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A Realidade entre Religião e Ciência: Uma conversa com o Sheikh Said Fodeh

Na segunda, 5 de janeiro de 2016, Mohamed Ghilan entrevistou Shaykh Sa’id Fodeh para obter sua contribução em alguns assuntos relacionados à teologia Islâmica. Shaykh Fodeh é provavelmente o mais proeminente teólogo muçulmano da escola Ash’ari vivo hoje, um mestre da tradição do Kalam e autor de uma extensa lista de 80 livros nessa disciplina. Ele vive em Amman, Jordânia.

 

Essa conversa é dividida em duas partes. A primeira é sobre as divisões dentro da comunidade muçulmana na América, e em geral no ocidente, junto com linhas de falha teológicas, nas quais o campo dos Salafis sob a bandeira do Imam Ibn Taymiyyah enfrentam o campo dos Tradicionalistas sob a bandeira do Imam Al Ghazali. A parte dois é uma discussão sobre a relação entre racionalismo e empirismo, e como isso se relaciona com o Islam, ciência e ateísmo. Abaixo segue uma tradução da parte dois da conversa:

 

Mohamed Ghilan: Muitas pessoas falam sobre as razões sociais e políticas que podem conduzir alguém a questionar a existência de Deus e a validade da religião como algo enraizado na revelação. Entretanto, a questão que gostaria de colocar para você é: se os humanos têm uma tendência intelectual em direção às validações empíricas das proposições, em oposição às racionais.

 

Shaykh Sa’id Fodeh: O método de investigação empírico em si mesmo não leva ao ateísmo. Mas, se o que está sendo proposto aqui é que é impossível ter conhecimento objetivo de qualquer coisa exceto através do caminho do empirismo, então com certeza a pessoa seria levada a questionar se Deus existe ou não. A pessoa pode se referir a seus sentimentos e ao que é chamado de “experiências religiosas” como prova de que há ou não um Deus. Mas essas experiências não contam como evidências dentro da maneira racional que as evidências são aceitas. O que estou tentando dizer é que se você limita a si mesmo aos seus sentidos e adota o cientismo como sua posição, você vai perceber que isso é bem deficiente em fornecer provas para Deus. De fato, essa abordagem não pode provar ou refutar a existência de Deus, e a única conclusão que ela pode dar é a desorientação. Você não se torna capaz nem mesmo de propor essa questão. Assim sendo, a maioria daqueles que adotam a abordagem empírica para investigar as questões de existência, excluíndo todas as outras abordagens, vai lhe dizer que é agnóstica. Quando restrito a isso, o método em si não fornece a eles evidência direta que prove ou refute a existência de Deus.

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O ser humano, por natureza, reconhece através do intelecto que nem tudo na existência precisa necessariamente ser sujeito à experiência empírica. Há muitas coisas na existência que você não pode experimentar empiricamente, mas pode alcançar por investigação racional. Posteriormente, você pode verificar se é possível testá-las empiricamente ou não, mas isso não valida propriamente sua existência.

 

MG: Então, como você responderia a alguém que dissesse que, na verdade, aquilo que se se chama capacidade racional não passa de uma amálgama de experiências empíricas que a pessoa teve desde a época que ela nasceu?

 

SF: Tem muitas pessoas que dizem isso. Mas, pegue como exemplo a pura matemática e a física teórica. As provas fornecidas nesses campos não são empíricas por natureza. São provas racionais antes de serem empíricas. Quando Einstein propôs suas teorias, elas não foram derivadas de investigações empíricas per se. Ao contrário, foram as investigações empíricas que confirmaram suas teorias mais tarde. Dirac propôs a existência do positron, que foi empiricamente confirmada depois de mais ou menos 14 anos. A quem quer que afirme que as capacidades racionais apenas se formam após as experiências empíricas, ou que elas são restritas ou limitadas pela experiência empírica, eu imploraria que essa pessoa revisasse sua história sobre as capacidades racionais do intelecto. Capacidades racionais são mais amplas que isso. A investigação empírica é uma condição para confirmar julgamentos racionais sobre propriedades físicas dos itens que são sujeitos ao método científico, mas não é uma condição para gerar esse julgamento racional em primeiro lugar.

 

Ainda estamos descobrindo, desde os dias de David Hume, e mesmo antes dele, que, apesar de todos os ajustes feitos ao método empiricista de pensamento para refiná-lo, aqueles que o adotam são incapazes de explicar muitos fenômenos. Não estou me referindo aos fenômenos espirituais ou puramente racionais. Quero dizer que, em muitas instâncias, as pessoas são incapazes de examinar até mesmo os fenômenos físicos, se elas estão realmente restritas ao empirismo. Thomas Kuhn falou sobre como revoluções científicas são conduzidas pela acumulação de evidência empírica. De fato, o que está realmente acontecendo é uma reversão intelectual ao racionalismo, no qual cientistas estão tentando racionalmente explicar como dar sentido às evidências empíricas que foram coletadas até agora. Pegue a cosmologia, por exemplo. Fomos da física Newtoniana até a Teoria da Relatividade, e então para a física quântica. Ainda assim, não parece haver uma relação próxima e necessária entre essas teorias. Kuhn diria que elas representam revoluções científicas, mas não são. Essas teorias, e outras na ciência, são produtos de avaliações racionais que não estão limitadas pela evidência empírica no sentido de que estão subordinadas por ela. Em vez disso, o racionalismo veio de cima para dar sentido às investigações empiricistas. Foi um tipo de avaliação metafísica.

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MG: Esse ponto sobre metafísica traz uma questão sobre a relação entre o Corão e a ciência. Há algum precedente histórico a respeito do que é conhecido como “Os Milagres Científicos do Corão”, no qual eruditos muçulmanos que interpretaram o Corão falaram sobre, ou esse é um movimento relativamente moderno?

 

SF: Na verdade, eruditos já se dirigiram a isso desde cedo, e o Imam Ash’Shatibi, dentre outros, tem várias instâncias contra tais declarações. Isso costumava vir de formas diferentes quando alguns afirmavam que o Corão continha versos que revelavam as características físicas essenciais de certas coisas no mundo. Mas, em tempos modernos, quando as descobertas científicas se tornaram mais numerosas, algumas pessoas começaram a prestar atenção em algumas indicações no Corão que pareciam coincidir com essas descobertas. Contudo, isso não tem precedente histórico. Por exemplo, apesar da crença prevalente durante seu tempo de que era plana, Ar’Razi afirmou que a Terra era redonda baseado em sua compreensão do Corão antes que isso fosse provado empiricamente. Ibn Hazm também fez o mesmo e reforçou sua posição de que a Terra era redonda usando algumas provas matemáticas e geométricas.

 

Meu ponto aqui é que a tentativa de tomar alguns textos do Corão ou dos Hadith e interpretá-los numa luz científica sempre esteve aí. Entretanto, a questão aqui é se isso pode ser considerado um “milagre”. Deus explicitamente desafiou as pessoas com esses versos em fundamentos científicos? Deus desafiou os árabes que não sabiam nada sobre a origem do universo, ou sobre a teoria do Big Bang, ou qualquer outra teoria científica do tipo? A questão não é sobre se alguns versos do Corão dão base a significados que coincidem com o conhecimento científico. Deus falou com as pessoas ao redor do Profeta Muhammad ﷺ ou das três primeiras gerações de muçulmanos com a expectativa de que eles deveriam entender isso da mesma forma que nós estamos tentando hoje? Ou há profundidades de significados no Corão que podem ser compreendidos por diferentes pessoas de diferentes gerações a depender de seu conhecimento? E, nós podemos tomar uma teoria científica atual e afirmar que ela bate com certos versos do Corão?

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MG: O perigo aqui é que nós podemos dizer hoje que alguns versos coincidem com algumas teorias científicas dominantes, apenas para descobrir em 50 anos, depois de mais pesquisa, que aquelas teorias que nós alinhamos com o Corão acabaram por estar erradas. Isso acaba nos colocando em uma posição embaraçosa.

 

SF: Estou totalmente com você. Em princípio, tentativas de explicar certos versos em luz de teorias científicas atuais sempre foi feito. Entretanto, há muitas restrições. É por isso que os eruditos que lidam com a exegese do Corão desde o tempo do Imam Ash’Shatibi declaram que não é possível interpretar um verso do Corão à luz de uma descoberta científica a não ser que essa descoberta seja inequívoca e absoluta. É essencialmente um erro interpretar o Corão usando informação que possa mudar. Fazer isso só irá enfraquecer o Corão e a própria realidade do Islam. É por isso que um número de condições foi colocado no começo para administrar como o Corão pode ser interpretado. Mas, como você sabe, nem todo mundo fica dentro dos limites de interpretação, motivo pelo qual temos tantas opiniões divergentes.

 

Eu me lembro que, quando era jovem, alguns eruditos costumavam falar sobre as sombras ao comentar sobre o verso “Vocês não consideraram o trabalho de seu Senhor em como Ele extende a sombra?” [25:45]. Alguém disse que isso indicava que, quando a luz era emitida pelo Sol, ela se curvava quando passava pela atmosfera da Terra, o que por sua vez fazia a sombra mais curta do que ela deveria ser de verdade. Eu ouvi isso de alguém há mais de 30 anos atrás e me lembro na época que era uma boa visão sobre o verso. Mas a questão ainda permanece: quão longe podemos ir nessa estrada? É tal interpretação realmente válida?

 

Exegese do Corão é um assunto muito restrito, e quando se trata de ciência, só se pode usar fatos objetivos e inequívocos, e não teorias, e apenas quando a linguagem permite que tal significado seja inferido de um verso. É assim que entendo o assunto e Deus sabe melhor.

 

Fonte: http://almadinainstitute.org/blog/the-reality-between-religion-science-a-conversation-with-shaykh-saeed-fodeh/

 

 

 

 

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