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Hégira: A migração do Profeta Muhammad para Medina

A Hégira é o marco inicial do calendário islâmico, e também é um ponto fundamental no surgimento da primeira nação islâmica da história.
  • A migração dos muçulmanos de Meca para Medina foi fruto de uma forte opressão vivida nas mãos dos pagãos da tribo coraixita.
  • Durante muito tempo, companheiros do Profeta Muhammad eram torturados e mortos por aderirem ao Islam.
  • Em Medina, os muçulmanos inauguraram a primeira sociedade islâmica, baseada nas leis do Alcorão e na liderança de Muhammad.
  • A Hégira é o marco inicial do calendário islâmico.

A Hégira é o evento da história islâmica que marca a migração dos muçulmanos de Meca para Medina. Esta mudança é de enorme importância para a religião, pois foi a partir daí que o Profeta Muhammad e seus seguidores puderam se estruturar como sociedade e se livrar de uma vez por todas da opressão sofrida na mão dos idólatras.

A migração é algo tão importante na história islâmica que o Alcorão está dividido entre os capítulos revelados em Meca e em Medina. Além disso, o marco inicial do calendário islâmico é a própria Hégira, que ocorreu no ano 622 da era cristã.

Este capítulo da história islâmica marca um contraste muito grande entre a realidade de cada uma das cidades. Em Meca, a fé em Allah foi o que manteve os muçulmanos firmes diante da opressão praticada pela mãos da tribo pagã dos coraixitas. Já em Medina, uma nação poderosa e harmoniosa surgiu através da liderança do Profeta Muhammad, o que ensina aos fiéis como serem humildes quando forem perseguidos e como serem justos estando no poder.

Histórico de opressão

As primeiras revelações do Alcorão foram o suficiente para causar indignação entre os pagãos coraixitas. Acreditar no Deus Único e renunciar às falsas divindades, como é defendido pelo Islam, era algo que abalava a tradição ancestral de Meca, que naquele período tinha um vínculo muito forte com a idolatria e o politeísmo.

Além disso, a peregrinação em Meca começou a sofrer abalos quando os muçulmanos começaram a pregar a Palavra de Deus entre os viajantes. Os coraixitas eram responsáveis por organizarem as visitas à Caaba e a maior parte do lucro que eles tinham estava ligada à esta atividade. 

A mensagem do Islam, contra as crenças politeístas, começou a causar enorme revolta entre os pagãos. Eles tentaram subornar o Profeta Muhammad com riquezas, mas ele não aceitou abrir mão de sua missão. Para vencer a nova religião, os coraixitas tentaram encontrar uma solução nas retaliações. 

À medida em que a tensão entre muçulmanos e pagãos crescia, muitos companheiros do Profeta, especialmente aqueles que não tinham alto status na sociedade de Meca (como ex escravos ou pessoas pobres), eram forçados a abandonar a sua fé. Muitos deles foram torturados e assassinados de maneira cruel. Viver em Meca se tornou algo perigoso, e sair de lá se tornou cada vez mais necessário. 

A fuga para Abissínia

O primeiro refúgio buscado pelos muçulmanos foi no ano de 615, em uma nação apontada pelo próprio Profeta Muhammad. Na Abissínia, onde hoje está localizada a Etiópia, havia o Negus, um rei cristão muito justo, com o qual eles tinham esperança em poder contar.

Negus recebeu muitos muçulmanos em seu país, o que atiçou os pagãos de Meca mais uma vez. Dois homens coraixitas, Amr ibn al As e Abdullah bin Rabiah, tentaram convencer o rei a entregar os muçulmanos aos mequenses, alegando que aquilo era um assunto interno de seu povo.

No entanto, Negus deu voz aos muçulmanos, que puderam explicar a real situação, sobre como Muhammad havia livrado-os da idolatria e também falaram a respeito da opressão que vinham sofrendo.

Passagem do filme A Mensagem onde Negus recebe os muçulmanos.

Ao ouvir a história dos muçulmanos, o rei pediu a Jafar ibn Abu Talib, um dos seguidores do Profeta, que recitasse um dos versos do Alcorão. Ele mostrou uma passagem da Sura Mariam e, ao ouvir aquilo, Negus teve certeza de que aquelas palavras vinham da mesma fonte da Mensagem entregue por Jesus. Depois disso, os coraixitas tentaram uma outra investida, mas novamente sem nenhum sucesso.

Muitos muçulmanos começaram a voltar para Meca no ano seguinte sob a falsa promessa de que haveria uma trégua, no entanto, a perseguição ao Islam persistiu. Embora a religião tenha sido semeada na Abissínia, a sociedade islâmica não vingou naquele instante.

Eventos antes da Hégira

Meca Antiga
Simulação de Meca no passado. (Foto: islom.uz)

Após o retorno dos muçulmanos para Meca, os coraixitas impuseram um boicote à tribo dos hashemitas, da qual o Profeta fazia parte, o que duraria por três anos. Nenhum homem deveria se casar ou oferecer suas mulheres em casamento a alguém do clã do Mensageiro de Deus. Eles também se recusaram a comprar ou vender qualquer coisa a alguém que fizesse parte daquele grupo.

Além do enorme impacto social que isso causou na comunidade islâmica, muitas pessoas começaram a passar fome e dificuldades financeiras. Em 619, a situação se agravou quando Khadija, a esposa de Muhammad, morreu algum tempo depois do boicote e, em seguida, outro grande apoiador do Profeta viria a falecer – seu tio Abu Talib.

Abu Talib era o líder dos hashemitas e oferecia ao Profeta a proteção de sua tribo. Após sua morte, um grande inimigo do Mensageiro de Deus assumiu o controle do clã, um homem conhecido como Abu Lahab. Ele retirou o apoio que era concedido a Muhammad, deixando-o à própria sorte.

Mais uma vez, os muçulmanos precisavam sair de Meca e, para isso, o Profeta foi até a cidade de Taif pedir abrigo para aos líderes daquele povo. Porém, a resposta foi extremamente humilhante e dolorosa. Os líderes de Taif disseram às crianças e escravos que apedrejassem o Mensageiro de Deus, que precisou fugir dali rapidamente. 

A fuga para Medina

Em 620, Muhammad conheceu alguns homens da tribo Khazraj da cidade de Medina, que naquela época ainda era chamada de Yathrib. Eles ficaram encantados com as palavras da Revelação e se converteram ao Islam. No ano seguinte, eles viram o Profeta novamente ao visitarem Meca durante a peregrinação, mas dessa vez vieram em maior número para poderem jurar lealdade ao Mensageiro de Deus.

Em 622, os homens voltaram a Meca com uma grande delegação formada por homens das tribos Khazraj e Aws, que também residiam em Yathrib. Eles reafirmaram sua lealdade a Muhammad e pediram-lhe que ele e os seus seguidores o acompanhassem até sua terra, e ficassem por lá.

Em Yathrib, as tribos eram divididas entre judeus e idólatras, e viviam em constante conflito. A delegação que visitou Meca tinha esperança que o caráter conciliador do Profeta seria o que eles precisavam para conseguir estabelecer a paz entre aqueles clãs. 

Aquela era a oportunidade que o Mensageiro de Deus esperava para poder salvar os muçulmanos de Meca da opressão dos coraixitas. Ele incentivou que os seus companheiros fugissem para Yathrib e, em poucas semanas, a maioria dos muçulmanos haviam ido para a nova cidade.

A migração do Profeta

Medina antiga
Representação da antiga Medina (Foto: Reprodução)

Invisibilidade

Quando os muçulmanos foram para Yathrib, os únicos que ainda restavam em Meca eram o Profeta Muhammad, Abu Bakr e Ali ibn Abu Talib. Naquela altura, os coraixitas haviam bolado um plano para matar o Mensageiro de Deus de uma forma que ninguém poderia ser responsabilizado pelo crime.

Um inimigo do Islam, chamado Abu Jahl, fez com que cada clã que desejasse matar o Profeta enviasse um de seus guerreiros para executá-lo. A ideia era que os membros de cada um desses grupos atacassem juntos – dessa forma, ninguém precisaria pagar pelo sangue derramado.

Foi então que o Anjo Gabriel disse ao Profeta que Allah havia lhe dado permissão para ir para Yathrib. Muhammad deu seu manto a Ali e pediu-lhe para que ficasse deitado em sua cama, garantindo que nada iria lhe acontecer. Quando os inimigos já cercavam a casa, o Mensageiro de Deus recitou versos da Sura Ya Sin do Alcorão e ficou invisível aos olhos dos perseguidores. 

Muhammad e Abu Bakr saíram da casa e passaram entre os seus inimigos, mas não foram vistos. Quando suspeitaram que o Profeta pudesse não estar ali, os pagãos invadiram sua casa e, ao verem quem estava na cama era o jovem Ali, ficaram furiosos.

O milagre da caverna

Os inimigos do Profeta fixaram uma recompensa de 100 camelos por sua cabeça e, por causa disto, muitas pessoas estavam à sua procura. Ele precisou se esconder na Caverna de Thawr junto com Abu Bakr, e lá eles permaneceram por três dias. No esconderijo, escutaram vozes se aproximando da caverna mas, de repente, elas se afastaram. 

Depois, quando já estavam seguros, Muhammad e Abu Bakr foram até a entrada da caverna e viram que ali havia uma teia de aranha ao lado de um ninho de pombo com ovos. 

Os homens que estavam a procura do Mensageiro de Deus achavam que seria impossível que alguém entrasse na caverna sem que o ninho e a teia tivessem sido violados e, por isto decidiram ir embora. 

A chegada em Quba

Ao despistarem o inimigo, o Profeta e seu leal companheiro conseguiram chegar ao seu destino, mais precisamente em Quba, nos arredores de Yathrib. Ali eles permaneceram por algum tempo antes de adentrar de fato na cidade.

A chegada do Profeta foi celebrada com imensa alegria, sendo festejada pelos muçulmanos, que o esperavam ansiosamente. Imediatamente, ele ordenou que os seus companheiros de Yathrib deveriam abrigar e ajudar financeiramente aqueles que vieram de Meca a se estabelecerem na cidade, algo que foi fundamental para evitar a propagação da miséria na comunidade islâmica.

Em Quba, também foi construída a Mesquita de Quba, a primeira da história da religião. O nascimento da sociedade islâmica levou os muçulmanos a estabelecerem um tratado de paz com as outras tribos de Yathrib, garantindo que os clãs se ajudariam no combate aos inimigos invasores e também manteriam a liberdade religiosa.

Importância da Hégira

Medina atualmente
Medina atualmente (Foto: Wikipedia)

A chegada do Profeta em Quba, no ano 622 da era cristã, marca o fim da Hégira. Aos poucos, a cidade de Yathrib começou a ser reconhecida como “Medina an Nabi” que, em português, significa “A Cidade do Profeta”. Atualmente, o local é chamado apenas de Medina e, embora já não tenha mais a mesma importância política, continua sendo muito importante para a história e para a religião islâmica.

Sete anos após a morte do Mensageiro de Deus, seu companheiro, o Califa Omar, estabeleceu que este acontecimento daria início ao calendário islâmico. Assim, a Hégira inaugura uma nova era, na qual uma nação islâmica nasceria e cresceria para pôr fim ao período da ignorância na Arábia, onde antes reinavam o tribalismo e o politeísmo. 

Na história dos profetas, este evento possui semelhança com a fuga dos Filhos de Israel do Egito, no qual o Profeta Moisés conduziu seu povo para a terra que Deus havia prometido a eles. Nesses dois exemplos, Deus enviou um mensageiro para conduzir seus adoradores para longe das nações idólatras que os oprimiam, para estabelecer um reino que estivesse de acordo com a Lei Divina.

O governo nobre do Profeta e as revelações do Alcorão daquele período revelaram detalhes importantes aos muçulmanos, como: quais leis devem deveriam reger a comunidade, como deveria ser sua relação com outros povos e como deveria ser a conduta dos muçulmanos.

Conclusão

A Hégira foi a migração dos muçulmanos de Meca para Medina. A fuga foi necessária, já que os muçulmanos passaram anos sofrendo com a opressão da tribo pagã dos coraixitas, sendo que, inclusive, alguns foram torturados e mortos. Os inimigos do Islam não aceitavam a nova religião porque ela condenava as práticas politeístas, o que afetava a tradição e o comércio dos mequenses.

A primeira tentativa dos muçulmanos foi de se estabelecerem na Abissínia, onde havia um rei cristão que os recebeu e os abrigou por cerca de um ano. Mas alguns os seguidores do Profeta acabaram voltando para Meca após serem enganados por uma falsa trégua proposta pelos coraixitas.

Novamente em Meca, os pagãos continuaram perseguindo os muçulmanos, desta vez com boicotes e perseguições feitas diretamente contra o Profeta Muhammad.

A salvação veio quando homens de Yathrib começaram a se converter ao Islam, tornando a religião numerosa em pouco tempo naquele lugar. Estes novos fiéis juraram fidelidade e proteção ao Profeta Muhammad.

Os novos fiéis pediram ao Mensageiro de Deus que fosse para Yathrib junto com os demais seguidores de Meca, e ele autorizou que isso fosse feito. 

Quando todos os muçulmanos já haviam fugido, o Profeta e seu companheiro Abu Bakr também migraram para a nova cidade. Lá foi estabelecida a primeira nação islâmica, com leis, costumes e templos sustentados pelas revelações do Alcorão e pela liderança de Muhammad.

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