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Quem São os Ash’aris?

A Escola Ash’ari deve seu nome ao Imâm Abu al-Hasan al-Ash’ari, sábio que viveu no Iraque no fim do terceiro século da Hégira. É considerado salaf sâlih (que faz parte das 3 primeiras gerações).
No começo, o Imâm al-Ash’ari fazia parte da seita racionalista dos mu’tazilitas, logo que, aos 40 anos (depois de um debate com seu mestre mu’tazilita que foi incapaz de responder a suas perguntas), os deixou para adotar a escola dos muthbitas (os que afirmam [os atributos divinos]). Os muthbitas eram um grupo cuja crença havia sido transmitida de maneira ininterrupta desde os companheiros do Profeta (que a Paz e as Bênçãos estejam com ele). Pois não se trata de uma nova crença ou de um novo grupo.

O Imâm al-Ash’ari, forte de seu excelente conhecimento das doutrinas mu’tazilitas que havia estudado durante décadas, tornou-se companheiro da defesa do Islã sunita contra as inovações dos mu’tazilitas e de outros grupos desviantes, e esta crença foi afiliada a seu nome. Mas em realidade não fez mais do que transmitir as crenças de seus predecessores. Ante a ameaça das inovações dos grupos desviados que estavam se difundindo na Umma, desenvolveu um sistema de explicação da crença islâmica, com o objetivo de facilitar a defesa contra os inovadores e sua aprendizagem pelos muçulmanos em geral.

A Escola Ash’ari é, há 1000 anos, a da maioria da Umma. É a ‘aqîda da totalidade dos mâlikis, da quase totalidade dos shâfi’is, de um terço dos hanafis e de uma parte dos hanbalis.
Os dois terços restantes dos hanafis são mâturîdis, cujo nome lhes vem do Imâm Abu Mansûr al-Mâturîdi. Trata-se de um contemporâneo de al-Ash’ari que teve, na Ásia Central, um papel semelhante ao de al-Ash’ari no Iraque. Não há diferenças reais entre as duas escolas, e de fato os mâturîdis foram muitas vezes chamados de ash’aris durante a história. Seus fundamentos são idênticos, as diferenças estão essencialmente baseadas na maneira de argumentar, na terminologia empregada e outros elementos desta ordem.
Também há diferenças mínimas que consistem na preferência de um aviso sobre outro, sobre coisas que são da ordem do possível, não do obrigatório ou do impossível.
Quanto aos hanbalis, a maioria deles preservaram uma crença muito simples porém correta (os que chamamos de hanbalis moderados, os mufawwidûn).

Entretanto notemos que a grande maioria dos sábios dos 4 madhâhib de fiqh sempre foram de ‘aqîda sunita, embora tenha existido alguns desviados minoritários que seguiram um dos madhâhib no fiqh, sejam os shuyûkh que caíram no tashbîh ou os mu’tazilitas que se puseram a seguir um dos 4 madhâhib.
Nenhum dos hanafis, mâlikis, shâfi’is e hanbalis foram muthbitas. Alguns mu’tazilitas adotaram a Escola Hanafi em fiqh (e também haviam alguns mujassimitas que eram hanafis em fiqh). O Madhhab Mâliki foi o mais preservado da presença de desviados en seu seio, mas no dos shâfi’is encontrávamos também mujassimitas e mu’tazilitas que seguiam essa escola. Quanto ao Madhhab Hanbali, foi o mais afetado, a tal ponto que em um momento da história (na época do Imâm al-Ghazzâli), os mujassimitas (ditos hanbalis extremistas) estavam para se tornarem majoritários no madhhab.
Foram refutados no século VI da Hégira pelo grande sábio hanbali Ibn al-Jauzi (que não pode ser confundido com Ibn Qayyim al-Jauziyya) que se dirigiu para seus homólogos nestes termos:
“Se tivessem dito: ‘Não fazemos mais do que ler estes ahâdîth e ficamos calados’, ninguém os teria condenado. O que é vergonhoso é que os interpretem de maneira literal. Não introduzam ocultamente no madhhab deste homem reto dentre os primeiros muçulmanos [Ahmad ibn Hanbal] o que não faz parte deste. Têm vestido este madhhab de uma desgraça vergonhosa, e agora já quase não se pode se dizer hanbali sem se dizer antropomorfista.”
Nos outros madhâhib os grupos desviantes, sejam mu’tazilitas ou mujassimitas, não tiveram nunca, em qualquer momento da história, tanta importância como a dos mujassimitas no Madhhab Hanbali. Porém depois de haverem sido refutados por este pilar da Escola Hanbali, a tendência mujassimita perdeu sua importância e se tornou novamente minoritária no Madhhab Hanbali (embora tenha ressurgido depois).

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Definição do Dogma Ash’ari

Os partidários dessa escola reconhecem para o homem um poder, claro que é ineficaz diante do de Deus, tem ações de Deus que é seu Criador e uma vontade da qual dependem suas ações.
Por isso, é considerado livre para escolher suas ações, dado que essas dependem de sua vontade e de seu livre-arbítrio.
Entretanto, nossa escola julga que essa vontade e essa escolha não dependem do ser criado senão que são relativas à criação de Deus.

Resumindo, o homem é livre para escolher suas ações, mas determinado em sua escolha. Sua ação e sua vontade de agir são criadas por Deus, pois resulta que o homem também é determinado em seus atos. É a razão pela qual o homem, sendo livre na sua escolha, age de uma maneira que poderia ser qualificada voluntária.

Allah mostrou ao homem o caminho através da revelação, e lhe ordenou fazer o Bem e fugir do Mal. Mas o homem segue sendo livre para escolher seu caminho…
Allah deu ao homem o meio de agir e os instrumentos para fazê-lo, e também lhe dotou de razão: pois o homem é responsável por seus atos ante os homens e ante Deus… Deus sabe tudo o que cada um vai fazer, está escrito em Sua Tábua Preservada (na matriz do livro).

Isso não deve de nenhum modo levar ao fatalismo, porque embora Deus saiba quem vai para o Inferno e quem vai para o Paraíso, o dever do muçulmano é de agir no bem e recorrer a todos os meios lícitos para ser muito bom em seu trabalho e em suas ações, tendo uma boa intenção. E se comete erros (devido a sua fraqueza), deve se arrepender e se voltar para Deus pelo arrependimento sincero, cada vez.

Os fundamentos da Escola Ash’ari

Uma das classificações mais difundidas na Escola Ash’ari apresenta os fundamentos da crença em 50 pontos (este número não é importante, se arranjássemos as mesmas crenças de uma maneira diferente, seria diferente).
As crenças estão divididas entre o que é necessário (wâjib), impossível (mustahil) e possível (jâ’iz) a respeito de Allah e Seus Profetas.
Os 20 primeiros pontos concernem ao que é necessário (wâjib) a respeito de Allah.

O primeiro atributo necessário é al-Sifa al-Nafsiyya, é aquele sem o qual os outros não poderiam existir.
1) al-wujûd (a existência)

Os 5 atributos seguintes são chamados sifât al-salbiyya, dado que negam [a respeito do Criador, o que Lhe é impróprio].

2) al-qidam (a pré-eternidade), que Allah existe desde toda a eternidade, antes da criação do tempo
3) al-baqâ’ (a permanência), que Allah perdura eternamente
4) al-mukhâlafatu al-hawâdith (a dissemelhança com o criado), que Allah não é semelhante a Suas criaturas de nenhum modo (e isto inclui o fato de não ter membros ou órgãos, de não ter direção, localização etc.)
5) qiyâmu bi’l-nafsihi (a suficiência de Si mesmo), que Allah não necessita nada, são Suas criaturas que necessitam d’Ele e não Ele que necessita de Suas criaturas. (e isto inclui o fato de não necessitar de um lugar nem de tempo)
6) al-wahdâniyya (a unicidade), que Allah é um: em Sua essência, em Seus atributos e em Suas ações (“um em Sua essência” significa que não é composto de partes).

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Vêm depois as 7 sifât al-ma’âni (da entidade) :

7) al-qudra (o poder)
8) al-irâda (a vontade)
9) al-‘ilm (o conhecimento)
10) al-hayât (a vida)
11) as-sam’ (a audição)
12) al-basar (a vista)
13) al-kalâm (a palavra)
Os mâturîdis adotaram uma classificação não de 7 mas de 8 atributos: al-takwîn (fazer entrar as coisas na existência) sendo para eles um atributo distinto da força (al-qudra) e da vontade (al-irâda).

Vêm depois as 7 sifât al-ma’nawiyya, que Allah é de toda a eternidade (antes e depois da criação):

14) qadir (poderoso)
15) murîd (querente)
16) ‘alim (sábio)
17) hayy (vivente)
18) sami’ (ouvinte)
19) basir (vidente)
20) mutakallim (falante)

A razão desta separação entre sifât al-ma’âni e sifât al-ma’nawiyya é a necessidade de refutar os mu’tazilitas. Estes negavam as sifât al-ma’âni e afirmavam as sifât al-ma’nawiyya. Diziam que Allah é poderoso mas que não tem o atributo de poder, já que para eles reconhecer os atributos significaria uma pluralidade de eternos, pois seria shirk (associação). Dizem que Allah é poderoso por sua essência, e que Seu poder é Sua essência, não um atributo. Fora isso, sua compreensão das sifât al-ma’nawiyya difere da dos ash’aris, já que estes dizem que Allah é poderoso etc. por toda a eternidade, antes e depois da criação, enquanto que os mu’tazilitas diziam que foi somente depois da criação que Allah adquiriu Seus nomes (ou seja, que seria somente depois da criação que poderia ser chamado o Criador, somente depois de haver utilizado Seu poder que pode ser chamado o Poderoso, etc.)

Estes 13 (ou 20) atributos não são os únicos que os ash’aris reconhecem de Allah, obviamente. Na realidade, os ash’aris afirmam que Allah é ilimitado e que o número de Seus atributos é também ilimitado.
Os atributos citados no Alcorão e na Sunna são numerosos, aos quais se somam outros atributos sobre os quais não fomos informados. Os outros atributos que a revelação e a razão nos permitem conhecer são na realidade atributos derivados de um ou vários destes 13 atributos.
Por exemplo, o atributo da misericórdia (al-rahma) é derivado dos atributos da vontade (para decidir ter misericórdia de alguém), do poder (para ter a capacidade de fazê-lo) e do conhecimento (para ter o conhecimento da existência e do estado da pessoa que recebe a misericórdia).
Pois se trata de uma classificação que facilita a aprendizagem do Tauhîd e não uma limitação do número de atributos.

Notemos, entre aspas, que há dois tipos de atributos: os atributos da Essência (como os 13 atributos citados e os relativos à Essência, que são derivados desta) e os atributos afiliados aos atos, que são geralmente derivados destes mas que se manifestam sob a forma de ação (como o amor, a ira, a generosidade etc.).

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Em sua obra Aqâ’id al-Islâm, o sábio indiano Maulânâ Muhammad Idrîs Kandhalawi diz a respeito:
“Temos que saber que há dois tipos de atributos: os atributos da essência (dhâtiyya) e os atributos dos atos (fi’liyya).
Os atributos da essência (sifât al-dhâtiyya) são os que não podem existir ao mesmo tempo que seus opostos num mesmo ser, por exemplo, o conhecimento e o poder. Allah Ta’alâ tem estes dois atributos n’Ele, e não tem os atributos opostos: a ignorância e a a fraqueza. Isso significa, na’ûdhu billah, que não diremos jamais que Allah Ta’alâ esteja morto, seja ignorante, forçado, impotente, surdo, cego, mudo… já que a morte, a ignorância etc. são todos defeitos, dos quais a Essência de Allah Ta’alâ é isenta.
Os atributos dos atos são os atributos que podem existir em um ser ao mesmo tempo que seus opostos, e estão em relação com os outros (isto é, estão relacionados a outras coisas no ser no qual existem). Por exemplo, dar a vida e a morte, honrar ou infligir a humilhação, satisfazer as necessidades ou não fazê-lo, etc. Tais atributos são chamados de sifât al-fi’liyya.”

Os 20 pontos seguintes concernem ao que é impossível (mustahil) a respeito de Allah. Tratam-se dos opostos dos 20 pontos precedentes.

21) al-‘adam (a não existência)
22) al-hudûth (a contingência)
23) al-fanâ’ (a extinção)
24) al-mushâbahatu lihawâdith (a semelhança com o criado)
25) ihtiyâjuhu ilâ ghairihi (a necessidade do que seja)
26) al-ta’addud (la pluralidade)
27) al-‘ajz (a impotência)
28) al-ikrah (a coação)
29) al-jahl (a ignorância)
30) al-maut (a morte)
31) as-samam (a surdez)
32) al-‘ama (a cegueira)
33) al-bukm (o mutismo)
Também é impossível que Allah seja:
34) ‘âjiz (impotente)
35) karih (forçado)
36) jahil (ignorante)
37) mayit (morto)
38) summ (surdo)
39) a’ama (cego)
40) abkam (mudo)

O ponto 41 concerne ao que é possível (jâ’iz) a respeito de Allah.

O ponto 41 é que Allah pode escolher fazer uma coisa entre todas as que são racionalmente possíveis, ou pode escolher não fazê-las. Em outras palavras, é possível para Ele fazer oo não fazer todas as coisas que não entram em conflito com os atributos necessários e impossíveis que acabam de ser enunciados.

Os 9 últimos pontos concernem ao atributos dos profetas.

Os 4 primeros, o que é obrigatório (wâjib) a respeito deles.

42) que foram honestos no que disseram.
43) que transmitiram na totalidade a mensagem que Allah lhes encarregou de transmitir.
44) que eram inteligentes, sem defeitos mentais.
45) que estavam protegidos do erro; que não cometeram atos de desobediência.

Os 4 seguintes concernem ao que é impossível (mustahil) a respeito dos profetas. Trata-se do contrário dos 4 precedentes:

46) que mentiram no que nos disseram.
47) que dissimularam algo que Allah lhes pediu para transmitir.
48) que eram retardados mentais.
49) que desobedeceram a Allah depois da primeira vez que receberam um mensageiro d’Ele.

O ponto 50 concerne ao que é possível (jâ’iz) a respeito dos profetas: todos os estados humanos, como as doenças não repugnantes, casar-se e ter filhos, etc.

Fonte: http://fiqh-maliki.blogspot.com.br/2010/09/el-dogma-ashari.html

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