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Zombaria no Islam

Nossa cultura moderna tem abraçado a paródia de tudo e qualquer coisa na medida em que nada está fora dos limites, e quanto a ideia do ”sagrado”, de modo geral, foi descartada. Os mais velhos, pais, professores, religião, profetas, e até mesmo o próprio Deus  tornaram-se temas explícitos cômicos na televisão e atos de comédia. Zombaria tornou-se a norma, e quando um indivíduo ou um grupo de pessoas tem uma reação adversa a isso, eles são vistos como nervosos, muito sérios, e desprovidos de senso de humor. Afinal de contas, isso são apenas palavras –  então vá com calma. Certo?

As palavras não são apenas sons que produzimos para formar letras que lançamos em sinopse de vez em quando. Elas têm significados e elas representam um um processo de pensamento e atitude. Nós articulamos nossas crenças diretamente usando palavras, mas também articulamos como vemos os outros usando palavras. Às vezes, podemos afirmar diretamente o que nós pensamos, mas na maioria das vezes nossas interações comportamentais que são descritas utilizando palavras são muito mais altas do que as nossas reivindicações.

De acordo com o dicionário Merriam-Webster, zombaria refere-se a ação de insultar ou desdenhar através de ato ou fala; um assunto provocador de risadas, escárnio, ou gracejo; uma aparência falsa; uma imitação insincera, desprezível, ou impertinente; ou algo ridiculamente ou descaradamente inadequado. Esta definição em inglês lança uma luz sobre o estado de espírito do indivíduo que se envolve em tal ato como zombaria. É um estado de falta de respeito ou reverência, um profundo ódio ou desaprovação, e uma visão geral para o que ou quem está sendo ridicularizado como sendo vil ou inútil. Ele também conta com uma deturpação do escarnecido, a fim de faze-lo objeto de escárnio.

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O termo árabe para zombaria é  sukhriyya , que vem de três letras originais  ”sa kh ra” . De acordo com o dicionário  Língua dos árabes (Lisan al-Arab ), esta palavra significa rebaixar ou subjugar outra coisa ou pessoa para estar ao seu serviço, sem qualquer despesa sobre você. Esta mesma palavra é usada inúmeras vezes no Alcorão quando Deus está se referindo a ter subjugado a terra, gado, planetas, estrelas, sol, e a lua para que a humanidade se beneficiasse deles. Ela também é usada para se referir aos diferentes níveis com os quais os seres humanos foram concedidos e elevados uns sobre os outros para servirem uns aos outros. No entanto, quando ela é usada como verbo ativo onde se está realizando  ”sukhriyya”  de alguém, a posição do Alcorão é o comando ao abandono de tal ato: ”Ó fiéis, que nenhum povo zombe do outro; é possível que (os escarnecidos) sejam melhores do que eles (os escarnecedores).”   [Alcorão 49:11]

Como este versículo indica, a essência de zombaria é uma visão de si mesmo em relação ao escarnecido. A consequência da zombaria é a visão de si mesmo como zombador sendo elevado acima de quem se zomba. É uma afirmação de superioridade sobre o outro por meio de rebaixar-lo através da zombaria. No processo de fazê-lo, a humanidade do escarnecido é despojada, como se o individuo se tornasse apenas um objeto de diversão. O versículo que diz, ” Temos enobrecido os Filho de Adão ” torna-se sem sentido quanto a sua dignidade é descartada. A essência da zombaria é ” Sou superior a ele”….”a mim criaste de fogo, e a ele de barro”  [Alcorão 7:12]

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Tudo o que é zombaria, sendo originada de uma fonte satânica, está em contraste gritante com tudo o que é sagrado. Isto é evidente nos principais temas de zombaria, a maioria dos quais são reverenciados no discurso religioso. Para torná-la mais palatável, os admiradores do falecido Christopher Hitchens dizem que, “Zombar da religião é uma das coisas mais essenciais … um dos primórdios da emancipação humana é a capacidade de rir da autoridade.” Se algo é verdadeiramente merecedor de zombaria , é esta declaração e aqueles que, como ele, falaciosamente vinculam a liberdade humana com o escárnio do sagrado. Declarações como esta são nada além de uma reverberação da primeiro de sua natureza, que Satanás fez a Adão e Eva (a paz esteja com eles) quando ele disse-lhes: “Vosso Senhor vos proibiu esta árvore para que não vos convertêsseis em dois anjos ou não estivésseis entre os imortais. “[Alcorão 7:20]

Só uma mente ociosa e um coração doente pode se envolver em escárnio ou apreciá-lo. Pois apenas uma mente ociosa não envolvida no trabalho benéfico pode produzir ou admitir zombaria, e só um coração doente com falta de reverência pelo sagrado pode aceitá-la. Mas como pode o Sagrado ser reverenciado em um mundo que divorciou-lo de tudo, de todas as maneiras? Parece que hoje a zombaria é usada para mostrar quão “ridícula” a crença é, a fim de levar o ridicularizado a abandonar a sua “loucura”. Dado que os zombadores se vêem acima dos zombados, eles sustentam a sua superioridade auto-delirante por afirmarem-se como esclarecidos, fingindo que sua zombaria é apenas para ajudar o zombado. Mas eles são semelhantes aos seus antecessores como o Alcorão afirma: ” Sabei que os pecadores burlavam os fiéis. E quando passavam junto a eles, piscavam os olhos, uns para os outros, E quando voltavam aos seus, voltavam ridicularizando (os fiéis); E quando os viam, diziam: Em verdade, estes estão extraviados! Embora não estivessem destinados a ser os seus guardiães.” [Alcorão 83: 29-33]

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A natureza vil da zombaria nunca pode ser entendida dentro de uma visão de mundo que não vê o Sagrado. Se alguém é completamente cego das realidades espirituais por trás de tudo, e é incapaz de ver o mundo como uma manifestação de Kun Fa Ya’koon (Seja e é), então é impossível reconhecer a santidade presente em sua essência. E assim eles vão estar sempre confusos sobre o porquê dos crentes, especialmente os muçulmanos, têm problemas com a zombaria.

Nietzsche afirmava que a zombaria é um sinal de saúde , assim como reconhecer o sagrado é um sinal de patologia. O que é ironico se levarmos em conta que ele passou por um colapso mental antes de sua morte, possivelmente indicando que tinha a mente patológica. Na verdade, zombaria é um sintoma de uma visão de mundo distorcida patologicamente divorciada do sagrado. Enquanto a visão de mundo de alguém for deformada, o individuo vai continuar a zombar. Assim, o Alcorão comanda os crentes, que quando confrontados com tal circunstância não se envolvam de qualquer maneira, modo ou forma, porque isso é fútil: “Por certo que Ele vos instruiu, no Livro, e de quando notardes que blasfemam, que escarnecem os versículos de Deus,não vos senteis com eles, até que mudem de conversa; porque, se assim não fizerdes, sereis seus cúmplices. “[Alcorão 4: 140]

-Mohamed Ghilan

Fonte: http://mohamedghilan.com/2013/09/03/on-mockery/

Sobre Victor Peixoto

Victor Peixoto é um brasileiro convertido ao Islam, leitor frequente de livros sobre história islâmica e estudante de árabe clássico, que aprendeu no Egito durante sua morada naquele país.