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Islamismo na Índia: Uma Minoria Marcante

A contribuição da cultura islâmica na Índia tem sido profunda e vasta, influenciando os estilos arquitetônicos, música e até a produção de joias.
  • Os muçulmanos foram os primeiros governantes estrangeiros com uma crença tão forte quanto a hindu a se estabelecerem na Índia
  • Os séculos de dominação dos governantes muçulmanos no território indiano resultaram em enriquecimento artístico/cultural para a região
  • A influência islâmica na cultura indiana não é vista apenas na arquitetura, mas também na música, jardinagem e manufatura de jóias

O islamismo está estabelecido na Índia desde, pelo menos, o ano 629. Normalmente, reconhece-se que a primeira mesquita do país, a Cheraman Juma Masjid, em Kerala, foi construída nesse período. De acordo com a história das tradições islâmicas, a mesquita foi feita por Cheraman Perumal Bhaskara Ravi Varma, que é identificado como o primeiro muçulmano a chegar na Índia.

Conta-se, ainda, que a inserção e difusão do islamismo no país aconteceu graças à abertura comercial já existente entre os árabes e indianos. Com a conversão dos árabes ao islamismo, o trânsito, que era apenas comercial, passou a ter contornos também de expansão religiosa e cultural. O resultado dessa expansão pode ser sentido até hoje na Índia.

Contabiliza-se que, atualmente, o islamismo é a segunda religião com mais adeptos no país (cerca de 14%), atrás apenas do hinduísmo (cerca de 80%). Sobre esse assunto, a historiadora Romila Thapar deu sua contribuição: ela diz que, na Índia, não há só uma cultura nacional, mas, sim, duas culturas nacionais, a hindu e a muçulmana.

Nesse contexto, vale salientar que a Índia é um país multicultural e a abarca outras diferentes religiões em seu território: o cristianismo (2,3%), sikhismo (1,9%), budismo (0,8%) e jainismo (0,8%). Diante dessas estimativas, é possível notar o destaque e a força que o islamismo desempenha no território indiano.

População Muçulmana na Índia
População muçulmana da Índia é uma das maiores do mundo e segunda maior no país. Fonte: Pew Research

Como toda longa e intensa relação, esta também resguarda suas questões sensíveis. Mas, há também muitas razões para celebrar. A profunda influência muçulmana na cultura indiana é uma dessas razões e merece destaque. Da gastronomia, passando pela arquitetura, literatura e artes, todas essas áreas receberam as contribuições do islamismo ao longo dos anos e tiveram resultados que têm marcado a história mundial.

Duas Culturas Inseparáveis

A primeira vez que os muçulmanos invadiram a Índia, sob o comando de Muhammad Bin Kasim, foi na chamada invasão árabe de Sindh, em 712. Esse marco histórico é importante para compreender o entrelaçamento da cultura islâmica com a indiana. O motivo é simples: depois desse momento, os muçulmanos passaram a ter supremacia política sobre a Índia e governaram o território por cinco séculos.

Antes desse período, a Índia havia sido invadida e controlada por governantes de outras nacionalidades e credos. Mas, embora esses governantes conseguissem administrar o país politicamente, eles logo eram influenciados pelos elementos socioculturais hinduístas.

Ou seja, como esses estrangeiros não tinham um sistema religioso claramente definido ou forte o bastante, quando chegaram à Índia, eles costumavam abraçar com certa facilidade os ideais espirituais do país. Por isso, a dominação islâmica foi um divisor de águas para o território indiano: pela primeira vez, os novos governantes tinham um credo tão forte quanto o credo local.

Homem Muçulmano Rezando na Índia
A força da fé muçulmana é um dos grandes motivos para a sua expansão na Índia. Foto: Getty Images

Pela primeira vez, então, chegavam ao país governantes com uma fé religiosa de pleno direito, com uma linguagem específica e consolidada, suas próprias leis, costumes e sua ideia própria de organização estatal. Na Índia, portanto, o Islam permaneceu – e permanece, até hoje – como uma alternativa forte ao hinduísmo.

A noção de que poderia ser possível a absorção do Islamismo pelo hinduísmo, na Índia, tornou-se bastante improvável. Isso é sentido até hoje: e não apenas do ponto de vista da religião, mas da cultura do país como um todo.

Desde esse entrelaçamento religioso e cultural, é possível falar a respeito da importância do islamismo na paisagem da Índia (e fala-se em “paisagem” não apenas física, mas também subjetiva, cultural). Para ilustrar essas culturas inseparáveis, então, vamos começar tratando de um componente cultural que se destaca visualmente na Índia: a arquitetura.

Mesquita Taj Ul na Índia
Detalhe da Mesquita Taj-ul-Masjid, a maior da Índia, e uma das maiores da Ásia, localizada em Bhopal. Fonte: Wikipedia

De fato, as principais obras arquitetônicas de um país são responsáveis por construir uma parte da identidade nacional. Elas não apenas demarcam espaços, mas também deixam transparecer inúmeras características de um povo (o que eles valorizam, o que gostam de enaltecer, ou seja, seus modos de organização mental e espacial). Com a influência islâmica na arquitetura indiana não seria diferente, como veremos em detalhes adiante, pontuando algumas das principais referências deixadas pelos governantes muçulmanos no país.

Principais Traços da Influência Islâmica na Arquitetura Indiana

A contribuição da cultura muçulmana para a arquitetura da Índia é notável. Os governantes muçulmanos da Índia eram grandes patronos da arte. Então, eles trouxeram impressões significativas do estilo de arte islâmico para a sociedade indiana.

Novos projetos e novos modos de construção, como cúpulas esféricas, arcos, minaretes altos, pátios abertos e cavernas com colunas, foram introduzidos em criações arquitetônicas seguindo o estilo islâmico. No entanto, vale salientar que essas mudanças foram realizadas por artesãos hindus. Como resultado, ocorreu uma fusão de estilos, unindo a arte hindu com a muçulmana. A partir dessa interação, um novo estilo de arte evoluiu gradualmente.

Padrão Geométrico na Arquitetura Indiana
Detalhe dos padrões geométricos islâmicos encontrados na tumba de Salim Chishti. Foto: Wikipedia

A arquitetura indiana foi se transformando ao longo dos séculos, recebendo influências diretas e indiretas da cultura islâmica. De forma geral, apontam-se quatro principais diferenças entre a arquitetura indiana e a islâmica, que foram se desenvolvendo na Índia:

1) O estilo indiano de arquitetura se desenvolveu, com o passar dos anos, em diferentes partes e regiões do país. Enquanto isso, o estilo de arquitetura islâmica na Índia se desenvolveu após a consolidação da presença muçulmana na região, e foi influenciada pelas arquiteturas romana, bizantina, persa e mesopotâmica.

2) O estilo indiano é conhecido como “trabeato”. Essa ordem de arquitetura era utilizada pelos hindus, desde a Antiguidade. O estilo foi usado nos templos hindus. Já o estilo islâmico é chamado de “Mihrab”, em referência ao design do lugar na mesquita que aponta para a Caaba, em Meca.

3) Na arquitetura indiana tradicional, os templos são decorados com imagens de seres vivos. Já na arquitetura da Índia sob influência islâmica, por ser proibida a representação de seres vivos no Islam, os templos são ornamentados com caligrafia e desenhos geométricos.

4) O estilo indiano utiliza elementos horizontais e verticais unidos por suportes ornamentados. No estilo arquitetônico islâmico os espaços vazios são preenchidos com o Mihrab, com arcos, abóbadas e cúpulas.

O Taj Mahal: Uma das Grandes Obras de Influência Islâmica na Índia

Seria impossível falar sobre a influência do estilo arquitetônico muçulmano na Índia, e não mencionar o Taj Mahal. Essa é uma das obras mais conhecidas do mundo e também representa muitos dos conceitos culturais que estão presentes na cultura islâmica.

Taj Mahal, na Índia
O Taj Mahal é um dos patrimônios mundiais da UNESCO. Fonte: Wikipedia

O primeiro deles diz respeito ao tipo de construção. Os muçulmanos introduziram na Índia diversos tipos de construção, e o mausoléu foi um deles. A estrutura de um mausoléu pode ser resumida como sendo uma forma octogonal, que é construída para acomodar o túmulo de um homem ou mulher importante. Essa prática de construir mausoléus foi disseminada pelos seljúcidas, durante os séculos 11 e 12.

O Taj Mahal, essa construção gigantesca e icônica, foi feita em memória da esposa favorita de Shah Jahan, Mumtaz Mahal, que morreu prematuramente em 1631. Uma das histórias mais disseminadas sobre esse luto costuma dizer que o imperador chorou tanto, que seus olhos estavam inchados e ele teve que usar óculos para escondê-los. E, ainda, diz que sua dor era tão grande que seu cabelo ficou branco apenas alguns dias após a morte de sua esposa.

Portão de Acesso ao Taj Mahal
O Taj Mahal é um mausoléu e este tipo de construção é de influência islâmica. Fonte: Wikipedia

Mas Shah Jahan não foi apenas importante porque construiu essa obra. Ele veio de uma linhagem que já tinha marcado a cultura indiana, de diferentes maneiras. Ele era neto de Akbar (1542-1605) e filho de Jahangir (1605-1627), figuras que fizeram parte de um período conhecido como Idade de Ouro da Arquitetura Muçulmana na Índia.

Conhecidos por sua realização cultural, esses governantes, pai, filho e neto, promoveram grandes projetos de construção, exibindo as riquezas do império e a relativa paz e estabilidade que foram trazidas sob seu reinado. O rei Akbar, por exemplo, é conhecido por montar uma escola de pintura, a primeira do gênero no mundo islâmico, produzindo muitas das melhores pinturas muçulmanas.

Do ponto de vista arquitetônico, geralmente, diz-se que o plano do Taj Mahal é inspirado no mausoléu de Humayun, que foi construído para Sayid Muhammed (1562-71), por seu filho. Isso é dito porque muitos dos recursos encontrados no Taj Mahal estão presentes no Humayun, que é de construção anterior. Um desses recursos é a construção do mausoléu em uma plataforma alta, de uma maneira que é considerada análoga a um trono (takht).

Além disso, o mausoléu é precedido por um grande jardim, que é dividido em quatro seções quadradas e simétricas. Cada uma dessas seções é separada por dois canais de água, feitos em mármore, que são equipados com fontes e alinhados com ciprestes.

As Mesquitas Indianas Impressionam Pelo Número e Beleza

Falar sobre mesquitas na Índia leva, invariavelmente, a duas discussões principais: a primeira, diz respeito à quantidade dessas construções que existem no país; a segunda, remete à exuberância e opulência desses lugares.

É comum que se diga que a Índia abriga a maior quantidade de mesquitas do mundo. Lá, diz-se haver mais mesquitas do que em qualquer outro país do mundo, incluindo-se nessa contagem os países do chamado “Mundo Islâmico” (tratando-se no sentido geopolítico, que significa o conjunto de países que têm sua população de maioria muçulmana).

Embora não se tenha dimensão do número oficial de mesquitas no país – alguns dizem que chegam a 300 mil – o fato é que o número é alto. E não é à toa que isso ocorre: o número de mesquitas acompanha o crescimento visível do islamismo no território indiano. Estima-se que, até 2050, a Índia chegue a ter a maior população muçulmana do mundo.

E não é só a quantidade que impressiona. Algumas das mesquitas mais belas e famosas do mundo estão na Índia, o que reforça a influência da arquitetura islâmica no país. Uma das mais destacadas é também mais uma obra de Shah Jahan: a Jama Masjid. Construída entre 1644 e 1656, a mesquita tem três enormes portões de entrada, que são os mesmos de sua época de construção. A estrutura é composta de arenito vermelho e mármore branco.

Mesquita Nova Deli Jama
A Mesquita Jama Masjid é uma das mais famosas da Índia. Fonte: Wikipedia

Outra Mesquita muito visitada no país é Mecca Masjid, conhecida por ser uma das mais antigas da Índia, localizada em Hyderabad. Ela também é uma das maiores, construída perto de pontos turísticos, como Chowmahalla Palace, Laad Bazaar e Charminar.

Mecca Masjid na Índia
A exuberância da Mesquita Mecca Masjid, uma das mais antigas da Índia. Foto: Wikipedia

Outras Artes Influenciadas Pela Cultura Islâmica: A Música

O impacto islâmico também foi sentido profundamente também em outro terreno da arte: o da música. Os governantes muçulmanos eram grandes amantes da música. Por isso, eles incentivaram o crescimento da música e dos músicos no país. Durante esse período, a música islâmica entrou em contato próximo com a música clássica indiana. A partir desta fusão, surgiram vários novos instrumentos musicais, como o rabab e  a tabla.

Ustad Zakir Hussain Tocando Tabla
Tabla, instrumento indiano que tem sua origem ligada a influências muçulmanas. Fonte: Wikipedia

Entre os patrocinadores regionais da música, pode-se citar o sultão Hussain Sharqi, de Jaunpur, e Raja Mansingh, de Gwallior. Com o incentivo tão intenso de governantes hindus e muçulmanos, muitas mudanças foram introduzidas nas tradicionais ragas e raginis (melodias) indianas, justamente para atender à demanda do novo público, mesclado e multicultural.

O Estímulo e o Amor Pela Jardinagem: Mais Uma Influência Islâmica na Índia

O impacto da cultura islâmica também se fez presente na criação de jardins públicos e da realeza da Índia. A arte da jardinagem alcançou a perfeição durante o tempo dos mogóis, que tinham muito gosto por essa atividade.

Jardim do Taj Mahal
Jardim do Taj Mahal, um dos mais famosos da Índia. Foto: Wikipedia

Antes da chegada dos mogóis, o conceito de jardinagem, como uma forma de linha artística, ainda não havia surgido. Os mogóis não eram apenas amantes da natureza, mas também possuíam o senso estético apurado e utilizavam o cuidado com a terra e as plantas para aliviar as tensões do dia a dia. Com o devido incentivo dos governantes, a atividade sistemática de jardinagem, com técnicas e desenhos específicos, começou a se desenvolver na Índia.

Outras Belezas da Cultura Islâmica na Sociedade Indiana

Sob a influência islâmica, vários outros ramos das artes também se desenvolveram na Índia. Muitas novas artes e ofícios de origem islâmica começaram a surgir no cenário cultural indiano. A arte de fazer jóias com pérolas e outras pedras preciosas foi uma delas. O famoso “Trono do pavão”, de Shah Jahan, feito com diamantes, esmeraldas, rubis e pérolas, é uma obra-prima lendária do período mogol e representa bem esse período.

Trono do Pavão
Pintura que acredita-se se tratar do famoso “Trono do Pavão”, envolto por jóias. Foto: Wikipedia

Além disso, trabalhos em pedras, mármores, metais, marfim, pinturas de esmalte, fabricação de papel, desenhos florais e outros desenhos coloridos em paredes e vidraças foram o resultado de influências islâmicas no país. A arte da caligrafia, tecelagem e tingimento também se desenvolveu durante a era Mogol. Com essas técnicas inovadoras, brocados de seda, tapetes magníficos, roupas de musselina e xales começaram a ser muito populares.

Conclusões

Como bem pontua Romila Thapar, em seu livro sobre as culturas nacionais indiana e islâmica: tratar as culturas hindu e a muçulmana como separadas não só é historicamente inviável, mas não faz sentido também em termos culturais. Atualmente, na Índia, são ambos os monumentos – os hindus e os islâmicos – que dominam a paisagem local. Por isso, para ela, é justamente da interação entre esses dois elementos que vemos tanta autenticidade na cultura da Índia.

Sabemos que a cultura se manifesta de diferentes maneiras. E, da mesma forma, uma cultura é sempre um mosaico complexo e multicolorido: ela vai se transformando, agregando cada vez mais novos elementos e se adaptando às rápidas mudanças nas sociedades. Mas, uma cultura também resguarda tradições, permanências no tempo e no espaço. Por isso, destacamos algumas influências da cultura islâmica que foram percebidas ao longo dos muitos anos de relação com a sociedade indiana.

Como vimos, essas influências não estão apenas nos elementos palpáveis, como construções arquitetônica e adornos: elas também estão na dimensão das ideias. Os muçulmanos levaram para a Índia novas maneiras de construir, mas também de pensar, de se organizar, de avaliar o que é belo e de alimentar a mente com a arte.

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