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Livro Sol Nascente Mawlana Sheikh Nazim
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As Igrejas e a Guerra da Bósnia – Sh. ‘Abd al-Hakîm Mûrâd

Um dos fatores mais perturbadores da guerra que devastou a Bósnia entre 1992 e 1995 foi a recusa difundida dos políticos, clérigos e jornalistas ocidentais em reconhecer o papel no qual a religião estaria atuando no conflito. Só foi mencionado, de fato, durante as denúncias periódicas dos riscos de extremismo islâmico – um fenômeno que, quando eclodiu, jornalistas trabalhando na Bósnia o tomaram como bem elusivo. A realidade, que era frequentemente uma de extremismo cristão militante, não era, até onde eu saiba, discutida francamente. A guerra era, diziam, um embate  entre “facções étnicas”; e o fato de que seus protagonistas eram divididos primariamente por religião e compartilham uma raça e língua foi tido como insignificante. Preconceito anti-islâmico acontecia sem dúvida aqui: poder-se-ia afirmar que se os sérvios e católicos fossem muçulmanos e suas vítimas cristãos, então a mente ocidental imediatamente caracterizaria a guerra como um caso de muçulmanos violentos assassinando cristãos seculares, integrados e democráticos. Já que na Bósnia os estereótipos favorecidos são invertidos, a memória foi grandemente repudiada, censurada e esquecida como uma anomalia incômoda.

 

Essa caracterização oficial, em geral, persiste. Geralmente é o caso que a consciência popular europeia e americana esqueceu da Bósnia, embora somente dez anos se passaram desde que quase oito mil muçulmanos foram levados para valas comuns em Srebrenica, enquanto o comandante local das Nações Unidas aceitava uma taça de champanhe do general sérvio vitorioso, que então saiu para a igreja. E onde a Bósnia é ainda relembrada, há uma resistência obstinada para redefini-la como ela foi de fato: uma guerra que, pelo menos para seus participantes cristãos, foi uma experiência religiosa intensa.

 

Entretanto, entre os especialistas dos Bálcãs e um público pequeno mas significante por todo o mundo que apreensivamente reconhece que o crime de Srebrenica era bem pior que aquele do 11/9, essa amnésia confortável é rejeitada como a lavagem inaceitável de crimes cujas fundações religiosas nunca devem ser ignoradas. Investigadores de crimes de guerra descobriram consistentemente que as forças sérvias puseram a religião bem no meio da sua visão nacional linha dura e que muitas das atrocidades mais características traziam um forte aspecto religioso.

 

Em Bratunac, o Imâm Mustafa Mujkanovic foi torturado diante de milhares de mulheres, crianças e idosos muçulmanos no estádio de futebol da cidade. Guardas sérvios também ordenaram o clérigo para se crucificar. Quando ele se recusou, espancaram-no. Encheram sua boca com serragem, derramaram cerveja na sua boca e então cortaram sua garganta.

 

Rotineiramente os muçulmanos mantidos em campos de concentração também contaram de de terem sido forçados por seus captores de cantar canções dos Chetnik ou fazer o sinal da cruz. Sugerir que os muçulmanos se convertessem à ortodoxia sérvia poderia ser visto como ainda outro meio para eliminar a presença islâmica.

 

Quase desde o começo a guerra liderada pelos sérvios foi acompanhada por um assalto contra a tradição religiosa e cultural islâmica, um assalto cujo impacto foi se tornando claro à medida em que os sábios foram examinando o padrão da destruição. Os clérigos muçulmanos foram dispersados, presos e mortos, de acordo com uma variedade de fontes islâmicas. Bibliotecas nacionais e seminários religiosos foram destruídos. E os sábios bósnios estimam que bem mais da metade das mesquitas, monumentos históricos e bibliotecas que compreendiam uma herança cultural e religiosa de seis séculos foi varrida.

 

… o filme mostrou que os notórios Escorpiões foram vistos matando crianças, depois de terem sido primeiramente abençoadas pelo Padre Gavrilo.

 

Um bispo ortodoxo sérvio, posto na lista negra pela UE por apoiar alegadamente criminosos de guerra, negou na quinta-feira que ele abrigou os fugitivos muito procurados das cortes da UE Radovan Karadzic e Ratko Mladic, embora ele alegue que eles eram heróis. […] O Bispo Filaret apareceu na frente das câmeras de TV com um crânio numa mão e uma metralhadora na outra durante a guerra de 1992-95.

 

[A promotora chefe do Tribunal de Crimes de Guerra de Haia] Carla del Ponte acusou a Igreja de “envolvimento em política e esconder aqueles indiciados por crimes de guerra”.

 

O antigo padrão balcânico de violência política clericalmente inspirada mais uma vez emergiu nos últimos anos: primeiro venha os sacerdotes [popovi] e então os canhões [topovi].

 

Os símbolos apareceram em gestos de mão com três dedos representando a trindade cristã, em imagens das figuras sagradas da mitologia religiosa sérvia na insígnia de seu uniforme, nas canções que eles memorizavam e forçavam suas vítimas a cantar, no anel do sacerdote que eles beijavam antes e depois de seus atos de perseguição e nas cerimônias religiosas formais que marcaram a purificação duma cidade e sua população muçulmana. O termo “étnica” na expressão “limpeza étnica”, então, é um eufemismo para “religiosa”.

 

Uma sucessão de estudos acadêmicos meticulosamente documentou as atividades dos tempos de guerra do clero cristão, e particularmente os bispos que orgulhosamente se sentavam na fileira dianteira do “parlamento” sérvio rebelde quando quer que se reuniam na sua capital pirata de Pale. No Ocidente, esses estudos não têm sido geralmente obra de sábios muçulmanos. Um exemplo pioneiro foi o livro de Michael Sells: The Bridge Betrayed: Religion and Genocide in Bosnia [A Ponte Traída: Religião e Genocídio na Bósnia] . Sells é um quaker, que atualmente é professor de religião no Haverford College na Pensilvânia. Eis um parágrafo da conclusão do seu livro:

 

“A violência na Bósnia foi um genocídio religioso em vários sentidos: as pessoas destruídas foram escolhidas usando como base a sua identidade religiosa; aqueles executando as mortes agiam com a bênção e apoio da liderança cristã da igreja; a violência era baseada numa mitologia religiosa que caracterizava as pessoas alvejadas como traidores da raça e seu extermínio como um ato sagrado.”

 

Palavras fortes; mas não indo contra a representação de como a  guerra começou agora a ser entendida.

 

Outra quebra de silêncio inestimável veio de G. Scott Davis, um professor de religião e ética na Universidade de Richmond . O estudo de Scott Davis se chama Religião e Justiça na Guerra da Bósnia. Documenta a atitude das igrejas locais sobre o que aconteceu; e também inclui algumas reflexões sustentadas sobre a capacidade da Europa, dada sua formação religiosa tradicional, para proteger as minorias religiosas.

 

Muitos têm se encorajado por esse e outros estudos. Por algum tempo pareceu que a dimensão religiosa da Guerra da Bósnia seria enterrada para sempre; mas agora, em vez de ser a vítima duma atrocidade, tem sido desenterrada e relutantemente examinada. Minha própria experiência durante a guerra corresponde de perto com a imagem agora emergente das mãos de tais sábios, e que foi reconstruída pelas investigações da Corte Criminal Internacional em Haia.

 

O indivíduo mais regularmente citado em conexão com o processo de limpeza étnica e com atrocidades de base religiosa comprovadas, o líder bósnio-sérvio Radovan Karadzic foi amplamente aclamado como um herói nos círculos da Igreja Ortodoxa.  “Nem uma única decisão importante era feita sem a Igreja”, como ele se vangloriou durante a guerra. No cume do processo de limpeza étnica, o Sínodo Ortodoxo Grego escolheu premiá-lo com a maior honraria, a Ordem de St. Denys de Xante. Os bispos gregos que lhe conferiram a honraria o chamaram de “um dos mais proeminentes filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

 

No dia em que o premiação foi anunciada eu o discuti com um grupo de clérigos britânicos idosos; mas a resposta deles foi somente um tipo de careta. A solução, claramente, era atravessar essa indiscrição em silêncio chocante. O único indivíduo genuinamente indignado que eu encontrei foi o Roger Sainsbury, o bispo anglicano evangélico de Barking, que conseguiu condenar a premiação e me contou que a ampla condenação é improvável, dada a necessidade de manter boas relações com os membros ortodoxos do Conselho Mundial de Igrejas. Não é claro que essa foi a única razão pelo qual ele era visto como um silêncio anglicano perturbador, mas tal foi sua interpretação.

 

Depois tentei telefonar para o Palácio Lambeth. Não tive muita alegria da parte deles desde que tentei marcar um encontro entre o Dr. Carey e o cabeça da hierarquia religiosa muçulmana na Bósnia: o Dr. Carey simplesmente declinou o convite. Dessa vez falei com a secretária de assuntos ecumênicos, para descobrir se haveria alguma crítica anglicana desse elogio para Karadzic. Outra vez, deixei um espaço em branco. Karadzic era visto pelas agências de direitos humanos como o arquiteto dos maiores crimes contra a humanidade na Europa desde 1945; mas o secretário ecumênico – Eu o estava chamando como um jornalista – simplesmente não me daria uma condenação clara da decisão grega.

 

Algumas vozes se levantaram contra o que Michael Sells estava chamando de “o silêncio dos autoproclamados líderes cristãos em muitas partes do mundo”. Talvez o mais franco deles foi o Professor Adrian Hastings, um teólogo católico de Leeds , que perguntou:

 

“O que as igrejas fizeram para falar em defesa da Bósnia, de sua comunidade muçulmana amante da paz e contra uma revivificação do racismo mais virulento? Parece ter havido um silêncio muito claro de todos os líderes principais de igreja na Grã-Bretanha. Entrará para a história. Nós derramamos nossas lágrimas pelo Holocausto mas fechamos nossos olhos para o Holocausto acontecendo agora. ‘Somente aquele que chora pelos judeus pode cantar o canto gregoriano’, declarou Bonhoeffer cinquenta anos atrás. Somente aquele que chora pelos muçulmanos bósnios se habilita para tal hoje.”

 

Num artigo mais recente no The Guardian, Hastings continuou sua crítica:

 

“Por que os líderes cristãos estão se comportando assim? Há um ecumenismo desviado acontecendo aqui. Anglicanos em particular estão ansiosos por permanecerem em bons termos com os ortodoxos e a Igreja Ortodoxa Sérvia têm relações mais próximas com a Igreja da Inglaterra do que com qualquer outra. Também está fazendo um grande trabalho para alimentar o nacionalismo sérvio. Pegar firme contra a agressão sérvia seria desagradar os amigos ortodoxos. Melhor frisar que é um assunto complexo e que deve haver erros de todos os lados.

 

Num artigo publicado em teologia em 1994, Hastings comentou sobre a reação protestante internacional à Guerra da Bósnia, que de novo ele achou necessário. Ele discute a resolução principal do Conselho Mundial das Igrejas sobre a guerra na antiga Iugoslávia, notando que “por razões ecumênicas” a Bósnia não é mencionada nenhuma vez em 27 páginas, e que sua discussão de sofrimento civil menciona somente croatas e sérvios, com nenhuma discussão sequer sobre muçulmanos. Ele prossegue:

 

Refletindo sobre a resposta das igrejas da Grã-Bretanha e dentro do Movimento Ecumênico para a Bósnia mais uma vez, continuo chocado pelo quão pouco fizeram no nível de sua liderança para reconhecer sem ambiguidade o que estava acontecendo, para condenar o mal e acima de tudo oferecer qualquer apoio significante para uma nação europeia oprimida de um modo sem precedentes desde 1945. De novo e de novo, os líderes de igreja nesse país urgiram para visitar Sarajevo , para mostrar algum grau significante de solidariedade humana e religiosa com a comunidade muçulmana da Bósnia em sua provação. Falharam totalmente em fazê-lo.

 

Hastings foi provavelmente um dos heróis da guerra: aparecendo em inúmeros comícios e na televisão para denunciar a apatia do Ocidente e seus líderes políticos e espirituais. Para ter certeza de seus fatos ele visitou Sarajevo nos seus dias de cerco mais obscuros. Não muitos professores aposentados consentiriam em ser empurrados num carrinho por um túnel improvisado que era a corda salva-vidas de Sarajevo, e então encarar a movimentação através do Beco do Atirador num carro com folhas de polietileno como janelas, para uma cidade onde três mil pessoas e mesmo os animais no zoológico da cidade já foram mortos por atiradores de elite. Mesmo assim ele o fez. Ele era a mais honrável exceção.

 

Hastings encontrou, como uma pesquisa subsequente descobriu, uma guerra religiosa. Em Sarajevo mesmo, é verdade, isso não ficou aparente imediatamente. A catedral sérvia, apesar de quatro anos de cerco pelos sérvios, nunca foi vandalizada pela população. O presidente muçulmano e a hierarquia religiosa continuou se sentando na fileira dianteira da catedral católica toda Véspera de Natal. O comandante responsável dos defensores de Sarajevo, Jovan Divjak, era ele mesmo um sérvio étnico; outro sérvio, Miro Lazovic, era o locutor do parlamento bósnio. Embora a defesa da cidade tenha sido primeiramente montada pelos jovens sufis heróicos da Tekke (zâwiya, centro sufi) Qâdiri Sinanova, para muitos dos defensores nunca tinha sido uma guerra religiosa; exceto por aqueles que viram a defesa da história da cidade da tolerância como uma tarefa sagrada.

 

No território controlado pelos sérvios, entretanto, a religião era violenta. Ao oeste de Sarajevo, logo depois da linha de frente, ficava uma igreja sérvia onde se poderia escutar uma lista de assentamentos islâmicos capturados sendo lidos com triunfo por um sacerdote, que então abençoava a congregação – feita de seguidores do senhor da guerra religioso Vojislav Seselj, agora indiciado como um criminoso de guerra, e que já disputou uma eleição na Sérvia com uma promessa de remover os olhos de seus prisioneiros com uma colher enferrujada.

 

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Em Trebinje, “um sacerdote ortodoxo guiou o caminho expelindo uma família muçulmana e confiscando seu lar”. Na antes cidade de maioria muçulmana de Foca, uma cerimônia religiosa ocorreu para celebrar a captura da cidade. Clérigos veteranos na cerimônia escutaram um professor sérvio explicar que “os combatentes [sérvios] de Foca e a região eram defensores valorosos da ‘serviedade’ e da ortodoxia”. A esplêndida Mesquita Aladza da cidade, construída em 1550 por Mimar Sinan, foi então demolida, com o processo de limpeza étnica completo. Quando esse evento foi criticado num jornal liberal montenegrino, o mais alto bispo herzegovino, Atanasije, o defendeu fortemente.

 

Muitas outras milícias não eram menos explicitamente religiosas. O líder da milícia das Águias Brancas, Mirko Jovic, comvocava para, como ele dizia, “uma Sérvia cristã e ortodoxa sem muçulmanos ou descrentes”. Seu mentor ideológico, o político da extrema-direita de Belgrado Vuk Draskovic, que prometeu “cortar as mãos daqueles muçulmanos que carregassem bandeiras que não as sérvias”, publicou seus escritos ferozmente anti-islâmicos com a casa de publicação oficial da igreja sérvia. A Igreja mesmo regularmente trovejava contra “os inimigos de Deus” que não se juntassem no empenho por uma Sérvia Maior, e os diários oficiais da Igreja eram um fórum dominante para Draskovic e outros ideólogos radicais advogando o sonho duma “Sérvia Maior” e a destruição e da “doença” do Islã.

 

Um outro  sinal revelador do envolvimento da igreja ficou aparente quando, em 1994, o Grupo de Contacto de Genebra apresentou seu novo plano de partilha para o país. Sob este plano, os 32 por cento dos bósnios que eram ortodoxos foram angariados com 49 por cento da terra, inclusive muitas áreas previamente muçulmanas que sofreram limpeza étnica. Mas a igreja estava insatisfeita até mesmo com isso: Metropolitan Nikolaj de Sarajevo ordenou que Sarajevo mesma fosse incorporada às áreas de domínio sérvio. O argumento que ele usou, que foi apoiado pelo próprio Karadzic, era que já que a população de maioria muçulmana da cidade era supostamente descendente de convertidos sérvios ao Islã, a cidade naturalmente pertencia à Ortodoxia. Essa ideia dos bósnios como “sérvios maus” que deveriam ser guiados pelos “guerreiros de Cristo” de Karadzic de volta às fileiras da Ortodoxia (ou encarariam expulsão, ou pior) jazia no núcleo retórico dos debates do parlamento cheio de sacerdotes da Republika Srpska em Pale.

 

Bem diferente era a visão do Patriarca em Belgrado, Pavle. Como seu admirador o líder de milícia Zeljko Raznatovic discutiu de todas as formas que o discurso nacionalista sérvio sobre a Bósnia era baseado no fato – como ele cria – que os muçulmanos eram intrusos do Oriente e não eram nativos da região. Assim “creio que os sérvios deveriam lutar, agora como nunca antes. Isso era semelhante ao argumento amplamente divulgado, avançado pelo nacionalista religioso Dragos Kalajic, que mantém que a cultura muçulmana bósnia era estrangeira assim como ele a chamou de “subcultura semiárabe”, causada por uma “predeterminação genética” que os bósnios herdaram dos otomanos e que de fato se originou no Norte da África. Outro “intelectual ortodoxo”, o antigo decano da Universidade de Sarajevo, Biljana Plavsic, que se tornou o sucessor de Karadzic como o primeiro-ministro do paraestado rebelde bósnio-sérvio, insistiu que “foi material genético sérvio danificado que passou para o Islã”, dando apoio pseudocientífico para uma tese profundamente enraizada na mitologia religiosa-política.

 

Embora o desgosto rancoroso do Islã pelo Patriarca tenha participado de um papel maior em guiar o espírito nacional durante a guerra, ele foi franco em sua negação dos crimes de guerra que foram gradualmente sendo atribuídos às milícias ortodoxas. Depois que Maggie O’Kane e outros jornalistas tinham fotografado pelo mundo afora fotos de campos de concentração nos quais milhares de muçulmanos bósnios, croatas e ciganos estavam sendo torturados e executados, o Sínodo Episcopal em Belgrado emitiu a seguinte declaração:

 

“Em nome da verdade de Deus e no testemunho do nossos irmãos bispos da Bósnia-Herzegovina e de outras testemunhas confiáveis, declaramos, tomando toda a responsabilidade moral, de que tais campos nunca existiram nem existem na República Sérvia da Bósnia-Herzegovina.”

 

Nos olhos da Igreja, as imagens das telas de TV ocidentais e os testemunhos coletados pelo Observatório de Helsinque, o Departamento de Estado dos EUA, a Cruz Vermelha, observatórios da UE e outros eram simplesmente falsificados. Os “semiárabes” enganaram o mundo.

 

Outra vez, quando um novo plano de paz está sobre a mesa, a Igreja se mostra mais radical até mesmo que Milosevic. Pavle, Amfilohije  e outros insistiram que o colosso de Belgrado era escandalosamente fraco em manter o direito sérvio ao território. O Bispo Atanasije de Herzegovina “urgiu os sérvios,” com ele dizia, “não para capitular o mundo como fez Milosevic. Os abutres do Ocidente não vão notar a assinatura.”

 

Sobretudo, como Norman Cigar relembra:

 

“A Igreja Ortodoxa Sérvia, tanto na Sérvia quanto na Bósnia-Herzegovina, continua provendo sua legitimidade às políticas étnicas sérvias-bósnias. Isso embasa as opções mais descompromissadas formuladas na Bósnia, que tinha como seu objetivo criar uma Sérvia Maior, e não visava a presença contínua dos muçulmanos. […] A Igreja continuou a emprestar seu manto de respeitabilidade até mesmo aos elementos nacionalistas mais extremos. “

 

Exemplos disso poderiam ser multiplicados: mas a imagem geral é, espero, clara. No tempo devido tentarei desvelar as razões do apoio da Igreja Ortodoxa à extrema-direita. Antes de fazê-lo, entretanto, deveria mencionar a relação ainda mais complexa de nacionalismo com a hierarquia católica na Bósnia.

 

O nacionalismo croata tem suas raízes imediatas no apoio amplamente difundido na Croácia pelas potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. Ante Pavelic, o presidente croata, implorou a Eichmann para que se permitisse a Croácia que pulasse o lugar na fila da limpeza étnica a sua população judaica. Como o investigador dos direitos humanos irlandês Hubert Butler, que trabalha nos arquivos croatas depois da Segunda Guerra Mundial, relembra:

 

“Quando estive em Zagrebe, fiquei vários dias na biblioteca pública verificando arquivos antigos dos jornais que eram impressos no período da ocupação, particularmente os papéis da Igreja. Queria ver que resistência, se houve alguma, foi feita pelo cristianismo organizado quanto ao militarismo implacável de Pavelitch, o líder nacional croata, e seus padrinhos alemães e italianos: temo que os resultados foram cruéis. […] Eu estava totalmente despreparado para o jato de adulação histérica que foi derramado por quase todo o clero liderante sobre Pavelitch, que era provavelmente o mais vil de todos os criminosos de guerra. Ele era o salvador contra o bolchevismo, o campeão contra os bárbaros e hereges orientais, o sérvio; era o restaurador de sua nação e da fé cristã, um verdadeiro herói dos tempos antigos.”

 

Franjo Tudjman, o presidente croata por toda a guerra de 1992-5, tornou suas preocupações étnicas bem claras no seu livro Terrenos Baldios de Realidade Histórica, publicado em 1990. No seu livro ele sugere que “os judeus são genocidas por natureza” e que seus problemas foram causados por eles mesmos. Tivessem eles se apegado ao que ele chama de “sinais de trânsito”, o Holocausto nunca teria ocorrido.

 

A preocupação principal de Tudjman, entretanto, como um nacionalista étnico não reconstruído, era com a presença muçulmana na Bósnia, da qual ele falou em termos de “contaminação pelo Oriente.” Alegando estar agindo pelo comando das potências ocidentais, ele afirmou: “a Croácia aceita a tarefa de europeizar os muçulmanos bósnios.” Fundamentalmente isso tendia envolver estupro, a demolição de mesquitas, batismo forçado e estratégias indistinguíveis dos métodos sérvios radicais de conquista. Particularmente recorrente era a política croata de construir “santuários de sangue”, que tomavam a forma de santuários cristãos ou crucifixos construídos no local das mesquitas demolidas. A justificativa era a criação de um cordão sanitário católico contra o Islã. Seu ministro da Defesa, Gojko Susak, fantasiou para uma audiência israelense sobre “110000 muçulmanos bósnios estudando no Cairo”, para poder criar um “estado fundamentalista no coração da Europa”.

 

Na Croácia propriamente e na Bósnia propriamente, a hierarquia católica costumava conseguir condenar as políticas croatas. o Arcebispo Vinko Puljic de Sarajevo  em particular emergiu como um homem de considerável estatura, consistentemente se opondo à lógica da partilha étnica. A principal exceção era na Herzegovina. Aqui o clero fransciscano incluía um grande número de ultranacionalistas. A cidade de Mostar, capital da Herzegovina, era partilhada entre muçulmanos e católicos. A União Europeia, que apontara um prefeito para a cidade, estava se empenhando para reunir as duas metades. Entretanto um oponente maior da reintegração era o superior provincial da Ordem Franciscana, Tomislav Pervan. O Bispo Ratko Peric é também um oponente conhecido da reconstrução de mesquitas e do direito de retorno dos refugiados muçulmanos; em 2004 ele conspicuamente recusou a assistir a cerimônia de reabertura da famosa ponte de Mostar, destruída em 1993 por extremistas croatas.

 

A simpatia da Igreja pelos objetivos nacionalistas croatas era destacado na mídia mundial quando, em 2005, Carla del Ponte, a principal promotora de crimes de guerra em Haia, insistiu que o principal croata suspeito de crimes de guerra, General Ante Gotovina, estava sendo abrigado num mosteiro católico. “A Igreja Católica está o protegendo”, ela concluiu, acrescentando que “levei isso até o Vaticano e o Vaticano se recusa totalmente em cooperar conosco.” Mais geralmente ela reclama que “a Igreja de todos os lados está adicionando legitimidade à visões da história que são distorcidas de acordo com preconceitos nacionalistas.”

 

O nacionalismo sérvio, entretanto, é um fenômeno menos familiar e deveríamos tentar explicar o que foi, em face disso, a aliança mais surpreendente de homens de religião com agendas extremamente xenofóbicas vista na Europa desde o colapso do “Catolicismo Nacional” de Franco em 1975. Do jeito que acontece, a Sérvia “teodemocrática” se parece com a Espanha de Franco em certos aspectos, mais notavelmente em idolatrar um passado cristão. É para ser autoritária e tradicionalista, mas não nazista. De muitas maneiras, sua visão chega bem próxima daquela do teórico favorito de Franco, José Maria Pemán:

 

“O novo estado deve ser baseado em todos os princípios do tradicionalismo para ser genuinamente nacional […] Nosso fascismo, nosso absolutismo jurídico hegeliano deve necessariamente se sustentar a si mesmo como forma, na substância da tradição católica histórica. O fascismo espanhol será a religião da Religião. […] O fascismo alemão e italiano não inventaram nada até onde sabemos; a Espanha foi fascista por séculos antes deles. Era uma, grande e livre, e verdadeira Espanha, no século dezesseis quando estado e nação era identificado com a ideia católica eterna, quando a Espanha era a nação modelo e alma máter da civilização cristã ocidental.”

 

O fascismo alemão e italiano desafiara o legado medieval de suas terras natais saltando de volta para os tempos pagãos. A Espanha, entretanto, resolveria sua crise de identidade permanecendo em continuidade orgânica com o passado cristão. E o cristianismo reconheceu o casamento igreja-estado como de vontade divina e indissolúvel.  Sem dúvida de que a semelhança verbal e prática entre as estratégias sérvias de “limpeza étnica” e as medidas de “pureza sanguínea” da Inquisição foram mais que coincidências, formando de fato um método chave o qual, nas palavras de Joseph Pérez, se tornou “a erradicação do semitismo”, uma destruição paralela das populações muçulmanas e judias antigas na qual a Igreja e o Estado trabalhou de mãos dadas.

 

Embora haja, assim, mais do que uma lufada de franquismo no nacionalismo sérvio, o papel dessa igreja oriental e muito obscurantista foi apesar disso sutilmente distinto. Até mesmo mais que os bispos de Franco, os bispos em Pale, Knin, Belgrado e Podgorica eram herdeiros duma afirmação tradicional e radical do status quo político, uma atitude cujas raízes jazem no fim do Bizâncio. Como um especialista em direitos humanos o vê:

 

“A Ortodoxia, negando a importância da ‘vida na terra’, pode sancionar e de fato o faz e legitima qualquer regime político que segure as rédeas do poder. Essa subordinação pelo contrário assegura que a Igreja Ortodoxa sobreviverá e reterá poder. Por toda a história a Igreja aquiesceu sem criticar em regimes autoritários e ditatoriais; não tem história de oposição à repressão. E em tempos modernos a mescla de religião com nacionalidade reforçou ainda mais a defesa da Igreja do status quo em nome do éthnos e da religião.”

 

É facilmente esquecido, tanto pelos muçulmanos quanto pelos ortodoxos, que a Igreja não tem afinidade natural com a rebelião. Os bispos ortodoxos se opuseram à revolta grega quando, em 1821, produziu um estado grego independente e deram início a uma onda de insurreições violentas por todo os Bálcãs. O Patriarca Ecumênico do momento, aterrorizado pela violência, insistiu que o Califado Otomano era o instrumento adequado da ordem de Deus na terra. Os líderes da Igreja, guiados pelo Patriarca, formalmente excomungaram os rebeldes e convocou o retorno da Grécia independente para o domínio otomano. Não era o caso, então que os crentes ortodoxos nunca pudessem ser cidadãos leais a um estado não ortodoxo. Por que, então, os bispos bósnios apoiaram a insurreição em 1992 e rejeitaram os resultados da eleição? Presumivelmente porque suas lealdades jaziam não localmente, mas com a hierarquia de Belgrado, e então com o mapa e ideologia da “Sérvia Maior”. Poder-se-ia especular que se se tivesse outorgado aos ortodoxos na Sérvia um status autocéfalo durante o período otomano com a criação dum patriarcado bósnio em Sarajevo, a consequente abolição da influência espiritual de Belgrado poderia ter permitido os crentes ortodoxos bósnios de permanecerem leais a seu governo eleito em 1992. Mas não era para ser.

 

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Na Sérvia mesmo, a Igreja não só apoiou os nacionalistas, mas eram sua maior inspiração. Para encontrar as razões para o apoio apaixonado de Pavle pelo nacionalismo sérvio é útil escavar a teologia sérvia, e em particular a ideia cristã antiga de uma dicotomia entre a Letra Semítica e o Espírito Cristão. Que esse princípio está ainda muito vivo é mostrado pelo registro recente da Igreja de antissemitismo feroz. Em 2003, os bispos sérvios apontaram como seu 77º santo um dos antissemitas mais proeminentes do século XX: o Bispo Nikolaj Velimirovic (1880-1956). Velimirovic ficou famoso por seus rompantes antissemitas, mas seu sentimento antijudaico parece ter sido ainda mais profundo:

 

“Todos os princípios europeus modernos foram feitos pelos judeus, que pregaram Cristo na cruz: democracia, greves, socialismo, ateísmo, tolerância religiosa, pacifismo e revolução universal. Essas são as invenções dos judeus, ou seu pai, o Diabo. Tudo isso com o único propósito de humilhar Cristo e pôr no trono de Cristo seu messias judeu, inconsciente até hoje que ele é o próprio Satanás, que é seu pai e que os freou com suas rédeas e os chicoteou com seu chicote […] É surpreendente que os europeus, que são um povo cristão, se renderam completamente aos judeus e agora pensam com uma cabeça judia, aceitam programas judaicos, adotam o ódio judeu por Cristo, tomaram as mentiras judaicas como verdade, endossaram os princípios judaicos como os seus…”

 

A busca pela limpeza se tornou uma mania de limpeza. Infelizmente, aqui também o Yid (Civutin) está envolvido… Canos, canos, canos! Banhos, banhos, banhos! Limpeza, limpeza, limpeza! E todos exaustos de se lavarem e se limparem externamente.

 

Os judeus e seu pai o Diabo obtiveram sucesso, com seu envenenamento gradual do espírito e coração da humanidade europeia, defletindo o último da fé verdadeira e persuadindo a adorar o ídolo da cultura… fumaça, pó, lama, lodo… um nada imbecil.”

 

A escolha dos bispos de Velimirovic foi sem dúvida informada por seu papel central no desenvolvimento do nacionalismo religioso sérvio. Como um relatório oficial do Grupo de Contacto Internacional concluiu: “Muito do pensamento atual da Igreja se deriva dos escritos de dois clérigos antissemitas de extrema-direita ativos durante a Segunda Guerra Mundial: o Bispo Nikolaj Velimirovic, que recebeu uma condecoração civil de Adolf Hitler, e o Arquimandrita Justin Popovic”.  “A Igreja, junto com o serviço de contra-inteligência KOS , esteve proximamente ligada ao grupo jovem nacionalista de ultradireita e antissemita Obraz.” Desde o Acordo de Paz  de Dayton de 1995, denunciado pelos bispos de não dar aos sérvios território suficiente na Bósnia, “a Igreja Ortodoxa Sérvia fortaleceu sua posição na sociedade significantemente”. Como o relatório do GCI acrescenta: “A Igreja parece estar cada vez mais e abertamente amarrada a grupos ultraconservadores e nacionalistas. Como um resultado direto desse papel aprimorado da Igreja, minorias não cristãs estão sofrendo de repressão intensificada e até mesmo um tipo de invisibilidade forçada:

 

Nas notícias noturnas televisivas, vê-se exatamente o quão longe o governo vai para marginalizar as populações minoritárias da Sérvia. A cidade de maioria muçulmana de Novi Pazar, o maior centro urbano na região de Sandzak, com uma população de mais de 100000, está ausente do mapa nacional durante o relatório de clima. Em vez disso o mapa e os anunciantes se referem a “Ras”, uma colônia medieval sérvia que existiu um dia na vizinhança de Novi Pazar.

 

Nessa “teodemocracia” emergente, onde o ideal bizantino antigo duma sinfonia entre religião e estado é um axioma nacionalista, judeus e muçulmanos, mesmo que eles tenham sobrevivido à limpeza étnica, serão verdadeiramente invisíveis. Até mesmo os cristãos não ortodoxos são para ser tratados com escárnio. Os líderes da Igreja Ocidental em visitas bem intencionadas aos Bálcãs estão geralmente inconscientes, enquanto beijam bochechas ortodoxas, que o principal teólogo sérvio do ecumenismo, Justin Popovic, os vê como hereges absurdos:

 

“Ecumenismo é o nome comum para pseudocristianismos, para as pseudoigrejas da Europa Ocidental. Todo o humanismo europeu, encabeçado pelo papismo, estão nisso com todo seu coração. Todos esses pseudocristianismos, todas essas pseudoigrejas são nada além do que uma heresia após a outra. […] Não há diferença essencial aqui entre o papismo, o protestantismo, o ecumenismo e outras seitas, cujo nome é Legião.”

 

Hoje, a presença ubíqua da Igreja sufoca a sociedade sérvia. Nas palavras do dissidente montenegrino Mirko Djordjevic:

 

“Pelos últimos dez anos a Sérvia tem vivido na sombra negra do crime de Srebrenica, o mais monstruoso desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma grande proporção de opiniões leigas e provavelmente de crentes também tem pedido à Igreja para que se pronunciem. Então de novo, a IOS [Igreja Ortodoxa Sérvia] não ficou na verdade em silêncio: ninguém poderia dizer que os bispos como Filaret, Amfilohije e Atanasije mantiveram seu próprio conselho, pois esses bispos, Mladic, Karadzic e Milosevic são grandes heróis e guerreiros cristãos valorosos. Suas declarações têm cavalgado com esporas sobre os direitos humanos e religiosos de milhões de cidadãos que não pensam como eles. Na aliança atual da igreja e estado, poucos ousaram desafiá-los.

 

Outra vez, buscando entender a força e espírito da islamofobia religiosa sérvia, é útil vê-la como análoga ao antissemitismo. O antissemitismo na Europa alegava tradicionalmente pelo menos algumas das suas raízes a relato do Evangelho de judeus alegando responsabilidade pela morte de Jesus. (Mateus 27:25). O Islã, entretanto, não é mencionado na Bíblia e não se mostra como um “outro hostil” na antiga formação da identidade e teologia cristãs. É então não imediatamente claro como a islamofobia poderia ser mais que uma atitude geral de rejeição de uma alegação de profecia pós-cristã e logo falsa.

 

Apesar disso, na Sérvia – mas não, até onde eu esteja ciente, em outras regiões ortodoxas – uma mitologia emergiu que retratava muçulmanos como “matadores de Cristo”, e então como autênticos análogos aos judeus.

Para entender essa transposição estranha precisamos estar conscientes do grande e ressonante evento da história sérvia que foi a derrota do rei sérvio Lazar pelo Império Otomano em 1389: a batalha de Kosovo. De acordo com os cronistas sérvios, um simpatizante otomano no exército sérvio, Vuk Brankovic, trai os planos de batalha de seu rei para os otomanos, e a Sérvia é derrotada numa batalha apocalíptica no curso da qual Lazar e também o sultão otomano morrem. Assim é inaugurado cinco séculos de ascendência otomana na Sérvia.

 

Essa mitologia ignora o registro real das alianças sérvias frequentes com os otomanos contra os bizantinos. Até mesmo a revolta sérvia de 1802, caracterizada por nacionalistas modernos como antiotomana, foi de fato “não contra o Sultão, mas contra os janízaros que estavam eles mesmos desafiando a Porte (corte otomana).” Esmagadoramente o povo sérvio e o clero eram leais a seus governantes otomanos, que lhes permitiam direitos e privilégios extensos e a igreja tinha um papel vital em assegurar isso. Foi só em meados do século XIX que a lenda de Lazar, que sobreviveu no folclore primitivo, foi mobilizada por ideólogos nacionalistas como a base para um mito nacional furiosamente xenofóbico.

 

Nessa metáfora, o Rei Lazar se torna um tipo de reencarnação de Jesus, que é traído pelo Judas sérvio (Brankovic) e morto pelos muçulmanos, que então se assemelham aos judeus. Tal como Cristo só voltará para a terra como um juiz vingativo quando os judeus tiverem sido feitos sofrer o suficiente por sua traição, assim também o castigo dos muçulmanos expiará misteriosamente a morte de Lazar, começando um milênio sérvio. Daí a popularidade recorrente das pinturas da “última ceia” de Lazar, rodeado por sua comitiva, incluindo o traidor esquemista Brankovic, cuja face já parece como um muçulmano como a face de Judas era, em pinturas tradicionais cristãs, judia. O nariz é adunco, a pele morena, os olhos brilham com uma avareza sonsa.

 

Nessa versão mítica do passado da Sérvia, os muçulmanos balcânicos se tornaram símbolos essenciais de traição, como Brankovic, eles traíram a Cristo; eles são então a semente do diabo, cujo único destino justo deve ser a humilhação ou a morte. Eles se converteram ao Islã, assim se tornando traíveis ao Deus Encarnado, por pura covardia e avareza. Eles são um poluente da nação sérvia, que é percebida como inerente e irredutivelmente cristã.

 

Esse criação de mitos venenosos do século XIX não era, como alguns pensavam, uma simples evolução duma tradição épica sérvia mais antiga. Durante a maioria dos séculos otomanos, os sérvios viveram pacífica e lealmente sob o governo califal otomano, conscientes , sem dúvida, de que os otomanos eram uma guarda efetiva contra os guerreiros cruzados do catolicismo ocidental (de fato, a sobrevivência do povo sérvio como uma comunidade religiosa teria sido improvável senão graças à proteção otomana).  Em vez disso, os autores dessa mitologia, muitos dos quais eram os agentes de desígnios imperiais russos em terras otomanas, pegaram emprestado do Romantismo Alemão, em particular dos malfeitores como Herder, que buscavam criar um mito nacional unificador a partir de canções populares e épicos cuidadosamente selecionados. Mas se o nacionalismo sérvio é, historicamente falando, não muito sérvio, o núcleo anti-islâmico, o antissemitismo sublimante, não era nada novo. O poema que é geralmente reconhecido como o épico nacional da serviedade e que surge no início da criação romântica da “identidade sérvia”, descreve sentimentos islamofóbicos violentos e antigos. Esse poema é a Grinalda da Montanha pelo Bispo Njegos de Montenegro , que morreu em 1851. É uma chanson de geste, que celebra outro bispo, Danilo, que no início do século XVIII eliminou o Islã de Montenegro – o assim chamado Massacre da Véspera de Natal.

 

A Grinalda da Montanha é interessante de várias maneiras diferentes. Não menos é a forma pela qual o bispo retrata os muçulmanos, que clamavam por coexistência. Um deles, por exemplo, dizia:

 

Pequena o bastante é essa nossa terra,

Embora duas fés ali possam existir

Como em uma tigela sopas podem concordar

Deixe-nos ainda como irmãos viver.

 

Repetidamente os muçulmanos são mostrados como advogados da coexistência; mas no poema, são simplesmente uma tentação satânica, o sorriso de Judas, que o bispo finalmente supera.

 

Então ele responde: ‘Nossa terra é tola; fede dessa falsa religião’. E, seguindo seu comando:

 

Nem um simples olho que enxerga, nenhuma língua muçulmana

escapou para contar seu conto um outro dia.

Pomo-nos todos na espada

Todos aqueles que não seriam batizados.

Mas homenageamos a Santa Criança,

fossem todos batizados com o sinal da cruz cristã.

E como irmão cada um saudou e cumprimentou.

Incendiemos as casas muçulmanas,

Para que não haja nem pau nem traços

Desses verdadeiros servos do diabo!

 

Quando as notícias do massacre alcançam os líderes sérvios, um dos abades começa a chorar. Chocado pela ideia que ele poderia estar exprimindo agonia pelas vítimas, ele é repreendido mas responde, claro, que está chorando de alegria. O poema termina com um recital alegre pelos guerreiros sérvios retornando do massacre e observa que eles não precisam ir se confessar antes de tomarem a comunhão.

 

Njegos é o Shakespeare sérvio; seu poema era requerido de se ler em todas as escolas na Iugoslávia pré-guerra. Até mesmo o dissidente reformista Milovan Djilas elogiou esse “poeta dos massacres”. Um de seu leitores mais comprometidos foi o próprio Radovan Karadzic, que embora não sendo um sacerdote, amava usar cruzes e fortemente se identificava com o bispo heroico da história. Sua autoimagem favorita era aquela do bardo itinerante, tocando gusle – um instrumento tradicional bósnio – e cantando com seus soldados. Essas sessões, como transmitidas regularmente na Republika Srpska TV durante a guerra, começa com uma rodada duma bebida alcoólica, e todos os soldados fazem o sinal da cruz antes começar com as palavras:

 

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“Irmãos sérvios, onde quer que estejam,

com a ajuda de Deus Todo-Poderoso,

Graças a Cruz e à fé cristã,

Convocamos vocês para participar da batalha de Kosovo.”

 

A canção popular favorita de Karadzic, ele nos conta, é chamada de “A Última Ceia”, que ele conta: “tem algo a ver com Jesus Cristo, simbolizando a fé sérvia depois da batalha perdida.” Karadzic é, depois de tudo, o descendente do mesmo Vuk Karadzic que coletou a Grinalda da Montanha e outros poemas e os moldou na matéria do nacionalismo romântico sérvio.

 

Karadzic e o nacionalismo religioso que ele representa podem ser vistos como um produto de particularidades balcânicas locais. Seu “cristoslavismo”, com sua ideia concomitante de que os muçulmanos são matadores de cristãos e traidores da Ortodoxia que são desse jeito logo expelidos da categoria de humanidade normal, difere substancialmente das imagens dos gregos, romenos ou russos dos muçulmanos (embora estas não fossem geralmente mais simpáticas). De fato, um atributo característico do nacionalismo ortodoxo sérvio é o retratamento paradoxal dos muçulmanos como hospitaleiros e eirênicos, como vemos na Grinalda da Montanha. Mas isso não é mais do que o subterfúgio do diabo e o verdadeiro guerreiro ortodoxo não deve ser tentado por isso para mostrar misericórdia. Velimirovic, o teólogo recém canonizado, é muito claro: “eles são maus, e o mal deve ser esmagado até que se erradique. Numa fileira de cabeças ressecadas, Njegos não via cabeças humanas, mas somente as cabeças dos inimigos da justiça. Essas fileiras de cabeças serviam como troféus da justiça vingada.”

 

Onde as reflexões ortodoxas locais sobre o Islã de fato se conectavam com um discurso cristão muito mais amplo é na forma como criticavam o Islã como uma religião da Letra, que contrasta desfavoravelmente com a “liberdade” cristã no Espírito. Isso é talvez o tema mais fundamental de todos. Vuk Draskovic, Nikola Koljevic, Justin Popovic e outros avançaram nessa dialética como evidência da indignidade dos crentes muçulmanos, mas aqui os teólogos sérvios estão amplamente alinhados com a reflexão cristã mais abrangente. Até mesmo no Reino Unido, Kenneth Cragg, o último bispo anglicano de Jerusalém fez esse contraste – “nomocêntrico” versus “pneumocêntrico” – o fundamento de sua crítica ao Islã que ele infinitamente, e deve-se dizer, tediosamente repetia. Há outros exemplos também; de fato, o tema foi amplamente divulgado entre os teóricos cristãos.

 

Tome Hans Küng por exemplo, um teólogo católico alemão e advogado do celebrado Ética Global. Sem dúvida que ele não está ciente do uso do tema do “legalismo degradante” e “limpeza ritual” pelos nacionalistas religiosos sérvios. Mas ele escreve: “Em contraste com Muhammad, a coisa decisiva que interessava Jesus era bem diferente de, digamos, as regras de purificação ritual ou a proibição do vinho”. Não muitos muçulmanos reconheceriam tal retratamento de sua religião; além do mais, tais assuntos ocupam menos de um décimo do texto alcorânico, a maioria do qual é sobre Deus, o julgamento e a história sagrada. Mas Küng é serenamente confiante de que sua caracterização é válida.

 

Até mais estranho é seu elogio do julgamento de Dürrenmatt de que “Muhammad, claro, não tem nada em comum com Jesus […] mas Muhammad poderia ser bem comparado com Paulo e Karl Marx”. E do lado protestante, compartilhado com Cragg, há o julgamento de Paul Tillich de que “A questão é se a manifestação do divino no reino jurídico é a manifestação derradeira” – uma interrogação na qual Tillich está enquadrando o Islã.

 

Tais caracterizações do Islã como fixados na “Lei” e resistente ao “Espírito” são simplesmente irreconhecíveis pelos muçulmanos, que tipicamente apontam para a rica literatura mística da religião como refutação suficiente. Mas o que é mais preocupante é o jeito no qual o argumento parece ver o Islã como uma reincidência do “judaico”, ou o que às vezes era eufemicamente chamado de formalismo “farisaico”. Escritores como Küng e Tillich denunciam o  antissemitismo, mas seu tratamento do Islã sugere que suas conclusões subentendidas continuam presentes em suas mentes. A dialética “letra versus espírito” que eles veem como desacreditável no discurso cristão sobre o judaísmo e de fato repugnante moralmente na visão do que reconhecem como suas implicações históricas, permanece viva e bem no sentido pelo qual tratam o Islã.

 

A imagem antissemita secreta do Islã e o “Oriente”, do jeito que é estagnado e regrado, é o que é responsável por muito da virulência das rejeições europeias tradicionais dos muçulmanos. Talvez um exemplo de sua ampla atualidade pode ser encontrado no discurso maior de Hitler em Nuremberg em 1937, onde ele comparou o embate histórico entre o nazismo e o bolchevismo ao embate entre o cristianismo e o Islã. Eu tomei como que ele quis dizer, e o que ele sabia que seus ouvintes entenderiam, era que o nazismo era “livre no espírito”, um triunfo da individualidade humana e força de vontade; enquanto o bolchevismo era oriental, estagnante “judaico” e aprisionado por formas.

 

A islamofobia europeia, como um ramo novato do antissemitismo, pôde assim formar um ingrediente, perverso o bastante, no nazismo. Mas mais geralmente ainda isso contribuiu para as várias formas de sofrimento islâmico na Segunda Guerra Mundial que, por não terem encontrado ainda seus romancistas ou poetas e não formarem parte da nossa percepção geral do conflito, merecem ser mencionados aqui.

 

A Alemanha nazista capturou quase três milhões de prisioneiros de guerra soviéticos e dois terços destes morreram, principalmente de fome e exposição. E desses, claro, muitos deles eram muçulmanos. O corpo oficial no Exército Vermelho era esmagadoramente russo; mas as outras fileiras, vistas como mais dispensáveis – esquadrões mortuários e tal – eram recrutados de todo o império soviético. As fotos da propaganda alemã de “tipos orientais” entre os prisioneiros nos lembra de que muitos eram aldeões de regiões tradicionalmente muito religiosas como Cazaquistão, Tartaristão e o Cáucaso, lançados num conflito europeu que deve tê-los aturdido.

 

As primeiras novecentas pessoas que devem ter sido metidas em câmaras de gás em Auschwitz eram prisioneiros de guerra soviéticos. Alguns deles presumivelmente eram muçulmanos. De fato, o ponto final da tragédia semítica em Auschwitz era o prisioneiro verdadeiramente fatalista e passivo, que embora geralmente judeu era conhecido no jargão do campo de concentração como Muselmann. O estado patético de tal semita era a antítese absoluta do “Triunfo da Vontade”. Quarenta anos depois, o mundo veria novamente os Muselmänner olhando através do arame farpado do campo de concentração. Loiros, embora ainda o semita derradeiro, o Muselmann, desumanizado, enjaulado e espancado pelos sacerdotes do Deus de Paulo, de fato aparecem como a total antítese da Europa, uma impureza implorando para ser “limpa”.

 

O desprezo europeu tradicional pelos muçulmanos que, como sugeri, é metabolicamente relacionado com o antissemitismo, é em uma extensão maior ou menor endêmica nesse continente cujo único profeta (Paulo o Heleno, essa era a segurança do Papa Benedito) é o inimigo mortal da “Lei”. O esforço apocalíptico contra o semitismo era tão forte que poderia ficar oculto e tomar formas seculares, como Hitler e seus epígonos. Isso também informou as autoridades soviéticas mesmas enquanto lidavam com suas populações muçulmanas teimosamente religiosas. Bohdan Nahalyo e Victor Swoboda, em seu livro Desunião Soviética, descrevem em detalhes angustiantes e inconfundivelmente semelhantes com o Shoah nas execuções e deportações em massa das comunidades islâmicas. Os chechenos foram deportados para a Sibéria, perdendo um quarto de sua população no caminho. E no caso dos tártaros crimeus:

 

“A população de quase um quarto de milhão foi acordada nas primeiras horas por unidades armadas da Polícia de Segurança  e dentro de horas todos eles, inclusive mulheres, crianças e idosos foram juntados em vagões de carga ou lançados em petroleiros ferroviários. A jornada de trem assassina para a Ásia Central e o regime punitivo imposto sobre os deportados em lugares de exílio tinha um pedágio enorme. Os tártaros crimeus estimam que a quantidade total de perdas foi por volta de 46 por cento de seu número.

 

Como Nahalyo e Swoboda apontaram: “relativo ao número da sua população, o holocausto cazaque excedeu o de qualquer outra nação na União Soviética naquele tempo”. Quase metade da população muçulmana cazaque morreu só sob Stálin; e subsequentemente milhares mais morreram como resultado de centenas de testes nucleares feitos no Cazaquistão, longe das populações “brancas”, pelas autoridades soviéticas. É chocante, embora dificilmente surpreendente, que a Europa Ocidental ainda tenha que institucionalizar um Dia do Memorial do Holocausto Cazaque. O Semita Derradeiro ainda é desprezado, mal representado, teologicamente excluído.

 

Sob o comunismo a dimensão religiosa da islamofobia só poderia ser uma relíquia indireta e secularizada traduzida dum passado cristão; mas com o colapso do comunismo está emergindo novamente e o chauvinismo nacionalista crescente da Rússia moderna tem os muçulmanos sob suas miras.

 

Todos esses comentários podem parecer ter nos levado para bem longe da Bósnia; mas espero que a conexão seja aparente. Muitos muçulmanos, como muitos judeus, não compartilham da visão e experiência europeias idealizadas porém padronizadas de seu continente. A Europa foi fundamentalmente danificada. Nos anos 1940, as comunidades judaicas foram sistematicamente extirpadas; nos anos 1990 as maiores populações muçulmanas nativas do continente sofreram o que – escreva pequeno, por segurança – pareceu ser um destino bem análogo. Esse fato foi notado pelos comentaristas judeus em particular, talvez porque a relação entre islamofobia e antissemitismo, mesmo que desconfortável, é bem clara. Aqui por exemplo estão as palavras do Rabino Chefe, Jonathan Sacks, enquadrado no alto da Guerra da Bósnia:

 

“Em 1993 encaramos uma questão que demanda uma resposta pelo bem da humanidade mesma. Nada muda? As milhões de páginas tendenciosas e preconceituosas escritas desde a Segunda Guerra Mundial se provaram impotentes em impedir sua recorrência? Podemos aturar mal um século depois do Holocausto numa Europa que substituiu a palavra Judenrein com a frase igualmente repelente ‘limpeza étnica’ e não perguntar a questão:’Estamos errados em dizer “Nunca mais”?’ A história não é um filme infinitamente se repetindo. O fim não foi escrito. A Bíblia diz: ‘Atentem-se que pus ante vocês a bênção e a maldição, vida e morte. Assim escolham a vida.’ A história é feita de escolhas. E nada que aconteceu no passado nos força que deixemos que aconteça de novo. Há muitos paralelos entre o humor da Europa agora e o humor de 100 anos atrás; e temos muito conhecimento para ignorar a linha que nos leva do ódio ao holocausto.”

 

Sacks está claramente implicando que os muçulmanos europeus estão na posição que uma vez os judeus ocuparam. O semita regrado é o Outro eterno, contra o qual a Europa deve se defender para sempre, por vacinação ou, quando necessário, cauterização. No mesmo ano, Jean Baudrillard caracterizou o humor europeu, aparentemente novo porém também tão velho como a “Europa” mesmo, nos seguintes termos:

 

“O fim milagroso estará próximo somente quando os extermínios chegarem a um fim e quando as fronteiras da Europa ‘branca’ forem demarcadas. É como se todas as nacionalidades e políticas europeias tivessem atuado em concerto para contratar um assassinato com os sérvios, que se tornaram os agentes dos trabalhos sujos do Ocidente – tal como o Ocidente assinou um contrato com Saddam Hussein contra o Irã… A Europa Moderna se alçará da erradicação dos muçulmanos e árabes – ao menos que sobrevivam como escravos imigrantes.”

 

As profecias de Baudrillard e Sacks não precisam se tornar realidade, mas os muçulmanos deveriam estar prestando bastante atenção, pois o quanto mais a dicotomia Letra-Espírito persiste nas mentes europeias, o mandamento de Yezkor, Lembrança, manter-se-á. Hoje não são somente os crentes sérvios que condenam “os loucos infectados com a praga asiática, que seguram uma faca nas nossas costas.” Nacionalismo religioso linha-dura está ressurgindo por todo o mundo ortodoxo, é politicamente reforçado pelos Estados Unidos e está ganhando território mesmo nas sociedades aparentemente seculares da União Europeia. Hoje, os muçulmanos são infinitamente instruídos a se integrarem aos “valores europeus”. Como pode ser isso, entretanto, quando a Europa, o “Continente Obscuro” do relato sinistro de Mark Mazower adere a seu lado sombrio, habitado por fantasmas de seu passado religioso violento? Como isso pode ser se, como o Papa insistiu em Regensburg, que o cristianismo, e logo o debate apocalíptico com o “legalismo semítico”, é a verdadeira fé da Europa? Talvez, em vez submeter às demandas por “assimilação”, os muçulmanos nesse continente atordoado deveriam assumir o papel de exorcistas, buscando expelir a miríade de espíritos sujos deste continente. Essa seria, presumivelmente, a resposta mais religiosa.

 

Fonte: http://masud.co.uk/the-churches- and-the- bosnian-war/

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