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Erros do Salafismo: A Palavra dos Idólatras não é Fonte para o Islam

  • Baseado na afirmação dos idólatras, os salafistas dizem que os politeístas acreditavam no senhorio de Allah, mas dedicavam adoração a outras divindades.
  • No entanto, o que os idólatras dizem não serve como fonte para os muçulmanos, e sim o que Allah diz.
  • Contrariando a afirmação dos politeístas, a Revelação de Allah mostra que eles acreditavam que as divindades adoradas eram senhores deles.
  • Allah diz que os idólatras eram como alguém que igualava os escravos a um mestre, ou seja, eles acreditavam que as divindades eram como Allah.

Os salafistas estruturam a sua crença em um tawhid triplo, o que significa que a fé em Allah se estrutura em crer na Unicidade de Allah, isto é, acreditar que Ele é o Senhor e Provedor de toda a criação, o que, em árabe, significa Tawhid ul-Rububiyah. Em seguida, eles afirmam que é preciso crer na Unicidade de Adoração e afirmar que só Deus deve ser adorado, o que é chamado de Tawhid al-Uluhiyah

Para facilitar a compreensão do texto, mencionaremos só esses dois tawhid, que são onde a inconsistência da crença salafista se inicia, pois, em seguida, eles afirmam que os politeístas da Arábia acreditavam na Unicidade Divina, mas também adoravam a outros deuses, isto é, tinham crença em Rububiyah, mas não em Uluhiyah. Atualmente, esse argumento é utilizado na radicalização da religião para dizer, inclusive, que há “muçulmanos infiéis”.

No entanto, usar a palavra dos politeístas como uma fonte para estruturar a crença é, do ponto de vista do Islam sunita, um erro grotesco, pois a fé islâmica só deve ser orientada por aquilo que foi dito por Allah e pelo Profeta Muhammad ﷺ, e não pelos idólatras. Por sua vez, Deus revelou versos dizendo que os pagãos tomaram  outras divindades como seus senhores, ou seja, não tinham nenhuma crença em Rububiyah, 

Allah diz que os idólatras estão mentindo quando afirmam o senhorio d’Ele: “Nós trazemos-lhes a verdade: porém, sem dúvida que são farsantes!” (Alcorão, 23:84-90). Portanto, os muçulmanos que afirmam que os politeístas separavam a crença na Unicidade da adoração ao Deus Único, além de ser algo ilógico e contraditório, estão tomando por verdade algo que Allah disse que não era.

O Argumento Salafi

As fontes de hadith nos dizem que, durante sua peregrinação do Hajj, os árabes Jahili, isto é, da era da ignorância, costumavam entoar a seguinte prece, conhecida como talbiyah: “Ao seu serviço, ó Allah! Você não tem parceiro - exceto o parceiro que você tem; Você o possui e tudo o que ele possui.”

Para aqueles que são novos neste tópico, os salafistas usam isso para dizer que os mushrik (os idólatras) não acreditavam que seus ídolos fossem senhores (ou seja, que eles tinham propriedade / poder sobre a criação), uma vez que eles acreditavam que Allah somente tinha esse status (Tawhid ar-rububiyah).

Assim, os salafistas insistem que os parceiros que os mushriks atribuíram a Allah não eram parceiros "em Seu senhorio", mas sim "em Sua adoração" - ou seja, eles cometeram shirk dando uma parte de seus atos rituais de adoração, que deveriam ser apenas para Allah, para seus ídolos também.

Os salafis então fazem a analogia de que um muçulmano que busca a intercessão de Allah dirigindo-se àqueles que estão nos túmulos (shafah) da mesma forma fez dele um "parceiro na adoração" porque ele "compartilhou" um ato de adoração (pedindo ajuda) com outro que não seja Deus.

Em contraste, a posição da ortodoxia sunita é que os mushriks consideravam os ídolos (seus "parceiros de Allah") como senhores, acreditando que eles tinham uma parcela de poder ou propriedade sobre a criação. Assim, eles não tinham tawhid ar-rububiyah, como afirmam os Salafis.

A prova está nas suras 30:28, 17:111 e 12:106 que os companheiros do Profeta (sahabas), os seguidores deles (tabi) e os exegetas corânicos (mufassirun) dizem que foram reveladas em resposta ao talbiyah dos mushriks (como evidenciado abaixo). Isso é crítico porque a forma como Allah responde a reivindicação de alguém define como entendemos algo.

Se um mushrik diz "Allah tem um parceiro" e Allah responde: "Não, não há outros senhores além de Mim", isso significa que a palavra "parceiro" para o mushrik quer dizer “senhor”. O verdadeiro significado das palavras dos mushrik reside no julgamento de Allah, não na interpretação de algum grupo.

A Primeira Resposta

Vamos analisar a parábola do mestre e do escravo parceiro na surata Ar-Rum (30:28). Começaremos com essa analogia do Alcorão, que foi revelada, de acordo com os salaf, às primeiras nobres gerações de muçulmanos (não confundir com salafi), em resposta direta ao talbiyah do mushrikun.

قَالَ ذَٰلِكَ بَيْنِي وَبَيْنَكَ ۖ أَيَّمَا الْأَجَلَيْنِ قَضَيْتُ فَلَا عُدْوَانَ عَلَيَّ ۖ وَاللَّهُ عَلَىٰ مَا نَقُولُ وَكِيلٌ

“Apresenta-vos, ainda, um exemplo tirado de vós mesmos. Porventura, faríeis, daqueles que as vossas mãos direitas possuem, compartilhadores naquilo que vos temos agraciado, e lhes concederíeis partes iguais às vossas? Temei-os, acaso, do mesmo modo que temeis uns aos outros? Assim elucidamos os Nossos versículos aos sensatos.” (Alcorão, 30:28)

Os salaf (esse termo se refere a muçulmanos das primeiras nobres gerações, não deve ser confundidido com salafi) que confirmaram que esta ayah foi a resposta de Allah à talbīyah do mushrikūn incluem:

  •  Ibn Abbas (sahabi)
  •  Ibn Jubayr (tabi)
  •  Muqatil (tabi)

Tafsir Ibn Kathir

Ibn Kathir cita a principal autoridade de hadith Al-Tabarani e o companheiro Ibn Abbas dizendo:

“Os idólatras costumavam dizer em seu talbiyah: ‘Ao seu serviço! Você não tem parceiro - exceto o parceiro que você tem; Você o possui e tudo o que ele possui.’ Desta forma Allah revelou a surah (30:28).” (Tafsir al-Quran al-Adhim, sura 30:28)

Tafsir Ibn al-Jawzi

Sheikh al-Islam ibn al-Jawzi comentou: “Nos dizeres do Exaltado, Ele atingiu vocês com uma parábola que foi revelada por causa do povo de jahiliyyah, que costumava dizer em seu talbiyah: 'Ao seu serviço, ó Allah! Você não tem parceiro - exceto o parceiro que você tem; Você o possui e tudo o que ele possui ' e, por essa razão, de acordo com Said ibn Jubayr e Muqatil, este verso foi revelado.” (Zad al-Masir fi ilm at-Tafsir na sura 30:28)

O dono da criação é um senhor

Os mushriks alegaram que Allah tinha parceiros "que ele possuía". Allah responde que isso é como um mestre que compartilha sua riqueza igualmente com seu escravo, de modo que o escravo se torna um parceiro e o mestre agora o teme como seu igual.

Da mesma forma, se Allah compartilhasse o que Ele possui (isto é, a criação) com Seu escravo, esse escravo se tornaria um igual ou parceiro em possuir uma parte da criação. Um dono da criação é um senhor. É por isso que o mestre o temeria, pois um parceiro é um rival em potencial.

Observe que a "propriedade" do escravo não depende da permissão do mestre. Ele possui independência, assim como o mestre, e é livre para fazer o que quiser com sua propriedade. De novo, é por isso que o mestre teria medo dele, porque agora ele é um proprietário rival.

Então, Allah está dizendo: "Nenhum de vocês tem escravos com os quais compartilharia sua riqueza, pois se tivessem, eles se tornariam rivais que você temeria que pudessem dominá-los. Portanto, se você não tornaria seus escravos parceiros iguais, como você pode fazer tal afirmação sobre Allah? "

Em resumo, os "parceiros" que eles adoravam eram considerados seus senhores e co-proprietários da criação, e esse entendimento está de acordo com o de todos os mufassirun (exegetas). Aqui, por exemplo, estão At-Tabari e Ibn al-Jawzi (os pontos-chaves estarão em negrito):

Imam Ibn al-Jawzi

“O significado do ayah é aquele que foi explicado para vocês, Ó idólatras, com uma semelhança; a semelhança foi retirada de vocês mesmos. Então, ele foi esclarecido quando foi dito: “Apresenta-vos, ainda, um exemplo tirado de vós mesmos. Porventura, faríeis, daqueles que as vossas mãos direitas possuem (isso significa, entre os seus escravos), compartilhadores naquilo que vos temos agraciado? (ou seja, sua riqueza, família e escravos, o que quer dizer que: os seus escravos são seus parceiros na riqueza?) Concederíeis partes iguais às vossas? (isto é: você e seus parceiros dentre os seus escravos são iguais?) Temei-os, acaso, do mesmo modo que temeis uns aos outros?” (Ou seja: como você teme os seus similares (amthalukum), entre as pessoas livres (ahrar) e os seus parentes (aqrabaukum) como os pais (aba) e filhos (abna))?”

Ibn Abbas disse: “Você os teme porque eles herdarão de você assim como você herdou de outras pessoas?” E outros dizem “Você os teme porque eles irão dividir a sua riqueza do jeito que os parceiros fazem?” Isso significa: “Alguém de vocês aceitaria que seus escravos virassem seus parceiros na riqueza e na família de modo que eles fossem igualados em seus negócios? E assim, temendo que ele (o escravo) obtenha exclusividade (yanfarid) na posse de sua riqueza com autoridade para dispor dela, vocês o temeriam assim como outros parceiros que são homens livres?  Então, se vocês mesmo não aceitam isso, por que vocês igualam a Mim a alguns de Minha criação, da qual Eu sou o possuidor?”

(Zad ul-Masir fi ilm ut Tafsir, na sura 30:28)

Imam al-Tabari

O Exaltado disse: “Apresenta-vos, ainda, um exemplo tirado de vós mesmos: “Porventura, faríeis, daqueles (escravos) que as vossas mãos direitas possuem” - isso para dizer que “os parceiros entre aqueles que você possui na riqueza, Nós os fornecemos para você, então deste modo você e eles são iguais nisso?” Portanto, ele está dizendo: “se você não aceita isso para si, como você aceita que os deuses que você adora sejam parceiros na adoração junto a Mim, embora você e ele sejam Meus servos e Minha possessão e Eu seja o Senhor de todos vocês?”

(Tafsir al-Tabari, sura 30:28)

Repare que, embora os mushriks (idólatras) tenham criado parceiros “na adoração” dos ídolos, eles os adoravam apenas porque acreditavam que aqueles ídolos tinham o mesmo status de Allah como senhores soberanos da criação. Sua crença no poder dos ídolos (rububiyyah) e a consequente adoração a eles (uluhiyyah) são inseparáveis.

O Talbiyah é Absurdo

A analogia de Allah expõe um paradoxo absurdo no talbiyah: você não pode alegar que alguém é um parceiro (ou seja, igual em propriedade / status / senhorio) com o mestre e, ao mesmo tempo, dizer que o mestre ainda o possui.

Você não pode ser parceiro e posse ao mesmo tempo. Lembre-se: na analogia, o mestre teme o escravo porque, ao torná-lo um co-participante, ele passa a ter uma ameaça potencial, um rival a ser temido, como outros homens livres. Assim, na realidade, o parceiro não pode ser possuído.

A Analogia de Allah

O parceiro / homem livre é:

  • Independente
  • Detentor da posse
  • Pode fazer o que quiser com sua propriedade
  • Outros homens livres são parceiros, co-compartilhadores em sua riqueza e status e temem-no, pois é um potencial rival e competidor.

O escravo / posse é:

  • Dependente de alguém
  • Não possui nada
  • Exerce poder pela permissão do mestre
  • Homens livres não o temem como um rival ou competidor, pois um escravo não é um co-compartilhador em sua riqueza, status e liberdade.

Em resumo:

  •   O talbiyah dos mushriks é um paradoxo absurdo, exposto como shirkul-rububiyyah.
  •   A resposta de Allah contradiz completamente o entendimento Salafi.
  •   O uso salafista dessa "evidência" mostra que eles preferem as alegações absurdas de um mushrik ao invés do Julgamento de Allah.

A Segunda Resposta

“parceiro algum na Soberania” (Alcorão, 17:111)

O shirk ur-rububiyyah no versículo que acabamos de discutir é consistente com a sura 17:111, que a autoridade tabi (isto é, da geração dos seguidores dos companheiros do Profeta), al-Quradi diz, e também foi revelada em resposta ao talbiyah:

A autoridade tabi, al-Quradi, (no tafsir at-Tabari), diz que há três refutações de Allah na sura 17:111 que estão relacionadas a três afirmações feitas por três grupos distintos que estarão enumerados entre parênteses:

“(1) Os judeus e os cristãos dizem: ‘Allah tomou por filho’; (2) os árabes dizem (no talbiyah): ‘Ao Seu serviço, ao Seu serviço! Você não tem parceiros além daqueles que Você possui’; (3) os sabeus e magos (zoroastras) dizem: ‘Se não fosse pelos protetores, Allah seria fraco.’ Portanto, Allah revelou:”

  وَقُلِ الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي لَمْ يَتَّخِذْ وَلَدًا وَلَمْ يَكُنْ لَهُ شَرِيكٌ فِي الْمُلْكِ وَلَمْ يَكُنْ لَهُ وَلِيٌّ مِنَ الذُّلِّ ۖ وَكَبِّرْهُ تَكْبِيرًا

“E dize: Louvado seja Allah, (1) Que jamais teve filho algum,(2)  tampouco teve parceiro algum na Soberania, (3) nem (necessita) de ninguém para protegê-Lo quanto à humilhação e é exaltado com toda a magnificência.” (Alcorão, 17:111)

“Mulk” se refere ao que Allah possui (criação) e tem autoridade e poder sobre. Então, quando Allah rejeita um parceiro em Seu mulk como uma resposta ao talbiyah dos mushriks, sabemos que o significado real de "parceiro" no talbiyah é um co-participante que possui e governa a criação, ou seja, um senhor. 

A resposta de Allah, mais uma vez, revela que o talbiyah dos mushriks é shirk ur-rububiyyah e isso é ecoado na definição de shirk dada no Lisan ul-Arab (o dicionário árabe mais confiável):

“O Shirk com Allah é criar parceiros para Ele em seu Mulk (aquilo que Allah tem autoridade sobre). Isso é o que se chama shirk. Allah, o Exaltado, conta uma história relacionada ao Seu servo Luqman, que disse ao seu filho: ‘Ó filho, não associe a Allah. Shirk é uma grande transgressão.’ E shirk é criar parceiros no senhorio d’Ele.” (Rububiyyah)

A Terceira Resposta

Agora, o verso final. As autoridades tabi, ad-Dahhak e Ibn Zayd interpretam o seguinte versículo como a resposta de Allah ao talbiyah dos mushrikun:

ذَٰلِكَ مِنْ أَنْبَاءِ الْغَيْبِ نُوحِيهِ إِلَيْكَ ۖ وَمَا كُنْتَ لَدَيْهِمْ إِذْ أَجْمَعُوا أَمْرَهُمْ وَهُمْ يَمْكُرُون

“E sua maioria não crê em Allah (iman), sem atribuir-Lhe parceiros (mushirk).” (Alcorão, 12:106)

O Imam Tabari narra com uma cadeia de transmissão “Sob a autoridade de Al-Dahhak, que costumava dizer ‘eles tinham o hábito de cometer shirk em seu talbiyah’ ”.

Ele também cita Ibn Zayd, que comentou o verso, dizendo: “Você não vê como os árabes costumavam dizer em seu talbiyah?: ‘Ao seu serviço, Ó Allah, ao seu serviço! Você não tem parceiros a não ser aqueles que Você possui’. Isso é o que os mushrikun costumavam dizer.”

O Imam at-Tabari cita essa narração em seu tafsir, isto é, sua exegese. Sua interpretação do versículo, portanto, nos diz como ele entendeu o talbiyah dos mushriks - e, como os versos anteriores que vimos, ele considera os "parceiros" em seu talbiyah como seus senhores:

“{...Exceto que são mushrikun} em sua adoração de símbolos e ídolos, ao tomá-los como senhores ao lado d’Ele, e afirmando que Ele possui filhos.” (Tafsir at-Tabari na sura 12:106)

Há uma lógica no comentário de at-Tabari: os mushriks adoravam os ídolos porque acreditavam que eram senhores; eles os consideravam senhores porque acreditavam que eram descendentes literais de Allah, que, como todos os descendentes, herdam os atributos de seus pais.

Esta não é a leitura pessoal de at-Tabari. A identificação dos “filhos de Allah” dos mushriks como seus senhores está no próprio Alcorão. Quando os mushriks alegaram que Allah tinha descendência (23:91; 53: 19-21), a resposta de Allah abaixo mostra que eles os entendiam como senhores.

 وَلَا يَأْمُرَكُمْ أَنْ تَتَّخِذُوا الْمَلَائِكَةَ وَالنَّبِيِّينَ أَرْبَابًا ۗ أَيَأْمُرُكُمْ بِالْكُفْرِ بَعْدَ إِذْ أَنْتُمْ مُسْلِمُونَ

“Tampouco é admissível que ele vos ordene tomar os anjos e os profetas por senhores.” (Alcorão, 3:80)

A autoridade tabi, Ibn Jurayj, disse que “anjos”, aqui, se refere aos Quraish e aos sabeus, que diziam: “Os anjos são as filhas de Allah”. (Imam al-Baghawi, Ma alim al-Tanzil, sura 3:80)

Conclusão

Allah expôs a talbiyah dos mushriks 3 vezes como prova de seu shirkur-rububiyyah. Sabendo disso, qualquer salafi que usa a talbiyah para dizer "os mushriks não atribuíam senhorio a seus ídolos" descartou as palavras de Allah pelas de um mushrik.

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