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Quando migrantes europeus enchiam a costa do Norte da África

“Louvado seja Deus. Para meu mestre, que Deus o preserve. Depois que nosso mestre me repreendeu e ficou bravo comigo, me acusando de ter agido muitas vezes sem sua aprovação, e de trazer minha mãe aqui da Grécia sem o seu consentimento […] me refugiei entre as pessoas mais humildes […] sou seu escravo . Tens de dar ordens a teu escravo. E também podes perdoá-lo. Você diz que eu trouxe minha mãe comigo sem informar a sua excelência. [Bem,] não tenho mãe nem pai. Tu és minha mãe e meu pai. Eu só tenho a ti, mestre.”
 Agora conservado nos arquivos nacionais da Tunísia, este é um trecho de uma carta escrita em 1832 por um escravo grego que se converteu ao Islã sob o nome de Muhammad, o Tesoureiro (khaznadar). Seu pedido de desculpas foi dirigido a seu mestre, o vizir (ou primeiro-ministro) da província otomana de Túnis, al-Shakir Sahib al-Taba, Guardião dos Selos. Sahib Al-Taba, ele também um escravo nascido na Circassia, na região norte do Cáucaso. Hoje, esta área faz parte da Federação Russa, ao norte da Geórgia, cobrindo as repúblicas russas de Karachay-Cherkessia, Kabardino-Balkaria e Adygea. Um dos muitos relatos de escravos ao longo do século XIX, esta carta, escrita em árabe, nos leva de volta a uma época em que homens e mulheres se moviam de maneira bastante diferente dentro do Mediterrâneo.

Uma pintura do vizir (primeiro-ministro) Mustapha Khaznadar, um ex-escravo grego, com seu filho (1817-1878).

Até a primeira metade do século XX, era raro que homens, mulheres e crianças cruzassem o sul do Mediterrâneo a partir do norte da África, em uma tentativa de alcançar as costas da Europa e além.

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Pelo contrário, italianos, franceses, espanhóis e gregos se aglomeraram no norte da África, fugindo da pobreza e da superpopulação em seus próprios países. Eles procuraram suas fortunas em solo fresco, no Magrebe e nas colônias transatlânticas.

Os países norte africanos (em vez de europeus) também eram um ponto de desembarque, não só para escravos africanos forçados a atravessar o Saara, mas também, até meados do século XIX, para escravos caucasianos, georgianos e gregos, após suas revoltas contra os sultões otomanos na década de 1820.

Na época em que Muhammad Khaznadar escreveu esta breve carta, o Magrebe ainda não estava sob o domínio colonial europeu. Os franceses haviam tomado Argel dois anos antes, e também conquistaram várias cidades na costa argelina em uma série de ataques violentos entre 1830 e 1832.

O resto do norte da África era governado pela dinastia alawita, como era o caso do Marrocos, ou como em Túnis e Trípoli, sob a autoridade de um governador nomeado pelo Império Otomano.

Homens que vinham de longe, como Muhammad Khaznadar e seu mestre Shakir, subiam prodigiosamente nas fileiras sociais: Shakir era o vizir, o principal assessor dos governadores otomanos de Túnis. Italianos, malteses, britânicos, franceses e outros europeus correram para Tunis e Argel e Trípoli para ganhar dinheiro, com meios as vezes nem tão legais assim, no comércio, pesca de corais e, por vezes, contrabando (tabaco, armas, café, etc.).

O que aconteceu desde os dias de Muhammad, o Tesoureiro? O que provocou o aumento da migração africana para a Europa [especialmente desde os anos 50]? Como o Magrebe mudou de um lugar que atraia e controlava a migração e o movimento de mulheres e homens da África, Ásia e Europa, para uma escala no caminho para o Mediterrâneo e a Europa?

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Se apenas corremos nossas memórias curtas e demos uma olhada no século XIX, podemos lembrar de todas as grandes transformações pelas quais esta parte do mundo passou: a lenta tomada dos mercados e economias africanos pelas potências européias; a abolição oficial da escravatura a partir do final da década de 1840, na Tunísia e na Argélia, e o desaparecimento gradual do tráfico de escravos, primeiro no Mediterrâneo e depois da África Ocidental para o Magreb; o advento da colonização, primeiro na Argélia em 1830, depois na Tunísia em 1881, e no Marrocos e na Líbia no início dos anos 1910, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial; a imigração de colonos europeus, cujo número na Argélia chegaria a 1 milhão, contra 9 milhões de “muçulmanos” quando o país se tornou independente em 1962, quando os pieds-noirs deixaram o país em massa para a Europa continental; e, finalmente, a imigração econômica de trabalhadores norte-africanos e trabalhadores de outras nações africanas, após a Segunda Guerra Mundial, para ajudar a reconstruir e fortalecer as economias das antigas potências coloniais.

Levando em conta todos esses eventos históricos, a migração do Sul para o Norte não pode ser descrita como uma “invasão” ou como parte da chamada teoria da grande substituição, como alguns nos fazem acreditar. É o resultado da dependência econômica construída, da nova migração de mão-de-obra, da exploração e da dominação colonial e pós-colonial. De um simples tesoureiro, Muhammad, o escravo, tornou-se primeiro-ministro no início da década de 1880, quando a França assumiu a Tunísia. Sua vida, como a de milhões de outros migrantes, também foi moldada pelas muitas grandes transformações que ocorreram no Mediterrâneo.

Fonte: https://qz.com/1238220/north-africas-maghreb-changed-from-attracted-migrants-to-a-stopover-on-the-way-to-the-mediterranean-and-europe/

 

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