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O Herói Muçulmano Homenageado por Judeus em uma Música


    • O Imam Shamil foi o terceiro imam a liderar a resistência dos muçulmanos contra os russos no Cáucaso.
    • Sua resistência durou 25 anos e, mesmo com um exército bem inferior, ele conseguiu enfrentar seus inimigos por muito tempo.
    • Imam Shamil foi traído por um falso acordo de paz e essa história fez com que os judeus criassem uma canção inspirada em seu legado.
    • Judeus e muçulmanos viveram em harmonia durante o período do Imamato do Cáucaso.

    Muitas pessoas tendem a definir as relações entre muçulmanos e judeus com base nos confrontos entre Israel e Palestina e, dessa forma, ignoram toda a história que veio antes da existência do conflito, que eclodiu quase na metade do século XX. Em muitos lugares, esses povos conviveram lado a lado e se influenciam mutuamente, incluindo no Cáucaso, em uma região que hoje pertence à Rússia.

    No século XIX, as nações do Cáucaso estavam divididas entre o Império Otomano e os Persas. No entanto, naquele período, a região ficou marcada pela expansão do Império Russo, que conseguiu dominar vários territórios. No entanto, essa ofensiva durou décadas e muitos homens tentaram impedi-la, inclusive Shamil, o terceiro Imam do Imamato do Cáucaso, herói muçulmano e importante mestre da ordem sufi Naqshbandi.

    A resistência do Imam Shamil contra os russos durou 25 anos e seus feitos foram de grande inspiração para a comunidade local, incluindo os judeus hassídicos, que criaram uma música que remonta aos feitos do Imam do Cáucaso e acabou se tornando parte da cultura judaica, trazendo lições sobre a alma e para a espiritualidade, mostrando que o legado do líder foi importante para outros povos além dos muçulmanos.

    A História do Imam Shamil

    O Imam Shamil nasceu em Gimry, no Daguestão, no ano de 1797. Ele se atraiu pelo caminho religioso durante sua juventude por causa dos ensinamentos de Ghazi Mollah, o primeiro imam da Guerra no Cáucaso e líder do movimento muridista, a resistência das ordens sufis locais que estabeleceu um califado entre os povos daquela região em 1829 e enfrentou a dominação russa.  

    Na época, o Cáucaso já era disputado há muito tempo entre persas e russos, sendo que, em 1817, estes últimos iniciaram um novo empreendimento militar para tomar o controle de toda a região e, em 1813, já haviam conquistado boa parte do Daguestão, terra natal de Shamil.

    No ano de 1832, Shamil e Ghazi Mollah ficam sitiados pelos russos enquanto estavam em uma torre durante uma batalha na cidade de Gimry. Ghazi avançou contra os inimigos, que acabaram matando-o, mas Shamil conseguiu escapar com vida, porém com graves ferimentos.

    Ghazi Mollah foi sucedido pelo Imam Gamzat-bek em 1832, mas este foi assassinado por causa da conspiração de uma dinastia rival dos Nutsabis em 1834. Shamil o sucedeu como terceiro imam, mas não foi reconhecido por todos os povos da montanha. No ano de 1839, ele sofreu uma dura derrota em que os russos conseguiram capturar seu quartel general após uma operação que durou dois dias e ficou conhecida como o Cerco de Akhoulgo.

    Shamil conseguiu escapar do quartel com vida e, no ano seguinte, após um congresso realizado na Chechênia, ele finalmente foi eleito imam do povo checheno e do Daguestão. 

    O Imamato na era Shamil

    O governo de Shamil ficou marcado por resistir e contra-atacar heroicamente as investidas militares da Rússia, mesmo tendo um contingente bem menor do que o exército do império. Seu espírito de liderança e sua força inspiraram muitas comunidades religiosas a lutarem pelo imamato.

    Shamil conseguiu unir as comunidades da Chechênia e do Daguestão, que antes dele tinham muitos atritos, sob a bandeira do Islam. Seu governo durou 25 anos, se esforçou para abolir as ordens e instituições baseadas nos costumes tribais antigos e estabeleceu a Sharia como lei entre os povos das montanhas.

    Nos primeiros anos, ele iniciou empreendimentos militares para conquistar novas aldeias e fortalezas e defender seus domínios do império russo. Em 1841, o governador de Khunzakh, Hadji Murad, abandonou sua aliança com os russos e se juntou ao exército de Shamil. Nessa época, o imamato atingiu sua maior extensão territorial e poderio militar, contando com um contingente de 30 mil homens, sendo que muitos deles eram desertores dos inimigos.

    Após diversos empreendimentos bem-sucedidos, o Imam Shamil viveu seu auge em 1845, durante a Campanha de Dargin, quando os russos tentaram tomar seu quartel general entre os meses de maio e julho. Incapazes de enfrentar o gigante exército em campo aberto, Shamil permitiu que os inimigos penetrassem profundamente na Chechênia, fazendo com que eles gastassem seus suprimentos. Os ataques do imamato viriam entre os dias 13 e 16 de julho.

    Quando as vanguardas começaram a se separar do exército para ver se havia alguém nas vilas que eram alvos do império, Shamil fez emboscadas cercando os russos através de ataques pelas colinas. Quando esses últimos iam em direção aos montanheses (como eram conhecidas as tropas de Shamil), eles se retiravam e emboscavam novamente quando os inimigos buscavam se reagrupar. Mais de 7 mil russos morreram durante a operação.

    O Declínio de Shamil

    A partir de 1847, a relação entre Shamil e Hadji Murad começou a se deteriorar, fazendo com que o governador de Khunzakh se debandasse para o lado dos russos em 1851. Não se sabe o motivo exato do atrito entre eles. Algumas fontes dizem que foi porque Shamil não admitiu Hadji como seu sucessor, outras dizem que pode ter havido pessoas que semearam intrigas entre os dois. 

    Ainda em 1847, o imamato começou a sofrer duras derrotas para o exército imperial e a moral de Shamil entre os chechenos começou a diminuir. Entre 1852 e 1854, ele chegou a dominar territórios na Transcaucásia e estabeleceu uma aliança com os turcos, mas logo Shamil percebeu que o desejo deles era transformar o imamato em um território do Império Otomano. Porém, os montanheses desejavam independência e, portanto, logo ele parou de responder a este pacto.

    Em 1855, os montanheses já estavam cansados da guerra e os problemas econômicos da região estavam começando a se agravar. Percebendo isso, o governador russo do Cáucaso, Muravyov, propôs um acordo de paz, prometendo que o imamato se tornaria um reino independente sob o protetorado da Rússia e Shamil concordou. No entanto, isso seria o início de uma cilada.

    Em 1856, os russos começam a deslocar suas principais forças para o Cáucaso e, quando Shamil percebeu que foi enganado, fugiu para a pequena Chechênia e depois para o Daguestão, onde conduziu sua última resistência heróica, mas se viu traído por seus aliados, que facilitaram o avanço dos russos em troca de suborno, enquanto outros se renderam ao exército do império. 

    Em 1859, Shamil foi derrotado e exilado para a cidade de São Petersburgo e o Cáucaso nunca mais viu o Islam pulsar com tanta intensidade outra vez.

    Um Imam na Cultura Musical Judaica

    A história de Shamil ficou mais conhecida entre os judeus a partir de 1958, quando Lubavitcher Rebbe, um grande rabino do judaísmo hassídico moderno, contou sobre o imam que liderou as tribos das montanhas contra os russos e foi perseguido por eles que, por não serem capazes de derrotá-lo, o atraíram para uma armadilha através de um falso acordo de paz.

    Na história de Lubavitcher, quando o imam estava na prisão, ele compôs uma melodia triste e emotiva que lembrava a sua ascensão, sua queda e sua espera por liberdade. A canção teria sido ouvida por um judeu que a ensinou ao rabino que, por sua vez, cantou-a em uma reunião do movimento chabad e a música ficou conhecida entre eles como “Niggun Shamil”.

    A história do Imam Shamil passou a fazer parte da cultura dos judeus hassídicos pelo seu significado espiritual. A elevação de Shamil nas montanhas, o poder que ele tinha quando estava em seu terreno alto, a forma como ele foi seduzido e traído pelos russos e, por fim, o seu canto triste na prisão esperando por liberdade refletem algumas metáforas sobre a alma humana.

    Em suas fontes, os judeus relatam a seguinte moral para a história de Shamil: 

    “Sua verdadeira história é uma alegoria para as crônicas da alma. Cada alma desce do céu a este mundo vestida com o corpo de um ser humano. Suas vestimentas físicas, em certo sentido, são sua cela de prisão, pois ele anseia constantemente pela liberdade espiritual e pela realização que conheceu. Ele se esforça para se libertar do 'exílio' do corpo humano, direcionando a atividade física do corpo para o caminho da Torá e mitsvot, antecipando o tempo em que deixará este mundo para trás e mais uma vez ascenderá aos elevados reinos espirituais.” (Sichos Kodesh do Rebe , Simchas Torá , 5719)

    Veja a versão em uma reunião do movimento chabad.

    Nessa outra versão, é possível ouvir de forma mais clara a melodia da canção.

    Como os Judeus Souberam de Shamil

    Não há muitos relatos históricos que contam sobre a relação de Shamil com o povo judeu, mas é fato que o imam fez de sua terra um lugar multicultural, onde haviam russos, georgianos, polacos, judeus e outros povos que desertaram o Império russo, usavam a região como rota comercial ou até mesmo que já viviam naquele local anteriormente.

    Shamil permitiu a construção de um templo judaico dentro do território do imamato, mais especificamente em Buinaksk, no Daguestão, conhecido como sinagoga dos judeus da montanha ou sinagoga de Temir Khan Shura. O local existe até hoje, mas não há nenhuma atividade por ali desde a década de 1990.

    Embora não haja muitos detalhes sobre a relação entre os muçulmanos e judeus naquele período, a concessão de Shamil e a homenagem feita pelos hassídicos podem ser indicativos de que havia harmonia entre as duas religiões no território do imamato.

    Assim como é dito na canção judaica, o Imam Shamil se libertou de seu corpo e voltou para Deus em 1871, quando faleceu durante uma peregrinação na cidade de Medina, uma das terras sagradas para o Islam e onde jaz o Profeta Muhammad. Ele teve o privilégio de ser sepultado no Jannat al-Baqi, onde muitos companheiros do Mensageiro de Allah também foram enterrados, revelando pela última vez a sua grandeza espiritual a todos os povos.

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