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Protesto contra opressão aos Uighurs
Fonte: REUTERS/Murad Sezer

Quem São os Uighurs e Por Que Estão Sendo Perseguidos?

  • Os Uighurs são um povo de origem turcomena que vive na região de Xinjiang, no noroeste da China.
  • As diferenças culturais com as demais etnias da China motivam os ideais separatistas dos Uighurs desde o século XIX.
  • Desde 2016, o governo chinês persegue muçulmanos com o pretexto de combater o terrorismo.
  • Denúncias apontam que o governo chinês tem cometido uma série de arbitrariedades e violações dos direitos humanos.

A China tem uma história muito rica, formada por diversos povos e etnias que se uniram sob a mesma bandeira em 1949, quando o partido comunista de Mao Tse Tung tomou o poder após uma revolução armada.

Após este período, a China ficou conhecida no ocidente devido ao seu avanço econômico. Porém, também foi criticada pelas circunstâncias que possibilitaram ao país alcançar esse desenvolvimento, como a perseguição étnica e religiosa, que é uma denúncia frequentemente feita contra o governo chinês.

Recentemente, o caso dos Uighurs teve grande repercussão na mídia: os muçulmanos da região noroeste da China estão sendo acusados pelos defensores do Partido Comunista de serem “terroristas”, “extremistas” e “salafistas”, entre outros adjetivos que levam as pessoas a não se sensibilizarem pela perseguição sofrida por eles.

Quem são os Uighurs?

Os Uighurs são um povo de origem turcomena, que vivem em sua maioria na região de Xinjiang, localizado a noroeste da China. São, em sua maioria, muçulmanos sunitas.

O nome “Uighur” é uma definição usada pelo Partido Comunista da China. No entanto, as pessoas desta etnia se reconhecem como turcomenos. Apesar disso, o termo usado pelo governo chinês acabou se consolidando e é utilizado atualmente, inclusive pela comunidade internacional.

Qual a origem dos Uighurs?

Há muitas histórias sobre a origem dos Uighurs. Este tema é motivo de muita discussão entre os separatistas e o governo chinês. No entanto, boa parte das fontes indicam que os membros desta etnia surgiram na Ásia central e se espalharam por diversos cantos daquele continente. 

Alguns registros indicam que eles começaram a se estabelecer na China por volta do século VIII, através do Kanato Uighur, um império que existiu entre os séculos VIII e XIX, e que se expandiu pelo território chinês devido à aliança política e militar com a dinastia Tang, que controlava a região.

Durante o Kanato Uighur, os turcomenos se espalharam por uma região onde hoje fica a Mongólia e parte da China, Quirguistão, Rússia e Cazaquistão. Após a queda do império, muitos deles migraram para o local do atual território chinês de Xinjiang, no noroeste do país.

Naquela época, os Uighurs não seguiam o Islam. A conversão dos povos turcomenos se iniciou por volta do século X, mas somente no século XVI a população que vivia na China se tornou majoritariamente muçulmana

Contribuição para o Império da China e os ideais separatistas

Durante parte da formação do Império da China, os muçulmanos contribuíram muito para a expansão do território chinês, especialmente durante a dinastia Qing, impedindo que os invasores budistas do Kanato Dzungar dominassem os territórios da região noroeste. 

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No século XIX, ocorreu a Revolta Dungan, na China, que marcou o início dos ideais separatistas Uighurs. Neste conflito, os povos da etnia Hui, que também eram muçulmanos, se revoltaram contra a opressão da dinastia Qing e tentaram dominar várias terras, a fim de conquistar sua independência.

A princípio, os Hui contavam com o apoio das tropas de Yaqub Beg, um turcomeno da região de Kashgaria, em Xinjiang. No entanto, essa aliança foi rompida quando Yaqub descobriu que os líderes da revolta queriam conquistar a Kashgaria, que ele pretendia governar.

Yaqub-Beg
Yaqub Beg

A partir daí, Yaqub Beg começou a reprimir a Revolta Dungan e iniciou uma expedição militar para dominar vários territórios do noroeste da China. Entre os anos de 1866 e 1877, Yaqub havia dominado 20 cidades, mas após 11 anos de expansão, a dinastia Qing conseguiu reconquistar os territórios que havia perdido.

Embora tenha sido derrotado, Yaqub Beg entrou para o folclore Uighur como um conquistador que mostrou que era possível a existência de um estado turcomeno independente do Império Chinês.

Independência fracassada

No século XX, Xinjiang foi invadida por ideais pan-turcos, que defendiam que os países de origem turcomena deveriam se unir e formar uma única nação. Na primeira metade do século XX, os Uighurs conseguiram por duas vezes criar um estado independente, a República do Turquestão Oriental. 

A primeira independência foi em 1933. No entanto, logo no ano seguinte, o Império Chinês conseguiu reconquistar o território. A segunda durou entre 1944 e 1949, quando os revolucionários leais ao comunista Mao Tse Tung tomaram o controle da região e anexaram-na à República Popular da China, da qual faz parte até os dias atuais.

O separatismo Uighur na China atual

As tentativas de criar uma nação independente nunca mais saíram dos planos do povo Uighur. Por isso, eles nunca se sujeitaram ao regime chinês e sempre foram vistos como uma minoria que deveria ser desestabilizada.

No passado, o governo chinês havia tentado doutrinar as minorias religiosas do país de acordo com os preceitos do Partido Comunista, o que culminou na perseguição às atividades de grupos cristãos, budistas e muçulmanos.

Esta doutrinação fez com que uma série de atividades e estudos religiosos fossem proibidos pelo regime comunista na província de Gansu, onde os Hui são predominantes. Isto teve bastante impacto entre os muçulmanos daquela etnia que, com o tempo, passaram a praticar a sua fé de uma forma mais discreta, afastando problemas com o governo chinês.

No entanto, o desafio foi maior com os Uighures, principalmente pelo fato de que eles não eram um povo de origem chinesa e nem sequer falavam o idioma mandarim. A partir desta diferença cultural, começaram a surgir uma série de grupos separatistas, e até alguns terroristas. 

Entre os grupos separatistas, estão o World Uyghur Congress, um grupo de Uighurs exilados que propõe ativismo pacífico pela libertação de Xinjiang, e o Movimento pela Libertação do Turquestão Oriental, que foi extinto em 2003, quando o governo chinês o considerou clandestino. 

Já as iniciativas salafistas, como o Partido Islâmico do Turquestão, propõem revoltas armadas, isto é, terrorismo. Desde 1997, o grupo já assumiu a autoria de uma série de atentados na China. Além disso, acredita-se que os seus membros tenham ligação com a Al-Qaeda.

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Reação do Governo Chinês: Campos de Concentração e Estupro

A partir de 2016, o governo começou a adotar uma série de medidas para reprimir a revolta separatista. A que mais chamou atenção foi uma que o governo nomeou como “campos de reeducação”, que são locais onde os Uighurs são forçados a abrir mão de uma série princípios religiosos.

Os prisioneiros estão sendo obrigados a beber álcool, consumir carne de porco e são proibidos de deixarem a barba crescer, entre uma série de outras imposições para impedir que eles pratiquem sua fé.

Além disso, ex-detentos que conseguiram escapar desses locais denunciam a ocorrência de uma série de torturas e estupros. Atualmente, estima-se que mais de um milhão de Uighurs estejam presos. 

Campos de Reeducação para Uighurs
Campos de Reeducação para Uighurs

Do lado de fora dos campos de reeducação, chineses de outras etnias estão sendo deslocados para viver ao lado de famílias Uighurs, como forma de doutriná-los e fiscalizá-los. Mães estão sendo separadas de seus filhos, mulheres muçulmanas estão sendo obrigadas a se casar com homens de outras religiões, cidadãos comuns estão sendo vigiados por sistemas eletrônicos de monitoramento diuturnamente e até cópias do Alcorão estão sendo adulteradas pelo governo.

Objetivo não é a eliminação, mas enfraquecimento cultural

De acordo com o professor Nicholas Ross Smith, da Faculdade de Ciências Sociais de Nottingham em Ningbo, na China, a postura do governo chinês é de não eliminar os Uighurs, como os nazistas fizeram com os judeus, pois isto seria trabalhoso e faria com que os oprimidos criassem uma mentalidade de “querer lutar até morte”. 

Nicholas ainda disse que a estratégia de enfraquecer a forte cultura Uighur é uma meta a ser alcançada em longo prazo e que, além de ser eficiente para eliminar o separatismo turcomeno, ainda seria algo muito mais barato para o governo chinês.

Em seu artigo “Why China’s “Assimilation” Strategy is Doomed to Fail in Xinjiang”, ele também escreveu:

“A comunidade internacional, que tem sido bastante discreta até o momento, precisa tomar partido, mais cedo ou mais tarde, na comunicação construtiva com Pequim sobre esta questão, a fim de dissuadir alguns resultados potencialmente horríveis”. 

Quais são as táticas da propaganda chinesa?

A professora de política e relações públicas da Aston University, Ying Miao, afirmou em seu texto para a Journal of Contemporary China que o governo chinês usa uma tática de propaganda parecida com a que os políticos da extrema-direita usam para perseguir os muçulmanos no ocidente.

De acordo com ela, a mídia chinesa defende uma narrativa de que as diferenças culturais entre muçulmanos e a população local são muito grandes e, por isso, eles são uma ameaça interna que precisa ser combatida de alguma forma. Em outras palavras, ela descreveu a prática de islamofobia, que é a discriminação contra muçulmanos.

Os Uighurs que não estão se rebelando contra o governo chinês têm sido tratados como se fossem vítimas enganadas pelo Islam. Já aqueles que aderiram ao movimento, são considerados como fundamentalistas influenciados pelo extremismo árabe que precisam ser civilizados de acordo com a cultura chinesa.

Segundo esta narrativa apresentada pelo governo chinês, aqueles que são enganados pelo Islam não seguem a religião por vontade própria, mas sim por terem medo de ser excluídos da sociedade Uighur.

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Muçulmanos são vigiados constantemente em Xinjiang
Muçulmanos são vigiados constantemente em Xinjiang (Foto: AFP)

Dessa forma, o governo chinês também sustenta que o Islam praticado pelos Uighurs não é próprio da cultura local, e sim parte de um “barbarismo” árabe que prega a doutrina terrorista dos wahabitas. Desta forma, induzem os chineses a enxergarem os turcomenos como se fossem intrusos perigosos. 

Ao apresentar este argumento, o governo chinês defende que o separatismo é uma traição política e que a perseguição aos muçulmanos é algo legítimo. Eles alegam que os Uighurs são incivilizados e precisam ser reeducados.

Os veículos de mídia estão fazendo constantes alertas que mostram a etnia majoritária dos Han como um povo perseguido e cada vez mais oprimido devido à sua convivência com a cultura islâmica:

“A China é o maior consumidor de carne de porco no mundo e, ainda assim, temos voos halal e trens halal (para a população da região dos Hui) que não servem nenhuma refeição com carne de porco. Isto não é unidade étnica! Se as minorias têm uma dieta especial, eles que cuidem de si mesmos, ao invés de comprometer a maioria”, diz um dos artigos do site chinês Weibo. 

Este tipo de narrativa pretende, além de desumanizar e excluir os Uighurs, mostrar a etnia Han como se estivesse em perigo na mão de “bárbaros” e como se as autoridades chinesas estivessem falhando em protegê-la.

“Os políticos e burocratas incompetentes estão muito acostumados a apaziguar o lado daqueles que são capazes de reunir o maior número de pessoas e de fazer mais barulho, em vez de lidar com as coisas de maneira justa e transparente. Isto significa que grupos extremistas obtêm privilégios especiais e, é claro, eles continuam criando problemas”, diz outro texto analisado pela professora Ying Miao.

Conclusão

Os Uighurs são um povo de origem turcomena que vive no noroeste da China e começou a lutar pelo separatismo ainda no século XIX. Eles possuem grandes diferenças culturais com as demais etnias chinesas, como o fato de não terem o mandarim como seu principal idioma.

O separatismo Uighur consiste em uma série de ativismos diferentes. Grande parte dele é totalmente pacífico, no entanto, existem grupos terroristas que já promoveram atos violentos na região de Xinjiang.

Desde 2016, a China anunciou medidas para conter a ação dos terroristas. No entanto, as denúncias feitas pelos Uighurs, somadas às reportagens dos veículos de mídia e aos estudos feitos por intelectuais, apontam abuso de autoridade, perseguição e divulgação de informações falsas. Esses atos têm a intenção de desumanizar os muçulmanos e induzir as pessoas a associá-los a fanáticos cruéis.

A estratégia do governo chinês tem o objetivo de desestruturar a cultura Uighur, separando famílias, vigiando cidadãos comuns, inclusive em sua intimidade, através da convivência forçada com chineses de outras etnias, e mantendo pessoas presas em “campos de reeducação”, onde são forçadas a praticar atos que contradizem sua fé.

Atualmente, estima-se que cerca de um milhão de Uighurs estejam detidos em campos de reeducação. Ex-prisioneiros desses campos estão há tempos denunciando casos de estupros e tortura, no entanto, a comunidade internacional ainda não tomou nenhuma postura com relação a este assunto.

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