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Tawassul: Suplicando a Allah através de um Intermediário – Sheykh Nuh Ha Mim Keller

Do livro “Reliance of the Traveller”

TAWASSUL (definição)

Suplicar a Allah através de um intermediário, seja este uma pessoa viva ou morta; uma boa ação, ou um Nome ou Atributo de Allah, O Altíssimo. O erudito, YUSUF RIFA’I, diz: Quero expressar aqui a posição, atestada por evidência legal convincente, da maioria ortodoxa dos Muçulmanos Sunitas sobre o assunto da súplica a Allah através de um intermediário (tawassul), e assim eu digo (e somente Allah é quem Dá o sucesso) que como não há desacordo entre os eruditos que a súplica a Allah através de um intermediário seja em princípio legalmente válida, a discussão dos seus detalhes somente diz respeito a regras derivadas que remetem às diferenças entre as escolas de jurisprudência, sem relação com questões de crença ou descrença, monoteísmo ou associação de parceiros com Allah (shirk); o escopo desta questão limitando-se à permissibilidade ou impermissibilidade, e sua regra sendo então ou legal ou não-legal. Não há diferença entre os diferentes grupos de Muçulmanos em seu consenso sobre a permissibilidade dos três tipos de súplica a Allah através de um intermediário (tawassul):

TAWASSUL através de uma pessoa viva virtuosa para Allah, O Altíssimo, como no hadith do homem cego com o Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) como iremos explicar;

O TAWASSUL de uma pessoa viva para Allah, O Altíssimo, através de suas próprias boas ações, como no hadith das três pessoas presas em uma caverna por um grande pedra, um hadith narrado por Imam Bukhari em seu “Sahih;”

E o TAWASSUL de uma pessoa para Allah, O Altíssimo, através do Seu dhat: Nomes, Atributos e etc.

Como existe consenso a respeito da legalidade destes três tipos (de tawassul), não há motivo para expormos a evidência para os mesmos. O único terreno de desacordo é a súplica a Allah (tawassul) através de uma pessoa virtuosa morta. A maioria da comunidade Sunita Ortodoxa a considera legal, e possui embasamento em hadiths, dos quais nos contentaremos com o Hadith do Homem Cego, pois é o centro em torno do qual nossa discussão gira.

O HADITH DO HOMEM CEGO

Tirmidhi relata, através da sua cadeia de narradores, de ‘Uthman ibn Hunayf, que um homem cego veio ao Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) e disse, “Eu sofro da minha visão, então ore a Allah por mim.” O Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) disse: “Faça ablução (wudu), reze duas rak’as e então diga:

“Ó Allah, Eu Te peço e me volto a Ti através do Meu Profeta Muhammad, O Profeta da Misericórdia; Ó Muhammad (Ya Muhammad), Eu busco a tua intercessão junto ao meu Senhor para o retorno da minha visão [e em outra versão: “para a minha necessidade, que ela possa ser satisfeita. Ó Allah, conceda a ele intercessão por mim”].”

O Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) acrescentou, “E se houver alguma necessidade, faça o mesmo.”

Os eruditos da Lei Sagrada inferem a partir deste hadith o caráter recomendado da “oração da necessidade,” na qual alguém em necessidade de algo de Allah, O Altíssimo realiza esta oração e então se volta para Allah com esta súplica, junto com outras súplicas aplicáveis, tradicionais ou não, de acordo com a necessidade e de como a pessoa se sente. O conteúdo expresso do hadith prova a validade legal do “tawassul” através de uma pessoa viva (pois o Profeta – que a paz esteja sobre ele – estava vivo naquela ocasião). Ele também prova, implicitamente, a validade do tawassul através de uma pessoa falecida, pois o tawassul através de uma pessoa, morta ou viva, não é pelo corpo físico, ou pela vida e morte, mas através do significado positivo (ma’na tayyib) atrelado à pessoa tanto na vida quanto na morte. O corpo é somente o veículo que carrega aquele significado, que requer que a pessoa seja respeitada, estando vida ou morta; pois as palavras “Ó Muhammad” são dirigidas a alguém ausente fisicamente – um estado no qual vivos e mortos são iguais – elas se dirigem ao significado, querido para Allah, que está conectado com seu espírito, um significado que é o terreno do “tawassul,” seja ele através de uma pessoa viva, ou uma pessoa morta.

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O HADITH DO HOMEM NECESSITADO

E mais, Tabarani, em seu “al-Mu’jam al saghir,” relata em um hadith de ‘Uthman ibn Hunayf que um homem visitou repetidamente Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele) por causa de algo que ele necessitava, mas Uthman não deu atenção e ele ou sua necessdade. O homem encontrou Ibn Hunayf e reclamou com ele sobre o assunto – isto se deu após a morte (wisal) do Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) e após os califados de Abu Bakr e Umar – então Uthman ibn Hunayf, que era um dos Companheiros que recolhia hadiths e era versado na religião de Allah, disse: “Vá para o local de ablução e faça a ablução (wudu), venha então para a mesquita, faça duas rak’as de oração e diga:

‘Ó Allah, Eu peço a Ti e me volto a Ti através do nosso Profeta Muhammad, o Profeta da Misericórdia; Ó Muhammad (Ya Muhammad), Eu me volto através de ti para o meu Senhor, que Ele Possa Conceder o que preciso’, e mencione sua necessidade. “Então, venha para que eu possa ir contigo [ao califa Uthman].” Então o homem saiu e fez como lhe foi dito, então ele foi até a porta de Uthman ibn Affan ( que Allah esteja satisfeito com ele),e o porteiro veio, pegou-o pela mão, e o levou até Uthman ibn Affan, e o pôs sentado próximo a ele em uma almofada. ‘Uthman perguntou, “Do que você precisa?” e o homem mencionou o que ele queria, e ‘Uthman o atendeu, então ele disse, “Eu não havia lembrado da sua necessidade até agora,” acrescentando, “Sempre que precisar de alguma coisa, apenas diga.” Então, o homem se retirou, encontrou Uthman ibn Hunayf, e disse para ele, “Que Allah te recompense! Ele não viu minha necessidade ou prestou atenção em mim até você falar com ele”. Uthman ibn Hunayf respondeu, “Por Allah, eu não falei com ele, mas vi um homem cego ir até o Mensageiro de Allah (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) e reclamar da perda da sua visão. O Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) disse, “Você não consegue suportar?’ e o homem respondeu, ‘Ó Mensageiro de Allah, eu não tenho ninguém para me guiar, e isto é uma grande dificuldade para mim.’ O Profeta (Allah o Abençoe e lhe Dê paz) lhe disse, ‘Vá para o local de ablução e faça ablução (wudu), então faça duas rak’as de oração e faça as súplicas.’” Ibn Hunayf prosseguiu, “Por Allah,

nós não nos separamos ou falamos um com o outro até o homem retornar a nós como se nunca tivesse acontecido nada de errado com ele.”

Este é um texto explícito e inequívoco de um Companheiro do Profeta, provando a validade legal do tawassul através dos mortos. O relato foi classificado como rigorosamente autêntico (SAHIH) por Baihaqi, Mundhiri, e Haythami.

AUTENTICIDADE DO HADITH DO HOMEM CEGO

Tirmidhi declarou que o hadith do homem cego “é um hadith bem ou rigorasamente comprovado, mas singular, sendo desconhecido exceto através da sua cadeia de transmissores, do hadith de Abu Ja’far, que não é Abu Ja’far Khatmi,” o que significa que os narradores deste hadith, apesar de Abu Ja’far ser desconhecido para Tirmidhi, foram aceitos para o grau de serem bem ou rigorosamente comprovados, em todo caso.

Mas os eruditos antes de Tirmidhi estabeleceram que Abu Ja’far, esta pessoa desconhecida para Tirmidhi, era o próprio Abu Ja’far Khatmi. Ibn Abi Khaythama disse: “O nome deste Abu Ja’far, de quem Hammad ibn Salama relata, é ‘Umayr ibn Yazid, e é o Abu Ja’far de quem Shu’ba relata,”e então ele relatou o hadith pelo canal de transmissão de ‘Uthman de Shu’ba de Abu Ja’far.

Ibn Taymiya, após relatar o hadith de Tirmidhi, disse: “Todos os eruditos dizem que ele é Abu Ja’far Khatmi, e isto está correto.”

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Reflita sobre isto.

O mestre de hadith, Ibn Hajar, escreve no “Taqrib al-tahdhib” que ele é Khatmi, e que ele é confiável (saduq).

Ibn ‘Abd al-Barr, da mesma forma, diz que ele é Khatmi, no “al-Istii’ab fi ma’rifa al-ashab.” E mais, Baihaqi relatou o hadith por meio de Hakim e confirmou que ele era rigorosamente autêntico (SAHIH), Hakim tendo-o relatado por meio de uma cadeia de transmissão que cumpria os padrões de Bukhari e Muslim, o que foi confirmado pelo mestre de hadith Dhahabi, e Shawkani citou como evidência. Dhahabi e Shawkani, quem são eles? O significado disto é que todos os homens da cadeia de transmissão do hadith são conhecidos pelos maiores Imames do hadith, tais como Dhahabi (e quem é mais severo do que ele?), Ibn Hajar (e quem é mais preciso, versado e cuidadoso do que ele?), Hakim, Baihaqi, Tabarani, Ibn ‘Abd al-Barr, Shawkani, e até mesmo Ibn Taymiya.

Este hadith foi registrado por Bukhari em seu “al-Tarikh al-kabir”, por Ibn Majah em seu “Sunan”, onde ele afirma que o mesmo é rigorosamente autêntico (SAHIH), por Nasa’i no “Amal al-yawm wa al-layla”, por Abu Nu’aym no “Ma’rifa al-Sahaba”, por Baihaqi no “Dala’il al-nubuwwa”, por Mundhiri no “al-Targhib wa al-tahrib”, por Haythami no “Majma’ al zawa’id wa manba’ al-fawa’id”, por Tabarani no “al-Mu’jam al-kabir”, por Ibn Khuzayma no seu “Sahih”, e por outros. Aproximadamente 15 mestres do hadith (“huffaz”, autoridades em hadith com mais de 100,000 hadiths memorizados, juntamente com suas cadeias de transmissão) declararam explicitamente que este hadith é rigorosamente autêntico (sahih). Como mencionado acima, ele veio com uma cadeia de transmissão satisfazendo os critérios de Bukhari e Muslim, portanto não há nada mais para um crítico atacar, caluniar e depreciar, no que concerne a autenticidade do hadith. Consequentemente, quanto à permissibilidade de se suplicar a Allah (tawassul) através de uma pessoa viva ou morta, segundo a razão humana, os estudos dos mestres no assunto, e o sentimento, existe

flexibilidade no assunto. Quem quiser pode usar o tawassul ou não, sem causar problemas ou fazer acusações, pois a questão já foi minuciosamente verificada (“Adilla Ahl al-Sunna wa al-Jama’a”,79-83).

Faz bem revermos alguns aspectos consistentes das provas apresentadas, tais como:

(1) de que existem dois hadiths, o hadith de Tirmidhi sobre o “homem cego” e o hadith de Tabarani do “homem necessitado” a quem Uthman ibn Hunayf relatou a história do homem cego, ensinando a ele o tawassul que o Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) tinha ensinado ao homem cego.

(2) O hadith de Tirmidhi é rigorosamente autêntico (sahih), sendo o assunto da investigação acima quanto à sua cadeia de transmissão, cuja autenticidade está firmada além de qualquer dúvida razoável e atestada por aproximadamente 15 dos maiores especialistas em hadith do Islam. O hadith explicitamente prova a validade de se suplicar a Allah (tawassul) através de um intermediário vivo, pois o Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) estava vivo na ocasião. O autor do artigo sustenta que o hadith implicitamente mostra a validade de se suplicar a Allah (tawassul) através de um intermediário falecido também, pois:

O Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) disse ao homem cego para fazer ablução (wudu) rezar duas rak’as, e então fazer a súplica contendo as palavras, “Ó Muhammad, Eu busco tua intercessão com meu Senhor para o retorno da minha visão”, que é forma de se dirigir a alguém fisicamente ausente, um estado que pode ser partilhado por mortos e vivos.

Suplicar a Allah através de um intermediário (tawassul) vivo ou morto é, nas palavras do autor, “não é (um tawassul) pelo corpo físico, ou pela vida e morte, mas através do significado positivo (ma’na tayyib) atrelado à pessoa tanto na vida quanto na morte. O corpo é somente o veículo que carrega aquela significado”.

E talvez a razão mais forte, embora o autor não a mencione, é que tudo que o Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) ordenava ser feito durante sua vida era “legislação” válida para todas as gerações até o fim dos tempos, a menos que fosse provado o contrário por uma indicação subsequente do próprio Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz), o tawassul que ele ensinou durante sua vida não precisava de nada mais para ser disseminado nas épocas posteriores.

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(3) A autenticidade do hadith de Tabarani sobre o homem necessitado durante o califado de Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) não é discutida pelo artigo em detalhe, mas merece consideração, pois o hadith prova explicitamente a validade legal de se suplicar a Allah (tawassul) através dos mortos, pois ‘Uthman ibn Hunayf e, na realidade, todos os Companheiros do Profeta, por consenso dos sábios (ijma’), eram legalmente justos (‘udul), e estavam acima de serem acusados de ensinarem a alguém um ato de desobediência, muito menos um de idolatria (shirk). O hadith é rigorosamente autêntico (sahih), como Tabarani explicitamente afirma em seu “al-Mu’jam al-saghir.” O tradutor (Nuh Ha Mim Keller), quis verificar o assunto mais à fundo, desde o hadith com sua cadeia de transmissão ao especialista em hadith Sheikh Shu’ayb Arna’ut, que após examiná-lo, concordou que ele era rigorosamente autêntico (sahih) como Tabarani havia indicado, uma opinião que também foi confirmada pelo tradutor através do marroquino especialista em hadith, Sheikh ‘Abdullah Muhammad Ghimari, que caracterizou o hadith como “muito rigorosamente autêntico,” e notou que os mestres de hadith Haythami e Mundhiri haviam

explicitamente concordado com Tabarani a respeito da sua auntenticidade rigorosa (sahih). A conclusão é que a recomendação de tawassul a Allah, O Altíssimo – através do morto ou do vivo – é a posição da escolar shafi’i, que é motivo pelo qual tanto o nosso autor Ibn Naqib Al-Misri, quanto Imam Nawawi em seu “Al-Adhkar (281-282)”, e “al-Majmu” explicitamente registram que o “tawassul” através do Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) e pedir a sua intercessão são recomendados. O artigo final abaixo, feito por um sábio Hanafi, encerra a discussão.

RECORRENDO AOS VIRTUOSOS

O erudito Hanafi, Muhammad Hamid diz: Quanto a recorrer (nida’) aos virtuosos (quando estão fisicamente ausentes, como nas palavras “Ó Muhammad” nos hadiths acima), O tawassul a Allah, O Altíssimo, através deles é permitido, a súplica (du’a) sendo para Allah, O Mais Glorioso, e há muitas provas para a sua permissibilidade.

Aqueles que reccorem a eles intencionando “tawassul” não podem ser recriminados. Quanto a alguém que acredita que aqueles a quem recorre podem causar efeitos, benefício, ou mal, que eles podem criar ou fazer com que exista, como Allah faz, tal pessoa é um idólatra que deixou o Islam – Allah seja nosso refúgio! Isto posto, uma certa pessoa escreveu um artigo dizendo que o tawassul para Allah, O Altíssimo, através de um virtuoso não é permitido, enquanto a grande maioria dos eruditos sustenta que é permitido, e a evidência que autor usa para corroborar seu ponto de vista está destituída de qualquer coisa que demonstre o que ele está tentando provar. Ao declarar o tawassul permitido, nós não estamos circundando o limite da idolatria (shirk) ou chegando a qualquer lugar perto dela, pois a convicção de que somente Allah, O Altíssimo, tem influência sobre todas as coisas, externamente ou internamente, é uma convicção que flui através de nós, como se fosse nosso próprio sangue. Se tawassul fosse idolatria (shirk), ou se houvesse qualquer suspeita de idolatria nele, o Profeta (que Allah o Abençoe e lhe Dê paz) não teria ensinado ao homem cego quando o último suplicou a Allah através dele, embora de fato ele realmente tenha ensinado o homem a fazer “tawassul” através dele. E a noção de que o tawassul é permitido somente durante a vida da pessoa através da qual é feito, mas não após sua morte, não tem base em qualquer fundação viável da Lei Sagrada [“Rudud ‘ala abatil wa rasa’il al-Shaykh Muhammad al-Hamid]

Fonte: http://seekershub.org/ans-blog/2011/07/02/tawassul-supplicating-allah-through-an-intermediary/

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