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Livros islâmicos clássicos vêm sendo adulterados há anos

Diversos textos estão sendo traduzidos de forma errada e tendo trechos retirados com o intuito de provocar interpretações erradas no leitor.

Pergunta:

No que diz respeito às adulterações de Wahhabi em textos clássicos, quão difundido é esse crime hediondo? Você pode dar alguns exemplos sérios disso?

Resposta:

Eu não sei o quão difundido é, mas isso certamente existe. Das evidências concretas que eu vi pessoalmente, há o trabalho que eu estou traduzindo atualmente, Kitab al-adhkar (O livro das lembranças de Allah) do Imam Nawawi. O texto que Nawawi escreveu no Livro do Hajj de Adhkar diz o seguinte:

“Seção: A visita ao túmulo do Mensageiro de Allah e as lembranças de Allah feitas ali.” Saiba que todos que fazem o Hajj devem visitar o Mensageiro de Allah, estando ele no caminho ou não, é um dos atos mais importantes de adoração, um dos esforços mais recompensados e o melhor dos objetivos. Quando alguém parte para visitá-lo, deve invocar muitas bênçãos sobre ele. E quando os olhos recaírem sobre as árvores de Medina, seu santuário e marcos históricos, a pessoa deve intensificar as bênçãos sobre o Profeta, pedir a Allah, o Altíssimo, que a abençoe pela visita e que, através dela, garanta sua felicidade neste mundo e no vindouro. Deve-se dizer “Ó, Allah, abra para mim as portas de Sua misericórdia e conceda a mim, através da visita ao túmulo do Seu Profeta, o que Você concedeu aos Seus amigos, aqueles que O obedecem. Perdoe-me e mostre-me sua misericórdia, ó O Melhor Para Suplicarmos” (al-Adhkar al-Nawawiyya, 283–84).

Na impressão de 1988 deste trabalho, publicado por Dar al-Huda em Riyad, na Arábia Saudita, sob inspeção e aprovação da Riyasa Idara al-Buhuth al-Ilmiyya wa al-Ifta, ou “Presidência da Supervisão dos Estudos Eruditos e Opinião Legal Islâmica,” essa mesma seção foi modificada de acordo com a visão de Ibn Taymiya, segundo a qual viajar para visitar o túmulo do Profeta é desobediência (só se torna permissível, de acordo com o ponto de vista dele, se a pessoa pretende visitar a Mesquita do Profeta). A versão alterada do texto de Nawawi pode ser lida a seguir:

“Seção: Visita à Mesquita do Mensageiro de Allah (apagado)”

Saiba que é preferível para qualquer um que queira visitar a Mesquita do Mensageiro de Allah (apagado) invocar muitas bênçãos a ele no caminho. E quando os olhos recaírem sobre as árvores de Medina, seu santuário e marcos históricos, deve-se intensificar as bênçãos sobre o Profeta, pedir a Allah, o Altíssimo, para beneficiar um por um daqueles que visitarem a mesquita e para garantir a eles a felicidade neste mundo e no vindouro. Ele deve dizer: “Ó Allah, abra para mim as portas de Sua misericórdia e conceda a mim, através da visita à mesquita do Seu Profeta, o que Você concedeu aos Seus amigos, aqueles que O obedecem. Perdoe-me e mostre-me misericórdia, ó O Melhor Para Suplicarmos.” (al-Adhkar, 295).

O mesmo impresso arrancou quase meia página da seção do tawassul (suplicar a Allah através do Profeta) quando visitam o túmulo do Profeta — aparentemente para promover a doutrina Wahhabi de que isso é shirk, ou “associação de parceiros a Allah.”

Eles atribuíram as palavras acima ao Imam Nawawi sem mencionar de maneira alguma que fizeram alterações.

Isto não deveria surpreender os ocidentais, que tiveram antes deles a tradução de Muhammad Muhsin Khan do Sahih al-Bukhari por alguns anos. Nela, nós encontramos as posições de Bukhari sobre os efeitos do Profeta: “e de seus cabelos, suas sandálias e seus vasos, daquilo que seus companheiros e outros usaram para obter bênçãos depois de sua morte (yatabarraka bihi As-habuhu wa ghayruhum bada wafatihi)”, em que as palavras yatabarraka bihi foram traduzidas como “foram consideradas coisas abençoadas” em inglês (Khan, Sahih al-Bukhari, 4.218). 

O verbo arábico tabarraka bihi significa “Ele teve uma bênção; e ele era ou se tornou, abençoado, por meio dele, ou disso” (Lane, Arabic-English Lexicon, 1.193), ou frequentemente, “ele procurou uma bênção por meio de,” ou “considerado um meio de se obter uma bênção” dele ou isso (ibid.) — em qualquer caso, realmente obtendo ou esperando obter a bênção por meio dessas coisas, o que é uma nuance muito diferente do passivo “foi considerado como abençoado,” que não implica nenhum benefício a ele.

Ou considerando a “introdução” de 73 páginas do volume desta mesma tradução, uma brochura que explica a trindade islâmica: Tawhid al-Rububuyya, Tawhid al-Uluhiyya e Tawhid al-Asma wa al-Sifat — o (1) Tawhid do Senhorio, (2) Tawhid da Divindade e (3) Tawhid dos nomes e atributos. 

Através do prefácio, Dr. Khan observa que muitos ocidentais convertidos entram no Islam sem conhecer o que a Unidade de Allah realmente significa. Ele esclarece que o tawhid não é um; isto é, pronunciar e crer na shahada do Islam com completa convicção — como era desde o tempo do Profeta até o advento de Ibn Taymiyyah, sete séculos depois — como os novos convertidos podem imaginar, mas agora deve ser três para ser um, e não pode ser um sem ser três. 

Enquanto esta lógica pode ser familiar para os convertidos do cristianismo, Imam Bukhari certamente nunca soube nada a respeito, e isso estar impresso como uma “introdução” ao trabalho me parece digno de ser qualificado como “adulteração dos textos clássicos” — além de ser uma reforma da aqida tradicional, na qual o Islam, nas palavras do Profeta do Islam, “é testificar que não há deus exceto Allah e que Muhammad é o servo e mensageiro de Allah…” (Sahih Muslim, 1.37: 8).

Outro exemplo é encontrado no comentário do famoso erudito Maliki Ahmad Sawi (1825) na exegese corânica Tafsir al-Jalalaynof Jalal al-Din Mahalli e Jalal al-Din Suyuti, na qual ele diz no verso “Posto que Satanás é vosso inimigo, tratai-o, pois, como inimigo, porque ele incita os seus seguidores a que sejam condenados ao Fogo abrasador!” (Alcorão 35:6).

É dito que este verso revelado é sobre os Kharijitas (prevendo sua aparência), que alteraram a interpretação do Alcorão e a Sunnah, ao ponto de considerarem permissível matar e tomar propriedade de outros muçulmanos — como pode ser visto agora nos seus colegas modernos; isto é, uma seita do Hijaz chamada“Wahhabis”, que “crerão que possuem algo. Não são, na verdade,  uns mentirosos? Satanás os conquistou e os fez esquecer da recordação de Allah. Estes são os seguidores de Satanás. Não é, acaso, certo que os seguidores de Satanás serão os desventurados?” (Alcorão 58:18–19). Pedimos a Allah, o Generosíssimo, que os extripem completamente (Sawi: Hashiya al-Sawi ala al-Jalalayn, 3.255). 

Esta passagem também é citada no Isa al-Babi al-Halabi na edição publicada no Cairo por volta dos anos 1930. Também foi impressa inteiramente na edição em Maktaba al-Mashhad al-Husayni (3.307–8), publicada no Cairo em 1939, na qual foi reproduzida pela Dar Ihya al-Turath al-Arabi (3.307–8) em Beirute, nos anos 1970. 

No começo dos anos 1980, o movimento Salafi, ou os petrodólares, ou alguma combinação dos dois, gerou mercado suficiente para instigar a Dar al-Fikr em Beirute a imprimir a mesma impressão antiga, mas com uma mudança clandestina. No terceiro volume, parte da linha final da página 307 e da linha do topo da 308 foi apagada, eliminando as palavras que “nomeavam” a seita do Hijaz chamada “Wahhabis”, venalmente censurando todo o argumento que o autor está tentando dizer sobre os colegas modernos dos Kharijitas, a fim de vender para eles. 

A exclusão foi praticamente indistinguível de um erro de espaçamento comum ocorrido no final de duas páginas, embora Dar al-Fikr compensou quaisquer erros técnicos a esse respeito em 1993 com uma versão de quatro volumes do Hashiya al-Sawi ala al-Jalalayn, que na página de título declara ser “uma nova e corrigida (munaqqaha) impressão.” 

A passagem aparece acima na página 379 do terceiro volume com as mesmas frases anteriores cobertas, mas desta vez em um texto contínuo, então ninguém pode adivinhar que as palavras de Sawi foram removidas.

Ou considere o exemplo da exegese corânica de dois volumes de Abu Hayyan al-Nahwi (1353), Tafsir al-nahr al-madd (A Exegese do Longo Rio) condensada principalmente de sua exegese anterior de oito volumes al-Bahr al-muhit (O Mar Envolvente), sem dúvidas o melhor tafsir escrito, baseado principalmente na gramática árabe. Abu Hayyan, de origem andalus, estabeleceu-se em Damasco, conheceu pessoalmente Ibn Taymiya e tinha grande estima por ele, até o dia que Barinbari (d. 717/1317) trouxe um trabalho de Ibn Taymiya chamado Kitab al-arsh (O Livro do Trono). 

Ali eles encontraram, na caligrafia de Ibn Taymiya (que era familiar para Abu Hayyan), sugestões antropomórficas sobre a Deidade, o que fez com que Abu Hayyan amaldiçoasse Ibn Taymiya até o dia em que ele morreu. Isto é mencionado pelo mestre de hadith (hafiz) Taqi al-Din Subki in hisal-Sayf al-saqil (85). Abu Hayyan, em sua própria exegese corânica da Ayat al-Kursi (Alcorão 2:258) na surat al-Baqara, registrou algo que mudou completamente sua opinião: Eu tenho lido no livro de Ahmad ibn Taymiya, este indivíduo do qual somos contemporâneos, no livro com a caligrafia dele, e que ele o nomeou como Kitab al-arsh (O Livro do Trono), que “Allah, o Altíssimo, está sentado (yajlisu) no Kursi e deixou um lugar nele desocupado para que o Mensageiro de Allah se assente”. 

Al-Taj Muhammad ibn Ali ibn Abd al-Haqq Barinbari enganou Ibn Taymiya fingindo ser um apoiador para obter o livro, e isso é o que se pode ler nele (al-Nahwi, Tafsir al-nahr al-madd, 1.254). Isto é interessante não somente porque documenta (escrito por um dos maiores eruditos do Islam) que Ibn Taymiya tinha uma “aqida dupla” (uma pública e a outra antropomórfica para seu círculo íntimo de iniciados), mas também porque quando o trabalho de Abu Hayyan foi impresso pela primeira vez, na margem de sua mais longa exegese al-Bahr al-muhit no Cairo por Matbaa al-Saada em 1910, toda a passagem foi excluída — intencionalmente, como o culpado mais tarde confessou para Muhammad Zahid Kawthari, que cita a passagem acima numa nota de rodapé para Sayf al-saqil, que diz:

“Esta sentença não está impressa na exegese al-Bahr [al-muhit], pois o editor de cópias de Matbaa al-Saada me disse que achou isso extremamente revoltante, que ele julgou enorme demais para atribuir a um muçulmano, então ele excluiu para que não pudesse ser explorado pelos inimigos da religião. Ele me pediu para registrar isso como forma de se retratar pelo que fez, e como um conselho (nasiha) aos muçulmanos” (al-Sayf al-saqil, 85).

O engano foi perpetrado novamente quando o Tafsir al-nahr al-madd de Abu Hayyan foi impresso por conta própria em Beirute com a mesma exclusão de Dar al-Fikr em 1983, e não foi retificado até Dar al-Janan e Muassasa al-Kutub al-Thaqafiyya, em Beirute, publicarem-no usando manuscritos originais da obra em 1987.

Penso que estes exemplos são suficientes para dar uma ideia geral do processo, embora os motivos possam diferir de caso para caso.

E Allah sabe melhor.

Traduzido de Masud de © Nuh Ha Mim Keller 1995

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