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Quando as Mulheres Lutaram para Poder Usar o Véu na Turquia

  • Por muitos anos, o véu islâmico (hijab) foi banido da esfera pública na Turquia e mulheres que queriam trabalhar não podiam usá-lo.
  • A primeira mulher a usar sua influência para levantar voz contra a proibição foi a jornalista muçulmana Sule Yüksel Senler.
  • Ela sofreu uma grande oposição do governo turco na época e chegou a ser presa por causa de seu posicionamento político.

Quem conhece um pouco sobre a cultura da Turquia sabe que aquele é um país onde a maioria da população é adepta do Islam. No entanto, muitos desconhecem o fato de que, no século XX, todo aquele território passou por uma profunda reforma secularista durante o governo de Kemal Atatürk, que não só separou a religião do estado, mas também proibiu diversas manifestações públicas de fé e até baniu o árabe como idioma religioso.

Naquela época, cópias do Alcorão só poderiam ser impressas no idioma turco, assim como os chamados para oração, que foram proibidos de serem feitos em árabe, a língua em que originalmente são recitados. Ordens sufis foram banidas, algumas mesquitas importantes viraram museus, como a Hagia Sophia, e homens e mulheres foram proibidos de usar trajes religiosos na rua e no trabalho. 

Para as mulheres religiosas, especialmente, esse período foi de grande desafio, pois o véu é parte de sua conduta de fé e, para muitas, removê-lo era um atentado ao pudor. Por muitos anos, houve movimentos que reivindicavam a livre expressão religiosa que foram duramente reprimidos. Um deles foi iniciado por Sule Yüksel Senler, uma jornalista turca que foi perseguida em 1965 por incentivar as mulheres a usarem o lenço, mesmo sendo proibido.

A Turquia no Tempo de Sule

Sule Yüksel Senler nasceu em 1938, na cidade de Kayseri, mas cresceu em Istambul. Naquela época, a Turquia já havia concluído a sua reforma secular e a única forma de as mulheres terem uma carreira profissional era abrindo mão do seu desejo de usar o hijab, pois o lenço não era tolerado na esfera pública e isso incluía faculdades e ambientes de trabalho.

O pai do secularismo turco, Ataturk, havia implementado na Turquia um novo estilo de vida que foi completamente copiado da cultura ocidental. O alfabeto árabe foi substituído pelo latim, homens e mulheres se vestiam como no oeste da Europa e a poligenia havia sido banida. 

Durante muito tempo, Sule não esteve interessada em usar lenço, pois estava habituada aos costumes da Turquia moderna. Sua família era secularizada, exceto pelo seu irmão Özer, que era discípulo do Sheikh Said Nursi, um líder religioso que teve uma importância imensa para o ressurgimento do Islam na sociedade turca durante o período em que a religiosidade estava sendo coibida.

Quando tinha cerca de 20 anos, Sule começou a frequentar as reuniões de Said Nursi. Mas seu interesse pelo hijab não foi despertado no mesmo instante, ela ainda levou um tempo para aderir ao véu. As coisas começaram a mudar no ano de 1965, quando ela tinha 27 anos, época em que começou a cumprir as orações islâmicas e usar o lenço cobrindo o cabelo.

A Revolução de Sule

Em seu trabalho como jornalista, ela escreveu artigos para o jornal turco Yeni Istiklal encorajando as mulheres a usarem hijab e dizendo que era uma obrigação para a mulher muçulmana. Seus artigos foram bem recebidos por muitas pessoas e começou a haver um crescimento no uso do véu motivado pelo que ela escreveu.

As mulheres que foram influenciadas pela jornalista começaram a ser chamadas de “sulebasi”, que significa algo como “as cabeças de Sule”. Isso começou a gerar problemas para a autora, que foi processada pela União das Mulheres Turcas devido a um artigo em que defendia o uso do véu. Mas isso não a intimidou e ela seguiu viajando pelo país, dando palestras e destacando a importância do lenço para o Islam.

A influência de Sule continuou crescendo e isso começou a preocupar o governo turco na época. Em 1971, o presidente turco Cevdet Sunay se manifestou sobre o assunto em uma conferência na Faculdade de Língua, História e Geografia de Ancara, dizendo: “Aqueles por trás (do número crescente de mulheres cobertas nas ruas serão punidos (...).”

A jornalista muçulmana teve a coragem para responder às declarações do presidente dizendo que ele deveria se desculpar com Allah e com toda a nação. Ela acabou sendo detida e, durante sua pena, teve sua anistia decretada, mas recusou e cumpriu toda a sentença de nove meses de prisão. Após ser libertada, ela continuou trabalhando como escritora nas páginas femininas de diversos jornais e dando palestras.

Legado

Sule e o presidente turco Erdogan, que saudou-a em vida pelo seus valores e pioneirismo. (Reprodução Twitter/Erdogan)

Sule faleceu em 2019 devido a um ataque cardíaco. Até os últimos dias de sua vida, ela continuou defendendo os valores pelos quais lutou durante a juventude. Depois dela, outras mulheres como Huda Kaya, Merve Kavakçi, Nuray Bezirgan e diversas muçulmanas anônimas lutaram pelo direito de usar hijab nas universidades, no parlamento, exército e por isso foram presas, exiladas e impedidas de exercerem suas atividades.

Mas é impossível negar que, se hoje o hijab voltou a fazer parte da vida pública da Turquia, isso começou graças ao esforço de Sule que, por causa de seu temor a Allah, não teve medo do que nenhum homem poderia fazer contra ela.

Referência

-”Arrested for Hijab: Who was Şule Yüksel Şenler?”. Disponível em ilmfeed.com

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