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O Herói Muçulmano que guerreou contra Mussolini e os Fascistas

  • Em 1911, os líbios entraram na guerra para libertar o país da ocupação italiana.
  • Em 1924, a dominação estrangeira se tornou ainda mais violenta com a ascensão do fascismo na Itália.
  • O general dos líbios foi Omar al-Mukhtar, um professor de Alcorão e importante líder tribal.
  • Durante 20 anos, Omar frustrou os planos dos italianos em dominar o povo líbio, até sua captura e execução, em 1931.

Em 1911, o exército italiano começou a sua ofensiva para dominar a Líbia, no extremo-norte da África, que, na época, era um país que pertencia aos turcos otomanos. Os italianos pensavam que os líbios os veriam como grandes libertadores da opressão dos turcos, mas aquele seria o início de uma rebelião contra a colonização europeia que duraria 20 anos.

O principal nome da resistência foi Omar al-Mukhtar, um líder tribal, professor de Alcorão e membro da ordem sufi Senussi. Ele se tornou o grande general dos rebeldes e dedicou os anos finais de sua vida a combater os italianos, tornando-se um desafio inclusive para o ditador fascista Mussolini, que passou por muitas dificuldades para reprimir os líbios.

Trajetória

Omar nasceu em 1858 em Cirenaica, na parte oriental da atual Líbia. Perdeu seu pai muito cedo e foi adotado por um sheikh. Seu tio ocupava um cargo político e religioso e, por causa disso, Omar recebeu educação religiosa na mesquita local desde muito cedo, o que o motivou a estudar na universidade na cidade de Jaghbub.

Na nova cidade, Omar se juntou à ordem sufi Senussi, tornou-se imam, professor de Alcorão e começou a ganhar protagonismo solucionando problemas tribais. Ele se juntou ao Movimento Senussi e acabou sendo enviado para o Chade, onde se tornou sheikh e, posteriormente, lutou contra a invasão da França no país em 1899.

Em 1902, ele voltou para Cirenaica, onde foi nomeado sheikh em uma área conturbada na região norte. Não há muitas informações sobre sua vida antes da guerrilha.

Guerrilha

Invasão italiana

Quando os italianos invadiram a Líbia, em 1911, começaram atacando Trípoli e Benghazi, dando início à reação da oposição armada em Cirenaica. Omar reuniu cerca de 1000 homens para lutar ao lado dos otomanos. 

No entanto, em 1913, os otomanos foram forçados a assinar um tratado de paz com os italianos, pois já estavam fragilizados por causa da guerra nos Balcãs, mas os guerrilheiros continuaram com seus ataques. Os italianos continuaram reagindo intensamente aos ataques rebeldes, mas sua ofensiva ficou bem mais tímida em relação aos primeiros anos de guerra.

A princípio, a revolta foi liderada por Muhammad Idris al-Senussi, mas depois que ele costurou um tratado de paz com os invasores que não foi aceito pelos rebeldes, nomearam Omar como líder em 1922.

Os conhecimentos do general sobre a geografia do deserto e o despreparo dos italianos neste tipo de bioma deram grande vantagem aos líbios que, após os ataques, acabavam evadindo rapidamente para o deserto. O sucesso nas ofensivas fez os italianos temerem seus oponentes e reconhecerem seus méritos.

Batalhas contra os fascistas

Em 1924, Mussolini era o primeiro-ministro da Itália. Nessa época, o ditador fascista deu início à “Reconquista Romana” na tentativa de fazer a Itália reconquistar uma posição dominante no Mediterrâneo, como era nos tempos do Império Romano. Por anos, os italianos tentaram lidar com os rebeldes tentando estabelecer acordos, mas os fascistas abriram mão da diplomacia e tentaram sufocar a guerrilha à força. 

O exército italiano começou a esboçar a sua primeira grande reação na região montanhosa de Jadel Akhdar. Foi quando o governador Ernesto Bombelli ampliou a atividade militar no local, fazendo com que os líbios enfrentassem duros ataques. Isso obrigou Omar a mudar sua tática e, mais tarde, ele também conseguiu apoio do Egito em sua resistência.

Em 1927, os italianos começaram a expandir as atividades militares para outras regiões para fechar o cerco à jihad, fazendo com que vários líderes tribais que apoiavam os rebeldes se rendessem e conquistando cidades em boa parte da Líbia.

O fracasso de Mussolini

Em 1927, os soldados italianos saíram desmoralizados de uma derrota para os líbios em Rahiba, no leste do país. Essa batalha se iniciou depois que os italianos descobriram a localização dos guerrilheiros por meio de informações de espiões. Ao saber que os italianos estavam se aproximando, Omar ordenou a escavação de trincheiras para proteger os membros de todas as tribos empenhadas nas lutas, incluindo seus familiares.

Enquanto os líbios estavam em um contingente de cerca de 1500 guerrilheiros, os italianos tinham cerca de 5 mil soldados. Esse ataque elevou a ofensiva italiana para outro patamar, em que vários ataques aéreos foram feitos contra as trincheiras, matando cerca de 200 civis - boa parte eram mulheres e crianças, o que mostrou que a estratégia fascista era focada no extermínio e na destruição.

No entanto, Omar organizou os guerrilheiros em grupos bem pequenos, o que minimizou as perdas e potencializou os danos contra o inimigo. Os líbios conseguiram conter o ataque e os italianos se tornaram motivo de chacota em toda Europa por causa dessa derrota.

Essa vitória fez com que a resistência ressurgisse com força máxima e diversos territórios pelo país foram ocupados pelos líbios entre os anos de 1927 e 1928, fazendo com que Mussolini desistisse da ofensiva até que os italianos conseguissem planejar uma estratégia mais eficiente. Para manter o prestígio do exército, o ditador fascista preferiu cessar fogo e investir em infraestrutura militar para ajudar no deslocamento das tropas.

Tratado de Paz

O avanço dos guerrilheiros motivou os italianos a buscarem um acordo de paz com Omar. Os europeus pretendiam fazer os guerrilheiros desistirem da guerra em troca de uma pensão, mas Omar tinha outros objetivos: igualdade política entre italianos e líbios; que o povo pudesse escolher seus representantes; ter acesso às armas e garantia para ensinar o Islam e o idioma árabe.

Os combatentes fizeram duas reuniões, sem sucesso, para tentar estabelecer um acordo. Na terceira, houve um acordo e ambas as partes fizeram concessões, no entanto, o tratado seria assinado somente em uma reunião posterior. Quando chegou a hora de assinar o armistício, Omar enviou um representante mas, ao ver o tratado, percebeu que havia sido completamente adulterado pelos fascistas.

Houve uma dissidência dos líbios, que se renderam por não aguentarem mais guerrear, e os italianos esperavam que Omar fosse se entregar, mas isso não aconteceu. O Marechal Badoglio, responsável pelo acordo, acabou tendo sua reputação abalada por não conseguir encerrar a rebelião.

A situação se deteriorou ainda mais quando Omar divulgou o conteúdo das conversas com o Marechal na imprensa da Líbia e do Egito, o que fez com que a população tivesse uma visão ainda mais negativa de Badoglio e dos italianos e motivaria o fim do armistício.

A Captura de Omar

Em 1930, o general Rodolfo Graziani assumiu a responsabilidade pelas operações contra os guerrilheiros. A partir desse momento, a ofensiva italiana assume um caráter inescrupuloso, em que várias pessoas foram presas de forma arbitrária, incluindo mulheres, idosos, crianças, pessoas enfermas e deficientes.

A maioria dos sheikhs da região de Benghazi foram mortos, várias propriedades foram confiscadas, aldeias foram queimadas, plantações foram destruídas e animais foram mortos.  Campos de concentração foram estabelecidos no deserto para deter qualquer pessoa que pudesse ter ligações com a guerrilha.

Naquele mesmo ano, os italianos chegaram à constatação de que Omar ainda estava vivo, pois haviam encontrado seus óculos e visto seu cavalo durante uma batalha contra os líbios. Um ano depois, mais especificamente no dia 11 de setembro de 1931, o general foi visitar o túmulo de Ruwayfa bin Thabit, um companheiro do Profeta Muhammad, na cidade de Al-Bayda, quando foi visto pelos italianos e, após um confronto, foi ferido e capturado.

Morte

Omar foi julgado no dia 15 de setembro, mas os italianos já haviam decidido previamente por sua morte e o juiz apenas determinou a pena. 

Ele permaneceu tranquilo durante todo o processo, não negou suas responsabilidades na guerra e afirmou que os líbios não iriam se render, pois esse era o dever religioso deles. Ao ouvir sua sentença, Omar apenas respondeu: “O juízo é só para Deus, não para o vosso falso juízo. Pertencemos a Deus e a Ele voltaremos”.

Na manhã seguinte, Omar foi trazido diante de todos os seus companheiros capturados para ser enforcado. Os italianos tinham ordens para chicotear qualquer um que protestasse, mas a multidão inteira clamou a favor do general e os fascistas não conseguiram contê-los. Ele morreu citando os versos do Alcorão que diziam: 

“E tu, ó alma tranquila, retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e Ele satisfeito (contigo)! Entra no número dos Meus servos! E entra no Meu Paraíso!” (Alcorão, 89:27-30)

Fontes

-Al-Sallabi, Ali Muhammad .Omar Al Mokhtar Lion of the Desert (The Biography of Shaikh Omar Al Mukhtar)

-Rodolfo Graziani, "Cirenaica Pacificata"

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