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Agir com Base em Hadiths Fracos é uma Inovação? – Shaykh Amjad Rasheed

Perguntas: Por que os eruditos que seguem escolas de jurisprudência (madhabs) permitem que as pessoas tomem decisões com base em hadiths fracos? Isso não é uma inovação grotesca?

Resposta: Em Nome de Allah, o Infinitamente Bom, o Misericordioso.

Que as bênçãos e paz de Allah estejam com o Seu Amado Profeta, o melhor de toda a criação, e com a sua família, companheiros e seguidores.

Há algumas particularidades envolvidas nessa pergunta. O que é estabelecido, de acordo com os imams, é que não é permitido se basear em hadiths fracos para derivar juízos legais, pois nesse caso, não agimos senão com base em hadiths rigorosamente autenticados ou válidos.

Imam al-Nawawi, que Allah tenha misericórdia dele, diz na introdução do seu Livro das Invocações (al-Adhkar): “Quanto a juízos legais, sobre o que é lícito e o que não é, como nos assuntos de comprar e vender, casamento e divórcio e outras coisas assim; não devemos agir baseados em nada a não ser hadiths rigorosamente autenticados ou válidos, excetos se for com o propósito de manter o escrúpulo no que se relaciona aos juízos legais. Por exemplo, se for relatado um hadith fraco que diz que certos tipos de transação ou de casamento são detestáveis, [é permitido tomar decisões com base nele para manter o escrúpulo,] pois é recomendado que se evite esse tipo de coisa, mas não é obrigatório.”

No entanto, se lermos as obras de jurisprudência [fiqh], às vezes podemos nos deparar com certos juízos que aparentam ser derivados de hadiths fracos, o que pode gerar dúvidas, dado o que foi dito acima. A razão disso é que, entre os estudiosos, há opiniões divergentes sobre a integridade dos hadiths, quando os usam para derivar juízos legais. Então, quem considera um hadith como autêntico, age com base nele, e quem considera fraco, não age com base nele.

Alguém que não tenha uma compreensão abrangente das ciências islâmicas e que não saiba quem que autenticou o hadith, pode achar que derivaram o juízo legal de um hadith fraco. Fazendo isso, a pessoa pode não estar ciente de que o estudioso que derivou esse juízo provavelmente não considera que o hadith seja fraco ou esteja seguindo o critério (ijtihad) dos mestres em hadith e dos juristas (fuqaha’) que consideram o hadith válido. E isso é somente um dos casos.

Outra coisa é que os estudiosos poderiam deduzir um juízo fazendo uso de analogias jurídicas (qiyas) e outros princípios da dedução legal, que sejam estabelecidos em concordância com os ulamá com suas diferenças de opinião quanto às variadas bases metodológicas. Portanto, assim que derivam o juízo com analogias, encontram algum hadith fraco que apoie o juízo (que foi baseado em evidências legítimas, não somente no hadith fraco), e o citam como apoio geral ao juízo.

[O hadith fraco não é o que estabeleceu o juízo. Certas vezes, ele é estabelecido por qiyas ou por outros critérios jurídicos usados na derivação de juízos. Depois, os ulamá citam o hadith somente como apoio ao juízo. Um hadith fraco não é necessariamente inventado. Quando o chamamos de fraco, isso só significa que não temos um nível de certeza razoável de que seja o que disse o Profeta, que a paz e as bênçãos estejam com ele. Se tivermos uma certeza razoável sobre o hadith neste aspecto, o consideramos válido, e os ainda mais certos são chamados de sahih.]
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E outra coisa ainda é que há um tipo de hadith que é considerado fraco pelos especialistas em hadith – os hadiths mursal, que são “hadiths que não vão até o profeta”. São os que foram transmitidos por alguma das gerações que vieram depois dos Companheiros, sem a menção de qual companheiro o narrou. Quanto a esses hadith, há uma divergência de opinião entre os fuqaha, se valem como evidência ou não. Em geral, os ulamá dos hadiths não aceitam esse tipo como hadiths válidos, porque olham somente para o texto. Mas os fuqaha divergem quanto a isso.  [os Hanafis aceitam hadiths mursal, os Malikis geralmente também aceitam, cada qual com seus critérios, e os Hanbalis os aplicam mais extensivamente.] Então, alguns estudiosos permitem a ação baseada em hadiths mursal em todas as circunstâncias, [como os Hanbalis e, até certo ponto, os Malikis], por causa das provas que têm. E o nosso imām, Imam al-Shafi‘i, permite agirmos sobre eles sob as condições que ele estabeleceu, que são mencionadas nos livros dos princípios da jurisprudência (usul). [O hadith mursal em si é, de acordo com os especialistas, fraco. Mas os fuqaha têm diferentes critérios de aceitação ou rejeição de hadiths. Mesmo os Shafi‘is podem aceitar hadiths mursal em certas circunstâncias, os Hanafis e Malikis os aceitam até certo ponto e, os Hanbalis, os aceitam mais frequentemente.] [Nota do Shaykh Faraz: A maior preocupação do especialista em hadiths (muhaddith) é a narração do hadith e a integridade do texto em si. A maior preocupação dos fuqaha’ é o significado estabelecido no hadith, e isso acarreta em diferenças metodológicas entre eles e os estudiosos de hadith, e ainda mais entre as escolas de jurisprudência islâmicas.]

Então, quem não possui um conhecimento abrangente e não tem consciência dessas diferenças pode ter dúvidas e o assunto será confuso para ele. Após redigir a resposta acima, eu vi que o Imam al-Nawawi, que Allah tenha misericórdia dele, inclui na introdução do Majmu‘, seu tratado magnífico de fiqh comparativo, uma explicação do porquê do Imam al-Shirazi, autor do al-Muhadhdhab, tratado sobre o qual al-Nawawi escreveu seu Majmu‘, aceitar hadiths mursal e como ele os aplica. Imam al-Nawawi deu exatamente as duas respostas que dei.

A resposta dele é: “O autor, [Imam al-Shirazi,] cita em al-Muhadhdhab muitos hadiths que são mursal e os usa como prova, enquanto, na escola Shafi‘i, é estabelecido que não é permitido usá-los como prova no geral. Alguns desses hadiths mursal são reforçados por alguma das coisas que, pelo consenso, reforçam a veracidade de hadiths assim e, por isso, são usados como provas. E outros são mencionados pelo autor somente para apoiar algum juízo já estabelecido, ou estabelecido por analogia, ou por algum outro critério jurídico.”

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Isso é o que trata de juízos legais, [o estabelecimento de normas, determinar se algo é ilícito (haram) ou lícito, o estabelecimento de certos tipos de contratos ou casamentos e transações.] Quanto a fazer obras virtuosas com base em hadiths fracos, é estabelecido que é permitido contanto que o hadith não seja inventado ou extremamente fraco.  Mais que isso, obras virtuosas com base em hadiths fracos são recomendadas, como está escrito em al-Adhkar.

De acordo com as próprias palavras do Imam al-Nawawi: “Os fuqaha, os especialistas em hadith e outros ulamá dizem que é lícito, ou mais, recomendado, realizar ações virtuosas ou admoestar e avisar. É lícito agir se baseando em hadiths fracos contanto que não sejam inventados.”

[Nota do Shaykh Faraz: É importante lembrar que a maioria dos livros de ciência dos hadith dizem que há três madhhabs no que diz respeito aos hadiths fracos. 1) que podemos agir baseados neles incondicionalmente, 2) que podemos agir com base neles em determinadas condições e 3), que não podemos agir com base neles de forma alguma. Essa última é atribuída a Qadi Abu Bakr bin Arabi al Maliki, e a alguns outros sábios, entre eles o Shaykh al Awamm. Outros indicaram que essa não é a opinião estabelecida de Qadi Abu Bakr, que é na verdade uma interpretação errônea das palavras dele. A posição de Qadi Abu Bakr, que é bem clara nos seus comentários sobre hadith e no seu Ahkam al Qur’an e em outros tratados, é a mesma que a dos outros sábios. Portanto, nenhum outro sábio relevante do povo da sunna (Ahl al Sunna) afirmou que não é permitido agir com base em hadiths fracos. É possível interpretar isso das palavras de Imam al-Nawawi, que disse: “Disseram os sábios, os fuqaha, os especialistas em hadith e outros mais” – que sábios? Os sábios em geral. E a primeira opinião é considerada fraca e inconsequente, como a daqueles que dizem que nos tempos de hoje não podemos nos basear em hadiths fracos; eles mesmos são inconsequentes.]

E tomar decisões com base em hadiths fracos não é uma inovação, em oposição ao que propõe a pergunta, porque os textos do Legislador e os de quem O representa, o Profeta, que a paz e as bênçãos estejam com ele, vieram com um forte encorajamento para que aumentemos a nossa obediência e o tempo que dedicamos nela e, em certas passagens, que tenhamos temor e, em outras, que tenhamos esperança. Então quem, baseado em hadiths fracos, age virtuosamente, agiu com base na orientação geral estabelecida, do encorajamento de boas obras e ações virtuosas.

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Nesse caso, tudo o que pode ser dito é que o hadith em particular prescreveu algo de bom. Então, se o que for interpretado desse hadith fraco for contra o que é estabelecido por um hadith que já seja considerado válido, o consenso é de que não devemos nos basear no hadith fraco. Quando esse é o caso com hadiths fracos, na maioria das vezes, ele é considerado como extremamente fraco ou inventado. No entanto, se ele não for contra um hadith autêntico, agir com base nele também não vai contra o princípio de agir com base nos textos que nos encorajam a fazer boas obras.

Resta uma questão: e o que é relatado, nesses hadiths fracos, que faz referência a alguma recompensa específica para ações específicas? Mesmo que não afirmemos que é algo estabelecido pelo Profeta, a nossa boa opinião da generosidade de Allah [que não possui limites] pelo povo do amor a Ele e da obediência a Ele, nos faz constatar que tal recompensa não é algo inapropriado. Pelo contrário, podemos ter a esperança de recompensas mais numerosas.

[Nota do Shaykh Faraz: O Profeta disse que, da generosidade de Allah, a recompensa de uma boa obra é multiplicada por dez, setecentos e até mais multiplicações. E qual é a diferença entre receber dez vezes a recompensa e receber múltiplos de setecentas vezes? Setecentos vezes setecentos vezes setecentos. E como? De acordo com a sinceridade e com a devoção a Allah. Resumindo, a posição do Ahl al Sunna é de que não devemos derivar juízos legais de hadiths fracos. Mas há divergências de opinião quanto ao que define um hadith como fraco entre os estudiosos do Islam sunita. Certos hadiths são considerados fracos pelo consenso dos especialistas em hadith, mesmo havendo divergências entre eles, mas os critérios dos fuqaha são, em parte, diferentes. Entre os fuqaha, alguns consideram tais hadiths fracos e outros não por causa de diferenças na metodologia jurídica, e essas diferenças de metodologia se baseiam na compreensão íntegra, diferente das divergências de metodologia jurídica que há entre alguns contemporâneos – normalmente os que criticam o islam sunita. Então em geral, não estabelecemos juízos nos baseando em hadiths fracos, exceto quando eles indicam precaução, ou apenas recomendam algo. E agimos com base neles nas obras virtuosas e na virtude de encorajar e admoestar, sob três condições. A primeira é de que o hadith não seja excessivamente fraco. A segunda, de que ele se refira a algum princípio geral da Shariah e, é claro, essa segunda condição pressupõe que o hadith em questão não vá contra nada já estabelecido pela Shariah.

A terceira condição é que não se deve agir com base no hadith fraco com a convicção de que a ação em particular seja estabelecida pelo Profeta, que a paz e as bênçãos estejam com ele. No entanto, devemos ter a esperança de que seja estabelecida, porque o hadith não é tão fraco ao ponto de termos certeza de que ele não foi derivado da orientação do Profeta. Então temos a esperança de que ele seja estabelecido e a esperança pela recompensa. Mas não é permitido agir se baseando num hadith fraco, com a consciência de que seja fraco, ao mesmo tempo em que se carregar a convicção de que ele seja estabelecido. É isso que dizem os estudioso e estas três condições foram mencionadas pelos estudiosos e pelos fuqaha em geral. O imam Ibn Hajar al-Asqalani diz isso, e é um relato dele pelo seu aluno, al-Sakhawi. Imam jalal al din al Suyuti, Mulli Ali al Qari dentre os estudiosos Hanafis e ‘Abd al Hayy al Laknawi, entre outros, também falam isso. Há um consenso geral nesse tema. Portanto, essa é a posição do Ahl al-Sunna.]

E todo o louvor é de Allah, o Senhor dos Mundos.

Fonte: https://www.seekersguidance.org/answers/general-counsel/is-acting-on-weak-hadiths-an-innovation/

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