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“Entre Allah e o homem não há intercessores” – Um ponto mal compreendido do Islam

Por Khalid Williams, do Mafahim de Sayyid ibn Alawi al-Maliki al-Makki

Muitas pessoas erram na sua compreensão da realidade dos intermediários, e inadvertidamente se apressam para concluir que todo intermediário é Shirk e que quem recorre a um intermediário, de qualquer que seja a espécie, associa parceiros a Allah, e que o estado dele neste quesito é o mesmo dos politeístas que dizem: “Não os adoramos senão para que eles nos aproximem de Allah” (Surat al-Zumar, 3). Essa afirmação é incorreta e a tentativa de usar este Ayah como prova é equivocada. Porque o nobre versículo é claro na sua severa condenação aos politeístas por adorarem ídolos como deuses ao lado de Allah, o Altíssimo, e pela associação deles a Ele, afirmando que somente adoram a esses ídolos como meio de se aproximarem de Allah. O kufr e o shirk das ações deles se originam da adoração por esses ídolos e da crença de que eles, além de Allah, são senhores.

Uma coisa muito importante que deve ser ratificada aqui é que esse versículo confirma que os politeístas não eram sinceros na sua tentativa de justificar sua adoração de ídolos, afirmando que os usavam para se aproximar de Allah. Pois, se fossem verdadeiros nessa alegação, Allah seria maior para eles do que os ídolos, e eles não teriam adorado a outro senão Ele. No entanto, Allah proibiu os muçulmanos de insultarem os ídolos dos politeístas com as Suas palavras: “E não injurieis os que eles invocam além de Allah: pois, eles injuriariam a Allah, por agressão, com ignorância. Assim, para cada comunidade, fizemos suas obras parecerem belas. Em seguida, seu retorno será a seu Senhor; então, informá-los-á do que faziam” (Surat al-An‘am, 108).

É transmitido de ‘Abd al-Razzaq, e ‘Abd ibn Hamid, e ibn Jarir, e ibn al-Mundhir, e ibn Abi Hatim e Abu al-Sheikh, por Qutada (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: “Os muçulmanos costumavam insultar e injuriar os ídolos dos descrentes e assim os descrentes insultavam e desacatavam Allah, o Poderoso, o Magnífico. Então Allah revelou: ‘E não injurieis os que eles invocam além de Allah: pois, eles injuriariam a Allah, por agressão, com ignorância.’” Esse é o motivo da revelação (sabab nuzul) do Ayah, que enfaticamente proíbe os crentes de proferirem insultos contra os ídolos que os politeístas costumavam adorar em Meca, porque esses insultos inevitavelmente enfureceriam quem acreditava em seu coração que aquelas estátuas e ídolos eram deuses com a capacidade de causar bem e mal. Essa fúria faria com que eles reagissem contra os crentes com insultos semelhantes contra o Único que eles adoravam, o Senhor dos Mundos e, dessa forma, atribuiriam a Ele imperfeições, mesmo Ele sendo absolutamente perfeito. Novamente, se eles fossem verdadeiramente sinceros na afirmação de que sua adoração de ídolos era somente um meio de se aproximar de Allah, eles não teriam ousado insultá-lo para vingar seus ídolos quando foram insultados. Por isso, é completamente evidente que os politeístas tinham muito menos estima por Allah do que tinham pelos seus ídolos.

Isso também é claro pelas palavras de Allah: “E se lhe perguntas quem criou os céus e a terra, em verdade, dirão: ‘Allah!’” (Surat al-‘Ankabut, 61). Se os politeístas realmente acreditassem que Deus, o Altíssimo, é o Único Criador, e que seus ídolos não criaram nada, eles adorariam Allah em vez dos ídolos deles ou ao menos teriam mais reverência por Allah do que tinham pelas pedras e estátuas. Por acaso essa afirmação deles condiz com a conduta de calúnia extrema com Allah, o Poderoso, o Magnífico, ao tentarem defender seus ídolos contra Ele? É claríssimo que as duas coisas não condizem nem um pouco. Além disso, o Ayah que consideramos aqui não é a única evidência de que os politeístas estimavam menos a Allah – mais que isso, muitos outros o complementam. Entre eles há a afirmação de Allah, o Altíssimo: “Eles separam para Allah uma parte das plantações e do gado que Ele criou e dizem ‘isto é para Allah’, na imaginação deles, ‘e isto para os parceiros (d’Ele) no que se refere a nós.’ Portanto, aquilo que separam para os parceiros que eles atribuam a Ele não chega a Allah, e aquilo que separam para Allah vai para os parceiros deles. Que vil o que julgam!” (Sura al-An‘am, 136.) Se não estimassem Allah menos do que estimavam seus ídolos, não teriam este viés contra Ele, que, como está no Ayah, é o que traz o julgamento de Allah sobre eles: “Que vil o que julgam!”

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Outra evidência é grito de Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele), antes dele entrar no Islam: “Hubal, ainda assim, seja exaltado!”, invocando o ídolo chamado “Hubal”, como transmitido por Bukhari, para que ele pudesse, naquele momento de conflito [1], sobrepujar o Senhor dos Céus e da Terra e Seu exército de Crentes, que tinham como objetivo sobrepujar os ídolos. Isso é uma amostra clara do estado dos politeístas e de como eles viam seus ídolos em relação a Allah, o Senhor dos Mundos.

É essencial que se entenda isso com uma compreensão verdadeira, pois pessoas demais constroem seus argumentos em cima disso tudo sem nenhuma compreensão.

Você não percebe que quando Allah ordenou aos muçulmanos que se voltassem à Caaba para rezar, eles se voltaram a ela durante a adoração, e a tomaram como direção para a oração (Qiblah)? Não é a Caaba que é adorada, e beijar a Pedra Negra também não é nada senão adoração a Deus, o Altíssimo, e seguir os passos do Profeta (que as Bênçãos e a Paz de Allah estejam com ele, com sua família e seus companheiros). Se qualquer muçulmano tivesse como intenção adorar qualquer uma das duas coisas, ele seria um politeísta, como aqueles que adoram ídolos.

Adorar a Allah por meio de intermediários é essencial e não pode ser chamado de shirk. Não podemos dizer que todos que usam intermediários entre eles mesmos e seu Senhor sejam mushriks. Se fosse assim, então todo ser humano seria um politeísta, pois todos os nossos assuntos necessitam de intermediários. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) recebeu o Alcorão pelo intermédio de Jibril. Jibril é o intermediário do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) e ele, por sua vez, era o maior intermediário dos Sahaba (que Allah esteja satisfeito com eles), pois eles iam correndo para ele em tempos de crise, e queixavam-se das suas necessidades para ele, e buscavam a intercessão e o Du‘a dele. Nessas situações, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz), nunca disse a eles “vocês cometeram shirk e kufr! Não é permitido que se queixem para mim e nem que busquem nada de mim; em vez disso, devem ir e pedir a Allah por si mesmos, pois, em verdade, Allah está mais próximo de vocês do que eu!” Longe disso, ele se levantava e suplicava por eles, e eles sabiam muito bem que, na realidade, Aquele que Concede é Allah, e que somente Allah é Quem Impede, Quem Expande e Quem Sustenta. Eles também sabiam que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) não os ajudaria senão com a permissão de Allah, por meio da generosidade d’Ele. O próprio Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Sou somente o que distribui; Allah é Quem Concede.” [2]

Portanto, é evidente que é permitido e correto descrever qualquer pessoa comum como alguém que livra da dificuldade e satisfaz necessidades; isto é, a pessoa é intermediária dessas coisas. Então, como será com o Nobre Mestre e Eminente Profeta, o Mais Ilustre entre a Humanidade e os Jinns, incontestavelmente o Melhor da Criação? Não foi o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “Quem livrar um muçulmano da dificuldade, Allah o livrará da dificuldade no Dia da Ressurreição”? [3] Assim, o Crente é quem livra da dificuldade e da crise.

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Não foi ele (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “Para aquele que satisfaz a necessidade do seu irmão, observarei a balança dele (no Dia do Julgamento) e, se (suas boas obras) não forem mais pesadas (do que as más), serei seu intercessor.”? [4] Então, o Crente é quem satisfaz necessidades.

Não foi ele (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “A quem abrigar um muçulmano, Allah abrigará no Dia da Ressurreição”? [5]

Não foi ele (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “Em verdade, Allah tem, entre Sua criação, aqueles a quem se busca em tempos de necessidade”? [6]

Não foi ele (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “Allah se ocupa de cuidar do Seu servo enquanto o servo se ocupar de cuidar do seu irmão”? [7]

Não foie le (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que disse: “Para quem ajuda o necessitado, Allah registra noventa e três boas obras”? [8]

Portanto, o Crente Alivia dificuldades, auxilia, protege, satisfaz necessidades e é aquele a quem buscam em tempos difíceis, ainda que, na realidade, é Allah, o Altíssimo e Magnífico, que ajuda, satisfaz e protege, No entanto, à medida em que o Crente é o intermediário nisso tudo, atribuir a ele as ações é completamente apropriado.

Foram transmitidos muitos Hadiths do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) que demonstram que Allah, Sutil e Altíssimo, alivia o castigo de todos aqueles que vivem na terra por meio daqueles que buscam o Seu perdão, e daqueles que preservam as Suas mesquitas e daqueles por meio dos quais Ele concede sustento e apoio às massas e as protege de perigos e tribulações.

Tabrani narra em “al-Mu’jam al Kabir”, e Bayhaqi em “al-Sunan” de Mani’ al-Daylmi (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Se não fossem certos servos de Allah, que Ele faz que se curvem diante d’Ele, certos bebês que Ele faz que mamem e um certo gado que Ele faz que paste, Ele faria cair o Seu castigo sobre todos vocês e os destruiria por completo.

Bukhari narra de Sa‘ad ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Por acaso vocês recebem a vitória e o sustento senão por meio daqueles de vocês que são fracos?”

Tirmidhi narra de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Pode ser que vocês recebam seu sustento por meio dele.” [9] Al-Hakim afirma que esse Hadith é Sahih.

Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com eles dois) relata que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Em verdade, Allah tem homens que foram criados para as necessidades das pessoas, que correm até eles em tempos de crise. Eles são aqueles que estão a salvo do castigo de Allah, o Altíssimo.” [10]

Jabir ibn ‘Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Em verdade, Allah concede virtude ao filho do, ao neto, à família e às famílias dos vizinhos muçulmano por meio da piedade e da sua virtude dele, e todos eles estão sob a proteção de Allah enquanto ele estiver entre eles.” [11]

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Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com eles dois) relata que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Em verdade, Allah, por meio do muçulmano piedoso, protege cem dos seus vizinhos da dificuldade e da discórdia.”

Então Ibn ‘Umar recitou o Ayah “E, se Allah não detivesse os homens, uns por outros, a terra corromper-se-ia.” (Surat al-Baqarah, 251) [12]. De Thawban [13], é relatado um Hadith que diz: “Restará entre vós sete homens, por meio dos quais receberão vitória, chuva e sustento, até que venha o Acontecimento de Allah (o Dia do Juízo).

‘Ubada ibn al-Samit narra que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Os Adbal [14] da minha comunidade são trinta. Por meio deles todos vocês recebem sustento, chuva e vitória.” ‘Ubada disse: “Tenho esperança que al-Hasan [15] seja um deles [16].

Os quatro Hadiths anteriores foram mencionados por al-Hafidh ibn Kathir em seu Tafsir do versículo do Alcorão citado acima – “E, se Allah não detivesse os homens…” e eles são apropriados como provas. De fato, por serem tão abundantes, seu conteúdo é Sahih (confirmado como autêntico com critérios rigorosos).

Anas bin Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) disse: “Nunca faltarão na terra quarenta homens semelhantes ao Amigo Íntimo (khalil) de Allah [17]. Por meio deles vocês recebem água e auxílio. Cada vez que morre um deles, Allah coloca outro em seu lugar.” [18].

O Maior Intermediário

No dia da Ressurreição, o Dia do Tawhid, o Dia do Iman, o Dia em que o Trono aparecerá, o benefício do maior intermediário virá à tona: o senhor da Estação Louvável (al-Maqam al-Mahmoud), cuja intercessão nunca é rejeitada e cuja garantia jamais é negada por Aquele que prometeu nunca desapontá-lo, ou humilhá-lo, ou desanimá-lo, ou entristecê-lo a respeito de sua comunidade, quando toda a criação buscá-lo e solicitar a sua intercessão, e ele ficar em pé em frente ao seu Senhor e não voltar senão com a estatura da nobreza e da honra reveladas a nós pelas palavras de Allah a ele: “Ó Muhammad! Levante a cabeça e interceda, sua intercessão será aceita; peça, e receberá!”

Que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele e com sua família, seus companheiros e todos aqueles que os seguirem até o Dia do Juízo.

Traduzido do livro “Noções que Devem Ser Corrigidas” [19], do Eminente e Nobre Herdeiro do profeta e Imam do Povo de Hijaz, o Sheikh Sayyid Muhhamad ibn al-Alawi al-Maliki al-Hassani. Que Allah o perdoe e esteja satisfeito com ele, e o recompense com a Sua infinita generosidade; e que Ele nos beneficie com a obra do sheikh, para que possamos servir melhor a Religião d’Ele e a comunidade do Seu Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele. Amin.

NOTAS

[1] Na Batalha de Uhud.

[2] Narrado por Bukhari de Mu‘awiyah (que Allah esteja satisfeito com ele)

[3] Narrado por Bukhari e Muslim de ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com os dois)

[4] Narrado por Abu Na‘im de ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com os dois)

[5] Narrado por Bukhari e Muslim de ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com os dois)

[6] Veja abaixo a referência deste Hadith

[7] Narrado por Muslim e Abu Dawud e outros de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele)

[8] Narrado de Abu Ya‘la e al-Bazar e Bayhaqi

[9] Texto completo do Hadith: “Haviam dois irmãos no tempo do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz). Um visitava o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz) em busca de conhecimento e o outro trabalhava para sustentar a si e ao irmão. O que trabalhava achava a situação injusta e se queixou do irmão ao Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz), que respondeu: “Pode ser que vocês recebam seu sustento por meio dele.”

[10] Narrado por Tabrani e Abu Na‘im e al’Qada‘i com uma boa cadeia de transmissão (hasan)

[11] Narrado por ibn Jarir e por Tabari, em seu Tafsir

[12] Narrado por Tabrani

[13] Um servo do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê a paz)

[14] Os Substitutos. Uma explicação do estado deles pode ser encontrada no Hadith abaixo, transmitido por Anas ibn Malik, Insha Allah.

[15] Al-Hasan al-Basri, um dos Tabi‘in

[16] Narrado por Tabrani.

[17] O Profeta Ibrahim (que a paz esteja com ele)

[18] Narrado por Tabrani. Esses são os Abdal (os Substitutos).

[19] Mafahim Yajib an Tusahhah

Fonte: http://masud.co.uk/the-intermediary-of-shirk/

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