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A Primeira Cruzada foi Realmente uma guerra contra o Islã?

É amplamente acreditado que as Cruzadas foram um choque de civilizações. Contudo um exame mais cuidados, escreve Nicholas Morton, revela a complexidade que tem iludido muitos historiadores.


Depois de mais de um mês de intensos combates, os exércitos da Primeira Cruzada entraram em Jerusalém em 15 de julho de 1099. Talvez 3.000 da população muçulmana e judaica morreram na sangrenta ofensiva, e mais massacres ocorreram nos dias seguintes. Foi um ato de guerra santa, uma limpeza simbólica da Cidade Santa, que mais tarde seria lembrada nas crônicas medievais, que descreve os francos vitoriosos vagando em meio ao sangue dos derrotados.

Esses horríveis acontecimentos são contados entre os mais cruéis atos de guerra. Eles também são oferecidos como prova inequívoca de que a Primeira Cruzada instigou um choque de civilizações entre o cristianismo e o Islã, que duraria séculos. Comentaristas de muitos antecedentes, abordando uma variedade de audiências, trataram este veredito como fato, caracterizando a Primeira Cruzada como um conflito quintessencial cristãos versus muçulmanos. E ele continua a alimentar o ódio há nove séculos. No entanto, até que ponto isso é corroborado pelas evidências? A Primeira Cruzada foi uma guerra contra o Islã?

Papa Urbano II anuncia a Primeira Cruzada, manuscrito francês do século XV. Bridgman Imagens

Papa Urbano II anuncia a Primeira Cruzada, manuscrito francês do século XV. Bridgman Imagens

Para responder a essa pergunta é necessário voltar um século antes da campanha e centenas de milhas a leste, para o grande mar de grama das estepes da Ásia Central. Era uma região longamente atravessada por tribos nômades, pastando seus rebanhos e lutando guerras de clãs. Várias influências religiosas moldavam suas crenças, embora a maioria praticasse alguma forma de xamanismo.

No final dos anos 900, várias tribos turcas começaram a migrar para o sul em direção ao mundo muçulmano. Algumas vinham como aventureiros, outras como invasoras, e outras como mercenárias. Com o tempo, esse movimento se transformou em um impulso inexorável de conquista. Nas primeiras décadas do século XI, os turcos – liderados pela família seljúcida- progrediram firmemente, capturando Bagdá, capital do califado abássida, em 1055. Em 1070, os turcos seljúcidas haviam se dirigido para a Síria, onde os governantes locais árabes e curdos morriam por suas espadas ou submetiam-se à autoridade seljúcida. Em 1077 eles entraram em conflito com outro poder muçulmano, o califado fatimida xiita do Egito, e quase conseguiram conquistar o Delta do Nilo. Em uma série de invasões os turcos igualmente impuseram seus domínios a noroeste no império bizantino cristão, e em 1071 foram vitoriosos em Manzikert no leste da Turquia, derrotando as forças do imperador Romanus Diogenes IV. Esta derrota e as incursões sustentadas feitas pelos turcos em território cristão ao longo dos anos seguintes provocaram apelos à guerra santa em apoio de uma Bizâncio em dificuldades. Em 1095 isso culminou na Primeira Cruzada.

O cerco de Antioquia, ilustração francesa do século XIV. Bridgeman Images / Bibliothèque Municipale de Lyon

O cerco de Antioquia, ilustração francesa do século XIV. Bridgeman Images / Bibliothèque Municipale de Lyon

Os turcos foram o primeiro grande adversário dos cruzados e, embora o papado tivesse motivos complexos para lançar a campanha, a expedição era em parte um contra-ataque contra este inimigo recém-chegado. Ao lutar contra os turcos, o papa Urbano II não estava fazendo nada especialmente novo. Ele era simplesmente o último de uma linha de governantes, cristãos e islâmicos, que tentaram uma ação defensiva contra eles quando se expandiram para fora da estepe euro-asiática. Esta não era uma guerra direta de “Ocidente” contra “Oriente”; É melhor caracterizada como a fase mais recente da luta entre os povos nômades da Ásia Central e as sociedades agrícolas em torno de suas margens. As características desta competição devem ser vistas em toda a Eurásia e vão desde a construção da Grande Muralha da China até a queda do Império Romano do Ocidente; Ambas são manifestações da disputa entre povos pastorais e agrícolas.

Após o chamado do papado às armas no Concílio de Clermont em 1095, os primeiros cruzados começaram a preparar-se para a longa viagem leste. Nesta fase, os seus objectivos tinham começado a mudar. Embora o papa tivesse encorajado os guerreiros da cristandade a marchar contra um inimigo poderoso, este apelo estaria ligado a um objetivo mais inspirador: a reconquista de Jerusalém. Foi este último objetivo que mais ecoou com o público de Urbano II. O papado podia ver o benefício de afastar os seljúcidas na distante Anatólia, mas para a maioria das famílias de cavaleiros as guerras entre Bizâncio e os turcos estavam muito além de seu horizonte mental.

A perspectiva de retomar Jerusalém era muito mais emocionante. Os europeus ocidentais sabiam sobre a Terra Santa e Jerusalém desde o nascimento e o pensamento de ganhá-las galvanizou-os em ação em números colossais. Entre os documentos sobreviventes produzidos pelos cruzados durante os preparativos para a campanha, apenas cerca de 20% mencionam a luta contra um inimigo ao citar seu propósito de partida, enquanto todos se referem a Jerusalém. Da mesma forma, a mera presença de milhares de não-combatentes nos exércitos das cruzadas demonstra que, pelo menos para eles, isto foi uma peregrinação a Jerusalém, não um contra-ataque às invasões turcas. Consequentemente, a Primeira Cruzada começou como um caso estranho: uma guerra religiosa lançada pelo papa para conter os turcos – tal como muitos outros governantes cristãos e islâmicos haviam feito durante as conquistas turcas de anos anteriores – ainda travada por guerreiros cuja participação estava fundamentada no desejo de retomar Jerusalém.

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A maioria dos peregrinos partia sem saber praticamente nada sobre os turcos; A palavra “turco” não faz uma única aparição nas fontes que descrevem os preparativos para a campanha. Eles reconheciam que esse esforço exigiria combate, mas eles não sabiam praticamente nada sobre os povos distantes que poderiam barrar seu progresso, além do fato básico de que eles seriam um inimigo não-cristão de algum tipo. Alguns documentos, escritos pelos cruzados que partiam ou em seu nome, falam de marchar para enfrentar os “sarracenos” (um termo genérico que designa “muçulmanos”), mas a maioria refere-se a expectativa de lutar contra os “pagãos” (um termo genérico no Período medieval para não-cristãos). Conseqüentemente, eles sabiam que estariam lutando numa guerra religiosa, mas a identidade de seu inimigo era indistinta.

Nesta fase, o conceito de combater o Islã não era um dos principais objetivos da cruzada. Para a maioria dos cruzados, o Islã (ou a “lei sarracena”) era um sistema de crenças quase inteiramente desconhecido. Para a maioria dos cruzados da França, das Ilhas Britânicas ou do norte da Alemanha, a fronteira muçulmana ficava a centenas de quilômetros de suas terras e o conhecimento viajava lentamente. Alguns acreditavam – erradamente – que era um sistema de crenças politeísta adorador de muitos deuses. É provável que muitos não tivessem ouvido falar da religião sarracena. Um testemunho surpreendente é oferecido por um cronista inglês posterior, William de Malmesbury. Ele o escreveu várias décadas depois, quando a notícia da Primeira Cruzada e as guerras em curso sobre Jerusalém se infiltraram na cristandade ocidental. Mesmo assim, apesar da disponibilidade de informações sobre o Oriente Próximo de cruzados que voltavam para casa, ele ainda sentia a necessidade – surpreendentemente – de explicar que havia uma diferença entre a religião praticada pelos “sarracenos” e a espiritualidade das tribos pagãs vivendo na Região do Báltico. Ele antecipou pouco conhecimento entre sua audiência pretendida. Consequentemente, longe de se inflamar com a fúria anti-islâmica, os contemporâneos da cristandade ocidental não sabiam praticamente nada sobre os muçulmanos, uma ignorância que persistiu mesmo após o retorno dos cruzados.

Assalto cruzado em Jerusalém, 1099, ilustração francesa do século XIV. © Bridgeman Images / Bibliothèque Nationale, Paris

Assalto cruzado em Jerusalém, 1099, ilustração francesa do século XIV. © Bridgeman Images / Bibliothèque Nationale, Paris

Alguns poucos dos cruzados estavam mais bem informados, incluindo os guerreiros normandos que recentemente conquistaram a Sicília, uma ilha anteriormente sob domínio muçulmano. Os normandos na Sicília presidiam uma sociedade multicultural e sua consciência da crença e cultura islâmica era considerável. Mesmo assim, sua proximidade não se traduziu em uma maior motivação anti-islâmica quando na Primeira Cruzada. O comandante sul italiano, Boemundo de Taranto, juntou-se a cruzada em 1096 quando ele e seu meio-irmão Roger sitiavam a cidade de Amalfi. Seu exército combinado atacando a cidade foi apoiado por um grande contingente de tropas muçulmanas recrutadas das terras de Roger na Sicília. Como resultado, quando Boemundo “tomou a cruz”, ele o fez enquanto estava cercado por milhares de guerreiros muçulmanos aliados. É um cenário que está em desacordo com a idéia popular de que esta era uma guerra contra o Islã.

Tendo-se reunido em Constantinopla, os cruzados avançaram através da Anatólia, para a Síria e para o sul, em direcção a Jerusalém. No caminho eles travaram batalhas repetidas contra os numerosos líderes turcos que governavam as terras ao longo da rota. Os francos aprenderam a respeitar seus oponentes, cujas ondas de arqueiros montados provaram ser um desafio para os exércitos cristãos de movimento lento. Alguns autores que acompanhavam os cruzados ficaram tão inspirados pela proficiência dos turcos na guerra que até especularam que seus povos deviam ser relacionados.

Durante seu avanço, os cruzados começaram a se interessar pela cultura e crenças turcas. Eles notaram, por exemplo, que os turcos tendiam a ser barbados e que muitos observavam o chamado à oração. Após a conquista da cidade síria de Antioquia, os guerreiros cristãos notaram que os turcos tinham convertido a igreja de São Pedro em uma mesquita e coberto suas estátuas com cimento. Esses relatos servem como testemunho involuntário das crenças religiosas variáveis dos turcos. Na época da Primeira Cruzada, muitos comandantes seljúcidas e seus homens haviam começado a trocar suas antigas fés e costumes xamanistas pelas crenças e práticas islâmicas, representando uma tendência – comum ao longo da história – de que os conquistadores fossem influenciados pelas crenças das pessoas que eles tinha usurpado. Por exemplo, o uso de cimento para obscurecer as estátuas na igreja de São Pedro refletem a prática islâmica de não representar a forma humana dentro de espaços sagrados.

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No entanto, os cruzados também relataram práticas distintamente não-islâmicas. Eles observaram que alguns turcos enterravam seus mortos com bens nos túmulos, como armas, roupas e ouro. Os turcos também tinham um grande interesse na astrologia e continuaram a incorporar os símbolos de seu antigo modo de vida na estepe em sua cultura política. Isto inclui o símbolo central do arco e flecha. Havia também uma tendência entre alguns comandantes de escalpelar seus inimigos. O atabeg (regente) turco de Damasco, que lutou contra os francos em Antioquia, tornou-se mais tarde famoso por sua coleção de copos gravados no crânio de seus inimigos, enquanto outros turcos eram bem conhecidos por suas prolongadas bebedeiras. Nenhuma dessas práticas tem raízes no mundo islâmico e na verdade remontam sua antiga cultura xamânica na estepe da Ásia Central.

Em última análise, os turcos na época da Primeira Cruzada eram pessoas que passavam por um período de transição. Sua antiga cultura de estepe e suas crenças xamanísticas estavam se fundindo e lentamente dando lugar ao mundo agrícola e à religião islâmica do Oriente Próximo. Sua cultura era uma mistura de diferentes influências e sua identidade estava mudando lentamente. Esta evolução levou séculos para chegar ao seu ponto culminante, mas, no momento da Primeira Cruzada, os turcos ainda estavam em uma fase relativamente precoce do processo. Além disso, os turcos parecem, em alguns casos, ter mantido suas crenças religiosas levianamente, permitindo-se assumir uma identidade parcialmente islâmica, possivelmente com o objetivo pragmático de tornar seu controle mais aceitável para seus súditos muçulmanos. Notavelmente, uma vez que começaram a sofrer a derrota nas mãos dos cruzados, há mesmo relatos de comandantes turcos que ofereciam negociar sua aderência religiosa (nominalmente sunita) em troca da ajuda militar de outros poderes xiitas vizinhos.

Quando os cruzados lutaram suas batalhas épicas contra os turcos, eles não estavam instigando um conflito com o Islã. Tratava-se antes de um confronto entre, por um lado, os peregrinos que desejavam limpar o caminho para Jerusalém e, por outro, os turcos, cujas crenças eram uma mistura de várias influências religiosas, sendo o Islã apenas uma delas.

Com os cruzados forçando seu caminho em direção a Jerusalém, eles também encontraram uma população mais ampla, que havia sido conquistada pelos turcos várias décadas antes. Esta região foi – e é – caracterizada pela diversidade considerável, com grandes populações cristãs e muçulmanas, juntamente com minorias como judeus, samaritanos e drusos. Cada uma respondia aos peregrinos invasores de diferentes maneiras, mas é notável que as principais famílias e tribos árabes muçulmanas não se apressaram em bloquear seu avanço. Os árabes foram relatados como lutando ao lado dos turcos em alguns casos, contudo houveram também rebeliões por alguns grupos árabes contra os turcos, alguns incentivados pelo avanço dos cruzados. Os árabes detestavam seus mestres turcos, julgando-os bárbaros e grosseiros, e muitos grupos árabes fizeram uso do caos criado pelas guerras cruzadas para se rebelar contra eles. Alguns conquistaram sua independência e mantiveram-se contra os turcos por muitas décadas até que finalmente foram trazidos de volta sob controle.

Dentro desse processo, os cruzados provavelmente ainda eram percebidos pelos árabes como uma força perigosa e brutal. No entanto, sua chegada criou uma janela de oportunidade para os povos locais para resistir aos turcos. Várias dinastias árabes tomaram essa chance e por isso era do seu interesse não oferecer muita resistência aos cruzados. A maioria das principais famílias árabes optou por negociar tratados de paz com os francos. O acordo básico era geralmente que os cruzados deixariam suas terras sem ser molestadas em troca de suprimentos e dinheiro. Tais acordos serviam aos interesses de ambas as partes. Os cruzados estavam tentando chegar a Jerusalém e não tinham desejo de lutar mais batalhas do que o necessário; Os árabes, por sua vez, lucraram com esses acordos diplomáticos mantendo sua independência.

O mais importante dos inimigos dos turcos nesta região eram os governantes fatimídas do Egito. Eles tinham uma forte participação nos assuntos da Síria e da Terra Santa e muitos outros líderes árabes olhavam para eles em busca de orientação. Os fatímidas igualmente viram a primeira cruzada com um olhar oportunista e em 1098, quando os cruzados estavam no Norte da Síria, aproveitaram as derrotas contínuas dos turcos para reconquistar Jerusalém de seus governantes turcos.

Mausoléu de Boemundo de Taranto, Catedral de Canossa, Puglia, Itália © Bridgeman Images

Mausoléu de Boemundo de Taranto, Catedral de Canossa, Puglia, Itália © Bridgeman Images

Os francos, por sua vez, reconheceram, numa fase inicial da campanha, que eles e os fatímidas tinham um inimigo em comum nos turcos. Por quase dois anos, entre 1097 e 1099, os dois lados tentaram estabelecer um tratado formal de co-operação. Nessas negociações, a melhor oferta dos cruzados era ajudar os fatímidas a reconquistar todas as cidades sírias que haviam sido tiradas pelos turcos se, em troca, pudessem manter a posse de Jerusalém. As conversações que se seguiram foram prolongadas, mas acabaram por se desmoronar e a proposta de entente nunca teve lugar. Nenhum dos lados estava disposto a comprometer a posse de Jerusalém e os francos assediaram a cidade logo após o abandono de uma solução diplomática. Essas tentativas de cooperação foram, em última instância, um fracasso, mas o fato de que elas aconteceram e que foram instigadas numa fase tão precoce da cruzada refletem a disposição de ambas as partes para trabalhar em conjunto.

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Levando em conta essas circunstâncias, a Primeira Cruzada não era o simples conflito “cristãos versus muçulmanos” que é freqüentemente descrito na mídia moderna. Os cruzados não sabiam muito sobre o Islã e tinham pouco interesse em aprender mais. Se alguma coisa, eles estavam muito mais interessados na identidade étnica dos turcos e árabes que eles encontraram do que em suas crenças religiosas. O objetivo do papado pode ter sido o de afastar os turcos, mas os cruzados estavam muito mais entusiasmados com a idéia de recapturar Jerusalém. Para isso, prepararam-se, desde o início, para aliar-se às potências muçulmanas ou negociar tratados de não-agressão. Se isso pudesse facilitar sua jornada para a Cidade Santa, que assim seja. Da mesma forma, os principais inimigos dos cruzados, os turcos, foram apenas parte do caminho através da sua conversão ao Islã, tornando difícil classificar seus encontros simplesmente como batalhas travadas entre cristãos e muçulmanos.

Isto não quer dizer que os cruzados tivessem qualquer gosto, quer pelo Islã, quer por qualquer outra religião concorrente. Na verdade, eles consideravam todos esses sistemas de crenças como erros perigosos ou falsidades espirituais que eram obra do diabo. Os adeptos a essas religiões eram vistos sob uma luz ligeiramente diferente, na medida em que eram considerados culpados apenas de serem criados ou enganados numa falsa religião. Suas crenças podem ser consideradas ruins por contemporâneos da cristandade ocidental, mas eles mesmos foram consideradas capazes de reforma e plena integração entre os fiéis se eles decidissem converter-se.

Os cruzados tinham pouca compunção sobre matar aqueles que ipediam seu caminho, mas não o fizeram indiscriminadamente. Seus atos mais infames foram os massacres que perpetraram contra as cidades que lhes caiu por combate. No entanto, mesmo nesses casos, é preciso ter cautela antes de atribuí-los diretamente ao ódio religioso. Os massacres eram geralmente perpetrados somente contra cidades que haviam recusado uma rendição negociada. De acordo com o comportamento marcial do tempo, esta era a prática padrão; O raciocínio é que se uma cidade se rendesse a um exército sitiando então seu povo deveria ser poupado; Se for tomada pela força, no entanto, então poderia legitimamente ser saqueada. As mesmas regras aplicavam-se ao assedio a cidades cristãs na cristandade ocidental.

Jerusalém era a exceção. Aqui, a violência atingiu alturas raramente combinadas em outro lugar, porque os cruzados viam isso como um ato de ‘limpeza’ religiosa. Neste contexto, pelo menos, a violência dos cruzados ultrapassou em muito os costumes militares praticados em suas terras. Mesmo assim, como em tantas fases de sua história, Jerusalém representa um ambiente anômalo no qual os seres humanos muitas vezes se comportam de maneira diferente de qualquer outro lugar. Os cruzados tinham marchado durante anos para chegar à Cidade Santa e, quando esse objetivo foi alcançado, eles parecem ter dado vazão a suas paixões reprimidas. O massacre conduzido em Jerusalém foi uma atrocidade, mas que não corrobora com o envolvimento dos cruzados com comunidades não-cristãs em outros lugares.

Refletindo sobre a Primeira Cruzada e seu papel nas relações inter-religiosas, a única conclusão real é que era uma bagunça. Por um lado, haviam os turcos, parcialmente islamizados, tentando se agarrar aos vastos territórios que haviam conquistado brutalmente. Depois, estavam os cruzados, buscando solitariamente Jerusalém, lutando contra aqueles que bloqueavam seu caminho, mas dispostos a negociar com aqueles preparados para negociar. E depois estavam os bizantinos, os árabes, os fatimídas e todos os outros povos do Oriente. Na maioria dos casos, para eles, isso era uma guerra de sobrevivência: seu objetivo era defender seus interesses ou, na melhor das hipóteses, reafirmar sua independência. A colisão caótica dessas agendas conflitantes sustenta a história da Primeira Cruzada e os eventos mais amplos que moldam a região. A guerra religiosa fazia parte dessa agenda, mas não havia uma guerra cristãos versus muçulmanos bem definida.

Reconhecer a confusão e natureza complicada da Primeira Cruzada é importante. Muitas vezes a história é reduzida a uma simples questão de slogans políticos. É muito mais fácil lembrar e gritar o mantra “as cruzadas foram guerras de cristãos contra muçulmanos” do que reconstruir a complexidade total desses eventos. Reconhecendo que a complexidade é essencial em uma época quando há muitos slogans e ainda pouca compreensão.

 

Nicholas Morton é palestrante sênior em História na Universidade de Nottingham Trent e autor de Encontrando o Islã na Primeira Cruzada (Cambridge, 2016).

Fonte: http://www.historytoday.com/nicholas-morton/was-first-crusade-really-war-against-islam

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