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Muçulmanas no Brasil

Preconceito e Cusparadas: Um Retrato das Muçulmanas no Brasil

  • As mulheres muçulmanas que vivem no Brasil enfrentam bastante preconceito, sobretudo por causa da maneira como se vestem.
  • Elas costumam sofrer agressões, dificuldades para arrumar emprego e, muitas vezes, são forçadas a tirar o véu para conseguir ter acesso a direitos básicos.
  • Em alguns casos, as brasileiras que se convertem são estigmatizadas pelas muçulmanas estrangeiras.
  • Mesmo com tantos problemas, a Constituição Federal garante alguns direitos a elas e, caso seja necessário, é preciso fazê-los valer.

Mulheres trabalhadoras, mães, irmãs, esposas e cidadãs que lidam com uma rotina parecida com a de qualquer pessoa no país, mas com um diferencial: são muçulmanas. A princípio, a fé delas diria respeito apenas a alguns costumes como usar o véu, não consumir álcool, não tocar em uma pessoa do sexo oposto, fazer cinco orações por dia, entre outros. No entanto, no Brasil, essas pequenas diferenças religiosas muitas vezes se transformam em enormes barreiras sociais.

Praticar o Islam em um país onde não existem muitas informações sobre o assunto é complicado, sobretudo, para as mulheres, que rapidamente são associadas à religião por causa do véu que usam. No Brasil, ser reconhecida como muçulmana é estar associada a estereótipos que são muito divulgados, como terrorista, fanática, sexista, antiética, entre outras falácias.

No entanto, ao observar a vida dessas mulheres, o que vemos são pessoas simples, que reconhecem o valor de sua própria fé, sem tentar impô-la para a vida de outras pessoas. Acima de tudo, elas querem respeito pelo estilo de vida e conduta que decidiram adotar.

Como é usar o Hijab no Brasil

Embora os relatos sejam diferentes, na maioria das vezes as muçulmanas contam histórias em que foram discriminadas por causa de sua fé. A comerciante Janete Ali Hammoud viveu as experiências de andar sem e com o hijab em dois países: ela nasceu no Brasil, mas foi morar por alguns anos no Líbano e começou a usar o véu enquanto vivia no país do Oriente Médio.

Janete relata que quando morava no Brasil, mas não usava o véu, nunca passou por nenhum problema. De acordo com ela, era sempre bem recebida na escola e no trabalho. Em 2001, ela se mudou para o Líbano e passou algum tempo sem usar o hijab. Mesmo assim, nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por parte dos libaneses. “O Líbano, para mim, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida,” afirma Janete. “Depois de uns 20 dias (após sua chegada), já comecei a trabalhar”, completou. 

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Ela permaneceu no Líbano por cinco anos. Mas em 2006, quando Israel começou a bombardear o país em resposta aos ataques do grupo Hezbollah contra as Forças Armadas Israelenses, foi obrigada a voltar para o Brasil. Na ocasião, a filha de Janete tinha apenas um ano de idade e as duas voltaram para a América do Sul em um avião da Força Aérea Brasileira.

A volta para o Brasil foi um recomeço, em vários sentidos desta palavra. Nesta época, Janete já usava o véu e não estava disposta a abrir mão dele. Por causa disso, ela começou a ouvir ofensas, sofreu agressões verbais na rua e, uma vez, chegaram até a cuspir nela. A vestimenta também dificultou para que ela conseguisse um emprego na área de instrumentação cirúrgica, na qual atua. Há cinco anos, após sofrer com o desemprego, ela começou a vender hijabs pela internet e hoje ajuda outras muçulmanas a seguir a religião. “Sou feliz assim, não mudaria”, afirma.

Profissionais usando Hijab

(Foto: Wikipedia)

A discriminação não é diferente na hora de buscar por uma vaga de trabalho. Salwa Hammoud El Kadri é estudante de odontologia. Ela voltou para faculdade após oito anos buscando emprego, sem obter sucesso. Entre os principais motivos que as empresas alegavam, muitas vezes estava o hijab.

Salwa se formou em enfermagem e, após a graduação, buscou emprego em diversos hospitais. Ela tirou boas notas em várias provas de seleção. Na hora da entrevista, porém, seu visual não era bem visto pelos entrevistadores. 

“Eu passei em um hospital, fiz a prova, fui excelente e uma moça do RH me ligou e falou assim: ‘Parabéns, Salwa, você foi muito bem, tirou 9,8’. Quase tirei 10”, relata Salwa. No entanto, no dia seguinte, quando ela levou os documentos necessários para a entrevista, veio a surpresa. “Quando eu entrei na recepção, ela não falou nada de cara, depois ela disse: ‘eu vou fazer uma entrevista com você, mas a gente não tem nenhuma vaga para agora. Eu só vou fazer uma entrevista e, quando surgir a vaga, eu entro em contato com você’”.

Em outro hospital, Salwa precisou fazer a mesma prova três vezes para ser contratada, sempre obtendo boas notas. Ela ouviu de algumas pessoas que deveria desistir e tentar alguma outra coisa, mas não cedeu. Ao ser admitida, ela descobriu através de conversas que seus chefes não queriam contratá-la porque a imagem do hospital seria associada a uma religião. De acordo com Salwa, eles temiam que, por usar um hijab, em algum momento ela faria cultos e pregações. “Fiquei muito chateada com isso”, lamenta.

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Preconceitos no Meio Social

Em alguns casos, quando muçulmanos convertidos assumem sua nova identidade religiosa, ocorre estranhamento por parte de familiares e amigos. Às vezes, alguns constrangimentos são causados até mesmo entre membros da comunidade muçulmana. Fatimah Hannah é convertida e conta que usou o hijab durante um tempo, mas a pressão da sociedade fez com que ela mudasse a amarração do lenço para um turbante, por ser mais socialmente aceito. 

“Quando eu ainda usava hijab, calhou de, em um momento de compra, conversar com uma mulher que trabalhava no consulado de um país árabe aqui em São Paulo. Ela me fez algumas perguntas e, dentre elas: ‘Por que você está usando isso? Você quer se casar com um árabe?’ E eu, super ingênua na época, fiquei perplexa! Como assim? O que tem a ver uma coisa com a outra? Não é por Allah que fazemos isso? Esse mesmo pensamento lidera nas mesquitas. As mulheres da comunidade árabe não veem as mulheres convertidas com bons olhos e acham que nós vamos até lá com o objetivo de arrumar um casamento”, afirma Fatimah.

Além de se sentirem como estranhas no próprio ambiente familiar, entre os amigos e nas mesquitas, as brasileiras convertidas não têm seus costumes respeitados nem pelo próprio país. 

“Fui renovar meu RG. Era uma situação emergencial e eu tinha poucos dias para isso devido à proximidade da data de uma viagem. Agendei no Poupatempo e lá fui obrigada a tirar o lenço para tirar a foto porque eu deveria ter levado uma declaração de que sou muçulmana, emitida pela mesquita. Bem, não havia tempo hábil para isso, tive que tirar uma foto sem lenço para cumprir a regra. Nessa altura, eu estava chorando… Então, pode imaginar como é que ficou a foto. Esse episódio calou fundo. Foi nele que senti, profundamente, que estava na minha terra, onde nasci, mas que tinha regras especiais para mim porque eu tinha abraçado uma fé que causa o sentimento de desconfiança nas pessoas.”

Combate ao Preconceito

(Foto: Paulo Whitaker/ Reuters)

A principal luta das mulheres ainda é a aceitação. “Acho que o maior desafio é deixar de ser ‘a mulher muçulmana’. Ninguém fala: ‘fulana, que é católica’, ‘sicrana, que é umbandista, kardecista, judia’. As demais religiões já estão normalizadas. Já adquiriram espaço mental e emocional na coletividade. Já não causa estranheza, tampouco medo”, afirma Fatimah.

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No entanto, o cotidiano dessas mulheres faz com que elas acreditem que ainda será necessário muito esforço para que elas possam ser aceitas da maneira como são. “Eu não tenho muitas esperanças. Sinceramente, acho que pode mudar, mas daqui a muito tempo, não por agora”, lamenta Salwa. 

Muitas vezes, o caminho que torna a mudança possível é a informação, que é a maior aliada na luta contra a ignorância. “As pessoas têm uma visão bem diferente do que é ser uma muçulmana mulher. Acham que somos obrigadas a usar (o véu), acham que somos ricos (risos), acham que apanhamos, então o preconceito começa pela falta de saber, realmente, o que somos. Somos pessoas normais”, afirma Janete.

Os Direitos das Muçulmanas

A luta contra a intolerância religiosa está muito longe de chegar ao fim, sobretudo para as mulheres muçulmanas, que carregam a fé inclusive na maneira de se vestir. É necessária muita conscientização, mas também é preciso que busquem seus direitos, se estes forem violados.

Caso enfrentem algum problema, o advogado e presidente da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI), Girrad Sammour, orienta aos seguidores do Islam que, em casos de agressão ou descriminação, é importante que a vítima tenha testemunhas ou provas do ocorrido. “Pode ser um print do WhatsApp ou um áudio, ou mesmo os dados da pessoa que testemunhou o fato, e imediatamente registre um Boletim de Ocorrência. Pode ser feito nas delegacias especializadas, e em outras (cidades que não possuem delegacias para crimes religiosos) pode ser em uma delegacia comum”.

Quanto ao constrangimento de ter que tirar o hijab em órgão públicos, as muçulmanas têm seus direitos garantidos pela lei brasileira. No entanto, é importante que elas tenham um registro do que aconteceu, a fim de evitar problemas. “A mulher não precisa tirar o véu em qualquer órgão público, pois isso fere o artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal, que protege a liturgia e o credo da pessoa. Mas, para tirar uma CNH com o véu, ela precisa de uma declaração da mesquita, que deve ser levada ao órgão de trânsito para que a foto seja validada”.

Caso necessite de dúvidas ou orientações, a mulher também pode procurar a ANAJI através do e-mail: [email protected]

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