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O Sufi Senegalês que Lutou contra o domínio Francês

Quando a França colonizou o Senegal, o Sheikh Amadou Bamba criou uma resistência pacífica através da espiritualidade e dos valores islâmicos.
  • Sheikh Amadou Bamba é o fundador da maior ordem sufi do Senegal e foi uma importante liderança espiritual e política.
  • Ele resistiu a uma tentativa dos colonizadores franceses de mudar os costumes e a cultura do povo senegalês.
  • Ele propôs aos seus discípulos uma resistência pacífica por meio do aprendizado e da prática dos ensinamentos e valores islâmicos.
  • Por causa disso, o Sheikh foi perseguido pelos colonizadores e até exilado, mas isso o transformou em uma figura lendária no Senegal.

No século XIX, o território onde hoje fica o país de Senegal era parte da África Ocidental Francesa, uma colônia que, como o próprio nome diz, era controlada pela França.

Senegal tinha uma função econômica importante, pois além de fornecer escravos para os europeus, ainda era rico em matérias-primas como goma arábica, marfim e ouro.

Nessa época, também havia alguns movimentos que lutavam pela independência do país através da revolução armada, mas um movimento pacífico de desobediência civil mudaria para sempre não só a situação política de Senegal, mas também a religiosidade de seu povo.

Sheikh Amadou Bamba, fundador da ordem sufi Muridiya, ou Mouride, foi responsável por uma grande mobilização popular que propôs uma resistência ao colonialismo por meio do ensino dos valores religiosos islâmicos.

Através disso, ele conseguiu fazer com que os senegaleses conseguissem preservar a sua identidade religiosa e cultural frente às investidas francesas, que pretendiam enfraquecer a sua colônia introjetando novos costumes e alienando o povo de seus valores.

As Origens do Sheikh e Sua Ordem

Amadou Bamba nasceu na cidade senegalesa de Mbacké-Baol, no ano de 1853, filho de um mestre sufi da ordem Qadiriyya chamado Habibullah Bouso.

Ele viveu uma vida inteira dedicada à formação e reflexão dos ensinamentos religiosos, sendo que, desde seus 7 anos de idade, já havia começado a se dedicar aos estudos corânicos.

Ao longo da sua juventude e início da vida adulta, também versificou diversas obras de sábios muçulmanos e compôs odes a Allah e ao Profeta Muhammad.

Se manteve na escola de seu pai até o dia em que ele faleceu, o que ocorreu no ano de 1883, na vila de Mbacké Cayor.

A sucessão do posto de seu pai começou de modo natural, pois ele passou a ajudar os estudantes da escola a se aprofundarem em seus estudos.

Naquele período, Amadou teve sonhos com o Profeta Muhammad em que ele o pedia para guiar as pessoas por meio do estudo.

Em 1883, fundou a ordem Mouride, que viria a se tornar a maior de seu país e uma das principais da Gâmbia.

Foi-lhe atribuída uma frase que teria sido dita neste período: “Se vocês apenas querem estudar o Alcorão, podem ir e encontrar os muitos professores deste país. Que fique ao meu lado quem quer ser educado para chegar à proximidade divina.”

Os princípios que ele ensinava eram de uma guerra espiritual contra o ego, chamado no Islam de Jihadul Nafs. No entanto, sua via era por meio de uma conduta pacífica, esforço persistente e boas ações.

Essas ações consistem em uma transformação através de uma introjeção profunda dos valores islâmicos como forma de elevação espiritual.

Em 1888, ele fundou a cidade de Touba, que viria a ser o grande centro da sua ordem, onde hoje há a maior mesquita da África subsaariana.

A Luta Contra os Franceses

Quando a ordem Mouride começou a se expandir, isso passou a preocupar os colonos franceses, que temiam o início de uma conspiração por parte dos muçulmanos, como já havia acontecido anteriormente. 

A França tentava, por meio de seu poder, introduzir novos valores nas culturais ocidentais, forçando uma cristianização do país e isso envolvia diminuir a influência dos líderes espirituais muçulmanos e até mesmo a eliminação daqueles que se opunham abertamente ao governo.

O Sheikh Amadou orientava seus discípulos a seguir os princípios islâmicos e a evitar seguir tudo aquilo que contrariava esses valores, iniciando uma desobediência civil pacífica contra o projeto dos colonizadores.

O governador Clement Thomas se preocupou com a influência do mestre sufi e, então, pediu para que Amadou dispensasse seus discípulos.

Sheikh Amadou até tentou fazer isso, mas foi em vão e, como resposta, o governo começou a desapropriar pessoas que decidissem seguir a ordem Mouride. Mas o que se viu foi o início de um grande êxodo para Touba.

O governo passou a intimar o Sheikh Amadou para que ele se apresentasse na cidade senegalesa de Saint-Louis. Ele chegou a se mudar para a cidade de Mbacké Bari e foi detido em 1895 na cidade de Djéwol.

O Sheikh Amadou, então, foi levado para a sede do governo em Saint-Louis, onde uma assembleia convocada pelo governador-geral determinou que ele deveria se exilar no Gabão.

Na justificativa emitida pelo governo, constava que: "Resulta do relatório que não poderíamos levantar contra Amadou Bamba nenhum fato de pregar a guerra santa, mas sim a sua atitude, as suas ações e sobretudo as dos seus principais, suspeito em todos os aspectos".

Viveu no Gabão por 7 anos e este foi um período muito difícil, sobretudo quando morou isolado nas florestas de Mayumba, onde vivia desabrigado, com escassez de alimento, sujeito às hostilidades do clima e ao perigo dos animais predadores.

Quando voltou para o Senegal, esteve em Dakar e foi saudado por seus discípulos, sendo que muitos acreditavam que ele já tivesse morrido, o que fez deste um momento bastante especial.

Muitas pessoas passaram a visitar o Sheikh, que passou a residir na aldeia de Darou Marnane e isso preocupou novamente os franceses que, dessa vez, decidiram exilá-lo para a Mauritânia.

A Volta do Exílio

Em 1907, o governo colonial francês permitiu que o Sheikh retornasse do exílio. Ele ficou detido em prisão domiciliar na vila de Thiéyène, onde era vigiado o tempo inteiro e suas visitas eram limitadas.

A situação persistiu até 1912, quando o governo autorizou que fosse para Baol. Naquele mesmo ano, ainda se mudou novamente para Diourbel.

Grande mesquita de Touba (Foto: Franco Visintainer)

Os franceses afrouxaram sua perseguição contra o Sheikh Amadou por perceber que ele não incitaria uma agressão contra o governo, mas também, principalmente, por razões econômicas.

A ordem Mouride tinha uma cultura de subsistência através do plantio de amendoim e de outras atividades econômicas. O dinheiro ganho com a agricultura arcava com as despesas da cidade de Touba, onde a comunidade se estabeleceu com autorização dos franceses.

Além de se beneficiar financeiramente, o governo francês acabou contando com soldados senegaleses na Primeira Guerra Mundial que eram da ordem Mouride.

Por essa contribuição, o Sheikh Amadou Bamba foi contemplado com a Cruz da Legião de Honra francesa, mas apenas aceitou o diploma, recusando a medalha por contrariar seus princípios religiosos.

O grande mestre espiritual senegalês deixou este mundo e retornou para o seu Criador no ano de 1927. Seu corpo foi sepultado em sua casa, que hoje está anexada à grande mesquita de Touba.

Todos os anos, os discípulos da ordem Mouride celebram o aniversário do exílio do Sheikh Amadou distribuindo comida, lendo o Alcorão e agradecendo a Allah.

Legado

A comunidade Mouride ainda é extremamente atuante no Senegal, um país onde a grande maioria é adepta do Islam.

Em uma época onde as resistências armadas contra os colonizadores falharam uma por uma, a resistência pacífica do Sheikh Amadou foi importante para que os senegaleses preservassem sua identidade e se protegessem contra o domínio cultural e religioso dos europeus.

Por causa dos seus feitos, tão importantes para a preservação da fé dos senegaleses, o Sheikh Amadou é lembrado como um "mujaddid", isto é, um renovador da fé.

Mais do que uma simples gratidão, um mujaddid é parte de uma profecia islâmica de que Allah enviaria uma pessoa a cada 100 anos para renovar a fé das pessoas e guiá-las de volta aos princípios retos do Islam.

Este é o grande favor que Allah legou ao mestre sufi para que ele deixasse para os seus discípulos.

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