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As Falácias, Erros e Inovações da Aqida Salafista

Os tópicos a seguir são um resumo de alguns dos erros na aqida, isto é, na forma como os salafistas ou wahabbitas estruturam intelectualmente sua crença, expondo as suas más interpretações e deturpações elaboradas principalmente pelo seu principal mentor, Muhammad ibn Abd al-Wahhab.

Através do raciocínio proposto no texto, iremos expor como este pensamento tardio, criado mais de mil anos após a hégira (migração do Profeta ﷺ e seus companheiros de Meca para Medina), não é de forma alguma a crença das primeiras gerações dos muçulmanos piedosos e como ele se desvia dos ensinamentos revelados, principalmente no que diz respeito ao takfir massivo, isto é, excomunhões da maioria da comunidade islâmica baseada na sua crença.

Deus e senhor são inseparáveis

A palavra deus (ilah) às vezes é definida como algo “digno de adoração”.

Allah é o único digno de adoração. Por quê? Porque Ele é o Senhor de toda a existência. É o Seu senhorio (criador, sustentador, causa de dano e benefício) que O torna digno de adoração.

رَبُّ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ وَمَا بَيْنَهُمَا فَاعْبُدْهُ وَاصْطَبِرْ لِعِبَادَتِهِ ۚ هَلْ تَعْلَمُ لَهُ سَمِيًّا

"É o Senhor dos céus e da terra, e de tudo quanto existe entre ambos. Adora-O, pois, e sê perseverante na adoração a Ele!" (Alcorão, 19:65)

 

Gramaticalmente, a palavra em árabe “fa” (“pois” ou “portanto”) é uma partícula causativa - isso faz da primeira sentença (o Senhor dos céus e da terra) a razão causal para o segundo comando (Adora-O). Veja outro exemplo:

 

  إِنَّ اللَّهَ هُوَ رَبِّي وَرَبُّكُمْ فَاعْبُدُوهُ ۚ هَٰذَا صِرَاطٌ مُسْتَقِيمٌ

"Allah é meu Senhor e vosso. Adorai-O, pois! Eis aqui a senda reta!" (Alcorão 43:64)

Se você acredita que alguém é seu deus (digno de adoração), é porque você acredita que essa pessoa tem atributos que a tornam digna - atributos de senhorio. Seu deus é sempre seu senhor.

 É assim que é definido no dicionário árabe mais confiável, "Al-Lisan al-Arab":

"O deus (ilah) é aquele que é deificado e adorado e merecedor da adoração; pois ele não pode ser um deus até que ele seja adorado e considerado o criador, o sustentador e o inventor pelo adorador e tenha poder sobre o adorador. Tudo o que não é visto desta forma não é um deus, mesmo se alguém for compelido a adorar. Em vez disso, seria uma peça da criação que está buscando ser adorada."

O Alcorão também confirma isso explicitamente. Portanto, sempre que os dicionários e os ulema definem deus (ilah) como "aquilo que é adorado", os atributos de senhorio são sempre implícitos como a razão pela qual eles são, mesmo se não mencionados explicitamente. Novamente, seu deus é o seu senhor:

مَا اتَّخَذَ اللَّهُ مِنْ وَلَدٍ وَمَا كَانَ مَعَهُ مِنْ إِلَٰهٍ ۚ إِذًا لَذَهَبَ كُلُّ إِلَٰهٍ بِمَا خَلَقَ وَلَعَلَا بَعْضُهُمْ عَلَىٰ بَعْضٍ ۚ سُبْحَانَ اللَّهِ عَمَّا يَصِفُونَ

Allah não teve filho algum, nem jamais nenhum outro Allah compartilhou com Ele a divindade! Porque se assim fosse, cada Allah ter-se-ia apropriado da sua criação e teriam prevalecido uns sobre os outros. Glorificado seja Allah de tudo quanto descrevem! (Alcorão, 23:91)

O deus cria.

إِنْ نَقُولُ إِلَّا اعْتَرَاكَ بَعْضُ آلِهَتِنَا بِسُوءٍ ۗ قَالَ إِنِّي أُشْهِدُ اللَّهَ وَاشْهَدُوا أَنِّي بَرِيءٌ مِمَّا تُشْرِكُونَ

Somente dizemos que algum dos nossos deuses te transtornou. (Alcorão, 11:54)

Aqui, os mushriks, politeístas, ameaçam com os danos de seus deuses. 

وَاتَّخَذُوا مِنْ دُونِ اللَّهِ آلِهَةً لَعَلَّهُمْ يُنْصَرُونَ

Todavia, adoram outras divindades, em vez de Allah, a fim de que os socorram! (Alcorão, 36:74)

Os mushriks buscam benefícios de seus deuses.

Aqui, vimos que os mushriks atribuem criação, benefício e dano aos seus deuses. Esses são todos os atributos de senhorio. Portanto, os deuses dos mushriks eram seus senhores. Essa é a razão pela qual Allah afirma (e os próprios mushriks confessam): 

وَقِيلَ لَهُمْ أَيْنَ مَا كُنْتُمْ تَعْبُدُونَ

مِنْ دُونِ اللَّهِ هَلْ يَنْصُرُونَكُمْ أَوْ يَنْتَصِرُونَ

فَكُبْكِبُوا فِيهَا هُمْ وَالْغَاوُونَ

وَجُنُودُ إِبْلِيسَ أَجْمَعُونَ

قَالُوا وَهُمْ فِيهَا يَخْتَصِمُونَ

 تَاللَّهِ إِنْ كُنَّا لَفِي ضَلَالٍ مُبِينٍ

 إِذْ نُسَوِّيكُمْ بِرَبِّ الْعَالَمِينَ

Então lhes será dito: Onde estão os que adoráveis, em vez de Allah? Poderão, acaso, socorrer-vos ou socorrem-se a si mesmos? E serão arrojados nele, juntamente com os sedutores, e com todos os exércitos de Lúcifer, quando, então, dirão, enquanto disputam entre si: por Allah, estávamos em um evidente erro, quando vos igualávamos ao Senhor do Universo. (Alcorão, 26:92-98)

الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي خَلَقَ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضَ وَجَعَلَ الظُّلُمَاتِ وَالنُّورَ ۖ ثُمَّ الَّذِينَ كَفَرُوا بِرَبِّهِمْ يَعْدِلُونَ

Louvado seja Allah que criou os céus e a terra e originou as trevas e a luz. Não obstante isso, os incrédulos têm atribuído semelhantes ao seu Senhor. (Alcorão, 6:1)

Duas coisas são igualadas quando eles acreditaram que elas compartilhavam os mesmos atributos: criadores, sustentadores, causadores de danos e benefícios, etc.

Isso funciona de outro jeito também. Se você faz de algo o seu senhor, automaticamente o torna seu deus ou objeto de adoração. Um cristão que acredita que 'Jesus é meu Senhor e Salvador' o considera "digno de adoração", mesmo que não se prostre fisicamente a ele. Veja o Alcorão:

Tomaram por senhores seus rabinos e seus monges em vez de Allah, assim como fizeram com o Messias, filho de Maria, quando não lhes foi ordenado adorar senão a um só Allah. Não há mais divindade além d'Ele! Glorificado seja pelos parceiros que Lhe atribuem! (Alcorão, 9:31)

Os tafsirs, isto é, as exegeses, nos dizem em relação aos monges e rabinos que eles tomaram como Senhores, aceitando sua autoridade acima da soberania de Allah. Em relação a Jesus, todos sabemos que os cristãos acreditam que ele é o "Senhor e Salvador". Quando eles tomaram Jesus por seu senhor, Allah respondeu que deveriam adorar apenas um deus. Então, tomar alguém por senhor é equivalente a adorá-lo (isto é, como Deus).

Vejamos outro exemplo. O Tafsir al-Tabari e Ibn al-Jawzi relataram de Ibn Abbas que os rabinos judeus e clérigos cristãos vieram ao Profeta ﷺ e inquiriram: "Ó Muhammad, você quer que nós tomemos você por senhor?". Allah respondeu, nos versos abaixo, que tomar algo por senhor é equivalente a adorá-lo.

 مَا كَانَ لِبَشَرٍ أَنْ يُؤْتِيَهُ اللَّهُ الْكِتَابَ وَالْحُكْمَ وَالنُّبُوَّةَ ثُمَّ يَقُولَ لِلنَّاسِ كُونُوا عِبَادًا لِي مِنْ دُونِ اللَّهِ وَلَٰكِنْ كُونُوا رَبَّانِيِّينَ بِمَا كُنْتُمْ تُعَلِّمُونَ الْكِتَابَ وَبِمَا كُنْتُمْ تَدْرُسُونَ

Não é admissível que um ser humano a quem Allah concedeu o Livro, a sabedoria e a profecia diga, em seguida, aos homens: Sede meus adoradores, em vez de Allah! (Alcorão, 3:79)

Allah responde "tomar algo por senhor" com "adorá-lo".

Al-Tabari também cita Qatada, o antigo exegeta tabi que fez a mesma conexão dizendo que: “Sejam meus adoradores, em vez de serdes de Allah” significa "tomá-los por senhor ao invés de Allah". Veja a citação completa em :

Agora, vamos continuar com a passagem:

Sede servos do Senhor, uma vez que sois aqueles que estudam e ensinam o Livro. Tampouco é admissível que ele vos ordene tomar os anjos e os profetas por senhores. (Alcorão, 3:79-80)

Ibn Khatir diz que a expressão "anjos e os profetas por senhores" significa: "O Profeta ﷺ não ordena adorar outro que não seja Allah, quer seja um anjo ou um mensageiro."

Então, está claro que tomar algo por senhor é transformá-lo em seu deus (isto é, adorá-lo ou considerá-lo digno de adoração). A razão disso é que sentir que alguém tem um poder divino sobre você (rububiyyah) o coloca em uma condição de humildade e servidão a ele (ubudiy-yah). Isso é o suficiente para torná-lo um "adorador" dessa coisa, mesmo que não aja fisicamente (externalizando a adoração) de acordo com ela. Portanto, a adoração é interna.

Em relação ao versículo 51:56: "Não criei os homens e os gênios senão para Me adorarem", Mujahid, o estudante do companheiro do Profeta, Ibn Abbas, disse que isso significa: “Apenas para me conhecer” (Tafsir al-Baghawi na surah 51:56).

Então, a adoração não necessariamente envolve ações físicas. Agora, vejamos como o Imam Baghawi define a adoração (ibadah) no mesmo versículo.

Seu significado é “apenas para se rebaixar diante de Mim e humilhado”, pois o significado de adoração (ibadah) linguisticamente é: humilhação e subserviência. (Tafsir al-Baghawi na surah 38:5)

Três palavras importantes são usadas. Aqui, a definição de “adoração” tem a ver com traços internos, não necessariamente com atos físicos:

  • “Rebaixamento” (khudu - venerar e considerar algo como sendo exaltado e, portanto, rebaixar-se a isso)
  • Humilhação / humildade - (tadhalul)
  • Subserviência / submissão (inqiyaad)

O ato externo vem dessa condição interna. Sem ele, o ato não tem sentido. Assim, um ateu que pratica salah (a oração) não adora Allah. Ele não tinha ubudiyyah dirigindo o ato porque ele não acreditava na rububiyyah de Allah.

A adoração não pode ser apenas o ato. Caso contrário, quando o Profeta Yaqub (Jacó)  se prostrou para Yusuf (José), ele teria "adorado alguém que não era seu Senhor". Essa afirmação é kufr, ou seja, incredulidade.

Você não pode dizer: "era permitido naquela época" ou "ele é desculpado por ignorância". Shirk (associar parceiros a Allah) nunca foi permitido, nunca é desculpável e os profetas não cometem erros de shirk.

Então deus (ilāh) INCLUI senhor (rabb). Isso é confirmado por Taqi ud-Din Ibn Taymiyyah:

"divindade inclui dentro de si o senhorio (...) quando uma é mencionada, inclui a outra, mesmo que cada palavra tenha seu próprio significado." [Majmu al-Fatawa, II, p. 275]

Outras evidências na sura 21:22. O que acontece quando interpretamos divindade (ilah) no verso abaixo como objeto de adoração? Vejamos:

Se houvesse nos céus e na terra outras divindades (isto é, objetos de adoração que não são criadores) além de Allah, céus e terra já se teriam desordenado. Glorificado seja Allah, Senhor do Trono, por tudo quanto Lhe atribuem! (Alcorão, 21:22)

Esse verso não faria sentido porque, para que o universo fosse desordenado, deveria haver poderes competindo e isso é um atributo de rububiyyah. A única forma do verso fazer sentido é se “divindade” significar “senhor”. Agora, vejamos o verso novamente:

Se houvesse nos céus e na terra outras divindades (isto é, criadoras, sustentadoras, poderes onipotentes) além de Allah, céus e terra já se teriam desordenado...

Se houvesse outro criador, sustentador e vontade divina, eles se confrontariam e a criação, portanto, seria um caos. Esse é um argumento lógico para o monoteísmo. 

Então, para concluir, seu deus é o seu senhor e seu senhor é seu deus. Se você discorda, você está contradizendo o Alcorão e isso é kufr.

Como os Salafistas Mudaram Isso?

Primeira Etapa

Muhammad ibn Abd al-Wahhab disse:

"Os mushriks Jahili (idólatras do período da ignorância) acreditavam que Allah era o seu único senhor, mas tinham outros deuses além Dele, que eles acreditavam que não tinham atributos de senhorio (rububiyyah)."

 Assim, ele concebeu deus [ilah] e senhor [rabb] como conceitos separados.

Esses politeístas (mushrikun) davam testemunho que Allah sozinho era o criador, sem nenhum parceiro; que Ele sozinho dá o sustento; que ninguém dava a vida e a morte exceto Ele; que o céu e tudo o que nele contém, as sete camadas da terra e tudo o que nela contém; tudo se sujeita à ordem e ao poder d’Ele. (Kashf al-Shubuhat p.14-16)

Muhammad ibn Abd al-Wahhab afirma que os idólatras da era da ignorância afirmavam o tawhid al-rububyyiah - a unicidade do senhorio de Allah. De todo modo, ele continua:

“A afirmação deles da unicidade no senhorio d’Ele (tawhidur-rububiyyah) não os coloca dentro do Islam e era a busca deles por intercessão (shafa) dos anjos, profetas ou os justos e a busca da proximidade de Allah por meio de tudo isso - isso é o que torna o sangue e a riqueza deles permissíveis de serem tomados.”

Então, se é possível ter um senhor e vários outros deuses, então senhor e deus são completamente separados.

A afirmação de Muhammad ibn Abd al-Wahhab de que os mushriks acreditavam que Deus era o seu único Senhor é falsa. Como mostramos, seus deuses também eram seus senhores.  Portanto, para começar, toda a base para separar o senhor de Deus estava errada.

Imām al-Tabari também confirma que os mushriks "negaram Sua rububiyyah".

O Exaltado disse: (De fato, Allah não guia) para a verdade e para a religião do Islam, e para o reconhecimento de Sua singularidade, então ele (aquele que é mentiroso) que calunia Allah espalha falsidades sobre Ele atribuindo-Lhe aquilo que não é um de Seus atributos, alegando falsamente para Ele que Ele possui descendentes (um mentiroso e incrédulo), ingrato por suas bênçãos e negando Seu Senhorio (rububiyyah). (Tafsir al-Tabari, 39:3)

Agora, se um salafi diz: “Tabari não é hujjah (prova) para mim”, tudo bem - então não o use novamente para embasar sua teologia.

Então, agora, vamos revisar as duas definições de deus [ilah]:

  • Sunita: "deus é aquele que você acredita ser o seu senhor, criador, sustentador; atributo possuidor que o torna digno de adoração".
  • Wahhabi: "deus é aquele a quem você dirige um ato de adoração, mas que você não acredita que tem o senhorio".

Segunda etapa

Em seguida, Muhammad ibn Abd al-Wahabb conectou esta nova definição de ilah à shahada. Então, quando os mushriks ouviram “la ilaha ill-Allah”, "ilah não era o Criador, Sustentador ou Controlador". Mas a intenção do Profeta ﷺ era: "não dedique atos de adoração a outro que não Deus".

“O Tawhid para qual os Mensageiros convidaram e que os mushriks se recusaram em afirmar e aceitar é o significado de la ilaha ill Allah. Pois um deus - na visão dos mushriks - é aquele que é procurado por causa desses assuntos (isto é intercessão)... eles não têm em mente ou querem dizer que um deus (ilah) é o Criador, Sustentador ou Regulador, pois eles sabiam que isso é apenas Allah sozinho. (Kashf al-Shubuhat p.16)

“Então, quando o Profeta ﷺ veio até eles para convidá-los para a palavra do tawhid, “Laa ilaaha illahllaah”, o que é exigido desta palavra é o seu significado real, não meramente o seu enunciado verbal. Os incrédulos ignorantes sabiam que a intenção do Profeta ﷺ com esta expressão era separar a dedicação e adoração a Allah, o Altíssimo, da incredulidade do que quer que eles adoravam ao lado dele, libertando-se disso. Então, quando ele lhes disse “Diga La ilaha ill-Allah”, eles responderam “Ele fez os deuses (aliha) em um deus (ilah). Certamente, isso é uma coisa desconcertante!” (Alcorão, 38:5)

Agora, compare as duas diferentes shahadas:

  •  O verdadeiro Muhammad ﷺ: "Não há ilah (senhor criador, sustentador, causa do benefício/dano etc.) exceto Allah".
  •  O falso Muhammad: "Não há ilah (aquele a quem os atos de adoração são dirigidos e não é o criador e sustentador) exceto Allah".

Terceira Etapa

Muhammad ibn Abd al-Wahhab disse que quem não aceita sua shahada é mais ignorante do que os mushriks de Jahili.

Este era um takfir em massa direcionado aos muçulmanos, pois se eles não conhecessem a shahada, não teriam acreditado nela. (Ele acrescentou que quem não se junta a ele no takfir também é um kafir).

“Então, quando você vem a saber que os ignorantes entre os incrédulos (os árabes de Jahili) sabiam de tudo isso, se torna surpreendentemente estranho que aquele que diz ser muçulmano nem mesmo sabe o significado dessa expressão (la ilaha ill-Allah), na qual até mesmo os ignorantes entre os incrédulos (isto é os árabes de Jahili) sabiam… Mesmo os inteligentes e astutos entre esses muçulmanos pensam que o significado é que “nada cria ou mantém e sustenta exceto Allah, e ninguém controla as coisas exceto Allah (isto é rububiyyah). Então não pode haver bondade em uma pessoa quando os ignorantes entre os incrédulos sabem mais do que eles sobre o significado de la ilaha ill-Allah” (Kashf al-Shubuhat p.16-17)

Aqui, ibn Abd al-Wahhab disse que os muçulmanos acham que “la ilaha ill-Allah” é uma negação dos outros criadores, sustentadores, etc.  Ao invés disso, ele argumenta que é uma negação dos outros “objetos de adoração” porque “ilah” é um objeto de adoração e não um senhor (rabb), e todos aqueles que pensam de outra forma, segundo ele, são piores do que os mushrikun da Arábia.

Ele disse a mesma coisa (implicitamente) no livro “Kitab al-Tawhid”: “Que Allah denuncie aqueles que sabem menos que Abu Jahl em relação ao Islam”.

A Definição da Shahada Pelos Companheiros do Profeta

Vamos comparar a shahada do Muhammad ibn Abd al-Wahhab com a dos Sahabas e, então, verificar quem era o kafir.

  • Ibn Abbas, um mestre mufassir: "Não há ilah (fonte de dano ou benefício), exceto Allah."

Omar ibn al-Khattab

Muhammad ibn Abd al-Wahhab usou este versículo para redefinir a shahada: “Pretende, acaso, fazer de todos os deuses um só Allah? Em verdade, isto é algo assombroso (Alcorão, 38:5)!” Omar ibn al-Khattab - que Allah esteja satisfeito com ele - narrou um hadith que dava o contexto. A parte crucial do texto em árabe está em negrito:

“Então, o Profeta Muhammad ﷺ disse: ‘Diga la ilaha ill-Allah’ e eles recuaram diante disso, se levantando e dizendo: Ele fez de todos os deuses um só Deus? Como um só Deus pode atender a toda a criação?“ (Tafsir al-Baghawi na surah 38:5)

Os mushriks negam a capacidade de Allah de atender as necessidades de toda a criação e atribuem isso aos deuses deles, portanto, negam a rububiyyah de Allah e o tawhid al-rububiyyah.

Ibn Abbas

Leia o verso: 

فَاعْلَمْ أَنَّهُ لَا إِلَٰهَ إِلَّا اللَّ

 Conscientiza-te, portanto, que não há mais divindade além de Allah (Alcorão, 47:19)

Ibn Abbas explica que seu sentido é:

“Não há Fonte de Dano ou Benefício, Doador ou Detentor, Levantador ou Humilhador, exceto Allah” (Tanwir ul-Maqbas in Tafsir ibn Abbas pp.538-539)

Para ibn Abbas, ilah/deus na shahada se refere àquele que possui atributos de senhorio.

A Definição da Shahada Pelos Sucessores Piedosos

  • Segundo Sheikh al-Islam Sufyan ibn Uyaynah e Abu Aliya, uma autoridade tafsir: "Não há ilah (fonte de asilo, medo e santuário), exceto Allah."
  • Segundo Qatada ibn Diama, uma autoridade tafsir: "Não há ilah (preenchedor de nossas necessidades), exceto Allah."

Qatada ibn Diama

Comentando o verso “Ele fez os deuses em um deus. Certamente, isso é uma coisa confusa!” (Alcorão, 38:5), al-Tabari citou Qatada:

“Os politeístas estavam espantados porque foram chamados para Allah somente e disseram: Pode um único deus atender todas as nossas necessidades? Nunca ouvimos isso antes!” (Tafsir al-Tabari na surah 38:5)

Os mushriks estavam chocados por terem sido comandados a desistir de seus vários deuses que atendiam a suas necessidades (um atributo de senhorio - rububiyyah) para adorar a apenas um Deus. Este é o motivo de estarem confusos. Isso era matematicamente estranho (ajib) pois, para eles, muitos deuses era algo melhor do que apenas um.

Portanto, eles diminuíram o poder de conhecimento de Allah e também a capacidade d’Ele de atender as necessidades, bem como negaram a Sua unicidade no atendimento às necessidades. Tudo isso é rejeição do senhorio (rububiyyah). 

Abu Aliyah e Sufiyan Uyayhnah

Em relação ao verso: 

 فَاعْلَمْ أَنَّهُ لَا إِلَٰهَ إِلَّا اللَّ

Conscientiza-te, portanto, que não há mais divindade além de Allah (Alcorão, 47:19)

O comentário dele faz de deus (ilah) sinônimo de senhor (rabb):

“(a expressão la ilaha ill-Allah) significa que, quando a Hora é estabelecida, deve-se saber que não há Fonte de asilo, medo ou santuário naquele período a não ser Allah.” (Tafsir al-Baghawi na surah 47:19)

Al-Tabari

Embora não seja um salaf (não confundir com salafi), Imam Tabari era um estudante direto dos salaf. Aqui, ele confirma o que seus professores disseram sobre a shahada:

“Quanto aos seus dizeres: ‘Não há deus além d’Ele’ (la ilaha illah Hu) é uma descrição d’Ele, o Altíssimo, mencionando que ‘Não há Senhor de toda a existência que não seja Ele…’” (Tafsir al-Tabari na sura 2:163)

Contradição aos Salafs

Então, aí está! O Alcorão diz que ilāh significa uma coisa, Muhammad ibn Abd al-Wahhab diz “Não, não significa - significa outra coisa". O Alcorão e os salaf definem a shahada de uma maneira enquanto Muhammad ibn Adb al-Wahhab define de outra e faz takfir sobre aqueles que defendem a outra definição.

Não há ikhtilaf (diferença de opinião) sobre o significado da shahada. Muhammad ibn Abd al-Wahhab não tinha simplesmente um significado diferente (o que já seria suficientemente ruim), mas também fez takfir para aqueles que pegaram o significado original do Alcorão e salaf.

Muhammad ibn Abd al-Wahhab não pode ser livrado disso. É um erro do kufr e do kharijismo. 

O fato de que Muhammad ibn Abd al-Wahhab tinha sua própria compreensão pessoal de “la ilaha ill-Allah” é evidente em suas próprias palavras, alegando que nenhum de seus professores conhecia o significado, mas sim que Allah de alguma forma o “inspirou” ou “agraciou” com isso. Veja o que ele disse com as próprias palavras:

“Deixe-me informar sobre mim. Eu juro por Allah (no qual ninguém é digno de adoração ao lado d’Ele) que eu busco conhecimento e aqueles que me conhecem e aqueles que me conheceram acreditaram que eu tenho conhecimento, quando (na verdade) eu não sabia o significado de ‘la ilaha ill-Allah’ naquela época, nem conhecia a religião do Islam antes dessa graça com a qual Allah me favoreceu. Da mesma forma, ninguém entre os meus professores (masheikh) sabia disso. Então, se algum dos eruditos de al-Aridh (centro de ensino do Najd) disser que sabia o significado de ‘la ilaha ill-Allah’ ou o significado de Islam dessa época, ou afirmar em favor de seus professores que alguém entre eles sabia, então eles mentiram, disseram falsidades, traíram o povo e elogiaram a si próprios com algo que eles não possuem.” (al-Rasa’il al-Shakhsiyyah & al-Durar al-Saniyyah 10/51)

Se você afirma ter o conhecimento de algo tão fundamental quanto a shahada, dado a você por Allah, e não a aprendeu por nenhum muçulmano antes de você, essa é uma afirmação implícita de profecia. E isso é, precisamente, o que os ulema o acusaram de ser.

Então, o que aconteceu a seguir? Suas tropas lutaram contra qualquer um que discordasse. Incontáveis muçulmanos foram mortos durante o seu período de vida e muitos outros depois dele. Isso é documentado por seu aluno e historiador nomeado Ibn Ghannam. Para uma referência visual, veja os vídeos do ISIS massacrando e aterrorizando muçulmanos!

Aqui, ele contabiliza mais de 300 campanhas militares lançadas pelas forças de Ibn Abd al-Wahhab contra outros muçulmanos.

“Então, todos eles entraram e o surpreenderam em Al-Khurmah. Entretanto, Allah colocou o medo no coração dos soldados do Sharif (aqueles que Ibn Abd al-Wahhab acusaram de apostasia e shirk) e eles foram derrotados um por um. Eles deixaram suas tendas, seus postos e suas riquezas. Os muçulmanos (wahhabis) seguiram-nos, mataram-nos e tomaram seus espólios até que mataram um grande número deles. É dito que o número de homens mortos era 1220; outros dizem que era de 2400. (Tarikh al-Najd, Cap 3, p. 203)

Tão desonrosos eram eles que ceifaram a vida de um exército em retirada, então se deliciaram com a quantidade de homens que mataram. Nem tiveram vergonha em registrar isso, pois acreditavam que estavam certos.

Então, quando você vê citações de Muhammad ibn Abd al-Wahhab de que ele só fez takfir sobre aqueles "que rejeitaram a verdade"; saiba que sua definição de "verdade" era pessoal, e não a do Islam. Assim, ele matou pessoas que realizaram a shahada genuína. Não é de se admirar que todos os ulemás o rejeitaram.

Ibn Abd al-Wahhab disse:

“Não fazemos takfir exceto daquele que veio para saber a verdade e a rejeitou após as provas terem sido estabelecidas para ele, aquele que foi convidado, mas não aceitou, mostrando insubordinação, resistência e obstinação.” (Al-Durar al-Saniyyah, III, 20-21)

Agora, imagine as tropas dele entrando na sua cidade e testando a sua shahada. Você declara a shahada compreendida por todos os muçulmanos e eles repreendem: “Não é aquilo! É isso!”. Eles citam versículos aleatórios do Alcorão para estabelecer uma prova sobre você e, antes que você pudesse responder, sua “resistência insubordinada” seria silenciada com a morte.

Os salafistas ainda defendem a shahada de Muhammad ibn Abd al-Wahhab. É a base de sua religião e do takfir dos muçulmanos.

Portanto, da próxima vez que um salafista discutir sobre intercessão ou Mawlid, etc., lembre-o de colocar suas prioridades em ordem: "Se sua shahada for kufr, você não tem o direito de falar sobre nada."

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