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Jesus e Ali: Semelhanças entre as duas grandes figuras no Islam

Em seu artigo “Muḥammad le Paraclet et ‘Alī le Messie”, Dr. Mohammad-Ali Amir-Moezzi propõe uma conexão entre a estação teológica de ‘Ali b. Abī Ṭālib e o Jesus cristológico. Amir-Moezzi indica que o Profeta Muḥammad ﷺ considerava que ele mesmo vivia nos últimos dias e decidiu que parente ‘Ali desempenharia um papel messiânico. Segundo o artigo, o Profeta ﷺ era considerado como o paráclito (o “Confortador” ou “Advogado”) profetizado em João 14-16 que orientaria a humanidade para toda a verdade. Enquanto Jesus sem dúvidas é o Messias na tradição islâmica, Amir-Moezzi afirma que o papel do paráclito é anunciar a Parousia (presença, chegada ou visita oficial no idioma grego) do Messias; e que ‘Ali era o local da manifestação de Jesus e, funcionalmente, uma figura messiânica.

No primeiro discurso público de Muḥammad ﷺ, ele anunciou que o Fim dos Tempos era iminente. Muitos dos capítulos do Alcorão revelados em Meca tratam do Apocalipse e do Julgamento que virá após ele. O fervor messiânico nessa época não era particular do Islam: alguns textos judaicos do século VII, como Nistarot Shimon b. Yohai e Sefer Zerubabbel, também sugerem a proximidade da vinda do Messias. A revolta de Nehemiah ben Hishiel (m. 619 e.c.) contra o imperador bizantino Heráclio, o Jovem, era de caráter messiânico. Com o assassinato de ‘Alī b. Abī Ṭālib em 40 d.H., as expectativas messiânicas passaram principalmente para seus herdeiros. Ainda assim, alguns indícios desse nível de fervor foram mantidos na imamologia (a natureza e o grau dos Imãs no Islã xiita) de ‘Alī no xiismo. Neste artigo, destacaremos alguns pontos de comparação entre a cristologia (o ramo da teologia cristã que estuda a pessoa, a natureza e o papel de Cristo) tradicional e os ensinamentos xiitas sobre ‘Alī.

O primeiro a apontar as semelhanças entre ‘Alī b. Abī Ṭālib e Jesus foi provavelmente o próprio Profeta Muḥammad ﷺ. Aḥmad b. Ḥanbal narra no Musnad que o Profeta ﷺ disse a ‘Alī, “Em você há uma semelhança com Jesus: os judeus depreciaram ele até que acusaram sua mãe e os cristãos o amaram até que atribuíram a ele um estação que não era dele por direito.” Segundo a mesma referência, ‘Alī interpretou que isso significava que tanto aqueles que exagerarem o grau dele quanto aqueles que o odiarem serão punidos. Por um lado, a maioria dos cristãos veem Jesus como a encarnação de Deus, como o filho de Deus e como membro da Trindade. Por outro, Jesus e Maria são citados de maneira derrogatória no Talmud. De maneira parecida, ‘Alī foi adorado como a encarnação de Deus por alguns extremistas (ghūlāt) e foi amaldiçoado nos púlpitos pelos Omíadas. 

Al-Ṣadūq incluiu uma narrativa parecida no Amāli. Após a batalha de Khaybar, o Profeta ﷺ diz a ‘Ali:

قال له رسول الله (صلى الله عليه وآله): لولا أن تقول فيك طوائف من أمتي ما قالت النصارى للمسيح عيسى بن مريم، لقلت فيك اليوم قولا لا تمر بملا إلا أخذوا التراب من تحت رجليك ومن فضل طهورك يستشفون به … فقال النبي (صلى الله عليه وآله): لولا أنت لم يعرف المؤمنون بعدي

“Se alguns grupos da minha nação não fossem afirmar acerca de você aquilo que os cristãos afirmaram acerca do Messias, Jesus, o filho de Maria, eu diria algo sobre você hoje que faria com que as pessoas pegassem o pó debaixo dos seus pés e buscassem nele a cura, por causa da excelência da sua pureza … se não fosse você, os crentes depois de mim não seriam conhecidos.”

Uma vez que o ódio por ‘Alī b. Abī Ṭālib era visto pelos Ansār como sinal de hipocrisia ou descrença, seria lógico deduzir que o afeto apropriado a ele seria parte da fé. A imagem retórica acerca dos pés de ‘Alī presente nessa narrativa lembra a famosa descrição de Jesus por João Batista, em João 1:27: “Aquele que vem depois de mim, de quem eu não sou digno de desatar a correia da alparca.”

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A polarização dos aliados e inimigos de ‘Alī talvez se resuma melhor num ḥadīth bem conhecido, que chama ‘Alī de “o que separa entre o paraíso e o inferno” (qasīm al-janna wa n-nār). Este título foi registrado por Ibn Quṭayba, Ibn al-Athīr, al-Khawarizmī, Ibn Abī Ya‘la e por Ibn Abī al-Ḥadīd. Também é transmitido por autoridades xiitas e passa a ideia de que os que amarem ‘Alī b. Abī Ṭālib verdadeiramente serão aceitos no paraíso enquanto os que se opuserem a ele serão “jogados no Fogo”. Este epíteto é muito semelhante com a descrição do Filho do Homem em Mateus 25: ele se sentará no trono, com todas as nações reunidas diante dele, e “separará as pessoas” entre o reino do paraíso e o inferno eterno. Dessa forma, tanto ‘Alī quanto Jesus recebem o papel central do Julgamento em cada tradição respectiva.

Alguns dos títulos de Cristo são empregados como referência a ‘Alī b. Abī Ṭālib na tradição islâmica. ‘Alī é chamado de mawlā no famoso Sermão de Ghadīr Khumm; uma palavra que significa, entre outras coisas, “mestre”. Ela é empregada no mesmo sermão como referência ao Profeta ﷺ e também está presente no Alcorão, se referindo a Deus (2:286, 8:40, 9:51). Uma palavra relacionada, “walī” – que significa amigo, patrono, guardião, aliado – também é usada como referência a Deus (24:9, 2:257) e a ‘Alī b. Abī Ṭālib nas exegeses de 5:55; “Mawlā” num contexto espiritual pode, portanto, indicar tanto Deus quanto Seus emissários, que fazem parte da mesma hierarquia divina. Há uma palavra semelhante usada frequentemente no Novo Testamento grego para indicar Jesus: kurios (κύριος), que costuma ser traduzida como “senhor”, aludindo a mestres humanos e a Deus. Por exemplo, Deus é chamado de kurios em Mateus 1:20 e Jesus é chamado de kurios em Mateus 7:22. Enquanto a palavra mawlā pode ser empregada em contextos humanos e divinos, ‘Ali rejeitou ser chamado de rabb, uma palavra cujo significado pode ser mais facilmente confundido com o significado de Senhor Deus.

Entre outros epítetos compartilhados entre os dois, Jesus é chamado de Leão de Judá em Apocalipse 5:5. Essa é uma referência apocalíptica a Jesus ser da tribo monárquica de Judá – Judá foi chamado de leão pelo seu pai em Gênesis 49:9. De maneira parecida, está registrado no Saḥīḥ Muslim que ‘Alī b. Abī Ṭālib disse: “Sou aquele cuja mãe chamou de ‘leão’ (ḥaydar), como um leão na floresta, que causa temor.” Além disso, Jesus é chamado de “o caminho” em João 14:6 e, em al-Kāfi, ‘Alī é chamado de “a Senda Reta” (1:6). Nos dois contextos eles são vias para Deus.

Em Manāqib Āl Abī Tālib, num comentário do versículo 43:57, Ibn Shahr Ashūb diz que o profeta disse aos seus companheiros: “O homem que, de toda a criação, mais se assemelha a Jesus entrará por essa porta.” Então ‘Alī entrou e os companheiros riram alto. Num outro ḥadīth de al-Kafi da autoridade de Muḥammad al-Bāqir, ‘Alī b. Abī Ṭālib “estava na tradição (sunna) de Jesus.” Quanto a alusões aos apóstolos de Jesus, em algumas narrações, os apóstolos são comparados aos Imãs e, em outras, são comparados aos shī‘ā. Tal como Jesus é chamado de “o bom pastor” em João 10, os Imãs são chamados muitas vezes de pastores.

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Uma maneira sutil com a qual a tradição xiita compara Jesus a ‘Alī é no ascetismo e no esoterismo deles. Em Nahj al-Balāgha, ‘Alī b. Abī Ṭālib descreve Jesus com as palavras:

وَإِنْ شِئْتَ قُلْتُ فِي عِيسَى بْنِ مَرْيَمَ(عليه السلام)، فَلَقَدْ كَانَ يَتَوَسَّدُ الْحَجَرَ، وَيَلْبَسُ الْخَشِنَ، و يَاْكُلُ الجَشِبَ، وَكَانَ إِدَامُهُ الْجُوعَ، وَسِرَاجُهُ بَاللَّيْلِ الْقَمَرَ، وَظِلاَلُهُ في الشِّتَاءِ مَشَارِقَ الاْرْضِ وَمَغَارِبَهَا، وَفَاكِهَتُهُ وَرَيْحَانُهُ مَا تُنْبِتُ الاْرْضُ لِلْبَهَائِمِ، وَلَمْ تَكُنْ لَهُ زَوْجَةٌ تَفْتِنُهُ، وَلاَ وَلَدٌ يَحْزُنُهُ، وَلاَ مَالٌ يَلْفِتُهُ، وَلاَ طَمَعٌ يُذِلُّهُ، دَابَّتُهُ رِجْلاَهُ، وَخَادِمُهُ يَدَاهُ

“Ele usava uma pedra como travesseiro, vestia roupas rudimentares e comia alimentos simples. Seu condimento era a fome. Sua lâmpada de noite era a lua … Ele não tinha esposa que o seduzisse, nem filho para causar pesar, nem riqueza que lhe desviasse [a atenção], nem ganância que lhe causasse a desgraça.”

A tradição retrata Jesus com um profeta que critica a riqueza na religião, rejeita o mundanismo, come pouco e vive de maneira modesta. ‘Alī b. Abī Ṭālib, ainda mais do que os outros Imãs, também é retratado como um asceta que usava túnicas rudimentares que valiam apenas quatro dirhams. É bem conhecido o fato de que ‘Alī “se divorciou” do mundo três vezes, dizendo que não tinha interesse nos detalhes passageiros da vida.

Fora isso, o Jesus islâmico é um profeta que elabora no espírito interior da lei, diferente do legalismo de Moisés. Numa tradição, Jesus diz: “Moisés, o profeta de Deus, comandou que vocês se abstivessem da fornicação. Eu, no entanto, comando que se abstenham de pensar sobre fornicar, além de não fornicarem. O que pensa em fornicar é como aquele que acende um fogo numa casa decorada. A fumaça arruína as decorações, mesmo se a casa não queimar.” Enquanto a lei mosaica focava em trazer a ordem para uma nação em formação, Jesus é retratado como um profeta que veio para levar a religião de volta para seus princípios morais. Da mesma maneira, como Amir-Moezzi delineou em seu livro A Espiritualidade do Islã Shi‘i, o termo dīn ‘Alī (“a religião de ‘Alī”) nos primórdios da história islâmica evoca uma imagem de ‘Alī que realiza os princípios da revelação profética. Tal como Aḥmad b. Ḥanbal relata no Musnad, que o Profeta Muḥammad ﷺ disse que ‘Alī seria confrontado quanto à realização (ta‘wīl) do Alcorão como o Profeta ﷺ fora confrontado a respeito da revelação (tanzīl). Muḥammad ﷺ é muitas vezes apresentado como o “profeta semelhante a Moisés” de Deuteronômio 18:18, e Moisés é um dos profetas mais citados no Alcorão – talvez o ḥadīth acima faça alusão a ‘Alī ser que nem Jesus no sentido de que ele realizaria a Lei (Mateus 5:17). ‘Alī e os Imãs, no fim das contas, seriam chamados de a Voz do Alcorão.

Quando ‘Alī b. Abī Ṭālib foi assassinado, ele foi louvado pelo seu filho e sucessor Ḥasan b. ‘Alī (m. 670 e.c.). Em seu discurso em Kuga, Ḥasan disse que seu pai faleceu na mesma noite em que Jesus ascendeu ao paraíso. Ele também apontou que ‘Alī deixou apenas setecentos dirhams em presentes – revelando que o sustento dele era humilde, apesar de ser o califa e o primo do Profeta ﷺ. Segundo a heresiografia de ‘Abd al-Qāhir al-Baghdādī, o extremista ‘Abdullāh b. Saba’ afirmou que ‘Alī não havia morrido, mas ascendido ao paraíso – tal como Jesus foi salvo da cruz na tradição islâmica. Apesar de essa noção não ter sido adotada pela massa shī‘ī, ela revela que existiam expectativas messiânicas acerca de ‘Alī, ao ponto em que alguns não aceitavam a sua morte mundana. Não podemos esquecer que ‘Alī foi adorado como Deus por extremistas durante sua vida. Isso não aconteceu com Muḥammad ﷺ, e é mais um ponto de comparação de ‘Alī b. Abī Ṭālib com Jesus.

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‘Alī b. Abī Ṭālib desempenha um papel central na escatologia xiita.  Apesar de não ser considerado o Mahdi no xiismo normativo, ele aparece em exegeses acerca da Besta da Terra de 27:87. Na tradição islâmica, a Besta é um personagem que aparecerá no Fim dos Tempos com o cajado de Moisés e o anel de Salomão. A Besta marcaria os crentes e os descrentes com o cajado. É claro que, no xiismo, os herdeiros dessas relíquias proféticas não são ninguém menos do que os membros da família do Profeta Muḥammad ﷺ. No Tafsīr de ‘Alī b. Ibrāhīm al-Qummī, um relato diz que ‘Alī, enquanto apoiava a cabeça num pequeno monte de areia, foi chamado por  Muḥammad ﷺ de “a Besta da Terra”. O mesmo ḥadīth diz: “Ó ‘Alī, no Fim dos Tempos, Deus lhe ressuscitará na melhor forma e você terá um cajado que usará para golpear seus inimigos.” Esse ḥadīth pode ser relacionado com o tema previamente mencionado de ‘Alī ser o juiz entre o bem e o mal. Uma anomalia aqui é que a Besta nesses ḥadīths é uma força do bem, ao passo em que a(s) Besta(s) do Livro do Apocalipse é (são) uma força do mal. Ainda assim, a raj‘a [1] de ‘Alī e dos outros Imãs é análoga à ressurreição do Cristo e à segunda vinda dele nos últimos dias.

As semelhanças entre a cristologia e a imamologia são muitas. De muitas maneiras, todos os Imãs do Ahl al-bayt podem ser comparados a Jesus, tal como ele é descrito no cristianismo e no Islam, nas características que compartilham: na função como meios para a salvação, na grandeza como sacerdotes e reis, no ascetismo e no misticismo, em seus milagres deslumbrantes e na relação deles com o divino. No entanto, ‘Alī b. Abī Ṭālib sem dúvida se sobressai entre os membros da casa profética como um dos mais comparados a Cristo. Mais pesquisas precisam ser conduzidas sobre a antropologia dos primórdios da comunidade xiita e da relação dela com os grupos judaico-cristãos, contando os gnósticos, os maniqueus, os elcasaitas, os mandeus e outros. Também deve haver uma relação entre as supostas cristofanias do Velho Testamento e a estatura de ‘Alī como ṣāḥib al-karrāt – aquele que aparece muitas vezes na história profética, literalmente o Mestre dos Retornos Cíclicos. Outra área que precisa ser investigada é a questão de qual escatologia foi evocada durante os conflitos de ‘Alī b. Abī Ṭālib contra seus inimigos, a escatologia cristã ou a islâmica. Sendo o “portão para a Cidade do Conhecimento”, talvez ‘Alī possa ser considerado uma ponte entre as duas grandes religiões do mundo.

[1] Raj‘a é um conceito controverso associado aos primeiros muçulmanos xiitas. Raj‘a se refere ao retorno à vida em forma física das pessoas do passado no Fim dos Tempos. Segundo alguns relatos, os Imãs e seus inimigos serão ressuscitados, e os Imãs terão a oportunidade de punir seus inimigos.

Fonte: http://www.bliis.org/essay/jesus-christ-ali/

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