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O Lugar do Sufismo nas Ciências Islâmicas Tradicionais – Sh. Nuh Keller

Talvez o maior desafio em aprender o Islã hoje, é a escassez de um ulama tradicional. Nesse sentido, Bukhari relata o Sahih, hadith rigorosamente autenticado, de que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse:

“Verdadeiramente, Allah não remove o Sagrado Conhecimento de seus servos, mas sim das almas dos estudiosos islâmicos [na morte] até que, Ele não tenha deixado um único sábio, as pessoas tomem os ignorantes como líderes, aqueles que quando são solicitados, emitem fatwas sem conhecimento, sem orientação e com maldade no coração “(Fath al-Bari, 1.194, hadith 100).

O processo descrito pelo hadith ainda não está concluído, mas certamente começou e, em nossos tempos, a falta de estudiosos tradicionais – seja na lei islâmica, em hadith, ou na “exegese do Alcorão” – deu origem a um entendimento da religião que está longe de ser acadêmica, e às vezes longe da verdade. Por exemplo, no curso que fiz sobre lei islâmica, minha primeira impressão sobre a literatura orientalista e reformista muçulmana, foi que os imãs dos madhabs ou “escolas de jurisprudência”, trouxeram um conjunto de regras completamente fora da tradição islâmica e de alguma forma, as impôs aos muçulmanos. Mas quando me sentei com estudiosos tradicionais no Oriente Médio e questionei sobre os detalhes, meu ponto de vista era outro, tendo em vista que absorvi bases diferentes para obtenção da lei advinda do Alcorão e da Sunna.

E da mesma forma aconteceu com o Tasawwuf, que é a palavra que vou usar, já que nosso contexto é o islamismo tradicional, no qual surgiu um quadro diferente ao falar com estudiosos de Tasawwuf, do que eu estava acostumado no Ocidente. Minha conversa, In Sha ‘Allah, apresentará os conhecimentos tirados do Alcorão, dos hadiths sahih e de professores reais do Tasawwuf vindos da Síria e da Jordânia. Tendo em vista a necessidade que todos nós temos em obter informações precisas das fontes islâmicas, como também a necessidade de responder a perguntas como: de onde veio Tasawwuf? Qual o papel desempenhado dentro da religião islâmica? E, o mais importante, qual é a ordem de Deus quanto a isso?

Quanto à origem do termo Tasawwuf, como muitas outras informações islâmicas, seu nome não era conhecido pela primeira geração de muçulmanos. O historiador Ibn Khaldun (1332-1406) escreveu em seu livro chamado Muqaddima:

“Este conhecimento é um ramo das ciências da Lei Sagrada, que se originou dentro da Umma. Desde o início, o caminho de tais pessoas também foi considerado o caminho da verdade e orientação pelas primeiras comunidades muçulmanas, seus membros importantes, pelos Companheiros do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz), por aqueles que foram ensinados por eles , e por aqueles que vieram depois deles.”

Basicamente, consiste na dedicação a adoração e dedicação total a Deus Altíssimo, deixando de lado a elegância e a beleza do mundo, se abstendo do prazer, da riqueza e do prestígio procurados pela maioria dos homens, e se isolar das pessoas para poder adorar em um lugar que esteja somente você. Esta foi a regra geral entre os Companheiros do Profeta (Allah os abençoe e lhes dê paz) e os primeiros muçulmanos, mas quando o envolvimento nas coisas mundanas se tornou algo comum, a partir do segundo século islâmico, e as pessoas se tornaram absorvidas pelo mundanismo, aqueles que eram devotos e viviam para adorar a Deus, foram chamados de Sufis ou Povo do Tasawwuf (Ibn Khaldun, al-Muqaddima [Nd Reimpressão. Mecca: Dar al-Baz, 1397/1978], 467).

Nas palavras de Ibn Khaldun, o conteúdo do Tasawwuf, que é a “total dedicação a Deus, o Altíssimo”, era “a regra geral entre os Companheiros do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) e os primeiros muçulmanos”. Sabemos que esses termos não existiam antigamente, mas não devemos esquecer que esse também é o caso de muitas outras disciplinas islâmicas, como tafsir que é a exegese do Alcorão; ilm al-jarh wa ta’dil que é a ciência dos fatores positivos e negativos que afetam a aceitação dos narradores de hadith; e ilm al-tawhid  que é a ciência da crença em princípios islâmicos de fé e monoteísmo. Todo esse conjunto de disciplinas, provaram ser de extrema importância para a preservação e transmissão correta da religião.

Quanto à origem da palavra Tasawwuf, pode advir do Sufi, a pessoa que pratica o Tasawwuf, parece estar etimologicamente anterior a ela. O primeiro a mencionar tal termo, foi Hasan al-Basri, que faleceu 110 anos após a Hijra, ele então disse: “Eu vi um sufi circundando a Kaaba, e lhe ofereci um dirham (unidade monetária), mas ele não aceitou.” Portanto, a melhor maneira de entender o Tasawwuf é perguntando o que é um sufi, e a melhor definição de ambos, sufi e o caminho que ele percorre, certamente um dos mais freqüentemente citados pelos mestres da disciplina, é a da sunna do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) que diz:

Allah, o Altíssimo, diz: “Aquele que é hostil com um amigo meu, eu declaro guerra contra. Meu servo se aproxima de Mim com nada mais amado por mim, senão o que eu declarei obrigatório pra ele, e meu servo continua se aproximando de mim com obras voluntárias até que eu o ame mais. E quando eu o amo, eu sou ouvido com o qual ele ouve, a visão com que vê, a mão com que ele apreende e o pé com o qual ele caminha. Se ele me pede, certamente lhe darei, e se ele buscar refúgio em Mim, certamente o protegerei “(Fath al-Bari, 11.340-41, hadith 6502);

Este hadith foi relatado por Imam Bukhari, Ahmad ibn Hanbal, al-Bayhaqi e outros com múltiplas cadeias contíguas de transmissão, e é sahih. Ele revela a realidade central do Tasawwuf, que é precisamente mudança, enquanto descreve o caminho para essa mudança, de acordo com uma definição tradicional usada pelos mestres no Oriente Médio, que definem um sufi como Faqihun ‘amila bi’ ilmihi fa awrathahu Llahu ‘ ilma ma lam ya’lam, “Um homem de aprendizado religioso que aplicou o que sabia, então Deus lhe transmitiu o conhecimento daquilo que ele não conhecia”.

Para esclarecer, um sufi é um homem com conhecimento religioso, em relação a isso o hadith diz: “Meu escravo se aproxima de mim com nada mais amado por mim, do que aquilo que lhe fizemos obrigatório”, e somente através do conhecimento sufi pode-se conhecer as ordens Deus, ou o que foi dito como obrigatório por Ele. Ele aplicou o que sabia, porque o hadith diz que ele não só se aproxima de Deus com o obrigatório, mas “continua se aproximando de Mim com obras voluntárias até eu o amar.” E, por sua vez, Deus transmitiu o conhecimento sobre aquilo que ele não sabia, em relação a isso o hadith diz: “E quando eu o amo, sou a sua audição com a qual ele ouve, a visão com que vê, a mão com a qual ele apreende e o pé com o qual ele caminha”, que é uma metáfora para a consciência consumada do tawhid ou a “unidade de Deus”, que no contexto de ações humanas como audição, visão, apreensão e caminhada, consiste em perceber as palavras do Alcorão sobre Deus que:

“Apesar de Deus vos ter criado, bem como o que elaborais?” 37:96

A origem do caminho dos sufis está inserido desse modo na sunna profética. A sinceridade para com Deus é regra entre os primeiros muçulmanos, e para quem esta condição era simplesmente um estado de ser, sem um nome, assim se tornou uma disciplina distinta, foi quando a maioria da Comunidade se afastou e mudou essa condição. Os muçulmanos das gerações subseqüentes tiveram que se esforçar sistematicamente para alcançá-lo, e foi por causa da mudança no ambiente islâmico após as primeiras gerações, a disciplina com o nome de Tasawwuf começou a existir.

Mas se isso é verdade sobre as origens, a questão mais significativa é: qual a centralidade do Tasawwuf na religião? E onde ele se encaixa no islamismo como um todo? Talvez a melhor resposta esteja no hadith narrado por Muslims, que ‘Umar ibn al-Khattab disse:

Certa vez nos sentamos com o Mensageiro de Deus (Deus o abençoe e lhe dê paz), então um homem de roupas brancas e um âmbar-negro chegou até nós, aparentemente sem vestígios de viagem, embora nenhum de nós o conhecesse. Ele se sentou diante do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) encostando joelho com joelho, apoiando as mãos nas pernas e disse: “Muhammad, me fale sobre o Islã”. O Mensageiro de Allah (Deus o abençoe e dê paz) disse: “O Islã testemunha que não há deus algum além de Deus e que Muhammad é o Mensageiro de Deus, e que pratique a oração, pague o zakat, realize o jejum do Ramadã e faça a peregrinação à Meca caso tenha condições.” Então o homem disse: “Você falou a verdade”, e ficamos surpresos, afinal ele perguntou e depois confirmou a resposta. Então continuou dizendo: “Conte-me sobre a verdadeira fé (iman)”, e o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) respondeu: “É acreditar em Deus, em Seus anjos, nos Seus livros, em Seus mensageiros, no Último Dia e na predestinação , sendo boa ou ruim “. “Você falou a verdade”, confirmou novamente, então ele disse: “Agora me fale sobre a perfeição da fé (ihsan)”, e o Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) respondeu: “É adorar a Deus como se o visse , e se você não o vê, ele, certamente, vê você “.

Então o hadith continua, onde ‘Umar disse:

Então o visitante se foi. Esperei um longo tempo, e o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) me disse: “Você sabe, ‘Umar, quem veio e questionar?”, E eu respondi: “Deus e o Seu mensageiro sabem melhor.” Então ele disse:

“Foi Gabriel, que veio até nós para ensinar sua religião” (Sahih Muslim, 1.37: hadith 8).

Este é um hadith sahih, descrito por Imam Nawawi, como um dos hadiths, sobre o qual a religião islâmica gira em torno. O uso do din nas últimas palavras dele, Atakum yu’allimukum dinakum, “veio a você para ensinar sua religião”, significa que o islã é composto pelos três fundamentos mencionados no hadith: o islã ou o cumprimento das ações externas que Allah nos ordena; Iman, ou a crença no invisível que os profetas nos informaram; e Ihsan, que significa adorar a Deus como se o visse. O Alcorão diz, na Surat Al Hijr,

“Nós revelamos a Mensagem e somos o Seu Preservador.” 15:9

e se refletirmos como Deus, em Sua sabedoria, concluiu isso, podemos perceber que agiu com misericórdia pelos seres humanos, veja então os estudiosos tradicionais que ele enviou em cada nível da religião. O nível do Islã foi preservado e transmitido pelos Imams da Shari’a ou “Lei Sagrada” e suas disciplinas auxiliares; o nível de Iman, pelos Imams de ‘Aqida ou’ princípios da fé ‘; e o nível de Ihsan, “adorar a Deus como se o visse”, pelos Imams do Tasawwuf.

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As próprias palavras do hadith para “adorar a Deus” nos mostram a inter-relação desses três fundamentos, pois a forma de “adoração” só é reconhecida através das prescrições externas do Islã, enquanto a solidez dessa adoração está relacionada ao Iman ou fé em Allah e na revelação islâmica, sem a qual a adoração seria movimentos vazios; enquanto que as palavras “como se você o visse”, mostram que o Ihsan implica numa mudança interna do ser humano, isso demanda experiência, o que, para a maioria de nós, não é experimentado. Então, para entender o Tasawwuf, devemos olhar para a natureza dessa mudança em relação ao Islã e Iman, e este é o foco principal do texto.

À nível de Islã, dizemos que Tasawwuf precisa da prática externa, ou seja, o Islã, através da “submissão às regras da Lei Sagrada”. E o Islã, por sua vez, precisa igualmente do Tasawwuf. Por quê? Pelo motivo óbvio de que as sunnas, que os muçulmanos foram ordenados a seguir, não são apenas palavras e ações do Profeta (Allah o abençoe e lhe dê paz), mas também sua condição e estados do coração, como taqwa (temor de Deus), ikhlas (sinceridade), tawakkul (confiança em Allah), rahma (misericórdia), tawadhu (humildade), e assim por diante.

Agora, é característico da ética islâmica que as ações humanas não sejam simplesmente divididas em duas sombras de moral, certo ou errado, mas sim, cinco, organizadas em ordem de acordo com suas conseqüências no próximo mundo. O obrigatório (wajib) é aquele cujo o ato é recompensado por Allah na próxima vida e cujo o ato de não praticar é punido. O recomendado (mandub) é aquele cujo ato é recompensado, e caso você não venha a praticar tal ato, não recebe punição. O permissível (mubah) é indiferente, sem conexão com qualquer recompensa ou punição. O ofensivo (makruh) é o fato de você não praticar algo ofensivo, faz com que você seja recompensado, mas caso você venha a praticar, você será punido. O ilícito (haram) é aquele cujo é recompensado caso não praticado e cujo é punido, se houver prática, salvo aqueles que cumpriram pena nessa vida.

O Alcorão e a Sunna nos fazem entender os níveis espirituais, que estão sob cada uma dessas classificações. No entanto, eles não são tratados em livros de fiqh ou “jurisprudência islâmica”, porque, ao contrário da oração, zakat ou jejum, eles não são quantificáveis em termos da quantidade específica os quais devem ser feitos. Mas, embora não sejam contáveis, são de extrema importância para todos os muçulmanos. Vejamos alguns exemplos:

  1. Amor a Deus.

Na Sura al-Baqara do Alcorão, Deus repreende aqueles que atribuem sócios a Ele, e aqueles que os ama tanto quanto amam a Deus. Então ele diz: “Entre os humanos há aqueles que adotam, em vez de Deus, rivais (a Ele) aos quais professam igual amor que a Ele; mas os fiéis só amam fervorosamente a Deus.” (Alcorão 2: 165), fazendo com que o crente esteja condicionado a ter maior amor por Allah do que por qualquer outro.

  1. Misericórdia.

Bukhari e Muslim relatam que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “Quem não é misericordioso com as pessoas, Allah não mostrará misericórdia para com ele” (Sahih Muslim, 4.1809: hadith 2319), e Tirmidhi relata um hadith (hasan)  “A misericórdia não é tirada de ninguém, exceto o condenado” (al-Jami ‘al-sahih, 4.323: hadith 1923).

  1. Amor um do outro.

Muslim relata em seu Sahih que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “Por ele, cuja mão é minha alma, nenhum de vocês entrará no paraíso até que você acredite, e nenhum de vocês acreditará até que você se ame. . . “(Sahih Muslim, 1.74: Hadith 54).

  1. Concentração na oração (salat).

Abu Dawud relata que ‘Ammar ibn Yasir ouviu o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) dizer: “De verdade, um homem sai, e nenhuma de suas orações foi registrada para ele, exceto um décimo delas, um nono disso, o oitavo dele, o sétimo, o sexto, o quinto, o quarto, o terceiro, metade dele “(Sunan Abi Dawud, 1.211: hadith 796) – isso significa que nenhuma das orações são contadas, exceto aquelas em que o indivíduo está de coração presente.

  1. Amor do Profeta.

Bukhari relata em seu Sahih que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “Nenhum de vocês acredita até ser mais amado dele do que o pai, o filho e todas as pessoas” (Fath al-Bari, 1.58, hadith 15).

Nota-se que nenhuma das situações mencionadas – seja a misericórdia, o amor ou a presença do coração – são quantificáveis, pois a Shari’a não consegue dizer quantas “unidades de misericórdia” ou “unidades de concentração” assim como acontece com o número de rak’as da oração, os quais podem ser especificados, mas cada um deles é obrigatório para cada um dos muçulmanos. Vamos completar a imagem, observando alguns exemplos de estados que são haram ou “estritamente ilegais”:

  1. Temor de alguém além de Deus.

Allah, o Altíssimo diz na Sura al-Baqara do Alcorão: “Cumpri o vosso compromisso, que cumprirei oMeu compromisso, e temei somente a Mim.”(Qur’an 2:40), cuja última frase, segundo Imam Fakhr al-Din al-Razi, “estabelece que um ser humano tem a obrigação de não temer ninguém além de Deus O Altíssimo “(Tafsir al-Fakhr al-Razi, 3.42).

  1. Desespero.

Allah, O Altíssimo diz: “…e não desespereis quanto à misericórdia de Deus, porque não desesperam da Sua misericórdia senão os incrédulos.” (Alcorão 12:87), apontando o quanto esse estado espiritual é ilegítimo, nos levando à margem da incredulidade.

  1. Arrogância.

Muslim relata em seu Sahih que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “Ninguém deve entrar no paraíso enquanto tiver uma partícula de arrogância em seu coração” (Sahih Muslim, 1.93: hadith 91).

  1. Inveja, o que significa desejar que outro perca as bênçãos recebidas.

Abu Dawud relata que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “Cuidado com a inveja, porque a inveja consome boas obras, assim como as chamas consomem a lenha” (Sunan Abi Dawud, 4.276: Hadith 4903).

  1. Exibir em atos de adoração.

Al-Hakim relaciona-se com uma cadeia de transmissão sahih que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse: “O mínimo fragmento de exibição das boas obras é como se adorasse outros em conjunto com Deus. “(Al-Mustadrak ‘ala al-Sahihayn, 1.4).

Estes e outros estados de espírito semelhantes não são encontrados em livros de fiqh ou “jurisprudência”, pois o fiqh só lida com fatos quantificáveis. Em vez disso, suas causas são examinadas e tratadas pelos estudiosos da ciência do Tasawwuf, homens como Imam al-Ghazali em Hishhim ‘ulum al-din [Imigração das ciências religiosas], Imam al-Rabbani em suas Maktubat, Al-Suhrawardi, em seu ‘Awarif al-Ma’arif, [Abu Dhabi Al-Makki] [O conhecimento das iluminações], Abu Talib al-Makki, em Qut al-qulub [O sustento dos corações] e obras clássicas semelhantes, que discutem e resolvem centenas de questões éticas sobre a vida interior. Estes são livros de Shari’a e suas abordagens são questões de Lei Sagrada, questões sobre o que é lícito e ilícito (ex: eu posso ser assim, mas não posso ser assim); e eles preservam a parte da sunnah profética que lida com estados de espírito.

Quem precisa dessas informações? Todos os muçulmanos. Os versos do Alcorão e os hadices autenticados apontam para o fato de que um muçulmano não deve apenas fazer certas coisas e dizer certas coisas, mas também deve ser algo, deve atingir certos estados do coração e eliminar os outros. Devemos analisar tais pontos: Tememos alguém além de Deus? Ainda temos uma partícula de arrogância em nossos corações? O nosso amor pelo Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) é maior que o nosso amor por qualquer outro ser humano? Somos exibicionistas quanto as nossas boas obras?

Meio minuto da reflexão mostrará ao muçulmano onde ele se encontra com relação à esses aspectos de sua religião e por que, nos tempos de ortodoxia, ajudar os muçulmanos a alcançar tal elevação espiritual não foi uma tarefa delegada à amadores, mas sim delegada aos sábios nas questões do coração, os estudiosos de Tasawwuf. Para a maioria das pessoas, estas não são transformações que acontecem da noite para o dia, isso se dá por causa da força do hábito, por conta da sutileza com que podemos enganar a nós mesmos, mas acima de tudo porque cada um de nós tem um ego, o Eu, que é chamado em al-nafs árabe, sobre o qual Allah testifica na Sura Yusuf:

“Porém, eu não me escuso, porquanto o ser é propenso ao mal, exceto aqueles de quem o meu Senhor se apiada, porque o meu Senhor é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (12:53)

Considere o hadith relatado por Muslim em seu Sahih, que diz:

A primeira pessoa a ser julgada no Dia da Ressurreição será um mártire da batalha.

Ele será ressucitado, Deus o reencontrará com Suas bênçãos sobre ele e os homens os reconhecerão, e Allah dirá: “O que você tem feito?”, Então o homem responderá: “Lutei até a morte por Você.”

Allah responderá: “Você mente. Você lutou só para ser chamado de herói, e já foi dito. “Então ele será condenado, arrastado pelo o seu rosto e então lançado ao fogo.

Então, será apresentado um homem que aprendeu o Conhecimento Sagrado, passou o conhecimento aos outros e que recitou o Alcorão. Deus irá lembrá-lo de seus dons e o homens os reconhecerão, e então Deus dirá: “O que você tem feito?” O homem responderá: “Eu adquiri o Sagrado Conhecimento, ensinei e recitava o Alcorão” tudo pela causa de Allah “.

Deus dirá: “Você mente. Você só aprendeu tal conhecimento somente para ser chamado de erudito e só recitou o Alcorão para ser chamado de recitador, e já foi dito. “Então ele será condenado, arrastado pelo o seu rosto e então lançado ao fogo .

Então, um homem será trazido à frente, a quem Deus providenciou generosamente, dando-lhe vários tipos de riqueza, e Deus o lembrará dos benefícios dados, e o homem irá reconhecê-los, a que Deus dirá: “E o que você fez com os benefícios? “O homem responderá:” Eu não gastei em nada do que o Senhor não ame, só fiz gastos em prol de Sua causa.”

Deus dirá: “Você mente. Você só agiu assim para ser chamado de generoso, e já foi dito. “Então ele será condenado, arrastado pelo o seu rosto e então lançado ao fogo (Sahih Muslim, 3.1514: hadith 1905).

Não devemos nos enganar com relação à isso, porque nosso destino depende disso: na nossa infância, nossos pais nos ensinaram a comportar-se através da aprovação ou da reprovação, e para a maioria de nós, isso impregnou e coloriu toda a nossa motivação para fazer as coisas. Mas quando a infância termina, e então crescemos, a religião deixa claro para nós, tanto pelo hadith citado acima, quanto pelas palavras do Profeta (Allah o abençoe e lhe dê paz) “A menor tentativa de se exibir por meio de boas obras é como se estivesse associando parceiros à Deus”. DEvemos ter em mente que ser motivado pelo que os outros pensam não é nada bom, e que devemos mudar inteiramente nossos motivos e, dali em diante, sermos motivados por nada além do desejo de agradar à Deus somente. A revelação islâmica diz ao muçulmano que é obrigatório quebrar seus hábitos de pensamento e motivação, mas não diz a ele como tem que ser feito. Para isso, ele deve ir até os estudiosos dessas ciências, de acordo com a ordem expressa no Alcorão:

“Antes de ti não enviamos senão homens, que inspiramos. Perguntai-o, pois, aos adeptos da Mensagem, se o ignorais!” (Alcorão 16:43)

Ou seja, pergunte aos sábios e estudiosos, caso você não tenha conhecimento sobre tal assunto.

Não há dúvida de que, trazendo essa mudança, purificando os muçulmanos e trazendo-os para a sinceridade espiritual, foi um dos deveres centrais do Profeta Muhammad (Deus o abençoe e lhe dê paz), porque Allah diz na Sura Al ‘Imran do Alcorão:

“Deus agraciou os fiéis, ao fazer surgir um Mensageiro da sua estirpe, que lhes ditou os Seus versículos, redimiu-os, e lhes ensinou o Livro e a Prudência” (Alcorão 3:164)

O que descreve explicitamente quatro tarefas da missão profética, a segunda delas, yuzakkihim significa precisamente “purificá-las” e não tem outro sentido lexical. Agora, é claro que esta função de ensino não pode, como parte de uma revelação eterna, ter terminado com a passagem da primeira geração, um fato que Deus confirma explicitamente em Sua determinação na Sura Luqman:

“…e segue a senda de quem se voltou contrito a Mim.” (Alcorão 31:15)

Esses versículos indicam o papel docente e transformador daqueles que transmitem a revelação islâmica aos muçulmanos e a escolha da palavra ittiba no segundo versículo, que é um termo mais geral, implica tanto em manter a companhia, quanto em seguir o exemplo de um professor. É por isso que, na história do Tasawwuf, achamos que, embora existissem muitos métodos e escolas de pensamento, essas duas coisas nunca mudaram: estar sempre na companhia de um professor e seguir seu exemplo – exatamente da mesma forma que os Sahabas foram elevados e purificados, pois estavam sempre na companhia do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) e sempre seguindo seu exemplo.

E é por isso que a disciplina do Tasawwuf foi preservada e transmitida por Tariqas ou grupos de estudantes sob o olhar e cuidados de um mestre particular. Primeiro, porque esta era a sunna do Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) em sua função de purificação descrita pelo Alcorão. Em segundo lugar, o conhecimento islâmico nunca foi transmitido apenas por escritos, mas sim de sábio para estudantes. Em terceiro lugar, a natureza do conhecimento em questão é o “estado de ser”, e não apenas o conhecimento, e, portanto, exige que seja retirado de uma sucessão de mestres vivos até que chegue ao Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz), pois o simples alcance e o número de estados de coração requeridos pela revelação, efetivamente tornam, a imitação do exemplo pessoal de um professor, o único meio efetivo de transmissão.

Até agora, falamos sobre Tasawwuf em relação ao Islã, como uma ciência da Sharia necessária para realizar plenamente a Lei Sagrada na vida de alguém, para alcançar os estados do coração exigidos pelo Alcorão e Hadith. Esta estreita conexão entre Shari’a e Tasawwuf é expressa pela declaração de Imam Malik, fundador da escola Maliki, de que “quem pratica Tasawwuf sem aprender Lei Sagrada corrompe sua fé, enquanto quem aprende Lei Sagrada sem praticar Tasawwuf se corrompe. Somente aquele que combina os dois prova a verdade. “É por isso que Tasawwuf foi ensinado como parte do currículo tradicional em madrasas em todo o mundo islâmico da Malásia para Marrocos, porque muitos dos maiores estudiosos da Shari’a desta Umma foram Sufis e pois até o final do califado islâmico no início deste século e o subseqüente controle ocidental e domínio cultural das terras muçulmanas, havia professores de Tasawwuf nas instituições islâmicas de ensino superior de Lucknow (na Índia) a Istambul, estendendo-se até o Cairo.

Mas há um segundo aspecto de Tasawwuf sobre o qual ainda não falamos; ou seja, sua relação com Iman ou Verdadeira Fé, o segundo pilar da religião islâmica, que no contexto das ciências islâmicas consiste em “Aqida ou” crença ortodoxa “.

Todos os muçulmanos acreditam em Deus e que Ele é transcendentalmente além de qualquer coisa concebível para a mente humana, pois o intelecto humano é preso dentro de seu próprio sentido, impressões e categorias de pensamento, como número, direcionalidade, extensão espacial, lugar , tempo e assim por diante. Deus está além de tudo isso; em suas próprias palavras:

“Nada se assemelha a Ele, e é o Oniouvinte, o Onividente.” (Alcorão 42:11)

Se refletirmos por um momento sobre este versículo, à luz do hadith de Muslim, sobre Ihsan que “é adorar a Deus como se o visse”, percebemos que o meio de ver aqui não é o olho, o qual vê somente coisas materiais, assim como ele é; nem a mente, que não pode transcender suas próprias impressões para chegar ao Divino, mas sim a certeza, à luz do Iman, cujo locus não é o olho ou o cérebro, mas sim a ruh, uma aptidão sutil que Deus criou dentro de cada um de nós chamada alma, cujo conhecimento é desobstruído pelos limites do universo criado. Allah, o Altíssimo, diz, por meio da exaltação da natureza dessa faculdade deixando um mistério:

“Perguntar-te-ão sobre o Espírito. Responde-lhes: O Espírito está sob o comando do meu Senhor, e só vos tem sido concedida uma ínfima parte do saber.” (Alcorão 17:85)

O sustento deste ruh é o dhikr ou a “lembrança de Deus”. Por quê? Porque os atos de obediência aumentam a luz da certeza e Iman na alma, e o dhikr está entre os maiores deles, como é atestado pelo hadith relatado por al-Hakim que o Profeta (Deus o abençoe e lhe dê paz) disse:

“Não posso dizer-lhe o melhor de suas obras, a mais pura delas aos olhos de seu Mestre, o mais alto em aumentar sua posição, melhor do que dar ouro e prata, e melhor para você do que encontrar seu inimigo e ferir seus pescoços , e eles ferem o seu? “Eles disseram:” Isto – o que é isso, ó Mensageiro de Allah? “e ele disse: Dhikru Llahi ‘azza wa jall,” A lembrança de Alá, O Todo Poderoso e Majestoso. “(al-Mustadrak’ ala al-Sahihayn, 1.496).

Aumentar a força do Iman através de boas ações e, particularmente, através do dhikr, tem enormes implicações para a religião islâmica e para a espiritualidade tradicional. Um não-muçulmano uma vez me perguntou: “Se Deus existe, então por que tudo isso batendo ao redor do mato? Por que ele não acaba de sair e dizer isso? “

A resposta consiste no fato de que o taklif ou “responsabilidade moral” nessa vida, não se preocupa apenas com as ações externas, mas também com o que acreditamos, nossa ‘Aqida – e a força com que acreditamos. Se a crença em Deus e outras verdades eternas não precisasse de esforço neste mundo, não haveria sentido em Allah nos responsabilizar por isso, seria automático, involuntário. Por exemplo, acreditamos que Londres está na Inglaterra. Não seria útil responsabilizar alguém por algo impossível de não acreditar.

Mas a responsabilidade que Deus colocou sobre nós é a crença no Invisível, como um teste nos fazendo escolher entre a incredulidade e a fé, para distinguir o crente do incrédulo e alguns crentes acima dos outros.

Isto porque o fortalecimento do Iman (fé) através de dhikr é de importância metodológica para Tasawwuf: não só fomos mandados como muçulmanos a acreditar em certas coisas, como também foi nos ordenado a ter absoluta certeza nessas coisas. O mundo que vemos ao nosso redor é composto de véus de luz e escuridão: acontecem certas coisas que diminuem o Iman de alguns de nós, e Allah nos ensina, quanto ao grau de certeza com que acreditamos, as verdades eternas da religião. Foi nesse sentido que “Umar ibn al-Khattab disse:” Se o Iman de Abu Bakr fosse comparado ao Iman de toda a Umma, o dele superaria o da Umma “.

Agora, na Aqida tradicional, um dos princípios mais importantes é a wahdaniyya ou “unicidade e singularidade” de Allah, O Altíssimo. Isso significa que Ele não possui nenhum parceiro ou sócio em Seu ser, em Seus atributos, ou em Seus atos. Mas a capacidade de manter esse discernimento na mente, em meio à um cotidiano conturbado, é uma função desempenhada pela força da certeza (yaqin) que temos no coração. Allah diz ao Profeta (Allah o abençoe e lhe dê paz) na Sura al-Araf do Alcorão:

“Dize: Eu mesmo não posso lograr, para mim, mais benefício nem mais prejuízo do que o que for da vontade de Deus.” (Alcorão 7:188)

Contudo, nós tendemos a confiar em nós mesmos e em nossos planos, e por conta da arrogância com relação a “Aqida”, é que nem nós e nem nossos planos, tem sucesso, e somente Deus nos dá o sucesso ou fracasso.

Caso queira testar o que acabei de dizer, na próxima vez em que for pedir ajuda pra alguém, analise seu interior, analise em quem seu coração está depositando confiança. Se você é como a maioria de nós, Deus não está na vanguarda dos seus pensamentos, apesar do fato de Ele sozinho controlar o resultado de tal aconselhamento. Não é um lapso no seu ‘Aqida, ou, pelo menos, da sua certeza?

A Tasawwuf corrige essas falhas, passo a passo, aumentando a confiança do muçulmano em Allah. Os dois principais meios do Tasawwuf, na obtenção da convicção exigida pela ‘Aqida são mudhakara, no qual se aprende os princípios tradicionais da fé islâmica, e dhikr, no qual aprofunda a certeza através da lembrança de Allah. Então Deus diz no Alcorão:

“Apesar de Deus vos ter criado, bem como o que elaborais?” (37:96)

No entanto, quantos de nós vive essa experiência no dia-a-dia? Pergunto isso, pois o Tasawwuf é o remédio para esta e outras deficiências de Iman (fé), para que se conseguisse aumentar a crença do muçulmano através de um sistema programado de ensino e de dhikr, tradicionalmente, foi então considerado obrigatório, e desde os primeiros séculos do Islã, provou que vale a pena.

A última pergunta com a qual vamos lidar é: o que dizer sobre os sufis, que lemos sobre, que violam os ensinamentos do islamismo?

A resposta é que existem dois significados para a palavra sufi: o primeiro é “Qualquer um que se considera um sufi”, que é a regra dos historiadores orientalistas do sufismo e dos escritores populares, que se opõem aos “Sufis” aos “Ulama”. “Eu acho que os versos e hadiths do Alcorão que mencionamos nesta noite sobre o alcance e o método do verdadeiro Tasawwuf mostram por que devemos insistir no primado da definição de um sufí como” um homem de aprendizado religioso que aplicou o que ele sabia, então Deus lhe legou o conhecimento do que ele não sabia.

A primeira coisa que um sufí, como um homem de conhecimento religioso precisa saber, é que a Shari’a e a Aqida estão acima de todo ser humano. Quem não sabe disso nunca será sufi, exceto no sentido orientalista da palavra – como por exemplo alguém em pé na frente da bolsa de valores, em um terno caro e com uma maleta falando com as pessoas e tentando convencê-las de que ele é corretor de ações. Um verdadeiro corretor de bolsa é outra coisa.

Como essa distinção é ignorada hoje por muçulmanos, de outra forma bem-intencionados, muitas vezes é esquecido que os sábios que criticaram os sufis, como Ibn al-Jawzi em seu Talbis Iblis, ou Ibn Taymiya em alguns momentos em suas Fatwas , ou Ibn al-Qayyim al-Jawziyya, não criticavam o Tasawwuf como uma disciplina acessória para a Shari’a. A prova disso é o Sifat al-safwa de cinco volumes de Ibn al-Jawzi, que contém as biografias dos mesmos Sufis mencionados no famoso manual Tasawwuf al-Risala al-Qushayriyya de Al Qushayri. Ibn Taymiya considerou-se um sufi da ordem Qadiri, e os volumes dez e onze de seu Majmu ‘al-fatawa de trinta e sete volumes são dedicados ao Tasawwuf. E Ibn al-Qayyim al-Jawziyya escreveu seu Madarij al-salikin de três volumes, um comentário detalhado sobre o trato de Abdullah al-Ansari al-Harawi sobre os níveis espirituais pertencentes ao caminho do sufismo, Manazil al-sairin. Esses trabalhos mostram que as críticas de seus autores não foram dirigidas ao Tasawwuf como tal, mas sim a grupos específicos da época, e eles devem ser entendidos pelo que são.

Como em outras ciências islâmicas, os erros ocorreram historicamente no Tasawwuf, a maioria derivando de não reconhecer a supremacia que a Shari’a e a ‘Aqida possuem acima de tudo. Mas esses erros não eram diferentes, inicialmente, por exemplo, os Isra’iliyyat (contos sem fundamento de Bani Isra’il) que se infiltraram na literatura do tafsir, ou o mawdu’at (falsificações de hadith) que se infiltraram nas ciências dos hadiths. Estes não foram levados como prova de que o tafsir era ruim, ou o hadith era desvio, mas sim, em cada disciplina, os erros foram identificados e avisados por Imams do campo de atuação, pois a Umma precisava ser tranquilizada. E essas correções são precisamente o que encontramos em livros como o Risala de Qushayri, o Ihya de Ghazali e outras obras do sufismo.

Por todas as razões que mencionamos, Tasawwuf foi aceito como uma parte essencial da religião islâmica pelos sábios A prova disso está presente em todos os estudiosos famosos das ciências da Sharia, que tiveram a educação superior em Tasawwuf, entre eles Ibn ‘Abidin, al-Razi, Ahmad Sirhindi, Zakariyya al-Ansari, al-‘Izz ibn’ Abd al-Salam Ibn Daqiq al-‘Eid, Ibn Hajar al-Haytami, Shah Wali Allah, Ahmad Dardir, Ibrahim al-Bajuri, ‘Abd al-Ghani al-Nabulsi, Imam al-Nawawi, Taqi al-Din al-Subki e Al -Suyuti.

Entre os Sufis que ajudaram o Islã com a espada, assim como também através da caneta, como por exemplo o livro Reliance of the Traveller, de 863, foram homens como:

  • o sheik da tariqa Naqshbandi Shamil al-Daghestani, que lutaram uma guerra prolongada contra os russos no Cáucaso, no século XIX
  • Sayyid Muhammad ‘Abdullah al-Somali, um sheik da ordem Salihiyya que liderou os muçulmanos contra os britânicos e italianos na Somália de 1899 à 1920;
  • Sheik Qadiri Uthman ibn Fodi, que liderou a jihad no norte da Nigéria de 1804 à 1808 para estabelecer o domínio islâmico;
  • Sheik Qadiri ‘Abd al-Qadir al-Jaza’iri, que liderou os argelinos contra os franceses de 1832 a 1847;
  • Darqawi faqir al-Hajj Muhammad al-Ahrash, que lutou os franceses no Egito em 1799;
  • Sheik al-Hajj Tijani, Umar Tal, que liderou a Jihad islâmica na Guiné, Senegal e Mali de 1852 à 1864;
  • e o Sheik Qadiri Ma ‘al-‘Aynayn al-Qalqami, que ajudou a organizar a resistência dos muçulmanos contra os franceses no norte da Mauritânia e no sul do Marrocos de 1905 à 1909.

É claro, a partir dos exemplos desses homens, que tivemos todo tipo de muçulmano aderindo ao sufismo e que o Tasawwuf não os impediu de servir ao Islã de qualquer maneira que pudessem.

Vamos então resumir:

Quando olhamos primeiramente para o Tasawwuf e para a Shari’a, descobrimos que muitos versos do Alcorão e hadiths sahih obrigam o muçulmano a eliminar mazelas do coração que são consideradas haram, como arrogância, inveja e medo de qualquer um além de Allah; e, por outro lado, adquirir características positivas e ao mesmos tempo obrigatórias como misericórdia, amor aos irmãos muçulmanos, presença de espírito em oração e amor ao Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz). Descobrimos que esses estados do coração não poderiam ser tratados em um livros de fiqh, cujo propósito é especificar os aspectos externos e quantificáveis da Shari’a. O conhecimento desses estados é, no entanto, de grande importância para todo muçulmano, e é por isso que foi estudado sob a ótica dos Ulama de Ihsan (mestres do tasawwuf) em todos os períodos da história islâmica até o começo do presente século.

Falando de Iman, descobrimos que embora a ‘Aqida dos Muçulmanos afirme que Allah tem algum efeito neste mundo, manter isso vivo em nossa mente diariamente não é um dado da consciência humana, mas sim uma função de um muçulmano altamente confiante, que possui convicção. E descobrimos que o Tasawwuf, como uma disciplina auxiliar de ‘Aqida, enfatiza o aumento sistemático dessa certeza através de ambos disciplinas, ensinando princípios de fé e dhikr, que é a lembrança de Allah, de acordo com as palavras do Profeta (Allah o abençoe e lhe dê paz) sobre Ihsan que “é adoração a Allah como se você O visse”.

Por último, descobrimos que as acusações contra o Tasawwuf, feitas por estudiosos como Ibn al-Jawzi e Ibn Taymiya, não eram dirigidas contra o Tasawwuf em princípio, mas sim para grupos e indivíduos específicos na época em que esses estudiosos viveram, a prova contra isso são os outros livros, escritos pelos mesmos autores onde mostram sua compreensão do Tasawwuf como uma ciência da Sharia.

Voltando ao início, com o desaparecimento de estudiosos islâmicos tradicionais da Umma, dois quadros muito diferentes do Tasawwuf emergem hoje. Se lemos livros escritos após o desmantelamento do tecido tradicional do Islã pelas potências coloniais no século passado, encontramos o grande embuste: o Islã sem espiritualidade e a Shari’a sem Tasawwuf. Mas se lemos as obras clássicas da erudição islâmica, aprendemos que Tasawwuf tem sido uma ciência da Shari’a, como tafsir, hadith ou qualquer outra, ao longo da história do Islã. O Profeta (que Deus o abençoe e lhe dê paz) disse:

“Verdadeiramente, Deus não olha para as suas formas exteriores e riqueza, mas sim em seus corações e suas obras” (Sahih Muslim, 4.1389: hadith 2564).

E esta é a mais brilhante esperança que o Islã pode oferecer a um mundo moderno, obscurecido pelo materialismo e pelo niilismo: o Islã como é de fato. A esperança da salvação eterna através de uma religião de fraternidade, justiça social e econômica exteriormente, e a experiência direta do amor e luz divina dentro dos corações.

© Nuh Ha Mim Keller 1995

Este é o texto extraído de uma palestra na Fundação Islâmica (Markfield Centre, Leicester) em janeiro de 1995, na Mesquita Croydon em 30 de janeiro de 1995.

 

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