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Abu Bakr e Omar mataram Fatima?

O mito que Abu Bakr e Omar teriam matado Fatima não possui embasamento em nenhum relato autêntico e é repleto de inconsistências históricas.
  • Alguns xiitas afirmam que Abu Bakr e Omar seriam os autores da morte de Fatima, mas não possuem nenhuma base confiável para fazer tal afirmação.
  • Não existe nenhum hadith autêntico que descreva o evento com clareza e sem ambiguidades.
  • Tanto Ali quanto Hussein tiveram filhos com os nomes de Abu Bakr e Omar. Omar também se casou com a filha de Ali.
  • Fatima morreu de causas naturais e, após falecer, Omar nomeou Ali como um de seus possíveis sucessores.

Omar Ibn al-Khattab e Abu Bakr são, para o Islam sunita, dois dos grandes discípulos do Profeta Muhammad, respectivamente primeiro e segundo califa dos muçulmanos e dois dos dez companheiros que foram abençoados pelo Mensageiro de Allah.

Além de seus status incontestáveis, eles também foram sogros do Profeta, que teve a honra de cedê-los suas filhas Aisha e Hafsa em casamento.

Mesmo tendo tamanho status e elevação espiritual, muitos muçulmanos xiitas (não todos, deve-se destacar) até hoje continuam a afirmar que eles teriam sido os assassinos de Fatima, filha do Profeta Muhammad.

Infelizmente, os que fazem essa afirmação optam por seguir fontes inconsistentes que surgiram tardiamente apenas para tentar reforçar uma determinada narrativa.

Sendo assim, preferem tirar conclusões de algo que não possuem certeza, fazendo uma acusação leviana de um crime a esses homens por não acreditarem que eles eram os legítimos sucessores do Profeta. É importante considerar que Allah nos levará a prestar conta do que afirmamos.

Veremos abaixo o quanto essa narrativa é contraditória e repleta de argumentos frágeis que não se sustentam e que qualquer muçulmano, xiita ou não, deveria refletir antes de fazer tais acusações.

Pontos Convergentes Entre Sunitas e Xiitas

Quando o Profeta Muhammad morreu, pairou na comunidade islâmica uma grande dúvida sobre quem seria o seu sucessor.

Foi então que os muçulmanos optaram por nomear um califa, que seria Abu Bakr, sogro e melhor amigo do Profeta Muhammad.

No entanto, havia um grande número de pessoas que acreditavam que o sucessor legítimo seria Ali Ibn Abu Talib que, por sua vez, não fazia parte da comissão que elegeu Abu Bakr.

Outros ainda defenderam um retorno ao tribalismo que vigorava antes do período do Profeta. Todas essas diferenças estariam na base da crise que dividiria a comunidade islâmica.

Neste ponto da história, começaram as primeiras conversas em relação a Omar ibn al-Khattab, pois ele teria liderado uma multidão até Ali para exigir que este jurasse lealdade a Abu Bakr, que agora era califa.

Omar chegou à porta da casa de Ali e o intimou a sair de casa e prestar juramento de lealdade.

Algumas fontes sugerem que Omar teria ficado extremamente irritado neste momento, a ponto de fazer ameaças. Fatima implorou para que eles fossem embora.

Embora haja diferenças nos relatos sobre o momento em que isso aconteceu, Ali acabou jurando lealdade a Abu Bakr.

Narrativa Xiita do Desfecho do Evento

Para alguns xiitas, Omar teria se irritado com as frustradas tentativas de subjugar Ali e, ignorando os apelos de Fatima, decidiu forçar sua entrada dentro da casa.

Então, ele teria ateado fogo na porta da casa, mas Fatima resistiu à sua entrada e ele a agrediu com uma espada embainhada.

Por fim, a multidão teria entrado na casa, capturado Ali e agredido Fatima, que morreu logo depois, o que também resultou no aborto de seu filho Muhsin.

Para corroborar, muitos xiitas utilizam como referência um relato na obra de Al-Tabari, um erudito sunita, no qual ele registrou:

"Omar foi à casa de Hazrat Ali. Na época, Talhah, Zubair e alguns muhaajir estavam reunidos com Ali. Omar avisou – por Allah, se todos vocês não vierem prestar lealdade, vou incendiar a casa com todos os seus moradores. Naquele momento, Zubair saiu de casa com uma espada desembainhada. Ele tropeçou e a espada escorregou de sua mão. As pessoas caíram sobre ele e o prenderam."

Contradições da Narrativa

Fontes

A primeira coisa digna de nota, que qualquer um pode observar, é que Tarikh Al-Tabari em momento nenhum menciona que Omar Ibn al-Khattab ateou fogo na casa.

Em segundo lugar, este evento é relatado por Muhammad Ibn Hamid Ibn Hayyan, que é rejeitado por diversos eruditos como Imam al-Bukhari, Al-Nasai, Al-Juzajani, Al-Razi, entre outros, por ser um narrador pouco confiável.

Como se não bastassem essas razões para desconsiderar tais acusações, em outro ponto na obra de Al-Tabari, mais à frente, um trecho coloca em contradição a narrativa da casa sendo queimada: 

"Abu Sufian pediu a Ali para dar sua mão para o Bayat (juramento) e Ali gritou com ele e disse que eles tinham concordado com Abu Bakr."

Outro hadith muito utilizado para acusar Omar está na obra de Ahmad at-Tabarani, que contém uma suposta citação de Abu Bakr, que alguns xiitas alegam ser quem ordenou a Omar para invadir a casa de Fatima:

"Quanto às três coisas que eu gostaria de nunca ter feito, eu gostaria de não ter invadido a casa de Fatima(…)"

Esta narração, e outras semelhantes, possui uma cadeia de transmissão que vem de Ulwan ibn Dawud, que é considerado um narrador fraco (Daif) pelo Imam Al-Bukhari, Ibn Yunus, Al-Uqaili e vários outros eruditos respeitáveis.

Absolutamente todas as cadeias de transmissão que afirmam que Abu Bakr e Omar ibn al-Khattab armaram um complô para matar Fatima ainda grávida são narradas por alguém não confiável ou por alguém que não foi testemunha ocular do evento.

É impossível esgotar neste texto todos os relatos que os defensores de tal narrativa usam para acusar Omar, mas podemos sintetizar que não existe uma fonte, seja ela sunita ou xiita, que descreva este evento e possua simultaneamente duas características:

  • Ser um relato autêntico (sahih).
  • Descrever claramente o evento, sem deixar nenhuma ambiguidade sobre a invasão da casa de Fatima e seu subsequente assassinato.

É por este motivo que até mesmo alguns eruditos xiitas negam a veracidade deste evento, como Sayed al-Khoei, que relatou: “O problema é que, mesmo que seja conhecido e popular entre os nossos companheiros, ainda não há provas disso” (Mabani Takmilat al-Minhaj 2/434).

E Ayatullah Fadlullah disse, em um discurso no dia das mães, no Líbano, em 1999:

"Pessoalmente, rejeito as histórias sobre o ataque à sua casa, juntamente com a quebra das suas costelas, uma vez que a nossa história xiita não prova que este incidente tenha ocorrido com Sayeda Alzahra (Fatima).” 

Inconsistências históricas

A primeira inconsistência histórica que salta aos olhos imediatamente ao ler a história é: como o bebê já tinha o nome de Muhsin, sendo que ainda não era nascido e não havia meios de saber se era um menino ou uma menina?

A resposta para isso é que Muhsin não morreu no ventre de Fatima; ele chegou a nascer, mas faleceu de forma precoce, como mostram alguns hadiths:
"Ali ibn Abu talib disse: Quando Hassan nasceu, o Profeta (sobre ele a paz) veio e disse: 'Mostre-me meu garoto, como você o chamou?' Eu disse: 'Eu o chamei de Harb.' Ele disse:

'Não, ele é Hassan.' Quando Hussein nasceu, o Profeta (sobre ele a paz) disse: 'mostre-me meu garoto, como você o chamou?' Eu disse: 'Harb.' Ele disse: 'Não, ele é Hussein.' E quando o terceiro nasceu o Profeta veio e disse: 'Mostre-me meu garoto, como você o chamou?' Eu disse: 'Harb.' Ele disse: 'Não, ele é Muhsin.' Então ele disse: 'Eu os nomeei com os nomes dos filhos de Haroun (Profeta Aarão) que eram Shibr, Shubeir, Mushabbar.' (Musnad Ahmad 1:98)

Aqui estamos falando de um relato cuja cadeia é autêntica e mostra que o pequeno Muhsin nasceu ainda no período em que o Profeta era vivo, ou seja, é impossível que ele tenha sido abortado.

Além disso, é sabido até mesmo por fontes xiitas que, após a morte de Fatima, Ali se casou outras vezes e teve um filho chamado Omar e outro chamado Abu Bakr. Aliás, ele também teve um filho chamado Uthman, mas vamos deixar este de fora para não perder o foco.

Aqui, alguns podem querer argumentar que não foi uma homenagem aos companheiros do Profeta. Mas, ainda que isso seja verdade, por que alguém colocaria em seu filho o nome dos assassinos de sua esposa e bebê?

Ao considerar exemplos paralelos, chegaremos à história de Wahshi, o homem que matou Hamza, o tio do Profeta Muhammad. O Mensageiro de Allah nunca olhou no rosto de Wahshi, mesmo após ele se tornar muçulmano.

Até hoje, não vemos nenhum xiita chamado Omar ou Abu Bakr. Por que acreditar que Ali, que supostamente teria sofrido as dores do massacre de sua família, colocaria em seus filhos o nome das pessoas que o fizeram sofrer?

E não apenas Ali fez isso, mas também o seu filho Hussein deu o nome de Abu Bakr e Omar a seus filhos. Por que ele também homenagearia os assassinos de sua mãe?

Outro fato que era amplamente aceito nas primeiras fontes xiitas é que Ali concedeu sua filha Umm Khultum em casamento a Omar ibn al-Khattab.

Como Fatima Morreu?

Fatima morreu de causas naturais. Ela ficou bastante deprimida com a morte do Profeta e seu estado de saúde foi se deteriorando cada vez mais, até que sucumbiu.

Isso não é apenas uma versão sunita dos fatos; possui respaldo até mesmo em fontes xiitas:

"(Foi narrado) de Abu Abdullah: ‘Eu o ouvi dizer: ‘Fátima viveu depois de seu pai por setenta e cinco dias, sem ser vista sorrindo ou rindo. Ela ia aos túmulos dos mártires duas vezes todas as sextas-feiras, segundas e quintas-feiras e dizia: 'Lá estava o Mensageiro de Allah e lá estavam os politeístas!' ' "(Al-Kafi, Vol 3, Livro dos Funerais, 85:3)

Tomando este último hadith como referência, seria impossível que uma mulher grávida com ferimentos sobrevivesse por tanto tempo a um ataque violento enquanto caminhava de sua casa até o túmulo dos mártires quatro vezes na semana, um trajeto de cerca de 5 km.

Após o seu falecimento, Ali prestou seu juramento a Abu Bakr. Como ele era um homem corajoso, não teria motivos para fazer isso se o califa de fato tivesse mandado matar as pessoas de sua família.

Mais tarde, quando Omar ibn al-Khattab se tornou califa, nomeou um conselho com seis homens para que eles decidissem entre si quem iria sucedê-lo.

Esses homens eram Uthman ibn Affan, Talha ibn Ubayd Allah, Zubayr ibn Awam, Sad ibn Abu Waqqas e Abd al-Rahman ibn Ahf e Ali ibn Abu Talib.

Não haveria motivos para Omar nomear Ali se fossem, de fato, inimigos, ou se o califa não confiasse nele.

Por fim, salientamos que não temos o objetivo de menosprezar os xiitas que creem nesta versão, apenas mostrar que ela não se sustenta senão por uma cegueira em querer acusar Abu Bakr e Omar ibn al-Khattab.

Não é parte da conduta islâmica acusar as pessoas sem que haja uma evidência concreta. Por isso, acreditamos que qualquer pessoa de bom senso que entendeu a mensagem deste texto pensará duas vezes antes de fazer isso.

Conclusão

Omar e Abu Bakr não mataram Fatima. O suposto assassinato é corroborado apenas por fontes sem nenhuma credibilidade e, portanto, é historicamente inconsistente.

As fontes, tanto sunitas quanto xiitas, que descrevem este evento contém narradores não confiáveis em sua cadeia de transmissão. Já em relação às fontes autênticas, nenhuma descreve o evento com clareza.

Pelo contrário, há vários relatos que mostram que Ali manteve uma boa relação com os dois após a morte de Fatima e rendeu homenagens a Omar e a Abu Bakr.

Fatima morreu de causas naturais, devido a complicações de saúde agravadas pela depressão que lhe abateu após a morte do Profeta Muhammad.

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