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O Profeta Muhammad era somente um homem? – Esclarecendo pontos da Teologia Islâmica – Sheykh Nuh Ha Mim Keller

Pergunta: Muitos paquistaneses e gente da tariqa Naqshibandi (e talvez de outras) consideram que o Profeta (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele) seja Nur Allah, a “Luz de Allah”, e se ofendem quando chamamos o Profeta (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele) de bashar, um “ser humano”, mesmo que o Alcorão diga que ele é. Também tomei ciência de um hadith em Tirmidhi que diz que os profetas (que a paz esteja com eles) foram criados da Nur de Allah e que o primeiro entre eles foi o Profeta Muhammad (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele). Você tem algum conhecimento sobre esse assunto?

Resposta

O Profeta (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele) é a Luz de Allah, algo que os crentes podem afirmar, pois o Alcorão diz no versículo:

Já vos chegou de Deus uma Luz e um Livro lúcido” (Alcorão, 5:15)

A palavra Luz já foi explicada por vários comentaristas clássicos do Alcorão da seguinte maneira:

(Jalal al-Din al-Suyuti:) “Ela é o Profeta (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele)” (Tafsir al-Jalalayn, 139).

(Ibn Jarir al-Tabari:) “Por Luz, Ele se refere a Muhammad (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele), através do qual Allah iluminou a verdade, manifestou o Islam e obliterou o politeísmo; uma vez que ele é uma luz que evidencia a verdade para aqueles que buscam iluminação nele” (Jami‘ al-bayan, 6.161).

(Fakhr al-Razi:) “Há muitas opiniões sobre esse assunto, sendo que a primeira é que a Luz é Muhammad e o Livro, o Alcorão” (al-Tafsir al-kabir, 11:194).

(al-Baghawi:) “Se refere a Muhammad (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele) ou, de acordo com uma opinião mais fraca, ao Islam” (Ma‘alam al-Tanzil, 2.228).

Por fim, Qurtubi (Ahkam al-Qur’an, 6.118) e Mawardi (al-Nukat wa al-‘uyun, 2.22) mencionam que interpretar Nur como “Muhammad” (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele) também era o posicionamento de Al-Zajjaj (o Imam da gramática árabe, Ibrahim ibn Muhammad al-Zajjaj) (d. 311/923).

Tudo isso demonstra que o Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) é, segundo o Alcorão, uma luz de Allah. Esta é a interpretação dos primeiros exegetas, pois al-Tabari era o sheikh dos salaf (os primeiros muçulmanos) em tafsir; explicar Nur como “islam” é uma interpretação que veio posteriormente.

Quanto ao Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) ser um bashar ou “ser humano”, não há dúvida quanto a isso, pois está no Alcorão e na aqida. Mas o Alcorão não afirma simplesmente que ele seja um ser humano. Longe disso, diz:

Diz: Sou tão-somente um mortal como vós, a quem foi divinamente revelado que o vosso Deus é um Deus único.” (Alcorão 18:110)

A locução qualificadora importante neste versículo revela que o profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) era um ser humano diferente de todos os outros, naquela época ou agora. Pois nenhum de nós pode dizer que recebeu uma revelação divina como o Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele). Ou melhor, como se recita numa ode poética ao Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) que se costuma cantar em reuniões após cantar a Qasida al-Burda [Ode ao Manto Profético] de al-Busayri:

Muhammad é um ser humano, mas não como os outros homens;

Ele é um rubi entre as pedras.

Mas, mesmo sendo o Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) a Luz de Allah, naturalmente ele é uma luz criada. Quem crê em algo diferente cometeu o erro que os cristãos cometem com Jesus (que a paz esteja com ele) ou o que os hindus cometem com seus avatares. Vimos na discussão acima, no final da pergunta (5), que uma locução atributiva (idafa) como Nur Allah não demonstra que essa Nur ou “Luz” seja um atributo de Allah. Longe disso, a locução atributiva neste caso é de um tipo chamado idafa tashrif, ou uma “atribuição de enobrecimento”, como o título Bayt Allah, “A Casa de Allah” para a Caaba em Meca, chamada assim por sua nobreza, não porque Allah more ali dentro, muito menos porque seja um atributo divino. Ou como a camela que mandaram a Thamud, que, no Alcorão, foi chamada de Naqat Allah, “A Camela de Allah”, como uma atribuição de nobreza, por causa da sua inviolabilidade na Shari‘a daquele tempo – não que Allah a montasse ou que fosse um atributo divino.

Quanto ao profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) ser o primeiro da criação, entre os estudiosos do islã que compilaram obras sobre as suas características está o mestre em hadiths (hafiz) Jalal al-Din al-Suyuti com a sua obra al-Khasa’is al-kubra [O grande compêndio de atributos únicos], em dois volumes, cujo primeiro capítulo leva o título “A Singularidade do Profeta (que paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) em Ser o Primeiro dos Profetas a Ser Criado, a Prioridade da Sua Profecia e o Pacto com Ele”. O primeiro hadith do capítulo foi narrado por Ibn Abi Hatim em seu Tafsir [exegese do Alcorão] e por Abu Nu‘aym em Dala’il al-nabuwwa [Provas da profecia], por meio de múltiplas cadeias de transmissão, a partir de Qatada, que o ouviu de Hasan [al-Basri], de Abu Hurayra (que Deus esteja satisfeito com ele), sobre o versículo Corânico

Recorda-te de quando instituímos o pacto com os profetas: contigo, com Noé, com Abraão, com Moisés, com Jesus, filho de Maria, e obtivemos deles um solene compromisso.” (Alcorão 33:8)

que o Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) disse, “eu fui o primeiro dos Profetas a ser criado e o último deles a ser enviado.” Suyuti registra nove outros hadiths que indicam que o Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) foi o primeiro dos profetas a ser criado – entre eles, o hadith registrado por Bukhari em seu Tarikh [História], e por Ahmed, Tabarani, Hakim e Bayhaqi, segundo o qual Maysara al-Fajr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse, “eu perguntei: ‘Ó Mensageiro de Allah (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele), quando lhe veio a condição de Profeta?’, e ele respondeu: ‘Enquanto Adão estava entre alma e corpo’” (al-Khasa’is al-kubra, 3-4).

Quanto a “um hadith em Tirmidhi que afirma que os profetas (que a paz esteja com eles) foram criados da Nur de Allah e que o primeiro entre eles era o profeta Muhammad (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele)”, acho difícil imaginar que ele esteja em Tirmidhi ou em qualquer outro lugar com uma cadeia de transmissão aceitável, pois Suyuti dificilmente deixaria de mencioná-lo em seu Khasa’is, já que é desse tipo de coisa que o livro trata. Suyuti é mestre em hadith (hafiz) e mesmo assim não o incluiu. De qualquer maneira, o Alcorão é suficiente acerca do Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) ser uma luz de Allah.

Por fim, na metafísica dos sufis, ao menos na daqueles que conheci, o Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele) é tanto a “Luz de Allah” quanto “um ser humano”, e a incapacidade de conciliar os dois aspectos é uma falta de entendimento da grandeza da al-Haqiqa al-Muhammadiyya, a “Realidade Muhammadiana”.

Para se obter um entendimento sobre a origem do raciocínio deles, podemos reparar que todo o universo foi criado por Deus para que Seus nomes e atributos pudessem ser manifestos, ou seja, para que Ele viesse a ser conhecido, pois Ele diz:

Não criei os gênios e os humanos senão para Me adorarem.” (Alcorão 51:56).

(al-Baghawi:) Mujahid [ibn Jabr al-Makki (d.104/722)], diz que isso significa “senão para Me conhecerem”, o que é uma interpretação válida, já que se Ele não os tivesse criado, eles não saberiam da Sua existência e da Sua unicidade (Ma‘alam al-tanzil, 5.230).

Já os nomes divinos, como al-Rahman “o Infinitamente Bom”, al-Karim “o Generosíssimo”, al-Rafi‘ “Aquele que Eleva”, al-Khafid “Aquele que Rebaixa”, al-Sabur “o Pacientíssimo”, al-Muntaqim “O Vingador” e os outros, suscitam e contêm a existência de todo o espectro das condições humanas – mas particularmente, em última análise, eternamente e em sua manifestação máxima – os resultados de paraíso e inferno.

Esses resultados, por sua vez, pressupõem um logos ou ordem determinante que as governa, uma lei iluminadora que torna transparentes e compreensíveis tanto eles próprios quanto os estados de seus habitantes, um padrão máximo. Isto é o que chamamos de Shari‘ia ou “Lei Sagrada”, inseparável em princípio da sua origem divina, pois ela é uma só com a fala de Allah, que é o Alcorão, e com a sunna, o Seu ato de inspiração do Profeta (que as bênçãos e a paz de Deus estejam com ele). Parte da Lei é que “nenhum de vós entrará no paraíso pelas vossas obras” (e sim pela misericórdia de Allah), mas os níveis dentro dele correspondem a obras, cujas qualidades e condições são dadas na revelação.

Do ponto de vista da manifestação dos atributos e dos nomes divinos – cujos resultados finais consistem nos destinos dos seres humanos, sem os quais eles permaneceriam ocultos – o aparecimento da Shari‘a islâmica, em sua forma final e perfeita ao final da história humana, é a razão de ser de todo o universo criado; e, ontologicamente, o precede no conhecimento atemporal e pré-eterno de Allah, o Altíssimo.

E o ponto focal dessa luz das luzes, o pináculo de tudo aquilo que diz respeito ao seu aparecimento, o local de sua manifestação – de certo modo o resumo de todo ser criado e a circunstância para o seu surgimento – é a al-Haqiqa al-Muhammadiyya, ou a “Realidade Muhammadiana”, o Santo Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele), cuja consciência era idêntica a esta Shari‘a.

Não podemos nunca afirmar que conhecemos todas as perfeições do Profeta (que as bênçãos e a paz de Allah estejam com ele), apenas que Allah o descreve em Seu livro como “luz” – ao passo que, ao mesmo tempo, ele tinha de ser um ser humano para que a Lei Sagrada pudesse se manifestar e que o imperativo de obedecê-la fosse obrigatório para todo ser humano. E Allah sabe mais.

Fonte: http://masud.co.uk/the-muhammadan-reality/

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Tradução: Daniel Cipolla

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