Ataque da Seleção: como se monta o onze

Montar o ataque da Seleção portuguesa é o exercício mais discutido e o mais mal compreendido. Não se trata de escolher os melhores marcadores, trata-se de montar uma estrutura onde cada peça cria espaço para as outras. Um ataque com três avançados de área não funciona melhor do que um ataque com um avançado e duas alas, apenas falha de maneira diferente.
A pergunta correcta não é quem joga, mas quem ocupa a área, quem dá largura e quem chega de trás.
Quem ocupa a área e quem fica de fora dela
Ocupar a área é a primeira função do ataque. Uma equipa precisa de pelo menos um jogador que ataque o primeiro poste, um que ataque o segundo e um que espere no limite da área para a segunda bola. Sem essas três posições cobertas, os cruzamentos tornam-se fáceis de defender.
O adversário condiciona a escolha. Contra blocos baixos, a área enche-se e as chegadas de trás passam a valer mais do que a presença fixa. Contra linhas altas, o que interessa é o jogador que ataca o espaço nas costas, porque é aí que a profundidade resolve o problema antes de a área ser sequer ocupada.
Largura ou apoio interior
O segundo dilema é a largura. Uma ala que abre até à linha obriga o lateral adversário a escolher: sai para pressionar ou espera por dentro. Se sai, abre-se um corredor no espaço interior; se espera, o cruzamento sai limpo. É o tipo de decisão que se repete dezenas de vezes por jogo.
Existe uma alternativa, cada vez mais usada na Seleção: a ala invertida, que aparece por dentro e deixa a largura ao lateral. Ganha-se superioridade numérica no meio, mas perde-se a possibilidade de atacar a linha de fundo em velocidade. Não há resposta certa sem se saber o que a equipa quer fazer depois de recuperar a bola.
A montagem do ataque depende sempre da mesma pergunta: qual é o jogador que a equipa quer ter na cara da baliza quando a bola sobe do meio-campo.

Três perfis de ataque e o que cada um exige
| Perfil do avançado | Precisa de | Risco principal |
|---|---|---|
| Homem de área fixo | Alas que cruzem cedo e médios que cheguem de trás. | Fica isolado se a equipa não ganhar metros no meio-campo. |
| Avançado que ataca as costas | Um médio com passe longo e um companheiro que fixe o central. | Foras de jogo repetidos contra linhas bem subidas. |
| Falso avançado | Duas alas rápidas e um médio que entre na área. | Área vazia em cruzamentos e falta de referência em remates. |
| Segundo avançado móvel | Um avançado que fixe centrais e liberdade na zona entre linhas. | Perda de presença em lances de contacto dentro da área. |
O que decide o companheiro do avançado
Escolher o segundo elemento do ataque é mais difícil do que escolher o primeiro. A decisão depende de detalhes que não aparecem nos resumos dos jogos.
- A forma como o médio mais ofensivo ataca o segundo poste nos cruzamentos vindos da esquerda.
- A capacidade do lateral de dar largura sozinho, libertando a ala para jogar por dentro.
- O tempo que o avançado leva a decidir dentro da área, que se mede em toques e não em velocidade de corrida.
- A leitura das bolas paradas, onde o ataque ganha jogos sem precisar de combinar nada em campo aberto.
Nenhum destes fatores se resolve numa estatística isolada. Mesmo assim, são eles que separam um ataque que cria situações de um ataque que apenas tem posse.
Bolas paradas: o ataque que não precisa de combinar
Uma parte significativa dos golos de uma seleção nasce de bola parada. Cantos, livres laterais e livres directos representam o único momento do jogo em que a equipa controla a posição de todos os jogadores antes de a bola ser batida. É por isso que o trabalho de bolas paradas consome mais tempo de treino do que a maioria dos adeptos imagina.
A montagem é geométrica. Nos cantos, a equipa distribui três zonas: o primeiro poste, a zona central à frente do guarda-redes e o segundo poste. Quem ataca o primeiro poste procura desviar, quem fica atrás procura o ressalto e quem espera no limite da área garante a segunda bola. Sem essas três camadas, o canto é apenas um cruzamento.
Nos livres directos a lógica é diferente. O batedor escolhe entre remate e cruzamento, e essa escolha depende da distância e do perfil dos jogadores na área. Uma equipa com centrais altos cruza mais; uma equipa com um especialista de remate arrisca mais de trinta metros. Ambos os planos se treinam na véspera, com a barreira montada em posição real.
Ao contrário do ataque em campo aberto, a bola parada não depende de inspiração. Depende de repetição, e por isso é a área onde a Seleção consegue resultados com menos tempo de estágio. É também a razão pela qual o perfil do batedor é quase uma convocatória dentro da convocatória.
O ataque monta-se de fora para dentro
Existe um princípio que sobrevive a todas as mudanças de sistema: o ataque começa na largura. Sem largura, o meio fecha-se; sem meio aberto, o avançado recebe sempre de costas. O ataque mais eficaz da Seleção nunca foi o mais numeroso, foi o mais bem espaçado.
É por isso que a estrutura do meio-campo e a lista de convocados explicam tanto do que se vê na frente. O ataque não se monta com os avançados disponíveis, monta-se com os avançados que a equipa consegue servir.
Na CONVOCATÓRIA analisamos o ataque português por espaços e não por nomes. É o método que continua a funcionar quando a lista muda de janela para janela e as opções parecem trocar de valor de um mês para o outro.


