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Um “Estado Muçulmano” seria outra forma de sionismo? – Dr. Khalid Blankinship

Pergunta: As-salâmu ‘alaikum, Dr. Blankinship. Eu estava assistindo a uma palestra sua intitulada “A Vida do Profeta Muhammad”, e perto do fim havia uma discussão sobre o conceito de Estado Islâmico. Só um esclarecimento quanto à sua posição neste tópico: você nega a ideia de um estado que governa de acordo com os ditados da Sharî’a ou um estado que seja afiliado com a religião (como o Irã, por exemplo)? Você afirma que historicamente os muçulmanos se opuseram ao conceito, vendo a instituição dum estado como “profana” e que você pensa que o que está acontecendo hoje é uma forma de sionismo islâmico. Sinto que eu possa ter mal entendido suas afirmações, e um esclarecimento seria muito apreciável. Obrigado.

Resposta:
Querido Irmão,

As-salâmu `alaikum. Essa é uma questão histórica (veja as questões originais abaixo) que somente pode ser endereçada com referência à história real. A resposta não exclui a possibilidade de um estado aceitável ou até mesmo ideal, mas não é necessário se ater a esses detalhes.

O estado estabelecido pelo Profeta Muhammad (s.a.w.s.) em Medina era extremamente rudimentar e carecia de toda institucionalização conectada com o estado moderno. Isto é, enquanto o Profeta (s.a.w.s.) estava clara e absolutamente no comando, por causa de sua conexão direta com Allah através da revelação e por causa do seu bom exemplo, como amplamente provado no Alcorão através de comandos diretos frequentes para obedecê-lo, e nenhum outro cargo público pareceu existir até bem mais tarde na carreira do Profeta (s.a.w.s.), e esses foram poucos.

Logo, não há evidência de quaisquer servidores públicos subordinados em Medina. O primeiro cargo real criado parece ter sido com o com a indicação de Attab ibn Asid como governador de Meca no rendimento de Meca em 8 h./630 d;C.. Antes disso, um oficial temporário chamado de kharrâs foi enviado para Khaibar, que foi rendida em 7 h. /629 d.C., para coletar os impostos, mas ele sequer residia ali. Isto é, a política do Profeta (s.a.w.s.) era dificilmente a de um estado institucional, territorial no sentido que pensamos os estados hoje. O Alcorão, interessantemente, nunca se refere à política islâmica como um estado e a única referência elogiosa ao califa está num versículo se referindo ao Profeta Dâwûd (a.s.). Enquanto os crentes são urgidos a obedecer ulu al-amr minkum = aqueles de autoridade dentre vocês (Alcorão 4:59), esse texto não está explicando mais que isso. No tafsîr, a explicação mais plausível é que isso se refere àqueles no comando de expedições enviadas pelo Profeta (s.a.w.s.), como é atestado por um hadîth sahîh. A outra explicação oferecida pelos sábios era que isso se referia a obedecer aos sábios. Nenhuma palavra foi sequer dita ligando os possuidores de autoridade desse versículo aos últimos governantes porque, fora os quatro califas Rashîdûn e para alguns o califa omíada `Umar ibn `Abd al-`Azîz, todos os últimos governantes eram vistos como tendo só uma legitimidade muito limitada que requeria só aquiescência, não apoio ativo.

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A institucionalização do estado não foi longe sob os primeiros califas tampouco, embora é claro que houve alguns arranjos para administrar o que se tornou um tipo de império. Muitos desses arranjos permaneceram informais por muito tempo. Então os governadores de al-Amsar, as cidades militares do Fértil Crescente e outros lugares estavam no encargo de adorar, guerrear e decidir judicialmente ao mesmo tempo, enquanto eles sempre apontaram não muçulmanos locais e alfabetizados para cuidarem das finanças. Enquanto que `Abd al-Mâlik ibn Marwân (governou em 66-86 h./685-705 d.C.) adotou um programa mais ideológico, a elaboração de instituições que ainda não estavam muito desenvolvidas no tempo de Hishâm ibn `Abd al-Mâlik (governou em 105-125 h. /724-743 d.C.), que era o assunto do meu livro que vocês podem ler, “The End of the Jihâd State: The Reign of Hishâm ibn `Abd al-Mâlik and the Collapse of the Umayyads” [O Fim do Estado de Jihâd: O Reino de Hishâm ibn `Abd al-Mâlik e o Colapso dos Omíadas], perto do fim do califado omíada. Então o tesouro, apesar dum esforço mais antigo por `Umar ibn `Abd al-`Azîz, não estava ainda separado da bolsa privada do califa, o califa tendo somente poucas secretarias pessoais em vez de um gabinete (embora ele tivesse um amigo, al-Abrash, que o aconselhou), o califa era até mesmo ocasionalmente fadado a escrever sua própria correspondência, e ele vivia em um dos muitos castelos muito pequenos e isolados do deserto cujas ruínas extensas ainda podem ser vistas.

Quando, depois do colapso omíada, os abássidas tentaram estabelecer um regime mais articulado e burocrático, foi uma falha, e os abássidas investiram seu tempo, enquanto ainda tinham algum poder, tentando suprimir as rebeliões e dar suporte, mas eles já tinham desertado de todo, e tiveram que confiar no exército khurasâni que os pôs no poder no começo. Mesmo assim, o estado real deles durou um tempo breve, praticamente terminado pela revolta dos anos 860. Há muito mais nessa história, que você pode verificar no meu artigo sobre o califado.

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Até mesmo o sultanato otomano, embora o mais altamente articulado, desenvolvido, estável e longânimo de todas as políticas islâmicas pré-modernas, não o fez até sua modernização bem tarde na vida não tendo qualquer coisa se aproximando do degrau de institucionalização dum estado moderno. Então, confrontado e sendo superado por estados institucionais modernos da Europa, os muçulmanos naturalmente aceitaram esse tipo de estado como normativo, e então começaram a procurar por precedentes clássicos autorizando tal tipo de estado e o que foi encontrado foi certa e frequentemente desenvolvido fora de contexto, às vezes de modos desviantes. Em particular, os muçulmanos poderiam argumentar que a situação é tão desesperadora que precisamos combater fogo com fogo, para adotar todas as maneiras dos colonizadores, para que preservemos a independência.

Agora, opor-se às imposições coloniais certamente parece ser um propósito nobre, mas não se quer por outro lado ser enganado desistindo de seus próprios princípios pelo preço da resistência, e muitos muçulmanos religiosos concordariam certamente que por exemplo a rejeição extrema do passado muçulmano por Mustafa Kemal na Turquia está indo longe demais. Assim que se estabelece deve haver algum tipo de limites.

Mas é suficiente meramente declarar que teremos um estado baseado na Sharî’a e tudo será perfeito? Lembre-se, a Sharî’a da era clássica foi algo quase totalmente buscado e voluntariamente conformado, não algo imposto e forçado, porque, embora há alguma coerção através do muhtasib, eventualmente os recursos e meios para o tipo de coerção intrusiva usada por estados modernos não existia. De fato, um estado baseado na Sharî’a é geralmente visto por seus apoiadores modernos como nunca ter existido antes, e especialmente não um estado institucional. O problema jaz no exercício do poder: quem é qualificado para fazê-lo e quais meios de limitação coercitiva e responsabilidade sobre o poder absoluto que há por aí? A programa de reforma omíada de 126 h./744 d.C. anunciou que o pouco vivido Yazîd ibn al-Walîd poderia sugerir uma resposta, mas não são todas as respostas que estatistas modernos querem escutar, geralmente.

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Veja, o estatismo moderno está sempre conectado com o nacionalismo, no sentido em que a nação se torna idêntica com o estado. Esse é o caso aqui nos EUA onde a ovelha berrante direitista se exprime ultrajada se a presidência ou o estado americano é criticado, até mesmo às vezes explicitamente identificando “patriotismo” como apoiar o estado. O mesmo de Israel, que se tornou um teste de litmo para os judeus. O aparente sucesso material de Israel, desmentido por uma falha moral total, de fato uma destruição do judaísmo como religião, tem ofuscado um monte de muçulmanos, então não seria surpreendente se alguns deles adotassem essas ideias também, e aconteceu. Assim, alguns querem um estado institucional, autoritário e autoritativo. Estando fora do poder, são inocentes e não percebem ainda as consequências morais, a pior delas é que o estado em si se torne um ídolo que se sente no trono de Allah, a’ûdhu billah, e espera ser, ou mesmo demanda ser adorado, como vemos com os regimes nacionalistas pelo mundo, especialmente o americano e israelense. Tal projeto não fica melhor pondo uma cortina “islâmica” sobre ele. Então que Allah nos afaste de tal resultado.

Entretanto, o problema do governo persiste e não pode ser tudo ou nada. Enquanto o Profeta (s.a.w.s.) nos urgiu para ficar longe daqueles no poder no hadîth sahîh “man ya’ti abwab al-sultân yuftatan” = ”quem quer que frequente os portões do governante sofre fitna,” os muçulmanos ainda devem permanecer empenhados com o mundo. Assim, desejo ao AKP turco, ao Partido al-Nahdah tunisiano e à ala jovem da Irmandade Muçulmana egípcia o bem, em sua alegada tentativa de reinjetar ética nos sistemas políticos que têm carecido disso, ainda que eu tema que o mundo da política, sendo o campo do compromisso em vez do da sinceridade, tenda sempre a se corromper. Mas estou disposto a entreter e apoiar qualquer bom exemplo que posssa surgir.

Fonte: http://masud.co.uk/question-is-an-islamic-state-just-a-form-of-muslim-zionism/

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