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Islam na Índia
Foto: dawn.com

Ramzan ou Ramadan?: Muçulmanos Indianos Trocam Urdu pelo Árabe

  • A maior parte dos muçulmanos da Índia fala o idioma urdu, que possui grande influência da língua persa.
  • Isto ocorre porque a identidade islâmica indiana foi influenciada, em sua maior parte, pelos persas que viveram ali.
  • No entanto, o colonialismo e a inspiração nos ideais da Arábia Saudita mudaram muitos costumes locais.

Estamos novamente naquela época do ano. Quando começa o anual jejum da alvorada ao anoitecer e as pessoas em todos os lugares estão em suas redes sociais para combater a inevitável guerra lexical que está prestes a começar: Ramzan ou Ramadan?

Esta batalha contenciosa está sendo travada pelo nome do nono mês do calendário islâmico, que é também quando os muçulmanos jejuam para comemorar a primeira revelação do Alcorão ao Profeta Muhammad.

Historicamente, a maioria dos muçulmanos do subcontinente indiano chamou este mês por seu nome de origem persa, “Ramzan”, emprestado por idiomas como urdu, bengali, etc. Na última década, entretanto, muitos muçulmanos subcontinentais rejeitaram esses nomes em suas línguas nativas e estão usando o que eles acreditam ser a palavra árabe para ele: Ramadan.

Pureza linguística falha

O nome deste mês em árabe pode ser transliterado para caracteres romanos como “Ramadan” – o “d” é um som árabe bastante antigo e misterioso que realmente não tem equivalente em nenhum idioma indiano ou inglês e é terrivelmente difícil de enunciar. Para não-árabes, o “d” geralmente é aproximado ao “d” suave de “dal-chawal” ou (pelos falantes de inglês) ao “d” rígido (como em “dad”).

Ironicamente, até os árabes modernos pronunciam esse som “d” de maneira bem diferente da época em que o Alcorão foi escrito, resultado natural das mudanças fonológicas pelas quais qualquer idioma passa com o tempo.

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Resultado final: apesar das intenções dos falantes de imitar a pronúncia do Alcorão, na prática a realidade é muito mais difícil.

A linguagem é um marcador poderoso de intenção e identidade e, na maioria das vezes, as pessoas tentam moldá-la em formas idealizadas. Infelizmente, como mostra este exemplo, a linguagem também é uma coisa incrivelmente difícil de mudar, pois está intrinsecamente ligada ao nosso cérebro.

O árabe não é o único exemplo. A controvérsia sobre o ensino do sânscrito, logo após o líder do Partido Bharatiya Janata, Narendra Modi, chegar ao poder, era bastante irônica, já que, atualmente, milhões de crianças indianas estudam o idioma sem sequer aprender a pronunciar os sons antigos do sânscrito, que há muito tempo deixaram de existir nos bhashas modernos da Índia.

Cultura Indo-Persa

Se, no entanto, os muçulmanos indianos passaram de uma pronúncia incorreta para outra, qual foi o sentido disso tudo? Mudar a pronúncia de Ramzan não serve a nenhum propósito teológico explícito, mas serve como um marcador cultural bastante proeminente, sinalizando uma mudança significativa na maneira como os muçulmanos indianos – especificamente muçulmanos que falam urdu – olham para sua cultura. 

Muito do que é o islamismo indiano – com a possível exceção de Kerala – não vem dos árabes, mas dos asiáticos centrais e iranianos, membros da esfera cultural persa que dominavam o mundo islâmico oriental. A própria Índia fazia parte dessa esfera cultural e, por centenas de anos, o persa foi a língua franca do país, resultando em línguas nativas como o marata e o bengali, que foram inundadas com palavras persas. Essa influência foi tão difundida que a maior língua da Índia tem um nome persa: hindi (literalmente, “indiano”). 

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A linguagem do islamismo indiano é, portanto, altamente persianizada – uma singularidade para uma religião que tem o árabe como língua litúrgica. A palavra para a oração islâmica é a persa “namaaz” (em árabe: salaah) e, para o jejum, o termo persa “roza” (em árabe: sawm). Mais importante, a palavra cotidiana comum para “Deus” é do farsi: Khuda.

Esses empréstimos, misturados com elementos locais, criaram uma cultura indo-islâmica única que durou muitos séculos.

Arabização 

Eventos na Arábia distante, no entanto, mudaram os fatos. Após a Primeira Guerra Mundial, uma família chamada Saud, dirigida por uma versão fanática do Islam chamada wahabismo, capturou grande parte da península Arábica, incluindo as duas cidades sagradas de Meca e Medina.

Apesar de abrigar essas duas cidades, contudo, esse pedaço de terra do deserto nunca havia sido muito poderoso e os grandes impérios árabes governavam do norte, onde hoje é o Iraque. Um golpe singular de sorte mudou isso para os sauditas: a terra jorrou petróleo, grandes fontes dele – um mineral crucial na era das máquinas. 

Enquanto isso, no subcontinente indiano, as elites muçulmanas, derrotadas pelo colonialismo britânico e enfrentando um declínio vertiginoso de suas fortunas, não estavam muito otimistas sobre suas amarras culturais. A influência do rico estado saudita, sutil e linha-dura, invadiu o subcontinente, enquanto seus muçulmanos olhavam para o estado teocrático ultraconservador em busca de lastro cultural e teológico. 

No Paquistão, por exemplo, televangelistas massivamente populares passaram a pressionar as credenciais árabes como um marcador de devoção. Dinâmicas similares também estavam em jogo na Índia: a super-estrela de televisão de Mumbai, Zakir Naik , não seria pego desprevenido, falando o urdu “Ramzan”.

As elites muçulmanas do subcontinente pegaram emprestadas essas palavras litúrgicas árabes, agora como marcadores de sua identidade religiosa. Não apenas eles eram muçulmanos, mas um certo tipo de muçulmano, seguindo uma marca do Islam influenciada pela Arábia, tão rigorosa que até mesmo no discurso em comum, nenhuma medida “não-islâmica” era permitida.

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“Ramzan” não foi o único alvo, como era de se esperar. A palavra “Khuda”, um dos pilares de expressões culturais como a poesia urdu, também está sendo eliminada, já que Deus só pode ter um nome árabe. A expressão padrão em urdu para “adeus” – “Khuda hafiz” – agora está sendo alterada para “Allah hafiz”.

Renomear Deus e jejuns ainda está tudo bem – sabe-se que os homens fazem coisas mais estranhas pela religião. Mas quando as pessoas começam a cortar e mudar seus termos para “adeus”, você sabe que tem um sério caso de insegurança cultural em suas mãos.

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Traduzido de Scroll.in

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