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Al Ghazali e a Renascença das Ciências Islâmicas

Al Ghazali, um dos mais célebres cientistas da história, muçulmano erudito, influenciou tanto as ciências religiosas como seculares. Leia sobre a sua vida.
  • Imam al Ghazali foi um estudioso que trouxe contribuições valiosíssimas para o Islam.
  • Além dos estudos com mestres, ele teve um período de viagens e introspecção muito valioso para seu aprendizado.
  • Em sua autobiografia, ele esclarece a relação entre as ciências, a filosofia e a religião.
  • Al Ghazali levou o título de “a prova do Islam” devido à importância de seu trabalho de proteger o Islam de alguns problemas de sua época.

O Profeta Muhammad prometeu que, a cada século, irá surgir um reformador da fé islâmica. Ao longo da história, grandes muçulmanos intelectuais, governantes, generais e artistas vieram e conseguiram rejuvenescer a fé no mundo muçulmano e ajudar os muçulmanos a lidarem com os problemas de sua época. Para cada uma dessas grandes figuras, um contexto histórico específico foi necessário para que pudessem fazer o que fizeram.

Um dos maiores renovadores da fé, em toda a história, foi o erudito do século XI, Abu Hamid al Ghazali. Hoje, ele é conhecido como Hujjat al Islam, a prova do Islam, por causa de seus esforços intelectuais na luta contra algumas das ideias e filosofias mais perigosas que assolaram o mundo muçulmano durante seu tempo. A partir da natureza ubíqua da antiga filosofia grega para a crescente onda do xiismo político, Imam al Ghazali não deixou uma pedra sobre pedra em seu esforço para trazer de volta o caminho correto das ciências islâmicas, em face das ameaças heterodoxas.

Vida Pregressa

Abu Hamid al Ghazali nasceu em 1058 na cidade de Tus, no Irã moderno. Ele veio de uma família persa, mas era fluente em árabe, sendo a língua na qual ele escreveu, assim como muitos outros estudiosos muçulmanos de sua época. Ele foi educado nos princípios do Islam e da lei islâmica desde tenra idade, tendo contado com o eminente estudioso al Shafi Juwayni entre seus professores.

Durante seu exílio auto-imposto, al Ghazali viveu na mesquita al-Aqsa.

Após completar sua educação, ele se juntou ao tribunal do Seljuk vizir, Nizam al Mulk, em Isfahan, no ano de 1085. Nizam al Mulk era conhecido por seus esforços para estabelecer centros educativos avançados em todo o mundo muçulmano. Assim, ele nomeou al Ghazali como professor na Escola Nizamiyya, em Bagdá, em 1091. Em Bagdá, al Ghazali tinha uma posição de muito prestígio e regularmente atraía enormes multidões para suas palestras.

Em 1095, no entanto, al Ghazali viveu uma crise espiritual, durante a qual ele começou a duvidar de suas intenções no ensino. Ele afirmou em sua autobiografia que sua intenção “não era puramente diretamente a Deus, mas que foi instigado e motivado pela busca de fama e prestígio generalizados.” Reconhecendo o seu dilema espiritual, ele abandonou seu posto na Nizamiyya e viajou para Damasco, Jerusalém e para Hejaz. Durante suas viagens, ele se concentrou na tazkiya (purificação) de sua alma e na análise das várias abordagens sobre o Islam que eram populares durante sua época.

Ele acabou retornando à Bagdá em 1106 e começou a ensinar novamente. Suas viagens e a busca de uma maneira para purificar suas intenções tiveram uma enorme influência sobre o seu papel público e, por vezes, se encontrou em controvérsias durante sua estada em Bagdá. Ele finalmente voltou para sua cidade natal, Tus, onde morreu em 1111.

Refutação de Filosofia

Em sua autobiografia, Libertação do Erro (tradução direta do inglês de Deliverance from Error), al Ghazali descreve as abordagens que as pessoas seguem para encontrar a verdade. Uma das ideologias populares em sua época era a filosofia baseada nos antigos modelos gregos de Aristóteles. A lista de defensores muçulmanos proeminentes da filosofia aristotélica incluía Ibn Sina e al Farabi.

Os perigos da filosofia aristotélica e lógica, de acordo com al Ghazali, foram as conclusões nas quais os filósofos chegaram: alguns chegaram a acreditar em coisas como a eternidade do mundo e a não existência de Deus, ou a ideia de que Deus não é onisciente. Para al Ghazali e outros muçulmanos fundamentados em crenças islâmicas ortodoxas, essas novas ideias eram consideradas como descrença no Islam.

Como al Ghazali percebeu, nenhum estudioso muçulmano tinha, até aquele momento, conseguido refutar eficazmente esses filósofos, pois eram especialistas em lógica e argumentação e conseguiam fazer argumentos muito claros, que faziam sentido para as suas posições – apesar do fato de que essas posições diretamente contradiziam a crença islâmica.

Al Ghazali assumiu o desafio de mostrar os problemas dos filósofos em seus próprios termos em “A incoerência dos filósofos” (tradução direta do inglês de The Incoherence of the Philosophers), que foi publicado em 1095. Usando a lógica filosófica contra eles, conseguiu mostrar claramente os buracos nos argumentos filosóficos que levavam à descrença. Para fazer isso, ele teve de mergulhar profundamente na mesma filosofia – uma prática que ele não recomenda para as massas. Ao longo de sua escrita, ele enfatiza a importância de estar firmemente enraizado na crença correta antes de investigar as crenças heterodoxas.

Outro grande problema que al Ghazali teve de lidar com foi a crescente onda de muçulmanos que aceitaram a crença xiita Ismaili, onde há um infalível Imam oculto que é uma fonte válida da lei islâmica e crença. Para os ismaelitas, que governaram o Egito durante a vida de al Ghazali, a profecia de Muhammad não era a palavra final em questões religiosas. Assim, uma figura santa especial, conhecida como um imame, poderia ser buscada para orientação.

No livro Libertação do Erro, al Ghazali refutou as reivindicações dos ismaelitas de terem um imam baseando-se em escrituras, mostrando que não existiam narrações autênticas do profeta Muhammad a respeito de um Imamato após sua morte. Ele também foi além de responder logicamente as alegações de que um Imam é necessário, analisando o papel da lei islâmica e como ela é derivada. Sem ir muito longe em suas provas (que são muito melhor compreendidas através da leitura de sua obra original), ele chega à seguinte conclusão sobre os ismaelitas:

“A sua doutrina se resume a enganar o povo comum e os estúpidos, mostrando a necessidade de um professor autoritário.”1

Depois de analisar as abordagens sobre o Islam por meios filosóficos, xiitas e outros meios, al Ghazali chega à conclusão de que a única forma eficaz de entender o mundo é através da prática autêntica do Islam, como foi ensinada pelo Profeta e pelas gerações iniciais. No seu tempo, isso estava sendo praticado pelos sufis, um grupo que renunciou a dependência deste mundo e manteve o foco exclusivamente na purificação de suas almas, na tentativa de melhor servir a Allah. 2

Al Ghazali e a Ciência

Uma acusação comum que tem sido feita ao Imam al Ghazali por estudiosos orientalistas é que sua refutação da filosofia levou a um declínio geral do avanço científico islâmico. Eles baseiam suas alegações no fato de que muitas das pessoas que al Ghazali refutou, como Ibn Sina e al Farabi, foram alguns dos principais estudiosos científicos da época. Naturalmente, porém, a verdade é mais vasta.

Enquanto al Ghazali claramente fez frente contra as ideias filosóficas de estudiosos que também escreveram grandes tratados matemáticos e científicos, ele fez uma clara distinção entre filosofia e ciência. Al Ghazali afirma:

“Quem quer que estude estas ciências matemáticas, se maravilha com a quantidade de precisão de seus detalhes e clareza de suas provas. Por causa disso, ela forma uma opinião elevada dos filósofos e assume que todas as suas ciências têm a mesma lucidez e solidez apodítica como esta ciência da matemática.”3

O perigo de se estudar matemática e outras ciências, argumenta al Ghazali, não é que o assunto em si é contrário ao Islam e deve ser evitado. Em vez disso, o aluno deve ter cuidado para aceitar as ideias científicas de estudiosos, sem aceitar cegamente tudo o que dizem sobre a filosofia e outros assuntos problemáticos.

Ele prossegue, afirmando que há um outro perigo para um estudante ignorante das ciências, que é a rejeição de todas as descobertas científicas de estudiosos sobre a base de que eles também eram filósofos com crenças heterodoxas. Ele afirma:

“Grande, em verdade, é o crime contra a religião cometido por qualquer pessoa que supõe que o Islam deve ser defendido pela negação destas ciências matemáticas. A Lei Revelada (Sharia) em nenhuma parte compromete-se a negar ou afirmar essas ciências, e essas ciências em nenhum ponto dirigem-se às questões religiosas.”4

Quando se lê as obras do Imam al Ghazali a um nível muito superficial, pode-se facilmente interpretar mal o que ele está dizendo, como se fosse algo anti-científico. A verdade, porém, é que o aviso de al Ghazali aos alunos é apenas de não aceitar plenamente todas as crenças e ideias de um estudioso simplesmente por causa de suas realizações em matemática e ciências. Ao emitir tal advertência, al Ghazali de fato protegeu o empreendimento científico para as gerações futuras, isolando-o de ser misturado com a filosofia teórica, que poderia eventualmente diluir a própria ciência para um campo com base apenas em conjecturas e raciocínio.

Legado

Este artigo não pretende fornecer uma visão abrangente sobre Imam al Ghazali e todas as suas ideias e contribuições. Para fazê-lo, seriam necessários livros completos que analisam seus escritos. Em vez disso, o objetivo deste texto é mostrar o impacto que al Ghazali teve em sua própria época e história islâmica subsequente.

Imam al Ghazali hoje é conhecido como Hujjat al Islam, palavra árabe para “a prova da Religião”, devido à sua contribuição para a proteção do mundo muçulmano a partir dos desafios intelectuais que estava enfrentando. Crenças e práticas islâmicas tradicionais foram confrontadas por um aumento da filosofia niilista e também pelo extremo xiismo que ameaçava apagar e mudar a face da erudição islâmica para sempre. Devido aos seus esforços e aos numerosos estudiosos que ele inspirou, o caminho foi pavimentado para o ressurgimento da crença islâmica como foi ensinado pelo Profeta Muhammad, livre de corrupção externa. Sua vida foi claramente mantida em linha com os ditos do Profeta, que prometeu um renovador da fé a cada século, 500 anos depois do que foi falado.

Notas

1 – Deliverance From Error, pg. 18 https://www.aub.edu.lb/fas/cvsp/Documents/reading_selections/CVSP%20202/Al-ghazali.pdf

2 – Deve ser feita uma distinção entre o Sufismo de Imam al Ghazali e algumas das várias marcas do Sufismo hoje. O apoio de Al Ghazali aos Sufis em seu tempo não deve ser tomado como um autenticador de todas as ideologias Sufi de hoje, algumas das quais podem levar à inovação ou desorientação. No tempo de Imam al Ghazali, Sufismo, em si, significava simplesmente purificar a alma e direcioná-la a Allah, como al Ghazali afirma sobre os Sufis: “O objetivo do seu conhecimento é para podar os obstáculos presentes na alma e para livrar-se de seus hábitos condenáveis e qualidades viciosas, a fim de atingir, assim, um coração vazio de tudo, exceto Deus, e adornado com a constante lembrança de Deus.”

3 – Deliverance From Error, pg. 22 https://www.aub.edu.lb/fas/cvsp/Documents/reading_selections/CVSP%20202/Al-ghazali.pdf

4 – Deliverance From Error, pg. 9 https://www.aub.edu.lb/fas/cvsp/Documents/reading_selections/CVSP%20202/Al-ghazali.pdf

Bibliografia

al-Ghazali, Abu Hamid. Deliverance from Error. Beirut: American University of Beirut, 1980. Web. <https://www.aub.edu.lb/fas/cvsp/Documents/reading_selections/CVSP 202/Al-ghazali.pdf>.

Khan, Muhammad. The Muslim 100. Leicestershire, United Kingdom: Kube Publishing Ltd, 2008. Print.

Traduzido de Lost Islamic History

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