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Tolerância e Islamofobia na Espanha do Século XVI, Não Tão Diferente do que vivemos Hoje

19 de junho de 2017 por Matthew Carr, autor de: Blood and Faith: The Purging of Muslim Spain

Como um escritor que escreveu um monte de não ficção na minha época, muitas vezes me pegava perguntando as questões que os escritores de ficção buscam perguntar sobre as pessoas e eventos “reais” sobre os quais eu escrevi. O que Filipe II da Espanha realmente pensava quando ele estava sozinho no estudo quando ele governou seu vasto império? O que Sofia Perovskaya e seu amante Andrei Zheliabov, os membros líderes da célula terrorista que matou Alexandre II, disseram um ao outro na cama na véspera do assassinato? O que se passava pela mente de William Tecumseh Sherman quando ele teve seu colapso nervoso em Kentucky?

Tais questões nem sempre são possíveis de se responder a partir do material que se tem na frente, e a disciplina da história demanda — devidamente — que se concentre no que é sabido em vez do que se imagina, o que quer dizer que a especulação deve permanecer como uma indulgência privada.

Muitas vezes me peguei especulando quando pesquisava para meu livro Sangue e Fé: A Remoção da Espanha Islâmica (Blood and Faith: The Purging of Muslim Spain) sobre a perseguição e expulsão dos convertidos muçulmanos ao cristianismo do século XVI conhecidos como moriscos. Muito da história dos moriscos vem de documentos da Inquisição, minutas de reuniões do Conselho do Estado e textos espanhóis do século XVII celebrando a expulsão. Fontes nas quais os moriscos falam por si mesmos são muito escassas, e muito dos detalhes contemporâneos sobre eles vem de contas cristãs hostis.

A expulsão de 1609-14 produziu um monte de livros escritos principalmente por sacerdotes e monges, que celebravam a expulsão e explicavam a seus leitores porque foi essencial. Tais escritos frequentemente se empenhavam no processo de “alienação” na sua representação dos moriscos como uma minoria monolítica de hereges que eram cultural e etnicamente alienígenas à sociedade cristã. Até mesmo Cervantes não foi imune a essas tendências. Sua representação dos moriscos no Diálogo dos Cães foi eivado de preconceitos cristãos antimoriscos, tal como sua insistência de que “seria um milagre achar um só homem entre tantos [moriscos] que realmente cria nas leis sagradas cristãs; seu único intento era fazer dinheiro e acumular o que eles conseguissem.”

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Enquanto escrevia Sangue e Fé, foi difícil não notar certas semelhanças entre as representações dos moriscos como um inimigo coletivo e o enquadramento dos muçulmanos do século XXI no discurso extremista e mesmo no discurso corrente. Claro que as características contemporâneas da Alienação do Muçulmanos são baseadas em premissas diferentes. Hoje aqueles que pintam os muçulmanos como os inimigos inveterados da democracia, liberalismo ou modernidade não insistem geralmente que os muçulmanos transmitem sua fé e cultura “em seu sangue.” Pelo contrário, o discurso contemporâneo anti-islâmico frequentemente insiste que não é racista, mas “só” direcionado contra a religião e não seus membros.

Apesar disso a disposição de imaginar os muçulmanos como coletivamente hostis, violentos, retrógrados e ulteriormente incompatíveis “conosco” não está totalmente removida das representações dos moriscos numa Espanha do século XVI com crenças muito diferentes sobre tolerância religiosa e pluralismo religioso.

Mesmo com esses parâmetros tão diferentes, havia uma escola de pensamento mais “tolerante” dentro da sociedade espanhola que não advogava a perseguição dos moriscos ou sua expulsão. Em Os Diabos de Cardona (The Devils of Cardona), essas polaridades são representadas pelo Inquisidor Mercader e a Condessa de Cardona. Mercader é um inquisidor ambicioso e devoto, para quem a perseguição dos moriscos era tanto uma rota para seu próprio avanço quanto um dever religioso. Suas atitudes quanto aos moriscos contém muitas das suposições dos lobistas antimoriscos de seus dias: são hereges, mentirosos e enganadores, fingindo serem cristãos enquanto secreta ou abertamente adorando como muçulmanos e confabulando a queda do cristianismo.

Sua oponente — e o obstáculo principal de suas tentativas de extirpar a heresia morisca em Belamar de la Sierra — é a Condessa de Cardona. A Cardona real é uma cidade na Catalunha, não em Aragão, mas nomeei a Condessa como um tributo à Duquesa de Cardona, que escreveu uma carta ao Rei Filipe III em 1610 protestando contra a expulsão dos moriscos de seus estados perto de Málaga. Nisso a Duquesa pediu ao rei para que tivesse piedade dos idosos, doentes e crianças, e ela também chamou a atenção do rei para os casamentos entre moriscos e cristãos, e fez notar que muitos moriscos não eram hereges, mas eram “bem doutrinados e instruídos nos assuntos da fé.”

Até onde sabemos, essa petição foi ignorada, como muitas outras. Filipe e seus ministros foram sempre desconfiados dos senhores cristãos de Aragão e Valência, que eles criam estarem agindo por interesse econômico próprio de proteger seus vassalos moriscos da Inquisição e não para defender os interesses da fé.

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Tais acusações não eram inteiramente falsas. Mas a tolerância ao Islã mostrada pelos proprietários rurais cristãos aragoneses às vezes ia além do interesse próprio. Havia até mesmo senhores cristãos que permitiam a construção de mesquitas em seus estados muito depois de elas terem sido banidas. Alguns senhores se recusavam a permitir a Inquisição de entrar em seus estados, como a Condessa de Cardona faz quando deparada com as demandas de Mercader. Tais confrontos eram bastante frequentes em Aragão, que nunca aceitou totalmente a autoridade da Inquisição.

No espectro da tolerância do século XVI, a Condessa de Cardona representa a tradicão paternalista estabelecida pelo primeiro Arcebispo de Granada, Hernando de Talavera, que argumentava que os moriscos poderiam ser ganhados para o catolicismo pela gentileza e proselitismo pacífico. O Licenciado Mendoza veio de uma tradição semelhante. Nomeei-o em honra de Iñigo López de Mendoza, um nobre descendente da família Mendoza, uma das grandes dinastias da Espanha Renascentista, e o capitão-general de Granada pela metade do século XVI.

Os Mendozas foram muitas vezes críticos na repressão dos moriscos em Granada, e López de Mendoza foi particularmente franco em sua condenação do decreto dracônico do Rei Filipe II em 1566, que estabelecia a erradicação de toda manifestação da diferença cultural morisca em Granada, de sua língua, suas roupas “mouras” ou sua inclinação ao banho. Mendoza alertou que esses esforços produziriam uma rebelião, e ele estava inteiramente correto. Quando a rebelião eclodiu, apesar disso ele cumpriu seu papel de suprimi-la, como um soldado e servo leal da Coroa.

O Licenciado Mendoza foi traçado com trajes semelhantes. Imaginei-o muito como imaginei os governantes Mendozas de Granada: rigorosos, imparciais e leais à Coroa, mas também pragmáticos, razoáveis e dispostos a pôr os interesses mais amplos da sociedade e justiça acima da defesa da fé. Alguns críticos do meu romance — e de Sangue e Fé — têm me acusado de impor noções do século XXI na Espanha do século XVI. Ainda que em termo de tratamento dos moriscos havia um debate genuíno entre os advogados mais linha-dura da repressão e perseguição e aqueles que não queriam uma presença duradoura do Islã na Espanha, mas eram apesar disso capazes de separar questões de cultura, religião e lealdade política para encontrar espaço para os moriscos.

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Todas essas forças diferentes estão presentes em meu romance. E assim como eu quis mostrar que há tipos diferentes de cristãos, também quero mostrar que os moriscos eram muito mais variados do que são feitos parecerem por seus inimigos. Haviam aqueles que conspiravam contra o estado, tal como o entalhador Vicente Péris. Haviam aqueles que continuaram a adorar como muçulmanos mas permaneceram leais ao estado, e quem habitava o mesmo mundo intelectual que os cristãos, como o prefeito de Belamar. Haviam moriscos indecisos como o contrabandista del Rio, que tentou, como os cristãos, ser piedoso pelo bem de suas almas, mas às vezes falhava. Há também aqueles que tentaram levar suas vidas o melhor que conseguiam à margem da sociedade que os olhavam com suspeita e que às vezes os desprezavam ativamente.

A investigação de Mendoza em Aragão é baseada bem vagamente num episódio obscuro que aconteceu em Ribagorza na parte de cima de Aragão entre 1585-90, quando agentes da Coroa fomentaram uma guerra viciosa entre os “monteses” cristãos e os vassalos moriscos do Condado de Ribagorza para tomar Ribagorza para Castilha. Aquela guerra foi muito mais violenta que o cenário em que se desvela meu romance.

A despeito das maquinações políticas por trás disso, a “cruzada” de Ribagorza, como a expulsão dos moriscos que aconteceu duas décadas depois, foi um produto de intolerância, medo e preconceito, em que uma maioria “cristã antiga” veio a olhar para uma minoria indefesa e inofensiva como um perigoso “inimigo interno” que ameaçava sua própria existência.

Hoje, há aqueles — muçulmanos e não muçulmanos — que também rejeitam a possibilidade de coexistência e veem somente um Outro coletivo a ser removido, reprimido ou implacavelmente combatido. Se não há escassez de Mercaders potenciais, há também Mendozas e Cardonas, porque tais pessoas podem ser encontradas em diferentes formas em toda sociedade e todo período histórico, não importa o quão distante tais sociedades podem parecer uma à outra, e às vezes se olharmos de volta para elas é possível ver o que podemos nos tornar.

Fonte: http://lithub.com/tolerance-and-islamophobia-in-16th-century-spain-not-so-different-from-now/

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