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Sufismo islâmico e pseudo-sufismo

بسم الله الرحمن الرحيم

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso

A ciência da purificação da alma (em árabe tasawwuf ou tazkiyya), chamada no Ocidente de ‘’sufismo’’, não é uma corrente ou um grupo particular dentro do Islã., e sim uma disciplina, tal como são as ciências da jurisprudência islâmica (em árabe fiqh) e doutrina (em árabe aqida).

O termo, na verdade, pouco importa, e alguns estudiosos contemporâneos como o mártir Shaykh al-Bouti  da Síria disse que não é necessário usar este termo, porque ele divide os muçulmanos. As palavras são sinais, e o que importa aqui é o que esta designado.

A ciência da jurisprudência islâmica (fiqh) tem como objetivo a pratica do Islã exteriormente, se tratando da obedecia exterior a Lei: cumprir com os atos rituais obrigatórios,  afastar se do proibido, conhecer os detalhes dos diferentes atos de adoração, conhecer as regras do comércio, etc…

A ciência da doutrina (aqida) tem com objetivo o fazer aceitar intelectualmente a fé islâmica baseada sobre o raciocínio e as provas, e não sobre o fanatismo e a cegueira, pela eliminação das duvidas e a preservação da fé islâmica dos desvios, a respeito de Allah e seus atributos, o livre arbítrio e a predestinação, o estatuto do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), de sua família e dos companheiros etc..

A ciência da purificação (tasawwuf) tem como objetivo a realização interior do Islã.

A base desta classificação, vem de um hadith (dito do profeta) mutio famoso chamado ‘’O Hadith de Gabriel’’, narrado pelo emir dos crentes, Omar Ibn-Khattab:

‘’Um dia, quando estávamos na companhia do Mensajeiro de Allah (sws), um homem se apresentou perante nós, com vestes de resplandecente brancura, e cabelos intensamente negros, e nele não se viam sinais de viagem (obs: era o anjo Gabriel), e nenhum de nós o conhecia. Se sentou perante o profeta (sws), apoiando seus joelhos contra os dele, e pondo suas mãos em suas coxas, disse: ‘’Oh Muhammad, fala-me do Islam!’’

O Mensajeiro de Allah (sws) disse: O islam é: que testemunhes que não há divindade além de Allah, e que Muhmmad é o mensageiro de Allah; que observe a oração, que pagues o zakat; que jejues no mês do Ramadã, e peregrines a Casa quando puderes’’.

E o homem disse: ‘’Falaste a verdade.’’

Então ficamos surpreendidos que ele perguntara e depois lhe dissera que havia dito a verdade, então o homem disse: ‘’Fala-me a cerca do Iman (fé).’’

E ele respondeu: Que creias em Allah, em seus anjos, em seus livros, em seus mensageiros, no dia do Juizo Final e que creias no decreto divino, tanto de seu bem como de seu mal. E o homem respondeu: ‘’Flaste a verdade.’’

E acrescentou: ‘’Fala-me sobre o Ihsan’’

E ele respondeu: Que adores a Allah como se o viste, já que se não o vês, ele te vê.’’

(Sahih Muslim) (1)

Então podemos inferir deste hadih que a ciência para se chegar ao Islam (neste contexto, a submissão exterior) é a jurisprudência islâmica (fiqh), a ciência para se chegar ao Iman (fé) é a teologia (aqida), e então a ciência superior que tem como objetivo o alcance da consciência total e permanente da presença de Deus em cada instante de nossa vida se chama sufismo em português, e tassawuf em árabe (2).

Este estado de perfeição da fé se chama ‘’ihsan’’, e só pode ser alcançado pela conformidade com o conjunto das ciencias interiores e exteriores. O caminho  começa com a submissão do corpo a Lei e ao conhecimento de Deus pela mente, e termina então pela proximidade divina depois da purificação da alma.

O tassawuf então é a ultima ciência do Islam, e o coração do Islam. O Islam foi revelado em definitivo para que possamos chegar a esta posição de aproximação com Allah, tal aproximação é alcansavel por todas as criaturas se seguem o método indicado pelo Alcorão e ensinamentos proféticos, que foram teorizados pelos sábios desta disciplina.

É então necessário para se chegar a esta posição de proximidade com o Criador a purificação do ego (nafs) e entregar-se totalmente a Ele em todos os aspectos de nossa vida.

Não se alcança este estado sem esforço e com facilidade, por isso se fez desenvolver uma ciência e método para atingir este objetivo. É muito recomendado, se não obrigatório, encontrar um professor para fazer este trabalho, porém tradicionalmente, a maior obra do Imam al-Ghazali (século XI) ‘’Reavivamento das Ciências da Religião’’’ (Ihya ‘Ulum al-Din), escrita justamente para lutar contra o que o sábio percebeu como uma perca de espiritualidade e uma superficialização da religião islâmica, esta obra é considerada como o ‘’mestre de quem não tem mestre’’.

De que isto se trata então?

Principalmente dos atos de adoração suplementares, com o intuito de ir além do obrigatório. As ferramentas principais são a oração, o jejum e o zikr (repetição dos nomes de Allah, e de frases islâmicas como ‘’subhana Allah’’ (Allah seja exaltado) , ‘’Alhamdulillah’’ (Que Allah seja louvado) ou ‘’La Illaha illa Allah’’ (Não há outras divindades além de Allah). Estas repetições devem ser acompanhadas de profunda reflexão sobre seus significados e sobre tudo que implicam estas frases e estes atributos divinos a respeito da Realidade (al-Haqq).

A outra parte essencial desta diciplina é a etica e exelencia no comportamento. É a prova de que o Ihsan, a adoração interior e sincera, é realizada pelo servo de Allah. A ideia de que todos os defeitos do comportamento são enfermidades do coração, como a ira, a inveja e o orgulho, são um tipo de adoração inconsciente a sua própria pessoa. Enquanto existirem estas enfermidades, o Tawhid, a Unicidade de Allah, não estará completo.

Ser realmente monoteísta, ou seja, adorar somente a Allah sem associação, não é algo que passa somente pela língua.

O profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse:

‘’A associonismo (associar a Deus com algo) (shirk) é mais oculto (no coração do ser humano) que uma formiga preta, caminhando sobre uma pedra negra em uma noite negra sem luar.’’ (3)

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O profeta Muhmmad (que a paz esteja com ele) também disse:

‘’Ninguém entrará no Paraíso se tem uma grama de orgulho em seu coração.’’

Então, a ciencia da purificação do ego (tasawwuf ou sufismo), também chamado de tazkiyya) não é algo opcional ou secundário, e sim tem uma importância capital por que o profeta Muhmmad (sws) disse:

‘’A fé não é algo que se pode pretender ter, a fé é a boa intenção que se tem no coração e se manifesta através do bom comportamento.’’ (4)

O sufismo foi estabelecido como um método para que justamente não se perca esta dimensão ensencial do Islam, e para que não esqueçamos que disto depende a salvação de nostr alma. Por isto que o Imam al-Junayd (século IX), um dos maiores mestres desta disciplina disse:

‘’O sufismo é integralmente bom comportamento, que excede o bom comportamento, excede o sufismo.’’

Então, se é assim, por que o sufismo é tão criticado por alguns grupos no Islam hoje em dia?

Bom, primeiro deve-se saber que até mesmo os mestres do sufismo criticaram muitíssimo e de uma maneira muito dura os ‘’pseudo-sufis’’, e até mesmo o próprio Imam al-Ghazali disse no século 11:

‘’Todas as ciências do Islam foram alteradas, exceto o sufismo, pois ele desapareceu totalmente.’’

Um outro sábio, o Imam al-Fushunji (século IX) sobre esta diciplina disse:

‘’O sufismo começou como uma realidade sem nome, e se tornou em um nome sem realidade.’’

Isto não significa que estes mestres abandonaram a disciplina: é impossível encontrar um só sábio (exceto alguns marginais) antes do século 19 que rechace o  tasawwuf como disciplina islâmica. O que se criticava eram os charlatões que utilizavam a ‘’espiritualidade’’ para manipular as massas e acumular riquezas e poder. Foram chamados de maneira depreciativa ‘’Os sufis profissionais.’’

Então não vamos negar os abusos feitos em nome desta ciência, tanto no passado como no presente, como as circundações ao redor dos túmulos de homens piedosos ou o exagero do papel do mestre que pode existir em alguns grupos, sem falar do menosprezo da lei religiosa algumas vezes.

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Porém, não é por que existem abusos feitos em nome de uma disciplina que esta disciplina deve ser rejeitada completamente. Sabemos que existem hadices inventados e falsos, e mesmo assim não vamos rejeitar a ciência dos ahadiths (narrações do profeta) por causa disto. Também existem opiniões jurídicas que foram motivadas pela politica, e isso não implica que devemos rejeitar a jurisprudência islâmica.

Ao contrário, é sempre importantíssimo ser vigilante e afirmar a norma para corrigir e manter pura das inovações detestáveis as diferentes ciências islâmicas.

Então, qual o critério para discriminar entre o sufismo verdadeiro e o falso?

O critério é a conformidade com o Alcorão e a Sunnah.

O Sheykh Tijani, uma das figuras mais importantes do sufismo africano, disse:

‘’Saiba que o sufismo é o respeito das ordens de Allah, e o afastamento de suas proibições, exteriormente e interiormente, o respeito ao que Ele gosta, e não do que você gosta para si mesmo.’’

Nada nem ninguém, no Islam pode pretender fazer algo que vá em contradição a Palavra de Allah (o Alcorão) e os ensinamentos do profeta (a sunnah). É por isto que muito frequentemente, os sábios no sufismo eram também mestres na jurisprudência (fiqh), como o famoso sábio Jalal-ad-Din ar-Rumi (4) ( (conhecido no Ocidente apenas como ‘’Rumi’’) que disse:

‘’Sou servo do Alcorão enquanto estou vivo,

Sou a poeira no caminho de Muhammad, o Escolhido,

Se alguém narra algo de mim exceto isso,

Não sou dele e ultrajo suas palavras.’’

Os inimigos do sufismo utilizam então textos de sábios anteriores contra os ‘’pseudo-sufis’’ para atacar o sufismo em generalidade.

Um exemplo disto, é a utilização abusiva do discurso de Ibn Taymiyya, referncia absoluta para estes grupos, quando ele mesmo era um grande adepto do sufismo ortodoxo, e disse em seu livro ‘’Minhaj al-Sunnah’’ (O caminho da Sunnah):

‘’O Imam Abu Hanifah. Imam Malik, Imam Shafi’i e o Imam Ahmad ibn Hanbal eram líderes na ciência de hadith, no comentário corânico (tafsir), no sufismo (tasawwuf) e na jurisprudência islâmica.’’ (6):

Estes sábios são os fundadores das 4 escolas do sunismo, e são as maiores referencias no Islam.

Ibn al-Qayyim al-Jawziyya, o mais famoso aluno de Ibn Taymiyya, disse em seu poema ‘’Al-Nuniyyah’’:

‘’Os sábios de hadith (ahlul hadith) em sua totalidade, os imames dos vereditos religiosos (fatawa), as pessoas das verdades das gnoses (irfan), os conhecedores do Senhor, do profeta, e dos graus das obras segundo suas importâncias, eram todos sufis (sufiya) seguidores da Sunnah e do exemplo profético, e não eram desviados ou extraviados.’’

Um fator importante de se mencionar que expica a rejeição do sufismo por uma minoria muito ativa de muçulmanos, é a alteração desta ciência pela corrente ‘’new age’’ de EEUU, que tentou ‘’desislamizar’’ totalmente figuras importantes do sufismo turco e iraniano como Rumi e Attar.

Um dos principais artesões disto foi o conhecido como Idris Shah, integrante destas correntes ocultistas ‘’new-age’’, que escreveu em 1964 o livro ‘’Os Sufis’’, onde fala do sufismo como um tipo de corrente que transcende todas as religiões, um tipo de marçonaria espiritual, na qual se ensina a ‘’gnoses universal.’’ Estas ideias, produtos de uma década de rebelião contra as instituições, e em particular, contra as religiões tradicionais, popularizou muito a noção do sufismo no Ocidente. porém muitíssimo alterado da mesma doutrina original do sufismo.

Foram então atribuídas falsas posições heterotodoxas aos mestres do sufismo, e as vezes, até textos que não estavam nos manuscritos originais, que não eram seus, como por exemplo a equivalencia entre todas as religiões: como os ocidentais geralmente não tem um grande conhecimento do Islam, interpretaram os comentários sobre Jesus, Moises e Muhammad (que a paz esteja com todos eles) como um tipo de relativismo espiritual, no qual todas as religiões são igualmente verdadeiras.

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Quem conhece o Alcorão e a teologia islâmica sabe que não se pode inferir isto.

Outro fator de rejeição é a interpretadão literalista da poesia destes mestres.

A poesia é o lugar por excelência da metáfora, então não se pode ler da mesma maneira um poema e um tratado teológico.

Dai nascem dos adversários modernos do sufismo, como dos orientalistas ocidentais, a ideia de que o sufismo defende o panteísmo, ou seja, não distinção entre o Criador e a criatura.

Esta ideia é totalmente absurda, e pode ser inferida por uma leitura literalista das próprias palavras de Allah narradas pelo profeta Muhammad (sws):

‘’Quem mostre inimizade a um devoto Meu, Eu estarei em guerra com ele. Meu servo não se aproxima de Mim com nada mais amado para Mim que os deveres religiosos que lhe confiei, e se aproximam continuamente de Mim realizando obras piedosas voluntárias, até que Eu o ame por isto. Quando o amo, Eu sou seus ouvidos com os quais ouve, Sou suas vistas com as quais vê, sua mão com a que faz, e seus pés com os quais caminha. Quando Me pede algo, Eu eu o darei, e se Me pede refugio, Eu o garantirei. Eu não detesto nada tanto como destesto tomar a alma de Meu servo fiel, ele detesta a morte, e Eu detesto feri-lo.’’(8)

‘’Allah é a Luz dos céus e da terra.’’’ (Alcorão 24:35)

São obviamente metáforas, não iremos inferir nestas palavras uma aceitação da doutrina da encarnação no Islam, ou que a Luz é realmente de essencia divina.

É um tema muito amplo e a ciência do tasawwuf é tão rica no Islam como as demais ciências tradicionais. Então, podem esperar mais publicações e traduções sobre o sufismo na sessão de ‘’Espiritualidade’’ de nosso site.

E Allah sabe mais.

(wa Allahu Alem)  

Dante Ibrahim Matta

(1) Un comentario completo de este hadiz

(2) Una video de Islam Ibn Ahmad sobre la origen del término “Sufismo” (próximamente)

(3) Narrado por ibn Abi Hatim et citado en Taysir al-Aziz al-Hamid, p. 587

(4) Narrado por Daylami

(5) http://www.sunnismo.com/yalal-ad-din-rumi.html

(6) “أئمة أهل الحديث، والتفسير، والتصوف، والفقه، مثل الأئمة الأربعة وأتباعهم” (vol 1, p. 172, 173)

(7) “أهل الحديث جُيعهم وأئمة الفتوى وأهل حقائق العرفان

العارفون بربُم ونبيهم ومراتب العمال في الرجحان

صوفية سنية نبوية ليسوا أولي شطح ولا هذيان”

(8) Bukhari 6502

Fonte: http://www.sunnismo.com/preguntas/sufismo-islamico-y-seudo-sufismo

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