Página Inicial » História Islâmica » Declínio do Império Otomano – Parte 1: Políticas e Economia

Declínio do Império Otomano – Parte 1: Políticas e Economia

Como foi o início do declínio do Império Otomano? Leia e entenda como essa potência começou a declinar a partir da política e economia
  • O Império Otomano durou entre os anos 1300 e 1922, atingindo seu auge por volta do século XV.
  • No sultanato, a sucessão era hereditária. Os filhos do sultão eram governadores e ele escolhia qual deles o sucederia após sua morte.
  • Porém, Ahmed I mudou o sistema de sucessão, o que gerou novos governantes despreparados e incompetentes.
  • Outros problemas, como inflação e acordos com os novos Estados europeus, favoreceram o declínio do Império.

Ao longo da história islâmica, impérios se levantaram e caíram durante 1400 anos. Os omíadas, abássidas, mamelucos, mongóis e otomanos são apenas algumas das principais dinastias do Islam que se destacaram, alcançando uma idade de ouro e, eventualmente, declinando e só sendo lembrados nos livros de história. Ibn Khaldun, em sua brilhante obra historiográfica, a Muqaddimah, afirma que “dinastias têm uma vida natural, como indivíduos” e que a dinastia “cresce e passa para uma era de estagnação e, em seguida, vem o retrocesso.” O perspicaz Ibn Khaldun disse essas palavras em 1337, que são de fato uma realidade para a história do último grande império muçulmano, o Império Otomano.

O Império Otomano começou como um pequeno estado de sultões turcos na Anatólia (atual Turquia) em 1300. Em 1453, eles eram uma força poderosa e reconhecida, controlando terras na Europa e Ásia, com a capital em Istambul. Em meados dos anos 1500, o império tinha alcançado seu apogeu sob o Sultão Suleyman. Naquela época, era de longe o mais poderoso império e o maior da Europa, e também controlava o Norte da África, Península Arábica e partes da Pérsia. No entanto, como Ibn Khaldun afirmou, esta dinastia acabaria por entrar em um período de estagnação e, finalmente, diminuir. Este artigo vai analisar dois fatores que ajudaram a provocar a queda dos otomanos dos anos de 1500 até 1800 – um governo fraco e ineficaz e a estagnação econômica.

Governo

No seu auge em meados dos anos 1500, o Império Otomano controlava o Norte da África, Sudeste da Europa, e a Península Arábica.
No seu auge em meados dos anos 1500, o Império Otomano controlava o Norte da África, Sudeste da Europa, e a Península Arábica.

Desde o nascimento do Estado otomano, sob Osman Gazi, através do seu período de poder inigualável, em meados dos anos 1500, o centro do Império Otomano sempre foi o sultão. O Império Otomano era uma dinastia, então quando um sultão morria, seu filho ocuparia seu lugar. Todos estes primeiros sultões tinham muito orgulho de seu trabalho e tiveram um papel central na direção do império. Os sultões supervisionavam reuniões governamentais, contratavam e demitiam funcionários e conduziam pessoalmente campanhas militares para as bordas do império.

No entanto, havia um aspecto do sultanato que nunca foi totalmente formalizado – a sucessão. Os primeiros anos do Império Otomano foram marcados por inúmeras guerras civis, com filhos que lutavam entre si pelo poder depois que seu pai havia morrido. Normalmente, isso não era um grande problema, já que os sultões deixariam claro qual de seus filhos eles prefeririam para o trono. Em ocasiões que isso não ocorria, no entanto, as guerras dentro do império duravam anos e eram terrivelmente destrutivas para o poder do império.

Buscando resolver este problema, o sultão Ahmed I, que reinou entre 1603 até 1617, instituiu um novo sistema para a escolha de sultões. Em vez de os filhos do sultão serem governadores dentro do império até a morte do pai, eles ficariam no palácio em Istambul até que o tempo viesse para o novo rei. Na maioria dos casos, eles não foram sequer autorizados a deixar o palácio. Isto essencialmente os fez prisioneiros até que se tornassem sultões.

Embora as intenções de Ahmed I provavelmente tenham sido justas, os efeitos de sua política foram desastrosos. Antes dessa mudança, os novos sultões chegavam ao trono com experiência em governança e política mas, depois dela, eles geralmente eram ignorantes em qualquer assunto, exceto nos prazeres da vida no palácio. Por isso, foram completamente incompetentes como governantes de um império poderoso. Os 300 anos de tradição de sultões sendo os líderes poderosos, versáteis e capazes haviam acabado no Estado Otomano. Para dar algum contexto, os sultões otomanos viam o seu trabalho principal como sendo o comandante do exército. Todos os sultões otomanos levaram seus exércitos para a batalha e viam isso como um aspecto central para o seu trabalho. No entanto, o sultão Murad IV foi o último a liderar seu exército para a batalha, em 1638.

Sultão Ahmed I começou um novo sistema para a escolha de sultões em 1600
Sultão Ahmed I começou um novo sistema para a escolha de sultões em 1600

Apesar de sua inexperiência e incompetência, os sultões otomanos ainda estavam oficialmente no comando do império. Assim, sem educação e conhecimento de como gerir um império, eles ainda tinham o poder de dirigir o governo. O resultado disso foi um longo período de instabilidade administrativa completa. Vizires (ministros) foram nomeados e seguiam os caprichos do sultão, levando a grande dificuldade as políticas que nunca foram postas em prática. Além disso, já que a experiência e talento já não eram mais vistas como necessárias pelo sultão otomano, aqueles que desejavam avançar no serviço público não eram promovidos com base em suas habilidades. Em vez disso, suborno e favoritismo causaram estragos no governo otomano.

Com a ascensão de funcionários incompetentes no governo otomano central, um processo de descentralização começou. Os governos locais ganharam mais autonomia e mostraram menos respeito ao governo em Istambul. Em um nível prático, isso significava menos receitas fiscais enviadas para o governo central, o que gerou governo e militares fracos. Tudo isso ocorreu durante a ascensão dos impérios da Europa, como Inglaterra, França, Rússia e Áustria.

Economia

O declínio econômico estava indo de mãos dadas com o declínio político do império. Tradicionalmente, uma das principais fontes de renda do Império Otomano eram os saques durante as guerras. Quando o império atingiu seu tamanho máximo, em meados dos anos 1500, essa fonte de renda secou. Por causa do grande tamanho do império, as nações estrangeiras estavam cada vez mais distantes da capital, tornando as campanhas contra essas nações tão caras que, de fato, não fazia sentido econômico manter a expansão.

Outro aspecto econômico que afetou o império em 1600 foi a inflação. Nos anos 1500 e anos 1600, os países da Europa Ocidental, como a Espanha, Inglaterra e França, estavam explorando e conquistando o Novo Mundo através do Atlântico. Suas conquistas lhes trouxeram enormes quantidades de ouro e prata, especialmente para os espanhóis, com a extração no México. A economia Otomana era baseada em prata: moedas foram cunhadas neste metal, os impostos eram cobrados em prata, e os funcionários do governo pagos em prata. O grande fluxo de prata proveniente da América desvalorizou drasticamente a moeda Otomana, de acordo com as leis econômicas de oferta e demanda.

Estas estatísticas mostram como a inflação foi ruim nos anos 1500 e 1600 no Império Otomano: em 1580, uma moeda de ouro poderia ser comprada por 60 moedas de prata. 10 anos depois, em 1590, custaria o dobro, 120 moedas de prata. E em 1640, eram necessárias 250 moedas de prata para comprar uma de ouro. Esta inflação fez os preços em todo o império subirem, prejudicando os cidadãos médios e o império como um todo.

Como estes processos de estagnação econômica e de queda continuaram durante os anos 1600 e 1700, o governo central teve que procurar novas fontes de renda. Ao mesmo tempo, as nações europeias estavam ganhando vantagem sobre os otomanos militarmente, politicamente e economicamente. Como resultado, uma nova política de capitulações econômicas e concessões começou. Capitulações eram acordos entre o governo otomano e alguns governos europeus (geralmente o francês), dando a estes o controle sobre toda uma indústria dentro do Império Otomano, em troca de um pagamento único e/ou apoio diplomático. Por causa da relativa fraqueza do Império Otomano em comparação com países europeus, foi necessário entrar em tais acordos.

Os efeitos colaterais negativos desses acordos foram devastadores. Por exemplo, em 1740, o Império Otomano entrou em um acordo com a França que deu aos cidadãos franceses o direito de viajarem e fazerem comércio em qualquer parte do Império Otomano. Com produtos mais baratos e melhores, eles foram capazes de começar a empurrar para fora comerciantes otomanos locais, prejudicando a economia em geral. Além de concessões econômicas, as capitulações também resultaram na perda de soberania do governo otomano. No mesmo acordo, os franceses receberam plena jurisdição sobre os seus próprios cidadãos e todos os católicos romanos no Império Otomano. Com efeito, o que isto quer dizer é que o governo otomano não tinha autoridade para fazer cumprir as leis sobre essas pessoas, mesmo que estivessem dentro das fronteiras do império.

As capitulações dos anos 1700 e 1800 foram uma das maiores razões para o declínio do Império Otomano durante este tempo. Esta série de contratos humilhantes colocaram o império em posição de subserviência às nações europeias, que se referiam ao Império Otomano como o “homem doente da Europa”.

As razões para o declínio do Império Otomano será analisada na parte 2 do Declínio do Império Otomano.

Bibliografia

Hodgson, M. G. S. The Venture of Islam, Conscience and History in a World Civilization. 3. Chicago, IL: University of Chicago Press, 1974.

Khaldūn, Ibn. The Muqaddimah, An Introduction To History. Bollingen, 1969.

Ochsenwald, William, and Sydney Fisher. The Middle East: A History. 6th. New York: McGraw-Hill, 2003.

Traduzido de Lost Islamic History

Links para Leitura

Sobre a Redação

A Equipe de Redação do Iqara Islam é multidisciplinar e composta por profissionais da área de Marketing, Ilustração/Design, História, Administração, Gestão de Recursos Humanos, Tradutores Especializados (Árabe e Inglês) e especialistas na Religião Islâmica. Atualmente a equipe é composta por 10 profissionais.