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O Islam Acredita na Predestinação ou no Livre Arbítrio

O Islam Acredita na Predestinação ou no Livre Arbítrio?

Em nome de Allah, o Infinitamente Bom, o Misericordioso.

A ideia da providência divina, que também é chamada de decreto divino e predestinação – que tudo já foi decretado pelo Criador na eternidade – inquieta os teólogos há séculos. Como podemos conciliar os dois fatos aparentemente contraditórios, de que Allah tem poder e soberania absolutos sobre toda a criação e, ao mesmo tempo, que somos responsáveis pelas nossas ações? Somos forçados a fazer o que fazemos ou nossas escolhas têm significado?

Esta pergunta levou a uma das primeiras divisões sectárias na comunidade muçulmana, entre os Qadaritas, que acreditavam que os seres humanos possuíam livre arbítrio absoluto (que Allah não tem controle sobre nós), e os Jabaritas, que acreditavam no determinismo absoluto e no fatalismo (que não temos controle sobre as nossas ações). Cada um desses grupos desenvolveu uma teologia extrema e desviada. Se Allah não tem controle, então por que invocamos Allah nas orações? E, se não temos controle sobre as nossas ações e sobre o destino, qual o motivo de fazer boas obras?

Essa pergunta, além de ter sido uma aguda controvérsia nos primórdios da história do Islam, foi uma questão importante no decorrer da história por motivos religiosos e seculares. Mais de dois mil anos atrás, o antigo filósofo grego, Aristóteles, discorreu severamente sobre o assunto por causa das consequências que as conclusões têm na compreensão da ordem do universo, da origem da vida, da liberdade humana e da felicidade.

Hoje em dia, é o foco de debates acadêmicos complexos, na categoria de determinismo, em disciplinas científicas como a matemática, a física, a biologia, a psicologia e nas ciências sociais. Evidentemente, a nossa compreensão de destino desempenha um papel importante na nossa visão de mundo e, talvez acima de tudo, no nosso comportamento dentro dele. Muçulmanos também já sofreram com dúvidas na fé devido aos inúmeros mistérios filosóficos resultantes. Como o Islam soluciona a charada?

O Alcorão e a Sunnah adotam uma postura intermediária entre esses dois extremos históricos, sustentando tanto que Allah é soberano quanto que a humanidade é dotada de responsabilidade. De um ponto de vista puramente racional, esses dois aspectos aparentam refutar um ao outro; em outras palavras, parece que os dois não podem ser verdadeiros de uma vez.

No entanto, devemos nos lembrar que Allah existe fora do tempo e do espaço, além do véu cósmico, no Invisível. Em contrapartida, nós, os seres humanos, podemos apenas conceber realidades dentro da estrutura do tempo e do espaço. A providência divina, ou predestinação, é uma realidade que existe além do tempo e do espaço. Isso significa que simplesmente não somos capazes de concebê-la com nossas faculdades racionais.

Por isso, Allah comunicou a realidade da providência usando instrumentos de linguagem – particularmente, imagens literárias (al-taswir al-fanni) – que, na ciência corânica, involve “expressar significados mentais pelo uso de imagens sensoriais e visualizadas.” Essas imagens são a Pena, a Tábua Preservada e os registros angelicais das obras. Elas articulam a natureza da providência, que Allah tem controle completo sobre o que é decretado desde o começo, e do que é expurgado posteriormente.

Elas são imagens que não são fictícias, nem meramente metafóricas; pelo contrário, constituem verdades profundas no universo e são realidades em si. Ao passo em que todas as coisas já foram decretadas da eternidade, Allah tem o poder de mudar o destino segundo as escolhas que fazemos. Somos, de fato, moralmente responsáveis pelas nossas ações e o nosso livre arbítrio carrega uma medida de controle, restrita sob a soberania de Allah, para determinar o nosso destino final.

A Natureza da Providência Divina

O termo para providência divina no Islam é Al-Qada’ wa’l-Qadar, literalmente, “o decreto e a medida”. É uma combinação de dois termos, que indica os aspectos duais da providência. Ibn Hajar escreve: “Os sábios disseram que o decreto divino (al-qada’) consiste de todo o juízo, por completo, para sempre, e a medida divina (al-qadar) consiste das particularidades do juízo e de seus detalhes.”

Apesar de sábios terem definido os termos de maneira diferente certas vezes, a definição apresentada aqui é baseada em dois conjuntos de textos do Alcorão e da Sunnah: um conjunto de textos que falam do decreto em termos absolutos e imutáveis e outro conjunto de textos que falam de modificações no decreto assim que ele entra em existência.

A princípio, esses dois conjuntos de textos aparentam ser contraditórios, mas são dois aspectos da mesma realidade, cuja aparente contradição é apenas resultado das bases de referência limitadas da mente humana. E os conjuntos de textos são conciliados somente com o propósito de nos orientar para a conduta correta, com respeito a Allah e aos nossos semelhantes humanos.

A ideia do decreto imutável é representada na imagem literária da Tábua Preservada (al-lawh al-mahfuz), que contém tudo que virá a ser, inclusive as escrituras divinas.

Allah disse:

“Sim, este é um Alcorão Glorioso, Inscrito em uma Tábua Preservada.” (Alcorão, 85:21-22)

O termo transmite a realidade absoluta da providência divina por meio de uma representação mental de uma tábua, um objeto com que somos familiarizados. Não obstante, a Tábua Preservada é diferente de todas as tábuas que já conhecemos.

Aquilo em que a Tábua Preservada acarreta é que Allah sabe de todas as coisas antes de elas passarem a existir.

Allah disse:

“Ignoras, acaso, que Allah conhece o que há nos céus e na terra? Em verdade, isto está registrado num Livro, porque é fácil para Allah.” (Alcorão, 22:70)

E o Profeta Muhammad ﷺ disse:

“Em verdade, Allah, o Onipotente, criou sua criação na escuridão e despejou sobre eles Sua luz. Todos que são tocados por essa luz são orientados, e quem a perde é desorientado. Portanto, digo que as penas secaram acerca do conhecimento de Allah.” (Sunan al-Tirmidhī, 4:323, 2642)

Allah não sabe somente o que virá; Ele tem controle e poder absoluto sobre o que Ele permite existir. Ele pode permitir que qualquer coisa aconteça ou fazer com que nunca aconteça.

Allah disse:

O Qual possui o reino dos céus e da terra. Não teve filho algum, nem tampouco teve parceiro algum no reinado. E criou todas as coisas, e deu-lhes a devida proporção.” (Alcorão, 25:2)

Além disso, o sustento, a duração da vida, as obras e o destino final na Derradeira Vida de cada ser humano são escritos por anjos assim que a alma é soprada no feto. Nosso destino foi decretado para nós, mesmo antes de termos nascido.

O Profeta ﷺ disse:

“A criação de cada um de vocês é no útero de sua mãe por quarenta dias e noites, então como um coágulo por um período parecido, e então como um pedaço de carne por um período parecido, e depois o anjo é enviado a ele para anunciar quatro decretos. Ele escreve seu sustento, seu termo de vida, suas obras e se será abençoado ou condenado. Então, sopra a alma nele. Em verdade, um de vocês pode agir com as obras do povo do Paraíso até estar à distância de um braço dele, e ainda assim o decreto o toma, e age com as obras do povo de Inferno e, assim, entra no Inferno. E um de vocês pode agir com as obras do povo do Inferno até estar à distância de um braço dele e, ainda assim, o decreto o toma, e age com as obras do povo do Paraíso e, assim, entra nele.” (Ṣaḥīḥ al-Bukhārī, 9:135, 7454)

Somos colocados num caminho, com nosso destino à nossa frente, assim que entramos neste mundo. Mesmo assim, nossa vontade e nossas ações têm significado pois, pela vontade de Allah, elas são as causas das mudanças de rumo. Uma vez que Allah está no controle do destino, a única maneira de assegurarmos um destino bom é recorrendo a Allah com adoração, orações e boas obras. Não temos controle por nós mesmos. Nesse sentido, as “penas foram levantadas e as páginas secaram.”

O Profeta ﷺ disse:

“Tenham consciência de Allah e Ele os protegerá. Tenham consciência de Allah, e O encontrarão à sua frente. Se pedir, peça de Allah. Se buscar ajuda, busque ajuda de Allah. Saiba que, se toda a criação se reunisse para vos beneficiar, eles não os beneficiariam exceto segundo a vontade de Allah. E, se toda a criação se reunisse para vos prejudicar, eles não os prejudicariam exceto segundo a vontade de Allah. As penas foram levantadas e as páginas secaram.” (Sunan al-Tirmidhī, 4:248, 2516)

Repare que, nesse hadith, o Profeta ﷺ nos informou, através de seu companheiro Ibn Abbas, que o decreto já foi estabelecido. As páginas secaram. Mesmo assim, o Profeta ﷺ prescreveu ações: ter consciência de Allah e buscar ajuda de Allah

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A parte importante que devemos entender é que tudo acontece segundo a vontade de Allah, mesmo que Allah não se agrade com tudo que Ele permite acontecer. Há duas maneiras de se compreender “a vontade de Allah”: a vontade universal e a vontade legislativa. A vontade universal abarca tudo que é permitido existir, bem e mal. A vontade legislativa consiste daquilo que Allah deseja de nós, de boas obras.

Ibn Abi al-Izz, o comentador do credo tradicional islâmico, sobre o qual há consenso entre os sábios muçulmanos, condensado por At-Tahawi, escreve:

“Os pesquisadores do Ahl al-Sunnah dizem que a “vontade” no livro de Allah é de dois tipos: uma vontade que é predeterminada, universal e criativa, e uma vontade que é religiosa, de mandamentos e leis. Dessa forma, a vontade legislativa inclui o que Allah ama e aquilo com que Ele se agrada, e a vontade universal é o que Ele determina, inclusive todas as coisas que acontecem.” (Al-Ṭaḥāwī, Sharḥ al-’Aqīdah al-Ṭaḥāwīyah, 1:79)

A confusão que levou ao sectarismo no início da história islâmica foi devido ao insucesso dos Qadaritas e dos Jabaritas no entendimento desse assunto.

Ibn Abi al-Izz prossegue:

“A origem do erro é de equiparar a vontade do desejo e a vontade da ação, e entre o amor e o prazer. Assim, os Jabaritas e os Qadaritas consideram essas coisas iguais, então discordam. Os Jabaritas disseram que toda a existência se dá segundo o decreto e a medida, portanto, é amada e agradável a Allah. Os Qadaritas disseram que a desobediência dos pecados não é amada e agradável a Allah, então essas coisas não podem ser ordenadas e decretadas por Ele; estão fora da vontade e da Criação d’Ele. Mas a distinção entre o que é determinado e o que é amado está no Livro, na Sunnah e no instinto íntegro.” (al-Ṭaḥāwī, Sharḥ al-’Aqīdah al-Ṭaḥāwīyah, 1:324)

Para resumir, os Jabaritas disseram que Allah decreta o bem e o mal e, portanto, ama as duas coisas, ao passo em que os Qadaritas disseram que o que é mau não se dá segundo o decreto de Allah – o que significa que é criado por algum outro poder. Os Jabaritas negaram a responsabilidade moral da humanidade, já os Qadaritas negaram o poder total do Criador.

A verdade é que as nossas ações fazem uma diferença significativa e podem mudar o rumo do decreto. Ao fazer nossa vontade coincidir com a vontade legislativa do Criador – render a nossa vontade a Allah – nosso destino muda para o melhor.

Allah disse:

“Deus impugna e confirma o que Lhe apraz, porque a fonte das Escrituras está em Seu poder. (Alcorão, 13:39)

A “fonte das Escrituras” é literalmente o “Livro-matriz” (Umm al-Kitab). É a Tábua Preservada em que o decreto imutável da eternidade está escrito. Mas os livros das pessoas, nossas obras e o destino registrado pelos anjos podem mudar segundo as nossas ações. Ibn Abbas explica o versículo: “Há dois livros: um livro em que é apagado tudo o que Allah quiser, e com Ele está o Livro-matriz.” (al-Ṭabarī, Jāmiʻ al-Bayān ‘an Ta’wīl al-Qur’ān, 16:480, 13:39)

Allah disse:

“Todos os que estão nos céus e na terra O invocam. A cada dia Ele está ocupado em uma nova obra.” (Alcorão, 55:29)

Abu Darda perguntou ao Profeta Muhammad ﷺ sobre esse versículo, e ele disse:

“Entre os assuntos d’Ele, está o perdão dos pecados, o alívio das dificuldades, elevar algumas pessoas e rebaixar outras.” (Sunan Ibn Mājah, 1:73, 202)

Mujahid também explicou esse versículo, dizendo: “Entre os assuntos dele está conceder aos que pedem, libertar os que sofrem, responder os que rezam e curar os doentes.” E ele também disse: “Aliviar as dificuldades, responder às necessidades e perdoar pecados.” (al-Ṭabarī, Jāmiʻ al-Bayān, 23:39, 55:29)

Essa mudança aparente no destino não é resultado do nosso poder ou de nossa capacidade, e não foge ao conhecimento de Allah. Em vez disso, é somente quando nos submetemos à vontade de Allah que nosso destino pode mudar para melhor.

Ibn Hajar, o comentador da coletânea autêntica Sahih al-Bukhari, escreve:

“O que provém do conhecimento de Allah não muda e não é substituído. Aquilo que é permitido acontecer e ser substituído é o que aparece às pessoas das obras daquele que as realiza… Portanto, entra na categoria de ser apagado e ser afirmado, como o aumento e a diminuição na duração da vida. Quanto ao conhecimento de Allah, não é apagado nem confirmado, pois todo o conhecimento está com Allah.” (Ibn Ḥajar, Fatḥ al-Bārī, 11:488)

O catalizador para uma mudança no destino depende de ações: intenções, orações, súplicas e boas obras. Não é o poder de nossas ações por elas mesmas que fazem a mudança. Em vez disso, é a recompensa que Allah nos concede por nos rendermos à vontade d’Ele. Desta maneira, a humanidade é responsável por suas obras.

A Vontade, a Ação e a Responsabilidade Humana

O Alcorão e a Sunnah são claros ao expressarem a responsabilidade moral da humanidade.

Allah disse:

“Cada alma é responsável por suas próprias ações, e nenhuma carregará o fardo de outra. Então, retornareis ao vosso Senhor, o Qual vos inteirará de vossas divergências.” (Alcorão, 6:164)

Esse é todo o propósito da vida – a grande provação que culmina no Dia do Juízo não faria sentido a menos que o juízo fosse justo e carregasse significado. Portanto, Allah delegou vontade à humanidade para que ela seja usada a serviço do bem. Nosso arbítrio é “livre”, no sentido de que não somos forçados a fazer o que fazemos. Somos recompensados ou punidos na Derradeira Vida segundo o que fizemos com a dádiva da nossa vontade.

Allah disse:

“Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo, para quem de vós se quiser encaminhar. Porém, não vos desejareis encaminhar, salvo se Deus, o Senhor do Universo, assim o quiser.” (Alcorão, 81:27-29)

E Allah disse:

“Em verdade, esta é uma admoestação: e, quem quiser, poderá encaminhar-se até à senda do seu Senhor. Porém, só o desejareis se Deus o quiser, porque é Prudente, Sapientíssimo.” (Alcorão, 76:29-30)

E Ibn Taymiyyah, jurista e teólogo hanbali, escreve:

“Entre o que faz parte do consenso dos predecessores desta nação e de seus líderes, no que diz respeito à sua fé na providência e no decreto divino, é que Allah criou todas as coisas, que o que Ele quer passa a existir e o que Ele não quer, não pode existir, que Allah desvia quem Ele quiser e guia quem Ele quiser, e que os servos possuem vontade e capacidade e agem segundo sua capacidade e sua vontade de acordo com o que Allah permitiu para eles. Em verdade, os servos não querem a menos que Allah queira.” (Majmū’ al-Fatāwà, 8:459)

Dessa forma, o que decidirmos fazer com a dádiva da nossa vontade determinará o destino que Allah nos conferiu.

A essência da questão é que as boas obras levam a um bom fim, e as más obras levam a um fim ruim. 

O Profeta ﷺ disse:

“Boas obras protegem de destinos ruins. A caridade em segredo extingue a ira do Senhor, preservar os laços familiares, prolonga a vida, e toda boa obra é caridade. O povo do bem no mundo é o povo do bem na Derradeira Vida, e o povo do mal no mundo é o povo do mal na Derradeira Vida. E o primeiro a entrar no Paraíso é o povo do bem.” (Al-Ṭabarānī, al-Muʻjam al-Awsaṭ, 6:163, 6086)

E Ibn Abbas disse:

“Em verdade, boas obras fazem o rosto resplandecer, levam a luz para o coração, expandem o sustento, fortalecem o corpo, e levam amor para os corações da criação. E as más obras, levam escuridão para o rosto, escuridão à tumba e ao coração, fraqueza no corpo, limitam o sustento, e levam ódio aos corações da criação.(Ibn Qayyim al-Jawzīyah, Al-Jawāb al-Kāfī li-man Sa’ala ’an al-Dawāʼ al-Shāfi, 1:54)

Em particular, o ato virtuoso de preservar os laços familiares é um meio pelo qual Allah aumenta a quantidade de sustento e a duração da vida no nosso registro.

O Profeta ﷺ disse:

“Quem se agrada em ter seu sustento ampliado e sua vida prolongada, que mantenha boas relações com a família.” (Sạhị̄h al-Bukhārī, 8:5, 5985)

E Ibn Umar disse:

“Quem temer seu Senhor e preservar os laços familiares, sua vida será prolongada, sua riqueza prosperará e sua família o amará.” (Al-Bukhārī, Kitāb al-Adab al-Mufrad. 1:34, 59)

Entre as obras mais importantes que fazem diferença estão a oração e a súplica. Na verdade, não há nada que afaste o mal da providência divina como a súplica.

O Profeta Muhammad ﷺ disse:

“Nada afasta o decreto divino senão a súplica, e nada prolonga a vida senão a virtude.” (Sunan al-Tirmidhī, 4:16, 2139)

E o Profeta ﷺ disse:

“Não há muçulmano na terra que invoque Allah durante a súplica que Allah não concederá [o que ele suplicou] a ele ou fará com que algum mal se afaste dele, contanto que ele não peça por algo pecaminoso ou que laços familiares sejam cortados.” (Sunan al-Tirmidhī, 5:485, 3573)

O próprio Profeta ﷺ suplicava a Allah por proteção contra um destino ruim, reconhecendo que é Allah somente que possui o poder para decretar:

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“Ó Allah, me orienta entre os que orientaste, me perdoa entre os que perdoaste, me proteja entre os que protegeste, me abençoa no que concedeste a mim, e me guarda do mal daquilo que criaste. Em verdade, Tu somente decretas e ninguém pode decretar algo a Ti. Em verdade, não pode ser humilhado aquele que é protegido por Ti. Bendito és, nosso Senhor, o Onipotente.” (Sunan al-Tirmidhī, 1:587, 464)

E Abu Huraira relatou:

“O Profeta ﷺ buscava refúgio em Allah do mal do decreto divino, de cair no sofrimento, de seus inimigos rejubilarem de seus infortúnios, e de uma provação difícil.” (Sạhị̄h Muslim, 4:2080, 2707)

De maneira semelhante, foi relatado dos companheiros e dos virtuosos predecessores que eles pediam a Allah precisamente que mudasse o destino deles, de ruim para bom.

Abu Uthman Al-Hindi testemunhou Umar ibn Al-Khattab realizar as circum-ambulações (o Tawaf) em torno da Casa (Caaba), e ele chorava, dizendo:

“Ó Allah, se me registrou entre os abençoados, confirme o registro. E, se me registrou entre os pecadores e os condenados, remova o registro e me confirme entre os abençoados. Em verdade, apaga e confirma o que quer, e contigo está o Livro-matriz.” (Al-Ṭabarī, Jāmiʻ al-Bayān, 16:482, 13:39)

E Ibn Mas’ud disse:

“Ó Allah, se me registrou entre os condenados, apague isso de mim e me confirme entre os abençoados.” (al-Ṭabarānī. Al-Mu’jam al-Kabīr. 9:171, 8847)

E Shaqiq ibn Salamah disse:

“Ó Allah, se nos registrou entre os infelizes, apague isso de nós e nos registre entre os abençoados, e se nos registrou entre os abençoados, nos confirme entre eles. Em verdade, pode apagar e confirmar o que quiser, e contigo está o Livro-matriz.” (Abū Nuʻaym, Ḥilyat al-Awliyā’wa Ṭabaqāt al-Aṣfiyā’. 4:103)

Nossos predecessores compreendiam que, o que quer que se passa – positivo ou negativo – é do decreto de Allah. Num caso, Umar partiu para a Síria e, quando chegou, eles descobriram que havia uma epidemia, então Umar anunciou que retornariam à Medina. Abu Ubaidah perguntou a ele: “Você foge do decreto de Allah?”. E Umar respondeu:

“Que fosse outra pessoa que o tivesse dito, ó Abu Ubaidah! Sim, estamos fugindo do decreto de Allah para o decreto de Allah. Você não vê que, se tivesse camelos descendo em direção a um vale com dois campos, um fértil e o outro estéril, vocês pastariam no campo fértil pelo decreto de Allah ou pastariam no campo estéril pelo decreto de Allah?” (Sạhị̄h al-Bukhārī, 7:130, 5729)

Umar entendia que o que quer que acontecesse como resultado de suas ações, seria do decreto de Allah. Portanto, ele deveria agir apropriadamente e ponderar as causas dos eventos. Neste caso, ele evitou a epidemia, pois viu que ela poderia causar males.

As pessoas costumam assumir erroneamente que confiar no decreto de Allah significa que não devemos agir, como alguém que não usa o cinto de segurança de seu carro, achando que não é de efeito no que Allah decide determinar. Mas o exemplo de Umar nos mostra que a verdadeira confiança em Allah significa que devemos agir com base no padrão das causas que observamos na vida diária.

Ibn Hajar comenta sobre a afirmação de Umar:

“Se ele age assim, é do decreto de Allah – evitar o que nos prejudica é um mandamento. Allah ordena a sucessão de fatos enquanto ele foge dela. Se ele fizesse ou deixasse de fazer, seria do decreto de Allah. Daqui, há duas perspectivas: a perspectiva da confiança em Allah e a perspectiva de se manter fiel a uma causa.” (Fatḥ al-Bārī, 10:185)

Essa é a verdadeira maneira de se confiar em Allah (tawakkul). Se trata de confiar em Allah com a consciência de que Allah decretou o bem para os que trabalham para o bem. Em outras palavras, temos fé de que, se trabalharmos para o nosso sustento, Allah o providenciará.

O Profeta ﷺ disse, segundo a autoridade de Umar:

“Se vocês confiassem em Allah com a confiança que devemos a Ele, ele os sustentaria como sustenta os pássaros. Eles saem de manhã com o estômago vazio e retornam saciados.” (Sunan al-Tirmidhī, 4:151, 2344)

E Umar disse:

“Que nenhum de vocês se abstenha de trabalhar pelo próprio sustento, suplicando a Allah que providencie, enquanto sabe que do céu não chove ouro ou prata.” (Al-Ghazzālī, Iḥyā’’Ulūm al-Dīn, 2:62)

E essa é a compreensão correta da providência divina. Entendemos que o mundo está cheio de causas e efeitos, então buscamos as causas para um bom destino, enquanto reconhecemos que não é nas causas que confiamos.

O Profeta Muhammad ﷺ disse: “Não há contágio,” declarando que a permissão para a ocorrência das doenças é segundo a vontade de Allah e ele ﷺ também disse: “Não misture os que estão doentes com os que estão saudáveis,” confirmando, dessa forma, o papel das causas mundanas no tratamento das doenças. (Sạhị̄h Muslim, 4:1743, 2221)

Com esse entendimento, dependemos de Allah somente, para que Ele faça com essas causas ocorram. Devemos considerar que toda intenção que fazemos para ações no futuro somente acontecerão segundo a vontade de Allah, pois sabemos que, pela nossa vontade e pela capacidade apenas, não acontecerão.

Allah disse:

“Jamais digas: Deixai, que farei isto amanhã, a menos que adiciones: Se Allah quiser!” (Alcorão, 18:23-24)

O ponto central de que devemos nos lembrar é que as ações e as causas, sem a vontade de Allah, são, em essência, nada, mas ainda assim são necessárias para ocasionar um bom destino. A ação sempre é prescrita para os crentes em relação ao decreto, antes de ele entrar em existência e depois de ele ser cumprido.

Ibn Taymiyyah escreve:

“O servo tem dois estados de existência quanto ao que é decretado: um estado antes do decreto e um estado após o decreto. É um dever dele, antes do decreto, buscar refúgio em Allah, depender d’Ele e invocá-Lo. Se o resultado do decreto não for das suas ações, deve ser paciente e ficar satisfeito com ele. Se for o resultado das ações e for uma bênção, ele louva a Allah por isso. Se for resultado de pecados, o servo busca o perdão d’Ele por isso.” (Majmū’ al-Fatāwà, 8:76)

Antes de o decreto ocorrer, devemos buscar refúgio em Allah, rezar e suplicar a Ele, confiar n’Ele, e fazer o trabalho necessário para alcançar um bom final. Depois de o decreto se cumprir, temos de aceitá-lo e prosseguir.

Se foi uma calamidade sem relação com nossas obras, como desastres naturais, aceitamos como parte das provações da vida e continuamos perseverando na fé. Se foi uma bênção, louvamos Allah e continuamos sendo gratos. Se foi resultado de nossas boas obras, louvamos a Allah por facilitar nossas boas obras. Se foi resultado de nossos pecados, buscamos perdão de Allah e fazemos o que deve ser feito para reparar. Em qualquer conjuntura, os crentes reagem ao decreto com ações.

Aceitar as calamidades que foram decretadas por Allah é uma das provações mais difíceis que enfrentamos na vida. Na verdade, a raiz fa-ta-na de “provação” (fitnah) carrega o significado de “ele colocou aquilo no fogo, isto é, o ouro e a prata, para separar, ou fazer distinção, entre o que é bom e o que é ruim.” Allah nos faz passar por provações, pois crescemos moralmente e espiritualmente por meio delas. De fato, algumas das piores provações trazem à tona o que há de melhor nas pessoas.

Dessa forma, uma vez que acontecer uma calamidade, devemos aceitá-la e seguir em frente. Não devemos viver no passado, relembrando os acontecimentos na nossa mente o tempo todo, em desespero.

O Profeta ﷺ disse:

“Se algo ruim lhe acontecer, não diga “se ao menos eu tivesse feito outra coisa.” Em vez disso, diga: “Allah decretou o que quis.” Em verdade, a frase, “se ao menos [eu tivesse…]” abre caminho para o trabalho do Satanás.” (Sạhị̄h Muslim, 4:2052, 2664)

Aceitar o decreto – neste caso, uma calamidade – é uma maneira de suscitar dentro de nós contentamento e tranquilidade mental, uma vez que temos fé de que há sabedoria divina por trás de todos os acontecimentos que podemos não compreender.

Dizer “se ao menos [eu tivesse…]” é um meio para o Satanás corromper essa tranquilidade. Al-Nawawi comenta sobre esse hadith: “’Abre caminho para o trabalho do Satanás’ significa que isso projeta no coração oposição ao decreto divino, e o Satanás o tenta com isso.” Tal como foi dito, não devemos brigar com o passado.

Aceitar o decreto depois do ocorrido, no entanto, não significa que não devemos aprender com nossos erros e experiências negativas. O Profeta Muhammad ﷺ também disse: “O crente não é picado duas vezes por algo que saia do mesmo buraco.” Isto é, não devemos cometer o mesmo erro duas vezes, nem devemos permitir que uma experiência negativa se repita, se pudermos evitar.

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No fim das contas, temos uma decisão a fazer nessa vida. Podemos decidir adorar o Criador e fazer boas obras ou podemos decidir ignorar os sinais do poder d’Ele na criação. De qualquer maneira, os resultados das nossas escolhas durarão para sempre.

O Profeta ﷺ disse:

“Ninguém entrará no Paraíso sem que lhe seja mostrado o lugar que ocuparia no Inferno se tivesse feito o mal, para que ele possa ser mais grato. Ninguém entrará no Inferno sem que lhe seja mostrado o lugar que ocuparia no Paraíso se tivesse feito o bem, para que isso possa fazê-lo lamentar.” (Sạhị̄h al-Bukhārī, 8:117, 6569)

Cada um de nós tem um lugar no Paraíso e no Inferno. Onde quer que acabemos por habitar, a nós será mostrado o que poderia ter acontecido se tivéssemos tomado um caminho diferente, ou para que sejamos recompensados com a gratidão ou para que sejamos punidos com o pesar.

Por um momento, imagine que você pulou de paraquedas de um avião. Você tem dois destinos inescapáveis à sua frente. Ou vai abrir o paraquedas e sobreviver ou não vai abrir e, assim, morrer. Ambas essas possibilidades foram decretadas para você. Não há terceira opção. Não há a opção de voltar para a segurança do avião. Depende de você fazer a escolha e cumprir o destino que deseja.

De maneira parecida, estamos fadados ao Paraíso ou ao Inferno. Não podemos escapar do decreto da eternidade – não há como mudar o que foi iniciado desde o começo do tempo. Ainda assim, o caminho que leva à felicidade eterna no Paraíso foi disposto à nossa frente. Aquilo para que usamos nosso livre arbítrio para fazer, faz a diferença. A decisão de dar ou não dar o primeiro passo na jornada é somente nossa.

O Mistério da Providência Divina

Por que o decreto divino parece entrar em conflito com o livre arbítrio humano? A nossa noção de tempo e espaço limita a nossa capacidade de compreender por completo qualquer coisa que esteja além dela. Não somos capazes de conceber uma realidade atemporal, não linear, por ela mesma, muito menos a essência das ações e dos decretos de Allah, o Onipotente, de além dos confins do tempo e do espaço.

O passado, o presente e o futuro, são todos conceitos dos quais a mente humana não pode escapar. Então, não parece intuitivo para nós que as nossa ações futuras tenham sido determinadas no passado. Mas para Allah, não há passado, presente, ou futuro, uma vez que Ele somente controla o tempo em si.

Como disse o Profeta Muhammad ﷺ: “Que nenhum de vocês amaldiçoe o tempo, pois o próprio Allah é tempo,” indicando que Allah é o Criador do tempo. Allah não está decidindo os assuntos que estão no futuro e esperando que eles transcorram. Ele apenas decreta a realidade segundo a Sua vontade: “Quando Ele decreta alguma coisa, basta-Lhe dizer: ‘Seja!’ e ela é.”

No fim, devido à nossa capacidade limitada de conceber realidades além do tempo e do espaço e além de causas e efeitos físicos, a providência divina é um enigma. É um mistério em sua essência, uma vez que o livre arbítrio e a providência aparentam ser uma contradição. Também é um mistério em seus detalhes, dado que muitas vezes não conseguimos discernir diretamente a sabedoria oculta por trás das catástrofes e do mal que Allah permite acontecer.

Como resultado, os sábios enfatizam que a providência é um segredo de Allah, e que se aprofundar demais nela, filosoficamente, é algo que leva ao desvio.

O credo de At-Tahawi afirma:

“A exata natureza da providência é o segredo de Allah na criação d’Ele, e nenhum anjo próximo ao Trono, nem Profetas enviados com a mensagem, receberam conhecimento acerca dele. Exageros (al-ta’ammuq) e debates sobre essa questão são coisas que levam somente à perda e à destruição e resultam em rebeldia. Tenha total cautela com esse tipo de discussão, de pensamento e insinuação.” (Al-Ṭaḥāwī, Matn al-Ṭaḥāwīyah, 1:49-50)

Aqui, “al-ta’ammuq” significa ficar absorto e imerso nas controvérsias filosóficas acerca do assunto da providência. Foi esse tipo de exagero e extremismo que levou à primeira divisão dos Qadaritas e dos Jabaritas da comunidade principal dos muçulmanos. Até os dias de hoje há filósofos, teólogos e cientistas que puxam a ideia demais para uma das duas direções, para longe do caminho do meio do Islam.

Consequentemente, o Profeta ﷺ proibiu seus companheiros de discutirem sobre a providência. Em uma ocasião em que eles estavam discutindo sobre o assunto, o Profeta ﷺ se irou e disse:

“Isso que vos comandei? Com isso que fui enviado a vós? Em verdade, os povos antes de vós foram destruídos quando discutiram sobre este assunto. Estou determinado que vocês não devem debatê-lo.” (Sunan al-Tirmidhī, 2133)

O Profeta ﷺ também nos ordenou a termos muito cuidado e disciplina na maneira com que discutimos o destino, com as palavras: “Se a providência for mencionada, contenham-se.”

Dessa forma, de acordo com o grande Imam Ahmad ibn Hanbal, o princípio é que devemos aceitar a providência tal como ela vem, acreditando “no bem dela e no mal dela, afirmando os hadiths que falam sobre ela e tendo fé neles, sem perguntar como ou por quê.” Esse é o princípio de bi la takyif (não perguntar “como”) e é o mesmo princípio que orienta a nossa interpretação dos nomes e atributos de Allah. Outra maneira de expressar esse princípio é “al-tawqif”, que significa “parar nos textos”. Ibn Hajar cita Al-Sam’ani:

“A via do conhecimento neste assunto (da providência) é suspender o juízo (al-tawqif) no Livro e na Sunnah sem recorrer à analogia pura ou à razão. Quem não parar (nos textos) se desviará e se perderá num mar de confusão. Não alcançará aquilo que cura a mente ou o que satisfaz o coração, pois a providência é um segredo entre os segredos de Allah, o Onipotente.” (Fatḥ al-Bārī, 11:477)

É uma tolice interpretar “o Trono”, ou “a Mão de Allah” ou “o Onividente” fazendo comparações com as nossas realidades mundanas, pois Allah está além do escopo da nossa compreensão. Apesar de as palavra serem familiares a nós e o significado geral ser inteligível, as realidades mais profundas são inconcebíveis. Da mesma maneira, entendemos a realidade simples da providência através das imagens literárias da Pena, da Tábua Preservada e do registro das ações. Qualquer investigação que vá além disso é impossível e nos desviará.

A análise racional e a deliberação filosófica têm seu lugar, com certeza, mas certas realidades divinas estão além dos limites da mente humana. Longe de ser fé cega e obtusa, para compreender isso é necessário um reconhecimento íntegro da nossa humildade perante as verdades do Invisível, que o que está além dos nossos sentidos é uma realidade expansiva, incognoscível.

Conclusão

A providência divina é um dos seis artigos de fé do Islam, e ainda assim foi um dos primeiros conceitos a serem disputados – o que resultou em sectarismo nas primeiras gerações. O conflito aparente se dá entre a soberania de Allah e a responsabilidade dos seres humanos. Incapazes de conciliar essas duas realidades, os Qadaritas e os Jabaritas colocavam uma ideia acima da outra, cada um dos dois grupos gerando uma teologia incompleta. 

O Alcorão e a Sunnah seguem o caminho intermediário entre os dois extremos. Allah é soberano sobre o universo, conhece todas as coisas antes delas acontecerem e decreta a existência delas com poder sem limite. Ao mesmo tempo, Allah delegou vontade para os seres humanos para testar suas obras, culminando no Dia do Juízo.

A realidade da providência é transmitida a nós por meio das imagens literárias da Pena, da Tábua Preservada e dos registros das ações. Allah decretou todas as coisas na Tábua Preservada que, num sentido absoluto, não muda. No entanto, o cumprimento desses decretos pode mudar com base nas nossas ações.

Se Allah declarou um destino ruim para nós, Ele pode mudá-lo se suplicarmos sinceramente para Ele ou se fizermos uma boa obra por Ele. A nossa vontade concedida por Allah, subordinada à vontade d’Ele, direciona o destino que Allah coloca em existência para nós. Todas as pessoas, no fim das contas, têm dois fins possíveis decretados na Derradeira Vida, o Paraíso ou o Inferno, e somente um deles se cumprirá.

Essa imagens literárias são a melhor e mais fácil maneira de entender o que, de outra forma, seria uma controvérsia filosófica complicada. Sob essa luz, os sábios nos disseram que devemos suspender nosso juízo nos textos e evitar os perigos de se debater esse assunto.

O sucesso vem de Allah, e Allah sabe mais.

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Fonte: https://abuaminaelias.com/wp-content/uploads/2018/05/Reconciling-divine-decree-and-free-will.pdf

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