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Islamismo em Moçambique: Origem e os dias atuais

O Islam é a religião de 18% da população de Moçambique. No país, as tradições muçulmanas convivem com as crenças locais africanas.
  • O islamismo é a segunda religião com mais adeptos em Moçambique.
  • No país, o islamismo tem aspectos diversos: mescla elementos dos ensinamentos tradicionais e de tradições africanas.
  • O pequeno território da Ilha de Moçambique é um dos destaques da cultura islâmica na região.

Em Moçambique, os muçulmanos representam cerca de 18% da população total do país (de acordo com uma estimativa de 2018, a população moçambicana chega a 27,2 milhões de pessoas). Isso significa que a religião é a segunda com maior número de adeptos no país. No entanto, essas estatísticas são questionadas por alguns líderes que afirmam que existem muito mais muçulmanos na região.

De acordo com esses líderes, isso ocorre porque uma parcela significativa da população adere a crenças religiosas indígenas sincréticas, caracterizadas por uma combinação de práticas tradicionais africanas e aspectos do islamismo – uma categoria não incluída nas estimativas do governo. Para os líderes muçulmanos, então, a comunidade islâmica é responsável por 25% a 30% da população total de Moçambique. Esta é uma estatística relatada frequentemente na imprensa.

As estatísticas ainda dão conta de que o maior número de seguidores do islamismo está entre os sunitas. Além disso, de modo geral, há projeções que apontam para o crescimento de seguidores do islamismo em Moçambique. Até o ano de 2030, deve haver um aumento de mais 2 milhões de muçulmanos no país. 

Breve histórico antes da ocupação portuguesa

Dados históricos sobre o islamismo, ou sobre os muçulmanos, em Moçambique, antes do século XVI, são raros. A pesquisa sobre esse assunto não é sistemática, nem abrangente. No entanto, o que se sabe a respeito desse período é que evidências arqueológicas sugerem que desde, pelo menos, o século VIII, o litoral norte de Moçambique fazia parte do mundo suaíli e, portanto, provavelmente compartilhava concepções e práticas com os vizinhos suaíli.

Reconhece-se também que, nesse primeiro período, a presença muçulmana foi limitada a assentamentos costeiros, como em Sofala, na Ilha de Moçambique e nas ilhas de Angoche, por exemplo. Já no século XIII, o Oceano Índico, que era considerado um “mar muçulmano”, foi lançando as bases para uma presença muçulmana mais permanente em Moçambique.

Mas foi apenas em meados do século XV que comerciantes árabes e suaílis estabeleceram uma série de atividades comerciais nos sultanatos religiosos ao longo da costa de Moçambique, mais especificamente entre as ilhas de Angoche, no norte, e o território de Sofala, ao sul.

Quando chegaram na região, os portugueses, após os confrontos iniciais com os muçulmanos, não fizeram esforços para interferir nos assuntos religiosos locais. O islamismo, em Moçambique, estava ligado aos clãs dominantes, em particular os chamados Shirazis, que mantinham o controle sobre a fé islâmica professada localmente e tinham íntimas relações políticas, econômicas e de parentesco com o mundo suaíli. 

As tradições orais locais sustentam que, quando os portugueses ocuparam importantes cidades suaíli, no século XVI, como Quelimane, Sofala e a Ilha de Moçambique, muitos Shirazis abandonaram os antigos assentamentos e fundaram novos. Esses novos assentamentos, construídos ao longo da costa, permaneceram independentes dos portugueses até o início do século XX.

Intensificando o contato com os portugueses 

Mesquita Jumma Masjid
Mesquita Jumma, em Maputo, no ano de 1929. (Foto: Reprodução)

Quando Vasco da Gama ancorou na costa moçambicana, em 1498, ele encontrou o local ideal para estabelecer vias de comércio. Mas nos primeiros quatro séculos de sua presença no território que hoje é Moçambique, a penetração portuguesa foi mínima. Foi só depois da Conferência de Berlim, em 1885, que os portugueses se sentiram obrigados a ocupar de maneira mais eficaz o território.

Nessa época, também, por volta de 1840, ocorreu um processo interessante em Moçambique: professores muçulmanos, assim como comerciantes que acompanhavam as caravanas que viajavam pelo interior, aproveitaram a penetração territorial para expandir o islamismo. Por isso, reconhecem-se traços da cultura islâmica cada vez mais fortes nessa região desde esse período.

É importante, também, considerar que a expansão do islamismo no norte de Moçambique recebeu grande influência do sultanato de Zanzibar na região. A relação com Zanzibar era fundamental, principalmente quando se tratava da educação islâmica. Isso porque os chefes políticos costumavam enviar seus filhos para Zanzibar, a fim de que estudassem em escolas islâmicas. Além disso, exemplares do Alcorão chegavam por intermédio das livrarias de Zanzibar. 

As razões para a crescente islamização foram variadas e complexas na região. Mas uma parte considerável teve a ver com uma associação mais estreita entre os parceiros comerciais muçulmanos e seus representantes ao longo da costa.

As relações turbulentas, devido à invasão de europeus, também contribuíram para a propagação do Islam. No início, os portugueses foram bem-sucedidos em converter a população de Moçambique ao catolicismo romano. Mas quando os comerciantes de escravos árabes se recusaram a aceitar os muçulmanos como escravos, o Islamismo se tornou popular.

O domínio colonial português ocorreu em Moçambique entre 1891 a 1975, com comércio de marfim, ouro, escravos, borracha e oleaginosas. E, durante esse período, as relações entre os muçulmanos estabelecidos no país e os portugueses oscilaram bastante. 

Um ponto de ruptura importante ocorreu no início do século XX. Os movimentos islâmicos se opunham ao domínio colonial, principalmente no norte de Moçambique, desde a década de 1920, quando alguns líderes muçulmanos protestaram contra os abusos do trabalho forçado, baixos salários e apropriação da terra na área de Quelimane.

Depois disso, a partir da década de 1930, africanos muçulmanos se organizaram em grupos para realizar ações políticas. Do ponto de vista islâmico, a situação entre moçambicanos e portugueses tornou-se mais tensa a partir de 1942, quando Moçambique se tornou um território ultramarino português (termo que se refere a territórios portugueses no exterior).

O trabalho forçado, a tributação arbitrária, a obrigação de plantar culturas comerciais e a falta de melhoria social produziram um forte descontentamento entre os africanos, o que levou ao despertar de uma consciência nacional.

Na década de 1960, o isolamento dos muçulmanos em Moçambique estava se deteriorando. As autoridades coloniais descobriram que os muçulmanos estavam buscando educação na Tanzânia e na Arábia.

Publicações islâmicas do Cairo e Mumbai estavam disponíveis e os muçulmanos estavam interessados em adquirir alfabetização em árabe. Por isso, é possível que associações islâmicas clandestinas estivessem sendo estabelecidas já em 1950 no país.

Depois da independência de Moçambique, em 1975, as lideranças muçulmanas que cooperaram com as autoridades coloniais foram desacreditadas. Algumas associações muçulmanas foram banidas em 1976. Mas os muçulmanos que sofreram com as restrições impostas pelo período colonial passaram a ter mais liberdade.

Moçambique muçulmana atual

Moçambicanos muçulmanos
Moçambicanos muçulmanos. (Foto: nahara.info)

Outro marco do islamismo moçambicano foi a fundação do Conselho Islâmico em Moçambique, no início de 1980. De forma geral, diz-se que a sua fundação tinha a intenção de neutralizar deturpações e inovações do islamismo. 

Para isso, buscou-se compor uma classe de especialistas – fala-se desta maneira, principalmente, porque seus membros têm a educação islâmica em universidades fora de Moçambique –  autorizada para se autoproclamar portadora de um Islam único e indivisível

Em meados dos anos 90, pode-se dizer que houve uma maior abertura por parte dos políticos e dos partidos, que acabaram beneficiando os muçulmanos. Mas, pensando nas questões mais atuais, ainda há tensões internas entre tradicionalistas e reformadores, assim como muitas diferenças culturais entre os vários grupos étnicos na comunidade muçulmana. 

Aspectos gerais do Islamismo em Moçambique

Em relação ao modo de se vestir, nas cidades de Moçambique, homens e mulheres podem ser vistos vestindo ternos no estilo ocidental. Mas também há muitos que se vestem com estampas africanas.  

Normalmente, as mulheres mantêm seus trajes tradicionais. Nas áreas rurais, elas usam longas tiras de tecido enroladas no corpo, debaixo dos braços e sobre um ombro, com um lenço de cabeça tradicional. E os homens do norte usam mantos brancos e cobertas, indicando que são muçulmanos.

Outro ponto interessante diz respeito às línguas faladas na região. Pode-se resumir a questão da língua em Moçambique da seguinte maneira: há a língua oficial, o português, e há as línguas “maternas”, como o ronga, macua e ndau. Além destas, no norte do país, há crianças que aprendem a ler e a escrever em árabe, nas chamadas escolas corânicas (madraças), que funcionam nas mesquitas de Nampula.

A língua portuguesa é ensinada formalmente nas escolas. Já as chamadas “línguas maternas” foram elaboradas pelos missionários que chegaram à região entre o final do século XIX e início do século XX. 

Em relação ao ensino do árabe, deve-se relembrar que, antes do contato com os europeus, já havia na região elites muçulmanas que contribuíram para a difusão do Islamismo e, assim, da escrita árabe também. Mas se, por um lado, esse processo deu sustentação à escritura, por outro, iniciou uma tensão entre os porta-vozes de um Islam tido como “puro” e um outro Islam considerado “indigenizado”.  

A Ilha de Moçambique: um reduto muçulmano

Outro ponto interessante de mencionar sobre o islamismo em Moçambique diz respeito à Ilha de Moçambique. Isso porque grande parte dos habitantes da ilha pertence à religião muçulmana.

A Ilha faz parte da província de Nampula e foi a primeira capital de Moçambique, até 1822. Depois, Maputo passou a ser a capital do país. Em 2018, a Ilha de Moçambique comemorou 200 anos desde que foi elevada à categoria de cidade. 

Ela também foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Organização da Nações Unidas para a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1991. A Ilha de Moçambique é um dos principais destinos turísticos da região austral da África devido à sua riqueza arquitetônica e cultural. Atualmente, a ilha tem uma população registrada de, aproximadamente, 42.000 pessoas. Mas ela é habitada por cerca de 15 mil pessoas.

Escola Maometana
Escola Maometana. (Foto: DW / J.Beck)

Desse número, grande parte sobrevive da pesca, de atividades agrícolas ou de artesanato. A população descende, principalmente, de imigrantes bantus que se estabeleceram na região por volta do ano 200 a.C. 

A influência dos árabes, que foram chegando à Ilha no decorrer dos séculos, pode ser percebida no dia a dia do principal grupo étnico da Ilha, o nahara. 

Os Nahara estão profundamente enraizados no Islam, embora muitos não estejam familiarizados com os detalhes da doutrina islâmica. Diz-se que a identidade muçulmana do Nahara é tão forte que poucas igrejas cristãs foram capazes de integrar o Nahara às suas congregações. Como em algumas regiões da África, o Islam e as práticas animistas estão eventualmente entrelaçadas. 

Breve histórico da presença muçulmana na Ilha

A ilha foi usada pelos comerciantes árabes como um centro comercial marítimo, principalmente no final do século XV. Foi esse comércio árabe que deu origem a uma linha de cidades-estados comerciais ao longo da costa leste-africana de Mogadíscio (Somália), até chegar na Ilha de Moçambique

Mas a relação com os árabes remete a períodos anteriores. Diz-se que a Ilha de Moçambique já era mencionada nos escritos árabes em 900 d.C. Além disso, diz-que os árabes começaram a se estabelecer na região no século X, quando negociavam com outros postos de sua rota, como Gujarate e Goa – ambos na Índia.

Embora a ilha não tenha atingido o destaque comercial de alguns de seus vizinhos do norte, como Sofala e Zanzibar, seu porto era inestimável e se tornou um ponto importante no comércio de ouro entre o interior da Rodésia e as rotas marítimas do Oceano Índico.

Essas cidades, conhecidas hoje como suaíli, surgiram de uma mistura de elementos das culturas africanas, árabes e indianas. Como era o porto de maior relevância situado mais ao sul da costa da África Oriental, a ilha se tornou um ponto de descanso para os comerciantes portugueses que se dirigiam para o leste. Assim, outra influência cultural foi adicionada: a portuguesa.

A ilha é, portanto, um testemunho vivo do encontro de todas essas culturas. Embora interações semelhantes entre essas culturas e grupos étnicos tenham acontecido em vários outros lugares ao redor do Oceano Índico, em Moçambique, falando especificamente da Ilha de Moçambique, essa configuração levou à integração e ao surgimento de uma cultura única.

Os elementos dessas culturas são reconhecidos na arquitetura da ilha. Comumente, descreve-se a Ilha como sendo dividida em duas partes: a chamada “cidade de pedra” e a “cidade de macuti”. A primeira tem cerca de 400 edifícios, incluindo os principais monumentos do lugar. Já a segunda, localizada na metade sul da ilha, tem cerca de 1200 casas de construção precária.

Em um estudo realizado pela Universidade de Massachussets, apontou-se que a arquitetura islâmica na parte da “Cidade da Pedra” está presente essencialmente em detalhes, tais como portas e portões. Também foram encontrados patrimônios arquitetônicos de cunho religioso e de influência islâmica na parte da Ilha conhecida como “cidade de Macuti”. No entanto, muitas dessas construções se encontram em estado avançado de decadência.

Conclusões

Dessa forma, pode-se perceber que o Islamismo, principalmente no norte de Moçambique, é uma mistura entre o conhecimento religioso islâmico tradicional e o conhecimento africano tradicional, que envolve o mundo espiritual dos antepassados e de elementos da natureza, como a terra e o mar. 

Alguns muçulmanos, por exemplo, continuam praticando um ritual de preparação no momento de eventos importantes ou oferecendo orações e derramando bebidas no local. Outros se consultam com curandeiros, tradicionais ou espiritualistas. Alguns destes que buscam curandeiros, inclusive, afirmam serem muçulmanos, tanto em busca de boa sorte, quanto de cura e soluções para problemas.

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