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O Sufismo é uma Inovação na religião Islâmica? – Sheykh Nuh Ha Mim Keller

Pergunta:  Como você responderia à reivindicação de que o sufismo é bid’a (inovação na religião)?

Resposta:

Eu responderia procurando ver como os ‘ulamâ’ tradicionais ou sábios islâmicos têm visto isso. Pelo período mais longo da história islâmica — dos tempos omíadas aos abássidas, mamelucos, até o fim do período otomano de seiscentos anos — o sufismo tem sido ensinado e entendido como uma disciplina islâmica, como a exegese alcorânica (tafsîr), hadîth, recitação do Alcorão (tajwîd), princípios da fé (‘ilm al-tauhîd) ou qualquer outra, cada uma preservando algum aspecto particular do dîn ou religião do Islã. Enquanto os detalhes e terminologia dessas disciplinas da Sharî’a eram desconhecidos para a primeira geração de muçulmanos, quando elas vieram a existir, não foram consideradas bid’a ou “inovação repreensiva” pelos ‘ulamâ’ da Sharî’a porque para eles bid’a não pertence aos meios, mas antes aos fins, ou mais especificamente, àqueles fins que em nada o Islã atestou a validade.

Para ilustrar esse ponto, podemos notar que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê paz) nunca em sua vida rezou numa mesquita de concreto reforçado, com um chão encarpetado, janelas de vidro e assim vai, embora essas coisas não são consideradas bid’a, porque nós muçulmanos fomos comandados a nos juntarmos em mesquitas para rezar, e construções novas e grandiosas para isso são meramente meios para cumprir o comando.

No reino do conhecimento, livros de interpretação detalhada do Alcorão, versículo por versículo e sura por sura, não eram conhecidos à primeira geração do Islã, nem o termo “tafsîr” era corrente entre eles, embora por causa do benefício em preservar um aspecto vital da revelação, o entendimento do Alcorão, quando a literatura de tafsîr veio a existir, era reconhecido que serviam a um fim endossado pela Sharî’a e não era condenado como bid’a. O mesmo é verdade sobre várias ciências islâmicas, tal como ‘ilm al-jarh wa tadil ou “a ciência de pesar os fatores positivos e negativos para avaliar a confiabilidade dos narradores de hadîth, ou ‘ilm al-tauhîd, “a ciência dos princípios da fé islâmica” e outras disciplinas essenciais à Sharî’a. Nessa conexão, o Imâm Shâfi’i (morto em 204 h. /820 d.C.) disse: “Qualquer coisa que tenha um apoio (mustanad) da Sharî’a não é bid’a, ainda que os primeiros muçulmanos não a tenham feito.” (Ahmad al-Ghimari, Tashnîf al-adhân, Cairo: Maktaba al-Khanji, n.d., 133).

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Similarmente ‘ilm al-tasawwuf, “a ciência do sufismo” veio a existir para preservar e transmitir um aspecto particular da Sharî’a, que é ikhlâs ou sinceridade. Foi reconhecido que a Sunna do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê paz) não era só palavras e ações, mas também estados de ser: que um muçulmano não deve somente dizer certas coisas e fazer certas coisas, mas também precisa ser algo. A Sharî’a comanda, por exemplo, em vários versículos alcorânicos e hadîths proféticos, a temer a Allah, a ter sinceridade em relação a Ele, a ter tanta certeza do conhecimento de Allah que se adore a Ele como se O visse, a amar o Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê paz) mais do que a qualquer outro ser humano, a mostrar amor e respeito a todos os companheiros muçulmanos, a demonstrar misericórdia e a ter muitos outros estados do coração. Do mesmo modo nos proíbe de tais estados internos como inveja, malícia, orgulho, arrogância, amor por esse mundo, raiva por causa do próprio ego, e assim vai. Al-Hakîm al-Tirmidhi relata, por exemplo, com uma corrente de transmissão julgada rigorosamente autenticada (sahîh) por Ibn Main, o hadîth “A raiva estraga a fé (îmân) como [a amargura da] seiva de aloés estraga o mel” (Nawâdir al-usûl. Istambul 1294/1877. Reimpr. Beirute: Dar Sadir, n.d., 6).

Se refletirmos sobre esses estados, obrigatórios de se atingir ou de se eliminar, notaremos que eles procedem de disposições, disposições não somente faltando no coração humano não regenerado, mas adquiridas com algum esforço, resultando numa mudança humana tão profunda que o Alcorão em muitos versículos a chama de purificação, como quando Allah diz na sura al-‘Alâ, por exemplo, “Bem-aventurado aquele que se purificar”. (Alcorão 87:14). Trazer essa mudança é o objetivo da ciência islâmica do sufismo, e não pode ser chamada de bid’a, porque a Sharî’a nos comanda a realizar essa mudança.

Num nível prático, a natureza dessa ciência de purificar o coração (como virtualmente todas as outras disciplinas islâmicas tradicionais) requer que o conhecimento seja tomado daqueles que o possuem. É por isso que historicamente descobrimos que grupos de estudantes se reuniam em volta de shaikhs particulares para aprender deles a disciplina do sufismo. Enquanto tais tarîqas ou grupos, do passado e do presente, têm enfatizado formas diferentes para realizar o apego do coração a Allah comandados pela revelação islâmica, algumas características são encontradas em todos eles, tal como aprender o conhecimento de um professor por preceitos e exemplo, e então se aumentando metodicamente o îmân ou fé aplicando esse conhecimento através de atos obrigatórios e super-rogatórios de adoração, entre os maiores do último sendo o dhikr ou lembrança de Allah. Há muito no Alcorão e na Sunna que atesta a validade dessa abordagem, tal como no hadîth relatado por al-Bukhâri em que:

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Allah o Altíssimo diz: “… Meu escravo se aproxima de Mim com nada mais amável para Mim do que o que Eu tornei obrigatório para ele, e Meu escravo segue se aproximando mais de Mim com atos voluntários até que Eu o ame. E quando Eu o amo, sou sua audição com a qual ouve, sua vista com a qual vê, sua mão com a qual pega, e seu pé com o qual anda. Se ele Me pedir, certamente lhe darei, e se ele buscar refúgio em Mim, certamente o protegerei (Sahîh al-Bukhâri. 9 vols. Cairo 1313/1895. Reimpr. (9 vols. em 3). Beirute: Dâr al-Jîl, n.d., 5.131: 6502)

— que é uma forma de exprimir que tal pessoa realizou a consciência consumada do tauhîd ou “unidade de Allah” demandada pela Sharî’a, que implica em sinceridade total a Allah em todas as ações. Por causa desse hadîth e outros, os ‘ulamâ’ tradicionais reconheceram já faz tempo que o ‘ilm ou “Conhecimento Sagrado” não é suficiente por si mesmo, mas também implica ‘amâl ou “aplicar o que se sabe”– assim como o hâl resultante ou “estado espiritual louvável” mencionado no hadîth.

É percebido em todas as épocas islâmicas que quando um sábio reúne esses aspectos, suas palavras espelham sua humildade e sinceridade, e por essa razão entram nos corações dos ouvintes. É por isso que descobrimos que tantos sábios islâmicos aos quais Allah deu taufîq ou sucesso em seu trabalho eram sufis. De fato, jogar fora toda obra tradicional das ciências islâmicas de autoria daqueles educados por sufis seria descartar 75 por cento ou mais dos livros do Islã. Entre esses homens se incluíam tais sábios como o Imâm hanafi Muhammad Amîn Ibn ‘Abidîn, Shaikh al-Islâm Zakariyya al-Ansâri, Imâm Ibn Daqîq al-‘Eid, Imâm al-‘Izz Ibn ‘Abd al-Salâm, ‘Abd al-Ghâni al-Nabulsi, Shaikh Ahmad al-Sirhindi, Shaikh Ibrâhîm al-Bajuri, Imâm al-Ghazzâli, Shah Wali Allah al-Dahlawi, Imâm al-Nawawi, o mestre em hadîth (hâfidh, alguém com 100.000 hadîths de memória) ‘Abd al-‘Adhîm al-Mundhiri, o mestre em hadîth Murtada al-Zabidi, o mestre em hadîth ‘Abd al-Ra’uf al-Manawi, o mestre em hadîth Jalâl al-Dîn al-Suyûti, o mestre em hadîth Taqi al-Dîn al-Subki, Imâm al-Rafi’i, Imâm Ibn Hajar al-Haytami, Zain al-Dîn al-Mallibari, Ahmad ibn Naqib al-Misri e muitos outros.

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A atitude do Imâm al-Nawawi quanto ao sufismo é clara em sua obra Bustân al-‘Ârifîn [O bosque dos conhecedores de Allah] sobre o assunto, assim como suas referências ao manual sufi famoso de al-Qushairi, al-Risâla al-Qushairiyya, através de seu próprio Kitâb al-adhkâr [Livro de lembranças de Allah], e o fato de que quinze das dezessete citações sobre sinceridade (ikhlâs) e ser verdadeiro (sidq) numa seção introdutória de sua obra legal mais extensa (al-Majmû’: sharh al-Muhadhdhab. 20 vols. Cairo n.d. Reimpr. Medina: al-Maktaba al-Salafiyya, n.d., 1.1718) serem de sufis que aparecem por nome no Tabaqat al-Sûfiyya [As gerações sucessivas dos sufis] de al-Sulami. Até mesmo Ibn Taimiyya (cujas visões sobre o sufismo permanecem estranhamente não familiares até mesmo para aqueles que ele é seu “Shaikh do Islã”) devotou os volumes dez e onze de seu Majmû’ al-fatâwa ao sufismo, enquanto seu estudante Ibn Qayyim al-Jauziyya escreveu seu Madârij al-Sâlikîn de três volumes como um comentário detalhado sobre o Manâzil al-Sairin de ‘Abdullah al-Ansâri, um guia aos maqamât ou “estações espirituais” do caminho sufi. Esses e muitos outros sábios muçulmanos sabiam de primeira mão o valor do sufismo como uma disciplina auxiliar da Sharî’a necessária para purificar o coração, e essa era a razão pela qual a Umma como um todo não julga o sufismo como sendo uma bid’a desde os tempos da civilização islâmica, mas em vez disso o reconhece como a ciência do ikhlâs ou sinceridade, tão urgentemente necessária por todo muçulmano num “dia em que de nada valerão bens ou filhos, salvo para quem comparecer ante Allah com um coração sincero.” (Alcorão 26:88, 89).

E somente Allah dá o sucesso.

Fonte: http://www.masud.co.uk/ISLAM/nuh/sufism.htm

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