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Sultão Abdul Hamid II

O sultão Abdul Hamid II (1842 – 1918) herdou um império falido. Começando com a Guerra da Criméia (1853-1856), a dívida otomana aumentou de forma constante. O peso de manter um grande exército permanente e modernizá-lo diante de ameaças estrangeiras incessantes exigia empréstimos contínuos, de modo que, em 1878, a dívida pública era de mais de 13,5 bilhões de kurush (unidade padrão de moeda no Império Otomano até 1844). O custo do serviço desta enorme dívida era mais de 1,4 bilhões de kurush, uma quantia igual a 70% de todas as receitas. O pesado fardo da dívida colocou uma longa sombra em todos os aspectos do reinado do sultão, incluindo as relações internacionais, educação, agricultura e reforma política.

Um império otomano militar e economicamente fraco foi objeto de ambições imperiais europeias. A Rússia emergiu como um grande poder eurasiático, tendo engolido os territórios turcomanos da Ásia Central e do Cáucaso. O czar russo desejava acesso aberto às águas quentes do Mediterrâneo para se tornar um concorrente na grande corrida de dominação mundial. Mas o Império Otomano, assentado em um longo arco que se estende do Mar Adriático às fronteiras da Pérsia, bloqueou esse acesso. Para atingir seus objetivos e pressionar os otomanos a darem concessões, o Czar usou uma combinação de ameaças militares diretas e pressão indireta através de suecos, sérvios e búlgaros. A França, depois de ocupar a Argélia, pôs seus olhos no Marrocos e na Tunísia. Os italianos queriam a Líbia.

O império da Áustria-Hungria buscava a Bósnia-Herzegovina. Os interesses da Grã-Bretanha ficavam no Egito e no controle das rotas de acesso ao Império indiano. Somente a Alemanha, que emergiu como o poder dominante no continente sob Bismarck, preferiu o status quo (é uma locução latina que significa ‘’como as coisas estão); mas ela também estava disposta a sacrificar a integridade territorial otomana para preservar seus interesses. Percebendo que uma guerra entre a Rússia e Áustria-Hungria sobre suas ambições concorrentes nos Balcãs a forçaria a tomar partido e a destruir a dominação da Europa continental, o Kaiser da Alemanha criou uma aliança entre ele, o Imperador da Áustria-Hungria e o Czar Da Rússia. Esta aliança foi chamada de Liga dos Três Imperadores.

No mosaico nacionalista da Europa do século XIX, os otomanos estavam sozinhos em sua insistência em manter um estado multireligioso, multiétnico e multinacional. Mas as fissuras muito aparentes no império, ao longo de linhas nacionais e religiosas, eram um convite à intromissão estrangeira. Os poderes europeus, usando essas divisões religiosas e étnicas como oportunidades políticas, estavam determinados a engolir o Império Otomano. Um Estado otomano falido, apelidado de “homem doente da Europa” pelo Czar, não podia se defender e estava constantemente procurando por aliados que garantiriam a sua integridade territorial.

Contra essas duvidosas probabilidades, o sultão Abdul Hamid travou uma valente batalha para resgatar o império, na esperança de que isso fosse possível, ou pelo menos, aspirando salvar o seu componente islâmico central na hipótese de que perdesse as províncias predominantemente cristãs. Nessa busca, substituiu a diplomacia pela guerra, jogando as ambições de um poder europeu contra o outro, comprometendo-se onde podia e ganhando tempo para reformar as instituições que mantinham o império. Em grande medida, ele realizou seu intento. Mas chegou ao palco da história muito tarde. Seu estilo autocrático ganhou-lhe o desagrado de seu povo. E o próprio sucesso de suas reformas colocou em movimento forças poderosas que, em última análise, o derrubaram do poder e levaram o império à sua extinção.

Abdul Hamid II (1842-1918) era o filho do sultão Abdul Majid (1823-1861) e de uma mãe circassiana. Quando criança, ele recebeu uma educação digna de um califa e sultão. Seus tutores incluíam alguns dos principais ulemá (sábios) e shaykhs de Istambul. Ele estava bem versado no Alcorão, na Sunna (tradição) do Profeta e na escola Hanafi de Fiqh. Ele também foi treinado em práticas sufis, particularmente nas ordens Naqshbandi e Jerrahi, que tiveram um seguimento significativo no império.

Como príncipe, procurou banqueiros, diplomatas e líderes das reformas Tanzeemat (literalmente: reorganização do Império Otomano, 1839 – 1876), discutindo com eles questões que afetaram o império e no processo, adquiriu um amplo entendimento de economia, administração e política internacional. Quando era jovem, ele se retirava à natureza, evitando as frivolidades que tão frequentemente consumiam outros príncipes. Ele era incrível em oração, recluso por natureza, piedoso na observância religiosa e em sua disposição caritativa. Essas qualidades lhe serviram bem mais tarde, atraindo-o para as massas muçulmanas em todo o mundo e permitindo-lhe, pela primeira vez no século XIX, proporcionar uma aparência de foco político para a comunidade islâmica global.

Imediatamente após a sua adesão, o sultão Abdul Hamid enfrentou as ambições russas nos Balcãs. O czar, declarando-se o apoiador de todos os eslavos e protetor da Igreja Ortodoxa Oriental, encorajou uma insurreição na Sérvia. Os otomanos derrubaram com sucesso o levante em 1876. Percebendo que a intervenção ativa em nome dos sérvios levava um risco de guerra com a Áustria-Hungria, o czar mudou seu foco para a Bulgária. A desculpa para a intervenção foi o suposto mau-trato dos búlgaros cristãos infligido pelos otomanos, enquanto o objetivo real era a criação de uma maior Bulgária, sob a dominação russa, estendendo-se do sul do Danúbio até o mar Egeu.

As margens ocidentais do Mar Negro ficariam sob a dominação russa e as forças armadas do Czar teriam acesso ao Mediterrâneo. No entanto, este plano também exigiu a cooperação dos austríacos. Durante a Guerra da Criméia de 1853-1856, as tropas austríacas ocuparam a Romênia com a conivência dos russos. Para as tropas russas chegarem à Bulgária, teriam que atravessar a Romênia, agora sob a dominação dos Habsburgo. Temendo que a superposição de ambições russas e austríacas pudesse levar à guerra, Bismarck (1815 – 1898) da Alemanha propôs uma divisão do Império Otomano, com a Bósnia e Herzegovina com a Sérvia indo para os Habsburgos enquanto a Romênia e uma Bulgária estendida ficariam sob o domínio russo. Os britânicos, temendo que uma nova expansão de influência austríaca e russa para o Mediterrâneo ameaçassem seus próprios interesses, opuseram-se a este plano e propuseram, em vez disso, uma conferência em Istambul para reconciliar as ambições concorrentes dos poderes.

Na Conferência de Istambul, realizada em novembro de 1876, a Grã-Bretanha propôs uma série de “reformas” que, enquanto abrandavam a Rússia e a Áustria-Hungria, as manteriam fora do Mediterrâneo. A Bulgária, enquanto residia nominalmente no Império Otomano, deveria ser dividida em duas províncias. O governador de cada província seria um cristão, nomeado com a concordância das potências europeias. Com exceção do tabaco e dos direitos aduaneiros, todas as receitas iriam para o governo provincial. O sistema judicial seria revisto e novos juízes nomeados com a aprovação dos poderes. Forças policiais separadas seriam criadas para aldeias cristãs e muçulmanas. As tropas otomanas seriam retiradas da província e seu lugar ocupado pelas tropas belgas. A Grã-Bretanha propôs “reformas” semelhantes para a Bósnia-Herzegovina, onde a Áustria-Hungria supervisionaria sua implementação. Essas propostas, se implementadas, teriam significado uma independência virtual tanto para a Bulgária como para a Bósnia e Herzegovina e teriam legalizado a intervenção dos poderes nos assuntos dessas duas importantes províncias otomanas.

A questão búlgara emergiu como importante devido a uma insurreição de origem russa nessa província. Os búlgaros capturaram um grande número de cidades e mataram milhares de turcos. Incapaz de controlar o levante, o governador otomano da província, Nadim Pasha (1818 – 1883 d.C), organizou milícias locais para proteger aldeias muçulmanas. Massacres e contra massacres seguiram. Os europeus, sempre rapidamente apontando os dedos quando os cristãos foram mortos, e tapando os olhos para os massacres de muçulmanos, e ignorando as baixas cristãs. No parlamento britânico, Gladstone (1809 – 1898), em um discurso entusiasmado, referiu-se aos otomanos como “indescritíveis turcos” e exigiu uma ação europeia confluente para conter os otomanos. O Czar ameaçou a ação militar, a menos que as reformas fossem implementadas na província sob supervisão russa.

Para evitar as potências europeias, o vizirado lançou-se à promulgação de uma constituição que removeria qualquer pretexto para intervenção estrangeira. A pedido de Midhat Pasha (1822 – 1884 d.C), Presidente do Conselho de Estado, o Sultão Abdul Hamid autorizou a constituição de uma Comissão de Constituição. Trabalhando 24 horas por dia, a Comissão produziu uma constituição, que incorporou reformas de longo alcance e abordou todos os aspectos da administração otomana.

Enquanto mantém a autoridade suprema de califa/sultão e seus privilégios de cunhar moedas e ter o nome invocado na sexta-feira durante a Khutba (sermão que é proferido na oração do meio-dia na sexta-feira em mesquitas), a reforma garantiu a liberdade individual a todos os cidadãos, a igualdade perante a lei, a liberdade de culto, a sacralidade da privacidade, o direito à propriedade e proteção contra prisão arbitrária. Não havia discriminação nos empregos do governo e o serviço público deveria ser uma meritocracia. Um parlamento de dois níveis foi estabelecido após o padrão das monarquias europeias liberais com uma câmara baixa, majlis (conselho) e mebusan (câmara dos deputados), composta por delegados eleitos e uma câmara alta menor, majlis e ayan (local onde nobres ou dinastias mantiveram diferentes níveis de controle administrativo sobre terras), cujos membros foram nomeados pelo sultão. A liberdade de expressão no Parlamento e a imunidade de perseguição dos deputados para os seus pontos de vista foram garantidos.

O sultão nomeou o grande vizir e o conselho de ministros. O grande vizir, como diretor executivo do império, presidiu as reuniões dos ministros e coordenou suas atividades. Em tempos de emergência, como aqueles que envolvem a segurança do estado, ele pode emitir ordens de emergência. O Parlamento tinha autoridade para aprovar os orçamentos anuais, supervisionar as despesas dos diversos ministérios e impor a disciplina fiscal. Estava habilitado a ratificar a legislação iniciada pelo Conselho de Ministros. Se ratificada, a legislação foi então submetida ao sultão, através do grande vizir, para sua aprovação final. O Conselho de Estado, que surgiu durante as fases anteriores do tanzeemat, foi mantido para prestar assistência ao parlamento e ao Conselho de Ministros na redação, preparação e documentação da legislação.

Os deputados da baixa câmara foram eleitos e tiveram um mandato de quatro anos, enquanto os da alta câmara foram nomeados pelo sultão de modo vitalício. Exceto em matéria de direito pessoal, em que os tribunais da Sharia e do millet (millet era uma corte jurídica distinta pertencente a “lei pessoal” sob a qual uma comunidade confessional – um grupo que respeita as leis da shari’a, da lei canônica cristã ou da Halachá judaica – era autorizado a se autogovernar.) foram mantidos, a jurisdição dos tribunais seculares foi expandida para cobrir todos os aspectos da vida. Os conselhos representativos foram retidos nos níveis provincial, distrital e do condado para fornecer insumos sobre educação, agricultura, e comércio. Foi criado um Supremo Tribunal com a autoridade para julgar juízes rebeldes, membros do parlamento e ministros.

O Islã continuava sendo a religião do estado, mas a liberdade de adoração era garantida para todos os abarcados pelas cortes jurídicas millet e todos os cidadãos passaram a ser considerados otomanos, independentemente da sua filiação étnica ou religiosa. Cada pessoa sob a alçada do millet (submetidos ao millet) era livre para eleger seu próprio conselho representativo e organizar seus assuntos internos. Assim, um grande movimento foi feito para a democracia parlamentar que proporcionou uma voz ao povo, garantiu os direitos individuais e tomou medidas significativas para acalmar as preocupações europeias sobre os direitos dos cristãos no império. Para implementar as reformas, o sultão Abdul Hamid nomeou Midhat Pasha, que serviu como presidente do Conselho de Estado e principal arquiteto das reformas, e como grande vizir.

As potências europeias não estavam interessadas em reformar o Império Otomano. O descontentamento dos cristãos era apenas um pretexto para a intervenção nos assuntos otomanos. A Rússia, em particular, não estava satisfeita com nada menos que uma saída para o Mediterrâneo. Na Conferência de Istambul, os poderes europeus apoiaram as demandas russas para dividir a Bulgária e a Bósnia-Herzegovina e administrá-los sob controle europeu. O sultão Abdul Hamid conheceu a vulnerabilidade militar do império e procurou evitar a guerra.

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Além de promulgar a constituição em dezembro de 1876, ele enviou seu próprio plano para nomear uma comissão de inquérito, com participação internacional, para examinar as acusações de atrocidades na Bulgária e punir os responsáveis. Midhat Pasha, que serviu como principal negociador otomano com os poderes, não apresentou esses planos na conferência, mas apresentou as demandas europeias ao parlamento otomano. Os representantes recém-eleitos ficaram furiosos com essa afronta à soberania otomana e rejeitaram as demandas. A Conferência de Istambul terminou em desordem.

Mesmo quando as negociações estavam em andamento na Conferência de Istambul (dezembro de 1876 – janeiro de 1877) e o parlamento otomano se reuniu (março de 1877) para implementar as reformas, os russos fizeram preparativos ativos para a guerra. O Czar comprou a neutralidade do Império Áustria-Hungria, prometendo-lhes o principado da Bósnia-Herzegovina e a hegemonia sobre a Sérvia. O contingente militar austríaco estacionado na Romênia desde 1854 foi retirado, abrindo o caminho para um avanço russo sobre Istambul através da Romênia e da Bulgária. Os britânicos também sinalizaram sua neutralidade no caso de uma guerra russo-otomana declarando que não interfeririam enquanto o status do Estreito ou Istambul fossem inalterados. A Alemanha, cuja principal preocupação era evitar a guerra entre a Áustria e a Rússia, acompanhava a neutralidade austríaca. Assim, a estrada foi limpa para que o exército do czar invadisse os territórios do seu vizinho ao sul.

Os russos começaram a guerra em maio de 1877 com um ataque às províncias otomanas do leste. No mês seguinte, em junho de 1877, abriram uma segunda frente no oeste através do rio Danúbio. A invasão russa violou claramente o Tratado de Paris, assinado em 1856 na conclusão da Guerra da Criméia, pelo qual as potências europeias garantiram coletivamente a integridade do Império Otomano. Mas essa foi a era do colonialismo. Cada tratado que os europeus assinaram com os otomanos era apenas uma artimanha para subverter e ocupar território otomano adicional.
O objetivo russo no leste foi um rápido direcionamento para a cidade de Erzurum, de onde podiam cortar uma faixa através do sul da Anatólia e da Síria até o Mediterrâneo, isolando a terra natal turca.

No oeste, o objetivo foi um rápido impulso em Istambul através da Romênia e da Bulgária para forçar os turcos a capitularem antes que as potências europeias mudassem de ideia sobre a sua neutralidade professada. Os otomanos, apesar de terem gastado grandes montantes em armamentos desde a Guerra da Criméia, foram prejudicados pela falta de oficiais treinados. O czar, através de hábil propaganda como o protetor autoproclamado da Igreja Ortodoxa Oriental, aproveitou plenamente o desajuste da grande população cristã nos Balcãs. No setor oriental também, ele incitou os armênios até então pacíficos a perseguir os exércitos otomanos.

Ajudado pelos cristãos locais, o avanço inicial dos exércitos russos foi rápido. Ardahan caiu em maio de 1877; Os otomanos perderam um número considerável de homens e materiais. Na frente ocidental, a cidade guarnição de Sistova caiu em junho. Os contingentes avançados de tropas russas cruzaram o Passe Shipka, capturaram Sofia e Nicopolis e ameaçaram Erdirne.

Os massacres em larga escala de camponeses muçulmanos seguiram cada uma das conquistas russas. Os russos distribuíram armas e munições capturadas dos otomanos em retirada para os cristãos locais que se voltaram contra os vizinhos muçulmanos. Aldeia após aldeia testemunhou cenas de horror de mortes em massa. Os sobreviventes do abate seguiram em direção a Istambul. Mais de 250 mil refugiados entraram em Istambul e Anatólia nos primeiros três meses das campanhas russas. Nos dois anos seguintes (1877-1879), este número dobrou, impondo um tremendo fardo aos recursos otomanos.

Este foi o primeiro dos massacres em larga escala dos muçulmanos dos Balcãs, que continuaram por mais de cem anos, culminando com os massacres sérvios dos bósnios em 1990-1992. Esses atrasos iniciais chocaram os otomanos. O governo central do Império Otomano apelou aos poderes europeus nos termos do Tratado de Paris (1856) para pressionar os russos a se retirarem. As respostas da Áustria e da Alemanha eram vagas. O gabinete britânico emitiu declarações igualmente vagas e não fez nada para impedir o czar.

Enquanto isso, a agressão russa tinha que receber uma réplica. A resposta do sultão foi caracteristicamente islâmica. Ele tirou o manto do Profeta do palácio de Topkapi, declarou a resistência à Rússia, uma jihad, e se proclamou um gazaz (aquele que empreende uma expedição militar, ou conquistador) seguindo o exemplo dos primeiros sultões otomanas e apelou aos muçulmanos em todo o mundo para obter apoio. Este padrão de apelo à comunidade muçulmana global deveria ser repetido, uma e outra vez, durante o reinado de Abdul Hamid.

A resposta dos turcos, árabes e albaneses foi esmagadora. Os homens saíram em massa para se juntar às forças armadas. As mulheres ofereceram suas joias para financiar o esforço de guerra. O Sultão selecionou os melhores generais disponíveis para as campanhas defensivas. Ahmed Muhtar Pasha (1832 – 1919) foi nomeado comandante das forças orientais. Muhtar reorganizou suas tropas, dispersou-se sobre os distritos do leste, e parou o avanço da Rússia em Kars. Na frente ocidental, Sulaiman Pasha (1898 – 1938) foi nomeado comandante, enquanto a defesa dos passos montanhosos búlgaros foi delegada a Osman Pasha (1832- 1900). Sulaiman trouxe reforços por mar a Alexandropolis, rapidamente se movendo para o norte através da Bulgária ocidental e dirigiu os russos de volta ao Passe de Shipka.

Os russos se reagruparam e, com uma grande horda de mais de 100 mil homens, apoiados pelos principais regimentos romenos, conseguiram despender um golpe na cidade estratégica de Plevna. Enquanto isso, Osman Pasha reforçou a cidade, construiu uma fortaleza, cavou trincheiras e trouxe armas pesadas para defender o terreno circundante. A partir deste bastião, ele segurou ataques repetidos combinados pelas forças russo-romenas, ganhando para si e para seus homens a admiração dos europeus e a gratidão de seus compatriotas. O sultão, em reconhecimento desta defesa heroica, conferiu o título de ghazi (título outorgado a conquistadores ou guerreiros muçulmanos) a Osman Pasha.

As linhas de frente permaneceram estáveis ao longo do verão de 1877. Mas com o passar do tempo, o peso do vasto Império Russo e de seus simpatizantes cristãos no Império Otomano começaram a serem sentidos. Em outubro de 1877, as linhas otomanas começaram a se quebrar. Na parte oriental, Kars caiu em novembro, embora Mohtar Pasha tenha conseguido retirar a maior parte de suas forças para Erzurum. O Azerbaijão, a Armênia e a Anatólia oriental estavam em mãos russas. Na frente ocidental, a defesa heroica de Plevna continuou.

Os russos cercaram a guarnição e cortaram os suprimentos de comida, na esperança da morte por fome dos adversários em submissão. Apesar da falta de comida e do inverno severo, os otomanos continuaram, na esperança de novos reforços de Istambul. Mas o gigante russo se agravou. Em dezembro, Osman Pasha ordenou que suas tropas lutassem para sair. No combate corpo a corpo, mais de 30 mil soldados otomanos morreram. Mais milhares morreram no terreno montanhoso gelado. Plevna se rendeu. Não mostrando piedade, os russos e seus camaradas romenos mataram os sobreviventes da cidade.

Com a queda de Plevna, a maior parte do exército russo estava livre para se mover para o sul. Sofia e Erdirne caíram em rápida sucessão. Um destacamento avançado sob o Grande Duque Nicholas (1856 – 1929) chegou aos arredores de Istambul. A capital, já inchada com centenas de milhares de refugiados, preparou-se para um assalto. O rápido avanço dos exércitos russos para Istambul provocou um alarme em Viena e em Londres. Se os russos ocupassem o império, os otomanos perderiam seus empréstimos para os banqueiros europeus. Pânico se instaurou no mercado financeiro de Londres.

Percebendo a ameaça de seus interesses financeiros e seus interesses imperiais no Egito, o gabinete britânico emitiu uma severa advertência aos russos para que não avançassem no Estreito. O humilde sultão Abdul Hamid escreveu à Rainha Victoria (1819 – 1901) pedindo-lhe que providenciasse um armistício e pedisse que a frota britânica ficasse em Istambul como um seguro contra a ocupação russa. O czar, exausto de suas campanhas contra os turcos, não estava em posição de travar uma guerra mais ampla com a Grã-Bretanha e a Áustria-Hungria. Ele escreveu ao Sultão assegurando-lhe que os russos não tinham intenção de ocupar Istambul.

Em março de 1878, os russos e os otomanos assinaram um tratado em San Stefano (1878), uma pequena aldeia situada nos arredores de Istambul. Por seus termos, os otomanos cederam os distritos de Kars, Ardahan e Batum no leste da Rússia. O Estreito seria aberto ao transporte russo. A independência da Romênia, Montenegro, Sérvia e Bulgária foi reconhecida. Montenegro e Sérvia foram expandidos para incluir grandes porções da Bósnia e Albânia. A Bulgária foi recompensada com toda a Rumelia Oriental e a Trácia do Norte e seus territórios cresceram mais do que três vezes estendendo-se do rio Danúbio até o Mar Egeu. O sonho dos czares para criar uma paisagem política dos Balcãs dominada pela Rússia foi cumprido. Os otomanos concordaram em pagar uma indemnização de guerra de 24 bilhões de kurush ao czar durante um período de 100 anos. Resumidamente, os termos eram nada menos que a rendição dos otomanos.

O Tratado de San Stefano era inaceitável para as outras potências europeias. A Grã-Bretanha e a França se opuseram a uma Bulgária dominada pela Rússia que se estende para o Mar Egeu. A Áustria se opôs à influência russa sobre a Sérvia e Montenegro. Bismarck da Alemanha, aliado da Áustria e da Rússia na Liga dos Três Imperadores, percebeu que, a menos que fossem tomadas medidas rápidas para desmantelar a situação, a guerra poderia entrar em erupção entre seus dois aliados. Por conseguinte, concordou em convocar uma conferência dos principais poderes em Berlim, em que todos os termos do Tratado de San Stefano seriam renegociados. O Tratado de Berlim, que concluiu em julho de 1878, dividiu a Bulgária em três partes.

A parte do norte seria autônoma sob orientação russa, mas pagaria um tributo anual ao sultão. A segunda parte, leste da Rumelia, estaria sob o controle otomano, mas com uma administração mista cristã-muçulmana supervisionada pelos poderes. A fração do sul, composta por Thrace e Rumelia do sul, retornou à administração direta otomana. A Bósnia-Herzegovina foi colocada sob controle austríaco. A independência de Montenegro e da Sérvia foi afirmada. Como “precaução” contra a nova pressão militar russa contra o governo central otomano, a Grã-Bretanha ocupou Chipre sob o pretexto de que poderia responder rapidamente a qualquer ameaça futura do czar. As indenizações de guerra otomanas para a Rússia foram reduzidas para 350 mil kurush por ano durante 100 anos. A Conferência de Berlim, assim, selou o destino do Império Otomano na Europa, com apenas uma faixa de território deixada para ligar Istambul com a Albânia. Para o leste, os otomanos perderam vários distritos na Armênia e no Azerbaijão. Talvez, de forma significativa, o custo da guerra esgotou-os financeiramente. As indenizações de guerra para a Rússia foram adicionadas aos pagamentos de dívidas já prejudiciais aos banqueiros europeus.

A invasão russa de 1877-1878 e suas consequências tiveram um impacto profundo no jovem sultão. Abdul Hamid percebeu a inutilidade de manter os territórios europeus nos quais os cristãos eram maioria. Seus vassalos cristãos se rebelaram e ajudaram os russos, apesar das reformas instituídas sob o tanzeemat e apesar da representação que lhes foi dada no novo parlamento otomano. Ele ficou profundamente desapontado com os principais poderes que derrubaram os otomanos, apesar das obrigações que lhes são conferidas pelo tratado. Ficou evidente que os poderes principais desejavam nada menos do que o desmembramento total do Império Otomano. Os receios foram logo confirmados pelos movimentos franceses no norte da África e os movimentos britânicos no Egito. A guerra trouxe centenas de milhares de refugiados muçulmanos para Istambul fugindo do massacre em massa que seguiu o avanço da Rússia. Tendo perdido tudo em sua fuga, esses refugiados eram extremamente amargos em relação aos seus vizinhos cristãos. Esses fatores fizeram o Sultão dar as costas à Europa e reorientar seu foco para o Oriente Médio muçulmano.

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A pergunta perante o Sultão foi a seguinte: como o califa pode desprender-se da Europa cristã sem humilhação para que o núcleo muçulmano do Império fosse preservado e constituído outro núcleo para a futura renovação política islâmica? Esta era uma mudança de paradigma para os otomanos que haviam esculpido seu império europeu muito antes do seu impulso para a Síria, o Egito e a Arábia (1517).

A inclinação do sultão para o Oriente Médio islâmico contrastou com o impulso principal do tanzeemat para o otomanismo multireligioso e introduziu um elemento de tensão nos círculos governantes otomanos que persistiram até o século XX. O otomanismo também foi desafiado pela crescente onda de nacionalismo nos Balcãs. Isso introduziu um segundo elemento de tensão no império. Um terceiro elemento de tensão era o tradicionalismo contra o modernismo. Havia aqueles no império, os ulemá (sábios) e os kadis (magistrados ou juízes do tribunal de Shari’a) que desejavam uma lenta evolução da sociedade e suas instituições de seu passado islâmico. E havia aqueles entre os homens mais seculares do tanzeemat e dos não muçulmanos, que desejavam uma abordagem mais secular. Essas tensões foram exacerbadas pelas contínuas ambições imperiais das potências europeias.

Para salvar o que restava do império, o Sultão desejava uma modernização mais rápida do império usando uma abordagem centralizada. Os homens do tanzeemat também desejavam reformas, mas apesar da experiência da guerra e da decepção dos cristãos nos Balcãs, eles persistiram na crença de que o constitucionalismo era a melhor maneira de provocar mudanças. As duas abordagens estavam prestes a entrar em conflito, e entraram. E, em consequência, o império primeiro se moveu para a autocracia e ao pan-islamismo e depois voltou para o domínio parlamentar e ao secularismo.

As estipulações do Tratado de Berlim (1878) e as intenções dos principais poderes para respeitar a soberania otomana foram testadas logo em seguida na Tunísia. Os territórios do norte da África em torno de Túnis estavam muito sob o controle de beys (governadores de distritos ou províncias no Império Otomano) locais. Os otomanos mantiveram o controle nominal sobre os beys através de um governador provincial e uma guarnição militar. Os franceses, depois de consolidarem sua posse na Argélia (1830), estenderam suas ambições à Tunísia. Os primeiros movimentos foram feitos nas frentes econômicas e financeiras.

Os gastos sem limites dos beys acabaram por lhes fazer emprestarem fortemente dos banqueiros franceses e em pouco tempo se encontraram com tanta dívida que não podiam pagar os juros. Para extrair os pagamentos da dívida, os poderes europeus estabeleceram a Comissão de Dívida da Tunísia em 1869 e assumiram o controle de seus serviços públicos e matérias-primas. Em 1881, os britânicos ofereceram à Tunísia os franceses para comprarem sua aquiescência à ocupação britânica de Chipre. Percebendo que uma recusa significaria que a Tunísia seria oferecida aos italianos, o exército francês se mudou para Túnis e o declarou “protetorado” francês. O Sultão Abdul Hamid protestou sob os termos do Tratado de Berlim, mas na verdade, apenas a voz de quem tem mais poder é ouvida. As potências europeias fingiram-se de surdas à súplica do sultão.

Mais grave foi a ocupação britânica do Egito, a pérola do Império Otomano. Em 1878, o foco da história global havia mudado do Mediterrâneo para a Ásia. Os interesses da Grã-Bretanha agora estavam focados em seu Império indiano. Os interesses britânicos estavam no controle das margens da Índia. Isso significava o controle do Egito, que ainda era nominalmente uma província otomana. O Egito era o centro cultural do império e era, até sua ocupação pelo sultão Selim I (1470 – 1520), a sede do califado. Era a mais populosa das províncias otomanas e a porta de entrada para a África.

A penetração econômica era o meio para a entrada britânica no Egito, como era para a ocupação francesa da Tunísia. Os paxás (vicereis) do Egito, Sait (1830 – 1914) e Ismail (1863 – 1895), haviam contraído enormes empréstimos com enormes descontos, primeiro a construir o Canal de Suez, e então apoiar seus próprios estilos de vida pródigos. Em 1875, a dívida aumentou para 100 milhões de libras esterlinas e exigiu mais de dois terços de todas as receitas egípcias para manter os débitos atendidos. A condição financeira do Egito foi, portanto, uma imagem espelhada da do Império Otomano. Quando os egípcios estavam inadimplentes dos pagamentos da dívida, os poderes europeus formaram a Comissão da Dívida egípcia atribuindo-se a autoridade de confiscar receitas específicas. Para garantir o cumprimento, os poderes impuseram um nacionalista armênio como primeiro ministro do Egito, enquanto um inglês se tornou o ministro das Finanças e um francês, o ministro das obras públicas.

As estipulações da Comissão de Dívida egípcia significavam a efetiva entrega da soberania egípcia aos europeus, o que provocou um alvoroço público. Montando no ressentimento popular, um grupo de oficiais do exército egípcio forçou o Paxá a remover os estrangeiros no ministério e, em vez disso, eleger os egípcios. Quando o Paxá demitiu os estrangeiros, os britânicos e franceses, em consórcio, exigiram que o Paxá Ismail fosse substituído por seu filho Tawfiq (1852 – 1892), que era mais compatível e mais disposto a aceitar os termos britânico-francês. No entanto, como o Egito era tecnicamente uma província otomana, a demissão de um Paxá ainda exigia o consentimento do Sultão em Istambul. O sultão Abdul Hamid primeiro vacilou, mas não teve escolha; Ismail foi demitido e Tawfiq foi nomeado em seu lugar.

O Sultão enviou uma delegação ao Cairo para discutir e resolver os problemas financeiros com os poderes europeus. Enquanto as negociações estavam acontecendo, uma armada combinada de marinhas britânicas e francesas apareceu na costa de Alexandria para pressionar os negociadores. Isso foi como derramar óleo em uma fogueira. O sentimento nacionalista egípcio inflamou-se e a violência da multidão custou a vida de vários estrangeiros. Este era o pretexto que os britânicos esperavam. Usando a desculpa de proteger vidas europeias, a marinha britânica bombardeou a cidade indefesa de Alexandria, matando várias centenas de pessoas. Os franceses, que inicialmente exigiram ação militar contra o Egito, ficaram preocupados com o fato de que um assalto combinado apenas impulsionaria a Grã-Bretanha a ocupar uma posição dominante no Egito e retirou-se da aliança. Destemida, uma força britânica desembarcou em Alexandria e depois de ocupar a cidade, mudou-se para o Cairo. Em 3 de setembro de 1882, as forças nacionalistas egípcias se encontraram com os invasores na batalha de Tel el Kabir, mas foram derrotadas. Quatro dias depois, o exército britânico estava no Cairo.

A perda da Tunísia para a França e do Egito para a Grã-Bretanha significava que o Império Otomano era agora uma entidade asiática constituída por sua terra natal Anatólia e as províncias árabes da Síria, do Iraque e da Arábia. A guerra com a Rússia e a perda do Egito e da Tunísia custaram ao Império mais de 60% de sua população. Houve um grande afluxo de refugiados muçulmanos dos Balcãs. Esses refugiados, tendo perdido tudo o que tinham, eram extremamente hostis aos cristãos e estavam determinados a continuar sua luta contra a Rússia.

O sofrimento dos muçulmanos dos Balcãs suscitou simpatia entre os muçulmanos em outros lugares do império e foi o primeiro motivo para impulsionar a opinião popular na direção da solidariedade islâmica. Uma segunda razão para aumentar as tendências pan-islâmicas foi a educação precoce do próprio Sultão. Como um jovem, o sultão Abdul Hamid foi educado pelos principais ulemá e shaykhs da época. Por instinto e educação, o Sultão estava disposto a buscar laços mais estreitos com o mundo muçulmano.

O terceiro foi um aumento do sentimento revivalista entre os muçulmanos em todo o mundo, expressado com mais fervor pelo Mahdi do Sudão (1884). O movimento Tijaniya no Maghrib e o movimento Sanusiya na Líbia aumentaram o fervor religioso entre os muçulmanos do norte da África. No Afeganistão e na Ásia Central, a retórica de Jamaluddin Afghani (1838 – 1897) despertou paixões pan-islâmicas. No Cáucaso, a resistência à agressão russa foi liderada pela ordem sufi Naqshbandi. Com a prisão de Shaykh Shamayl (em 1854), o movimento se tornou subterrâneo, mas a antipatia em relação ao governo russo continuou.
Um quarto motivo foi o ressentimento popular na exploração econômica do império através da dívida pública e das capitulações. A dívida pública incorria em enormes descontos, e prejudicou os otomanos, consumindo às vezes até 80% de todas as receitas. As capitulações foram utilizadas para obter termos comerciais favoráveis para produtos europeus produzidos em massa. As indústrias otomanas jovens e subcapitalizadas não podiam competir com os produtos europeus, motivo pelo qual o império permaneceu principalmente um fornecedor de matérias-primas para a Europa enquanto consumia bens fabricados na Europa Ocidental e na América.

Por fim, com o avanço do colonialismo, vastas áreas do mundo islâmico passaram por domínio europeu. A França no Norte da África, a Rússia na Ásia Central, a Grã-Bretanha na Índia e a Áustria-Hungria na Bósnia tinham grandes populações muçulmanas sob seu domínio. Esses poderes eram tão vulneráveis em relação aos súditos muçulmanos quanto os otomanos em relação aos assuntos cristãos. O sultão otomano também era califa do islã. Ele ocupou uma posição no espaço religioso-político islâmico semelhante ao do Papa em Roma em relação aos católicos romanos. O prestígio desta posição poderia ser usado para pressionar os poderes europeus cristãos e fazê-los tirar suas mãos do único estado islâmico independente restante.

A convicção, endurecida pela realpolitik (política ou diplomacia baseada principalmente em considerações práticas, em detrimento de noções ideológicas.), impeliu o sultão a deixar o manto do califa. Abdul Hamid fez um grande esforço para cultivar relacionamentos estreitos com muçulmanos não apenas no império, mas também na Índia muçulmana e na Ásia Central. Ele insistiu em exercer seu privilégio, como califa, de nomear os principais dignitários religiosos nos Balcãs. Escritores como Namuk Kamal (1840 – 1888) enfatizaram as origens islâmicas do império e as contribuições que os turcos fizeram para o contínuo desdobramento da civilização islâmica. O sultão tornou-se um ponto a seguir para as orações congregacionais de sexta-feira na Aya Sophia em uma carruagem aberta para que o público o visse. O Ramadã, o mês do jejum, tornou-se um mês especial de celebração. Todas as noites, antes de quebrar o jejum ao pôr-do-sol, o sultão sentou-se numa cadeira de brocado no auditório. Forrando o corredor de cada lado, onde havia filas de shaykhs, ulemá e dignatários visitantes.

O sultão fez questão de convidar alguns plebeus para se juntarem a ele para quebrar o jejum, de modo a estabelecer relações religiosas com as massas. As potências europeias viram esses movimentos com suspeita, mas não podiam detê-los. Implícito nesta postura religiosa assertiva, a ameaça de que qualquer movimento adicional contra os domínios do califa possa resultar em um levante mundial de muçulmanos contra seus mestres coloniais. Onde quer que houvesse o menor prejuízo para os muçulmanos, seja na Rússia, na Índia britânica ou na África francesa, o Sultão enviou uma nota de protesto ao poder em questão, ganhando assim o respeito e a lealdade religiosa dos muçulmanos em todo o mundo.

Os britânicos estavam particularmente preocupados com o enorme número de muçulmanos na Índia e fizeram seus próprios esforços de propaganda para se retratar como amigos e protetores do Império Otomano. O sultão deu boas-vindas aos dignitários muçulmanos de todo o mundo ao palácio onde foram recebidos com a honra e o prestígio reservados aos chefes de estado. Um dos principais dignitários assim recebidos foi Jamaluddin Afghani, um reformista do Afeganistão, que viajou por todo o mundo muçulmano para forjar a unidade política e cultural entre os muçulmanos. Fervor religioso aumentou e o Sultão ganhou o apoio dos ulemá em todo o mundo e estabeleceu sua legitimidade aos olhos da maioria de seus súditos e também de um grande número de muçulmanos em todo o mundo. Muçulmanos em todo o mundo olharam para ele para obter orientação em assuntos que vão desde observâncias religiosas até adornos de fez (o famoso chapéu ou cocar otomano.)

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O benefício desta postura religiosa assertiva foi que manteve as potências europeias fora de equilíbrio por mais de um quarto de século. O império estava em relativa paz. As potências europeias, em vez de buscar a ocupação militar e o domínio colonial, se contentaram em competir uns com os outros por benefícios econômicos, matérias-primas e mercados. O preço pago por essa inclinação pan-islâmica foi que tirou qualquer pretensão que o império teve como um estado multireligioso. O descontentamento das minorias cristãs cresceu, mesmo que as reformas do tanzeemat se acumulassem, proporcionando oportunidades iguais para os millets.

O sultão Abdul Hamid estava convencido de que a única maneira de modernizar o império era através de uma estrutura centralizada dirigida por sua própria pessoa. Esta convicção foi reforçada pelos acontecimentos dos dois primeiros anos de seu reinado. Ele ficou profundamente desapontado com o Grande vizir Midhat Pasha, amplamente creditado como o pai do Parlamento otomano, sobre o tratamento das negociações na Conferência de Istambul de 1876. A própria experiência de Midhat com as potências europeias o levou a tomar uma posição difícil na Conferência contra o melhor conselho do Sultão a favor de negociações e compromissos contínuos. A ruptura da Conferência levou à invasão russa e a uma derrota humilhante. Além disso, os políticos do Parlamento estavam mais interessados em aprimorar suas próprias carreiras políticas do que encontrar soluções para as questões urgentes que o império enfrentava. Os nacionalistas cristãos usaram o piso do Parlamento como plataforma para transmitir suas próprias demandas de autonomia para suas regiões ou independência. Em janeiro de 1878, com o exército russo se aproximando de Istambul, o Sultão procurou o conselho do Parlamento para convidar a frota britânica para o porto de Istambul como um impedimento preventivo para uma ocupação russa da capital. Em vez de conselhos, o Sultão recebeu palestras de cidadãos comuns sobre a conduta da guerra. Um sultão desiludido perdeu sua fé na integridade dos burocratas e concluiu que o império ainda não estava pronto para a democracia parlamentar, que a melhor chance para a sobrevivência do império era através de uma estrutura centralizada dirigida por ele próprio. Em fevereiro de 1878, ele dissolveu o Parlamento de acordo com as disposições da Constituição e assumiu diretamente todos os poderes.

O que surgiu no lugar do governo parlamentar era uma estrutura altamente centralizada no palácio. O sultão era o foco da autoridade e do poder. A centralização do poder exige que haja intermediários entre ele e os burocratas. O sultão apresentou um modelo que evoluiu nos impérios islâmicos anteriores. Assim como os califas anteriores usaram hajibs (oficiais da corte) para distanciar-se da ummah, o Sultan Abdul Hamid usou o mabayeen (intermediários) para transmitir seus desejos aos funcionários públicos. Mabayeen significa no meio. Este foi o equivalente aos hajibs que, nos séculos anteriores, separaram os califas e os sultões da ummah, o povo comum.

O principal mabayeen e o chefe de gabinete pessoal do Sultão chamava-se mabayeen mushiri. Entre 1878 e 1897, este posto foi de Ghazi Osman Pasha (1832 – 1900), que se distinguiu na batalha de Plevna (1877) e ganhou o respeito e a confiança do sultão. Ele era um general distinto. Ghazi Osman Pasha foi uma influência principal no sultão em questões relacionadas com o exército e assuntos externos. O mabayeen mushiri presidiu o Conselho Privado, composto por oficiais do exército aposentados e burocratas de alto escalão, que forneceram conselhos ao sultão em assuntos importantes. Em seguida, em proximidade com o Sultão foi o katip ou escriba que comunicou os comandos do sultão aos burocratas e influenciou o Sultão através do seu envolvimento no processo de comunicação. O harém teve sua própria influência no sultão através do eunuco principal ou agha. Essas três posições eram os principais mabayeen entre o sultão e o mundo exterior.
Abdul Hamid observou atentamente todos os seus nomeados, bem como a extensa burocracia no estado, através de um eficiente sistema policial e rede de espiões. As funções da polícia foram centralizadas e o departamento não só tinha autoridade para manter a lei e a ordem, mas também para supervisionar os viajantes, a imprensa e os escritores. O sultão, para manter-se informado sobre os mais minúsculos acontecimentos no império, confiou o Ministério da Polícia apenas aos seus confidentes mais confiáveis. Além disso, vários assessores o serviram em matéria de finanças pessoais e assuntos externos.

As funções executivas, legislativas e judiciárias foram combinadas no escritório do grande vizir. O grande vizir foi responsável pela coordenação dos assuntos de estado e do trabalho dos ministérios. O grande vizir presidiu reuniões ministeriais e presidiu as importantes comissões estabelecidas pelo sultão, como a comissão de refugiados. Entre os importantes ministérios estavam o Ministério dos Assuntos Internos, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Ministério da Guerra, o Ministério da Justiça, o Ministério das Finanças, o Ministério da Educação, o Ministério de Awqaf e o Ministério das Obras Públicas. O braço legislativo do Estado, o Conselho de Estado, trabalhou através do grande vizir, assim como o Ministério da Justiça, que providenciou supervisão para os tribunais seculares. Um dos mais bem sucedidos dos grandes vizires durante o reinado do sultão Abdul Hamid foi Mehmet Sait Pasha (1830 – 1914). Ele serviu nessa função sete vezes entre 1878 e 1909 e foi chamado duas vezes pelos Jovens Turcos a assumir o cargo de presidente-executivo depois que Abdul Hamid foi deposto.

O Shaykh ul Islam, como o principal funcionário religioso do estado, tinha autoridade de supervisão sobre mesquitas, madrasas, orfanatos e publicações religiosas. Ele interpretou a Shari’a e assegurou que seus ditames fossem implementados nos tribunais da Shari’a. O shaykh, juntamente com o grande vizir, o Paxá do Egito e o príncipe da Bulgária formaram o escalão mais elevado de funcionários na corte do Sultão.

Os programas de modernização solicitados por Abdul Hamid exigiam fundos suficientes para sua implementação. O sultão ficou confuso com a enorme dívida acumulada que ele havia herdado. Em 1876, a dívida externa sozinha representava mais de 12 bilhões de kurush. A guerra russo-turca de 1876-1878 e suas consequências adicionaram mais 4 bilhões de kurush a esse enorme fardo. Juntamente com o interesse não remunerado, a dívida externa total foi de 23 bilhões de kurush. Além disso, a dívida interna era de mais quatro bilhões de kurush. Os pagamentos de juros, por si só, consumiram mais de 80% do orçamento.
Havia uma possibilidade real de que os otomanos sucumbissem a esse endividamento, assim como o Egito e a Tunísia. A primeira prioridade do sultão Abdul Hamid era renegociar os empréstimos em conjunto com reformas econômicas muito necessárias. Através das negociações, a dívida externa total foi reduzida de 23 bilhões para 12 bilhões de kurush. Os pagamentos de juros foram negociados até cerca de 20% do orçamento. Em contrapartida, as receitas específicas do tabaco, da seda, dos honorários dos documentos e dos tributos da Bulgária, de Montenegro, de Chipre e da Grécia foram entregues a uma Comissão de Dívida Pública composta por representantes das principais potências europeias e funcionários otomanos.

Para compensar as receitas perdidas, o Sultão embarcou em uma ampla gama de reformas econômicas. Ele instituiu um processo orçamentário e estabeleceu um departamento de auditoria. Os chefes de departamento foram encorajados a reduzir seus orçamentos. O Sultão retirou suas despesas pessoais do orçamento e as supria através de seus próprios recursos. As bolsas privadas dos príncipes foram reduzidas. Para aumentar as receitas, a agricultura e a industrialização foram encorajadas. Um banco agrícola foi estabelecido para fornecer empréstimos com juros baixos aos agricultores. O superávit do banco foi utilizado para financiar a educação, para atender às necessidades orçamentárias extraordinárias, como o reassentamento de refugiados e para pagar a modernização das forças armadas. O investimento estrangeiro foi encorajado para a construção de estradas de ferro, linhas de telégrafo e fabricação de fábricas de processamento de seda, tabaco e tecido. A ferrovia Hijaz, que liga Damasco com Medina, foi construída inteiramente com fundos domésticos e contribuições de muçulmanos em todo o mundo, facilitando o movimento de peregrinos das regiões do Mediterrâneo oriental para Meca e Medina. O resultado líquido dessas reformas foi que o Sultão conseguiu realizar pagamentos de dívidas em cerca de 7% do orçamento, enquanto aumentava as receitas em quase 40% entre 1878 e 1908, o último ano de seu reinado. Um benefício secundário da industrialização foi que as potências europeias foram desviadas de buscar a hegemonia militar política sobre os otomanos para a competição econômica em benefício mútuo.

As necessidades das forças armadas e uma burocracia civil necessária para administrar o vasto império, exigiu uma força de trabalho eficiente e treinada. O sultão Abdul Hamid sabia que os otomanos não podiam acompanhar o Ocidente, a menos que o sistema educacional fosse reformado e expandido. A educação foi, portanto, dada a maior prioridade. O Sultão viu que as reformas educacionais que foram iniciadas durante o tanzeemat foram completadas durante o reinado. Uma vez que o peso da dívida era esmagador, o Sultão investiu de seus recursos pessoais para melhorar os padrões de educação nas escolas religiosas muçulmanas, expandindo seu programa para incluir instrução em física e matemática.

As escolas dos millets, bem como as escolas missionárias administradas por estrangeiros, testemunharam um aumento semelhante. Foi imposta uma sobretaxa de 39% sobre produtos agrícolas, com dois terços das receitas assim geradas destinadas a melhorias agrícolas e o restante de um terço para educação pública. A inscrição no exército das escolas Rushdiye foi amplamente expandida. O exército assumiu a liderança na melhoria da educação técnica. Com um melhor quadro de estudantes disponíveis, a Academia de Guerra, a Escola de Engenharia do Exército, a Faculdade de Medicina do Exército e a Escola de Marinha Mercante embarcaram em um programa de modernização. Instrutores do exército da Alemanha e instrutores agrícolas da França foram trazidos para atualizar a faculdade. A inscrição nas escolas técnicas aumentou quatro vezes.

A Universidade de Istambul foi reaberta em 1900 com as faculdades de Matemática, Ciências Físicas, Religião e Ciências Sociais. Os exames baseados em desempenho substituíram o antigo sistema de favoritismo para admissão nas escolas técnicas e na universidade. As reformas educacionais do Sultão abriram as portas para crianças das classes menos favorecidas, dando-lhes a oportunidade de competir pelos cargos mais altos na função pública e no exército. Previsivelmente, o surgimento de uma classe educada que surgiu das fileiras inferiores da sociedade deu origem a demandas de maior participação política e, finalmente, levou à revolução dos Jovens Turcos e a deposição do próprio Sultão (1909).

O maior tributo ao sultão Abdul Hamid é que, mesmo hoje, muitos muçulmanos ao redor do mundo invocam seu nome com a nostalgia de uma era passada, quando um califa venerado forneceu uma aparência de foco político para a comunidade islâmica global e deu uma sensação de fraternidade universal. Muçulmanos tão distantes, da Índia e da Nigéria olharam para ele como orientação em assuntos de grandes e pequenas importâncias. Seu ofício irradiou influência religiosa, política, cultural e social em todo o mundo islâmico. A fez Otomana tornou-se não só um chapéu para os turcos, mas para muçulmanos indianos, egípcios, marroquinos e malaios. Seu fracasso foi que ele prosseguiu seu programa de modernização através de um estilo pessoal altamente centralizado, que o abriu para acusações de despotismo. Ele entrou no palco da história em um momento em que o império faleceu e não conseguiu se defender contra seus muitos inimigos. Em face de agressões de fora e de sabotagem interna, influenciadas por forças do nacionalismo e enfraquecidas pelo terrorismo interno de alguns millets, ele travou uma valente batalha para preservar o que restava do império uma vez poderoso. Neste esforço, ele foi parcialmente bem sucedido, preservando seu núcleo islâmico por quarenta anos e mantendo o império fora de uma grande guerra por tanto tempo. Embora seus métodos e as tensões internas construídas pelos processos de modernização que ele havia promovido, não continuaram atrasando o que seus esforços em geral conseguiram evitar até então.

Fonte: https://nazeerahmed.wordpress.com/contents/resistance-and-reform/sultan-abdul-hamid-ii

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