, e relatos indicam que o casal viveu uma vida muito modesta. Ainda assim, seu relacionamento era visto como um exemplo por causa da dedicação mútua do casal. Logo, tiveram seus dois primeiros filhos, o primeiro em 625, chamado Hassan, e um ano depois veio Hussain, que o Profeta amava como se fossem seus filhos.

Escriba e homem de confiança

Ali foi designado para funções fundamentais para a expansão do Islam. O Profeta Muhammad era um homem analfabeto; quando a revelação do Alcorão chegava até ele, era recitada e, posteriormente, homens de confiança que eram letrados escreviam esses trechos em folhas, rochas ou peles de animais. O genro do Profeta foi um dos escribas designados para esta missão, o que depois possibilitou a compilação do livro manuscrito.

O dom da escrita de Ali também foi requisitado durante a confecção do Tratado de Hudaibiyah. Nesta ocasião, os pagãos de Meca estavam em decadência após a derrota na Batalha das Trincheiras. Os muçulmanos estavam fortalecidos e planejavam ir a Meca em 628 para fazer a peregrinação. Para não sofrerem esta derrota moral, os coraixitas decidiram propor um armistício ao Profeta Muhammad e Ali foi responsável por redigir o tratado.

Dois anos mais tarde, os próprios pagãos violaram o acordo de paz que haviam assinado ao atacarem uma tribo aliada aos muçulmanos. Este ataque mobilizou os adeptos do Islam e seus aliados a marcharem até Meca para combater os coraixitas. Chegando lá, todos esperavam por um banho de sangue, pois este era o costume daquele período, mas o Profeta perdoou os habitantes de Meca, que por sua vez, buscaram amparo no Islam e na sua presença.

Naquele dia, os ídolos de pedra e argila que circundavam a Caaba foram retirados do templo e destruídos. Alguns ficavam em pontos mais altos e, para pegá-los, o Profeta pediu a Ali que subisse em seus ombros para retirar as falsas deidades da Casa Sagrada.

Evento de Mubahalah

Depois que os muçulmanos já haviam se expandido por grande parte da Arábia, muitos cristãos se converteram, porém um grupo de sacerdotes decidiu fazer uma mubahalah, que era uma forma antiga de confrontar a verdade perante Deus. Se o Profeta estivesse mentindo, ele atrairia sobre si o castigo divino, mas se falasse a verdade os cristãos iriam aderir ao Islam. 

Os cristãos, então, perguntaram qual era a opinião do Profeta sobre Jesus e se ele o considerava uma divindade. O Mensageiro de Allah respondeu que o Messias era um Profeta e que Deus estava muito além de ter uma esposa ou filhos. Por último, os sacerdotes questionaram como Jesus poderia não ser o filho de Deus se ele não tinha pai e, naquela noite, o Profeta recebeu uma revelação como resposta, que dizia que este era um milagre parecido com o de Adão, que também não tinha pai.

Para finalizar, cada lado deveria eleger cinco pessoas para tomar parte na mubahalah que ocorreria no dia seguinte. Enquanto os cristãos nomearam cinco sacerdotes, o Profeta colocou junto com ele seus familiares Ali, Fatima, Hassan e Hussain. Quando se depararam com esta cena, aqueles homens viram que um mentiroso não seria capaz de colocar em risco a si mesmo e a seus familiares e temeram que pudessem atrair grande desgraça para os cristãos da Arábia.

No dia seguinte, os sacerdotes recuaram e disseram que não tinham intenção de se converterem ao Islam, mas que aceitariam a supremacia do Profeta e lhe pagariam um tributo anual. Os quatro membros da família de Muhammad ficaram conhecidos com o “Povo do Manto” (Ahl al Kisa), ao qual o Profeta ordenou uma devoção especial como forma de apegar-se ao caminho profético que ele deixou.

Declaração de Quitação

Em 631, o Profeta recebeu uma revelação de Deus que dispensava os muçulmanos de todos os acordos feitos com os politeístas até aquele momento, e dizia que praticantes de outras religiões não poderiam mais fazer a peregrinação do Hajj ou visitar a Caaba. Então, o Profeta quis que alguém de sua casa transmitisse a revelação em Meca e escolheu Ali, que teve a honra de transmitir uma revelação do Alcorão a todos os muçulmanos.

A controvérsia sobre a sucessão de Ali

Durante a volta da peregrinação de despedida, em que o Profeta recitou seu último célebre sermão, ele teria dito algo importante ao parar na província de Khumm Ghadir. Segundo alguns relatos, neste momento o Profeta teria dito: “Aquele de quem eu sou o mawla, dele Ali também é o mawla”. Esta palavra pode ser traduzida de maneira simplificada como “mestre”.

Há controvérsias sobre o que exatamente foi dito neste discurso e também sobre qual é o exato significado de “mawla” que teria usado pelo Profeta. Os xiitas alegariam, mais tarde, que Ali havia sido nomeado como califa sucessor, mas esta é uma interpretação minoritária. A maior parte dos muçulmanos acreditava que o Mensageiro de Allah se referia a uma obediência a Ali especialmente no sentido espiritual, mas não necessariamente político.

Morte do Profeta Muhammad e os governos posteriores

Em 632, o Profeta foi acometido por uma doença que o levou de volta para Allah em poucos dias. Ali e Abbas foram os dois responsáveis por lavar e preparar seu corpo para o enterro. Ali acreditava que deveria ser o sucessor do Profeta, baseado no fato de que ele era o mais avançado na sabedoria islâmica, mas os muçulmanos optaram pela eleição de Abu Bakr como califa, o que deixou Ali descontente, mas ele decidiu ter paciência.

Alguns muçulmanos, como Ibn Abbas e Abu Sufiyan, quiseram jurar lealdade a Ali, mas ele recusou, pois não tinha a intenção de dividir a comunidade islâmica. Seu descontentamento aumentou após uma disputa por uma terra em Fidak, onde residia uma população judaica. Este local ficou sob a custódia do Profeta Muhammad depois da vitória dos muçulmanos em Khaybar e, por isso, Ali e Fatima alegaram que esta propriedade era parte da herança da família. 

Abu Bakr disse que, pela tradição, os profetas não deixavam heranças aos seus familiares, portanto a propriedade deveria ser utilizada para o bem-estar dos necessitados, que seria o uso destinado pelo Profeta Muhammad para aquelas terras. O califa ainda pretendia destinar parte dos recursos para as despesas da família do Profeta, mas Ali e Fatima não ficaram satisfeitos com esta determinação.

Ali demorou a jurar lealdade a Abu Bakr e só o fez depois da morte de Fatima. Porém, isso não denota oposição ao califa, mas sim um distanciamento de assuntos governamentais. Naquele período, houve guerras de apostasia lideradas por pessoas que não queriam jurar lealdade ao califado por questões políticas e religiosas, mas Ali não se envolveu nesses conflitos, mesmo tendo apoio de muitos muçulmanos. Ele também elogiou Abu Bakr após seu falecimento, o que indica que eles tiveram uma relação cordial após se reconciliarem.

Eventos anteriores à posse de Ali

Após a morte de Abu Bakr, Omar Ibn al Khattab foi nomeado como sucessor e, quando ele morreu, indicou um conselho com seis pessoas que deveriam eleger o próximo califa entre aqueles que faziam parte do grupo. Ali era um dos indicados desta lista, mas Uthman foi escolhido como governante por ser mais velho e por afirmar que seguiria o legado de seus predecessores de maneira irrestrita. Mais uma vez, Ali mostrou descontentamento, mas aceitou a decisão pelo bem da comunidade e jurou lealdade a Uthman.

Ali foi nomeado como chefe de justiça do califado, mas não há indícios de que ele tenha sido ativo em seu cargo. O governo de Uthman foi muito próspero economicamente e houve conquistas militares importantes neste período, mas logo que a expansão parou durante a segunda parte do seu reinado, começaram intrigas políticas e acusações de que ele era um nepotista e que ostentava riquezas públicas.

Com o passar do tempo, essas intrigas aumentaram e Uthman pediu a Ali para usar sua influência para conter as revoltas. Ali o fez, mas os revoltosos disseram exigiam a destituição do governador do Egito, que era primo de Uthman, algo que o califa não cedeu. Os rebeldes vieram de diversas partes do reino islâmico até Medina para matar Uthman, mas se aproximaram da cidade com o falso pretesto de realizar a peregrinação.

Ao se aproximarem de Medina, os rebeldes foram atrás de muçulmanos proeminentes da comunidade para tentar jurar-lhes lealdade para suceder o califado e Ali foi um dos homens consultados, mas sua conduta íntegra jamais lhe permitiria aceitar tal oferta. Os revoltosos cercaram a casa de Uthman e alguns de seus aliados lutaram para tentar protegê-lo, incluindo os filhos de Ali, Hassan e Hussain. No entanto, nada pôde evitar o assassinato brutal do califa.

Califado de Ali

Medina virou uma cidade fantasma e sem leis por alguns dias. Ninguém queria sair de casa e nenhuma pessoa quis assumir o poder sob aquelas circunstâncias. Havia um clamor grande para que Ali assumisse o poder, mas ele só se propôs a fazer isso mediante uma eleição. Antes de retornarem, os rebeldes continuaram em Medina e prestaram apoio a Ali, que acabou sendo escolhido como califa.

Os rebeldes desestabilizaram o poder político em Medina e continuavam representando uma ameaça; eles apoiaram a subida de Ali ao poder e poderiam tirá-lo, se quisessem. O novo califa precisou de prudência para lidar com a situação e decidiu consolidar novamente o poder do califado antes de punir qualquer culpado pela morte de Uthman. No entanto, o clã do governante assassinado não quis prestar o juramento de lealdade enquanto os rebeldes não fossem punidos.

A Primeira Fitna 

O governador da Síria, Muawiyah, era do clã Umayyad, o mesmo do qual Uthman pertencia. Ele se aproveitou da fragilidade do califado para tentar obter mais poder e iniciou uma campanha difamatória contra Ali, apontando-o como cúmplice da morte do ex-califa. Por ser um homem influente, Muawiyah conseguiu um apoio expressivo, mobilizando toda a região em torno de sua causa.

Visando ganhos políticos, dois companheiros do Profeta Muhammad, Talha e Zubair, haviam jurado lealdade a Ali, mas o desertaram, causando profundo desgosto no califa. Outra pessoa que não demonstrou simpatia à eleição de Ali foi a viúva do Mensageiro de Allah, Aisha. Ela também se revoltou contra o califa por causa da morte de Uthman e mobilizou tropas em Meca para lutar contra ele.

A Batalha do Camelo

Aisha, Talha e Zubair lideraram um exército até Basra, onde reuniriam apoio para combater Ali. Eles conquistaram a cidade após várias batalhas que resultaram na morte de muitos responsáveis pelo assassinato de Uthman. Esta vitória era uma ameaça à soberania do califado e Ali precisou agir para conter a revolta. Ele saiu de Medina com um pequeno exército mas, ao passar pela cidade de Kufa, conseguiu mobilizar muitas tropas, aumentando bastante suas forças.

Ali marchou em direção à Basra e tentou propor paz a Aisha, Talha e Zubair antes de adotar qualquer medida. Durante as negociações, convenceu os três opositores de que suas atitudes haviam prejudicado não só a comunidade islâmica, mas a própria investigação do crime contra Uthman e, por causa disso, eles se arrependeram de suas atitudes e se propuseram a fazer um acordo de paz no dia seguinte.

Porém, entre os homens de Kufa que estavam no exército de Ali, havia algumas pessoas que participaram da revolta contra Uthman e, ao saberem que um acordo de paz seria assinado, perceberam que o califa se juntaria a Aisha, Talha e Zubair para fazer os culpados pagarem por seu crime. Os assassinos, então, decidiram lançar um ataque surpresa contra o exército de Basra, iniciando uma guerra violenta que causou a primeira grande divisão da comunidade islâmica.

Nesta batalha, Talha e Zubair foram mortos. Ali saiu vitorioso, mas não houve nada a ser comemorado. Ele ficou profundamente triste com o resultado daquele conflito, decretando luto de três dias e proibindo a pilhagem da cidade, o que desagradou seus aliados. Aisha foi tratada com respeito pelo califa, que pediu que ela fosse escoltada de volta até Medina e, antes de partir, ela lhe pediu perdão. Ali e Aisha separaram-se como amigos.

Mudança da capital para Kufa

Como recompensa pela ajuda que recebeu, Ali transferiu a capital do califado para Kufa. Esta medida não foi um simples agradecimento; também livraria a santa cidade de Medina da agitação política e evitaria outras desgraças em solo sagrado, como foi a morte de Uthman.

Guerra contra a Síria

Ali tentou negociar com Muawiyah para evitar uma nova guerra, mas o governador o tratou de forma leviana, dizendo através de cartas que não se submeteria ao seu poder e que desejava separar a Síria do restante do califado, o que iria contra os princípios islâmicos. Ali não teve outra escolha senão marchar até a terra de seu oponente para combatê-lo.

Na Síria, a guerra foi estabelecida e o combate durou uma semana. Ao final da batalha, o exército de Ali estava em vantagem e a vitória parecia certa, mas o exército de Muawiyah colocou versos do Alcorão espetados nas pontas das lanças e pediu para que a guerra fosse decidida pela arbitragem ao invés de um duelo. Ali queria continuar lutando, mas seu exército não aguentava mais lutar e os assassinos de Uthman ameaçaram o califa, se insistisse em duelar. 

Uma arbitragem foi montada com os representantes do califa e do governador da Síria, e deveria tomar uma decisão; quem vencesse governaria sobre as terras do derrotado. Durante as negociações, o partidário de Ali, Abu Musa, disse que de acordo com a lei islâmica, os dois deveriam se retirar da disputa e o povo escolheria o vencedor. O representante de Muawiyah, Amr bin al Aas concordou. No entanto, quando Abu Musa pediu a deposição de Ali, Amr observou que Muawiyah ainda estava na disputa e, portanto, deveria ser considerado o grande vitorioso.

Ali foi deposto por uma trapaça e convocou seu exército em Kufa a lutar novamente na Síria, mas alguns de seus homens afirmaram que ter aceitado a arbitragem foi um grande pecado que o califa cometeu, pois foram os homens que escolheram o vencedor da batalha, ao invés de Deus. Então, eles desertaram e marcharam para a cidade de Nahrawan. Ali desistiu de lutar contra Muawiyah e foi atrás de seus traidores. Venceu-os facilmente devido à sua grande vantagem numérica. Este grupo ficou conhecido como Kharijitas.

Morte

Depois da trapaça para tentar lhe tirar do poder, Ali perdeu ainda mais prestígio. As pessoas não queriam mais lutar devido às inúmeras mortes que a guerra estava causando e por não obterem ganhos por estar ao lado do califa. Ele nunca conseguiu reunir apoio para marchar até a Síria novamente e precisou combater os avanços das tropas de Muawiyah até o fim de sua vida. Ali também perdeu o território do Egito e nunca mais o conquistou novamente.

O califa também teve que lidar com o descontentamento de seu povo, que aumentava cada vez mais. Os sobreviventes dos Kharijitas, agora ainda mais revoltados, decidiram acabar com Ali, Muawiyah e Amr ibn Aas. Mas, ironicamente, os dois últimos conseguiram escapar ilesos das tentativas de assassinato sofridas.

Ali nunca teve medo de morrer. Sempre que cedeu à pressão dos seus traidores, o fez para proteger a comunidade islâmica, e não sua própria vida. Embora sua figura tenha se tornado motivo de divisão entre os muçulmanos, ele talvez tenha sido, ironicamente, o muçulmano que mais se esforçou pela união dos crentes após a morte do Profeta Muhammad. 

Na manhã de sexta-feira, no dia 7 de Ramadan, Ali orava sozinho na mesquita em Kufa quando foi golpeado com uma espada envenenada em sua cabeça, ferindo-o mortalmente. Seu assassino Abdur Rahman bin Muljam al Sarimi foi descoberto e morto três dias depois pelo filho de Ali, Hassan. Deus levou de volta para si um de Seus maiores santos em um dos dias mais sagrados que Ele estabeleceu.

Conclusão

Ali era primo do Profeta Muhammad e foi cuidado por ele desde a infância. Foi um dos primeiros a acreditar na missão profética do Mensageiro de Allah e, desde cedo, considerava-o como um mestre. Por causa disso, Ali tornou-se um dos muçulmanos mais sábios de toda história e uma figura muito importante para a divulgação da religião, ajudando a transcrever o Alcorão e lutando em todas as batalhas contra os idólatras.

Ele se casou com Fatima, filha de Muhammad, e juntos estabeleceram a linhagem do Profeta viva até hoje. Após a morte do Mensageiro de Deus, ele se tornou o quarto califa a sucedê-lo, porém, sua eleição em meio a turbulências levou muitas pessoas a questionarem a legitimidade de seu governo.

Ali foi acusado injustamente de ser cúmplice da morte do califa Uthman e precisou enfrentar diversas revoltas que se instalaram no califado. Ele venceu a maioria dos duelos, mas teve que lidar com a dor de ver a comunidade islâmica se dividir, algo que ele tentou evitar até os últimos dias de sua vida.

Ele morreu assassinado por um membro de uma seita radical que se rebelou contra o seu governo e faleceu em um dos dias mais sagrados do calendário islâmico, sendo considerado um mártir da religião.

Fonte

-LINGS, Martin. Muhammad – a vida do Profeta do Islam segundo as fontes mais antigas. São Paulo: Attar Editorial, 2010

-HASAN, Professor Masud-ul. Hadrat Abu Bakr, Umar, Usman, Ali (ra). Lahore: Islamic Publications, 1982.

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