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Pedir ”evidencias” é um dalil claro de tua ignorância – Sheykh Ridhwan Salim

Em nome de Allah. Todos os louvores são para Ele, nosso Senhor e Protetor, que e a paz e a misericórdia estejam com seu último Profeta. 

As notas que se seguem não são formuladas com a intenção de ofender a ninguém. Amamos todos os nossos irmãos que amam Allah e Seu Mensageiro, que trabalham sinceramente para esta religião (din), qualquer que seja a orientação que houverem escolhido. Se as palavras que se seguem parecerem duras para alguns, é porque a gravidade da época na qual vivemos nos contrai a ir diretamente ao essencial. 

 

Este breve comentário é o resultado do fato de que me foi pedida uma posição jurídica a respeito de um determinado assunto. O autor da pergunta queria também conhecer as ”evidencias” que apoiavam esta posição. E eu me dei contra de que ele tinha a intenção de comparar as ”evidencias” dadas pelas diferentes pessoas as quais havia submetido a pergunta, afim de determinar por si mesmo qual seria a posição mais ”forte”.

 

Me pareceu que o fato de expor as ”evidencias” tiradas da escola de jurisprudência hanafi a respeito desta pergunta, para uma pessoa tão leiga, era inapropriado. Tentarei explicar porque.

 

Lhe citei a posição da escola de jurisprudência hanafi, e lhe disse: tal fatwa (veredito jurídico), vem de uma das quatro escolas jurídicas de ahlul sunnah wal jamah (Islam sunita). e é o resultado do estudo, da investigação e do ijtihad (esforço de reflexão) de centenas de sábios dentro dos mais importantes que comportam esta ummah (nação muçulmana), e que contribuíram em elaborar, revisar e corrigir as posições jurídicas de cada escola. Eram mestres nas disciplinas islâmicas, e muitos deles haviam memorizado mais de cem mil hadiths de nosso Santo Profeta. Muitos sábios da escola jurídica hanafi alcançaram o grau respeitado de ”Guardião (hafiz) de Hadith.”

 

Também, contavam-se entre os quais haviam alcançado os níveis mais altos de piedade e temor a Allah, o que é largamente confirmado em suas respectivas biografias. Pois aceitamos de bom grado a posição que deram sem ter que interroga-los a respeito de suas ”evidencias”, e nos dissociamos dos que não se submetem a autoridade dos grandes sábios da ummah, e que querem examinar as ”evidencias” para cada posição, apesar de a maioria deles não haverem completado nenhuma formação básica nas ciências islâmicas, ou nem mesmo estudaram um dos livros autênticos de hadith com um professor.

Que tal leigo peça ”evidencias” é ridículo. É como se alguém que não estudou as ciências físicas no colégio começasse um debate a respeito da teoria da relatividade com um grande professor de física. Ou como se alguém que não tenha o conhecimento básico em biologia ou química debatesse com um eminente doutor sobre qual medicamento é preferível para curar tal ou tal enfermidade.

Quem não riria de tal pessoa? Você acha que um professor iria dignar-se a aceitá-lo?… Nem iria querer perder seu tempo começando uma discussão com ele. Se tal pessoa deseja realmente dar sua posição a respeito da física teórica, terá primeiro que estudar as ciências físicas durante dois anos na escola, depois dois anos na universidade para obter seu bacharelado, depois adquirir uma licenciatura (3 anos), depois um mestrado (1-2 anos), em seguida, um PhD (3-5 anos) [sistema anglo-saxão]. Após isso, essa pessoa será capaz de discutir com o professor

Semelhante, ou pior ainda, nem é um muçulmano que tenha concluído um estudo de base sobre a lei islâmica, e que tem permissão para confrontar os juristas mais importantes da ummah dentro dos antecessores piedosos (salaf) e seus sucessores (khalaf)! Nem tem a ferramenta básica que lhe permite entender ou avaliar uma “evidencia”.

Acaso pensa que  emitir um veredito sobre jurisprudência islâmica é mais simples do que dar veredito sobre um tema de física teórica? O simples ato de pedir uma “prova” é em si um claro dalil (evidencia em árabe) de sua ignorância do que envolve o processo de ijtihad (esforço de reflexão).

Seja você um iniciante ou leigo no conhecimento sagrado, o seu papel não é o de pedir posições legais com suas “evidencias”. Seu papel se limita a solicitar posições legais apenas aquelas de uma das quatro escolas jurídicas reconhecidas, sabendo muito bem que essas posições são baseadas no conhecimento e um profundo estudo das fontes.

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Se você está realmente interessado na “evidência”, então, comprometa-se ao processo necessário para estudar as ciências religiosas. Te convidamos a isso vividamente! Alcançar um nível básico levará entre 5 e 8 anos de estudo sério. E isto é apenas para o diploma de base antes de iniciar a especialização!

 

Te asseguro que as escolas jurídicas não tomam posições sem ”evidencias”. As obras enciclopédicas de referencia que tratam com detalhes os argumentos para as posições da escola jurídica hanafi são numerosas e bem conhecidas, e seus autores são grandes mestres de hadith e da jurisprudência (fiqh). Por favor, não hesite em contactar-los quando você quiser ver a “evidência” de um aviso legal dado. Más, para uma pessoa neófita como você, quando ler esse tipo de trabalho, não terá a capacidade de compreender, assim como uma criança na escola tentar ler os trabalhos precisos em física quântica, ou em investigação médica sairá de sua leitura mais perdido de que outra coisa.

É hora de testar a humildade. Se você é uma criança na escola, você deve estudar as bases, e aceitar o que seus professores lhe dizem para o momento. Dentro de alguns anos, se você for um estudante inteligente e trabalhar duro, então talvez você será capaz de discutir teorias complexas e fazer suas próprias opiniões.

 

Infelizmente, dentro das inovações repreensíveis de nosso tempo inclui um movimento que se desenvolveu dentro da nossa ummah, rejeitando a ideia de seguir as quatro escolas de jurisprudência conhecidas, convidando os muçulmanos médios a investigarem sobre cada posição, afim de poderem fazer suas próprias opiniões e forjarem seu próprio caminho! (essa é a sunnah do cantor americano Frank Sinatra, que cantava ”I did my way” ou ”eu fiz meu caminho” . porém não é a sunnah dos sábios dos salaf). Se pensas que estando na escola, podes dar posições na teoria quântica, então Ahlan wa sahlan! (ou ”fique a vontade” em árabe)

 

Porém esteja avisado de que o que você fará, é dar uma fatwa (veredito jurídico) diretamente dos textos, sem ter as qualificações para fazê-lo, oque é absolutamente proibido (haram). Se todo mundo tivesse assim o direito de dar opiniões jurídicas ou  escolher entre elas, nós imaginamos que desordem e caos seria a Lei Sagrada. (Nós acrescentamos que o fato de você ser árabe ou falar árabe não significa automaticamente que você é um mufti qualificado!) Todas as disciplinas têm metodologias para serem estudadas. Jurisprudência islâmica e metodologia jurídica são uma das disciplinas mais difíceis e leva muitos anos para especializar-se no tema.

 

Para se tornar um advogado, por exemplo, você tem que obter excelentes resultados acadêmicos e depois um diploma em direito. Mas só após isso, você terá que fazer exames de admissão para a ordem. E isso não é o suficiente! Então você passará anos sob a tutela de um advogado confirmado antes de ter a autorização para exercer a profissão. E tudo isso apenas para se tornar advogado júnior! Depois disso, quantos anos de pesquisa e experiência contínua serão necessários para você se tornar um eminente advogado ou um juiz no Supremo Tribunal?

 

Pois é muito estranho que cada um em nossa ummah se considere suficientemente qualificado para dar posições jurídicas, depois de haver lido alguns versículos do Alcorão e uma versão resumida do Sahih de al-Bukhari! Se trata do reflexo de nossa profunda ignorância do assunto tratado….Nem entrasse na escola de direito é já queres pronunciar juízos legais!?

Você é uma criança na escola e pretende introduzir uma discussão entre professores!

Seja humilde! Se desejas discutir questões de direito islâmico, ande e vá sentar aos pés dos sábios, os herdeiros dos profetas (que a paz esteja com eles), e estude com eles. Aprenda o seu bom caráter e sua ciência, purifique-se, de modo que você se torne um vaso digno de acolher a luz da ciência sagrada.

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Se você passou  sua vida no estudo da mecânica ou da medicina, ou focado no comércio em vez de buscar a ciência sagrada, e agora que tens uma idade mais avançada, decidisse se tornar um pouco mais ”religioso”, começou a ir a mesquita, etc. Por favor, não creia que podes seguir uma formação intensiva na religião simplesmente lendo ”fiqh as-sunnah” ou o Tafsîr de al-Mawdudi, e chegar assim a um nível que te permita debater com os sábios. Deixe as questões da religião aos que consagraram sua juventude e numerosos anos de sua vida no estudo das disciplinas sagradas.

Como costumava dizer um de meus professores: ”Se trata de din (religião) e não te tin (figo)!”. Se trata dos ensinamentos do Islam! Não é o joguete de ninguém. É influencia do ocidente que deu as pessoas essa arrogância que lhes permite crer que podem dar vereditos em todos os assuntos, desde da teologia até a lei islâmica. A verdade é que não és capaz de avaliar as ”evidencias” de uma posição jurídica e chegar a conclusão por si mesmo, para saber qual delas é a mais ”forte”.

Lembro-me de quando iniciei uma discussão com um jovem de 18 anos, vestido com uma calça jeans e uma jaqueta de couro, fora da mesquita no meu bairro. Ele tinha começado a praticar a religião há dois anos atrás. E me explicou calmamente como examinava as “evidências” avançadas pelas diferentes escolas legais em cada “pergunta” e como poderia concluir por si mesmo qual era a posição mais forte! O fato dele não saber nenhuma palavra do idioma árabe não bastou para dissuadi-lo de seguir suas atividades escolásticas – usando traduções no inglês, evidentemente!

 

Infelizmente, este pobre irmão, assim como os que parecem não ter a menor ideia da complexidade das posições jurídicas e  da envergadura das discussões entre as escolas a respeito de cada questão, não se dão conta de que na realidade ”seguem cegamente” o primeiro ”sábio” que veem e as informações que lhes são apresentadas sobre qualquer ”questão”.  Na verdade, nunca, nunca verificam as fontes, por exemplo as obras de referencia das quatro escolas jurídicas, para ver o que se encontra nelas a respeito. É bem conhecido que não podemos buscar posições hanafis nas obras shafi’s e vice-versa,  porque as posições das outras escolas jurídicas não são sempre bem apresentadas. Há de se buscar diretamente nos textos da escola.

Vou dar um exemplo no qual os pobres irmãos e irmãs pensam haver realizado um formidável ”ijtihad”, e chegado a sua ”própria” conclusão sobre um assunto dado (depois de haverem ”realizado” que as quatro escolas estão equivocadas há 1424 anos). Esta questão é sobre a posição das mãos durante a oração. Vemos frequentemente hoje os muçulmanos rezarem com as mãos sobre seus peitos ou sobre seus colos ao invés de tomar a posição tradicional das mãos acima ou abaixo do umbigo, o que foi prática dos muçulmanos por mais de mil anos. De fato, as quatro escolas são unanimes a respeito do fato de que as mãos devem ser postas acima ou abaixo do umbigo, em nenhum caso sobre o peito (exeto para as mulheres na escola hanafi), e muito menos sobre o colo! (certos malikis consideram que a sunnah é por os braços ao lado do corpo).

Porém, os jovens ”mujtahids” do século 21 são muito mais sábios. Evidentemente, todos estes eminentes especialistas em jurisprudência das quatro escolas não conheciam ”fiqh as-sunnah”, guia essencial para todo mujtahid! Ademais, está também disponível em uma versão muito mais prática, traduzida para os ”mujtahids” que não falam o idioma árabe! Basta simplesmente abrir o capitulo intitulado: ”Os atos Sunnah da oração, A posição das mãos” (vol.1 p.132) para descobrir que at-Tirmidhi relata um hadith segundo o qual o Profeta rezou com as mãos sobre o peito, e que at-Tirmishi considera esta hadith como ”hasan”. Podemos também ler que um hadith similar se contra no ”sahih” de Ibn Khuzayma e que Ibn Khuzayma ”o considera como sahih”.

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Aqui está! O mujtahid fez seu trabalho! Agora é evidente que para ele exitem hadith sahih a respeito! (Não tem ideia de quem é Ibn Khuzayma…porém sem duvida deve se tratar de alguém importante!) Pois as quatro escolas juridicas estão totalmente equivocadas! Depois, veremos o irmão na mesquita de seu bairro por suas mãos bem alto em seu peito, lançando olhares desdenhosos sobre os outros que seguem ”cegamente” as escolas jurídicas [Hanafi, Sahi’i, Hanbali, Maliki].

Agora, vejamos as ”provas” dadas no ”Fiqh as-Sunnah”. Oque descobrimos é impressionante.

Primeiro, os que estudaram realmente ”Al-Jami” de at-Tirmishi se deram conta de que at-Tirmidhi nem menciona este hadith no qual o profeta havia rezado com as mãos sobre o peito, e que muito menos está classificado como hassan! Um erro muito grave por parte do autor de ”Fiqh as-Sunna”.

 

Segundo erro maior: embora Ibn Khuzayma mencione efetivamente um hadith no qual o profeta põe suas mãos sobre seu peito, não os considera como autentico (sahih). Em verdade, Ibn Khuzayma não faz nenhum comentário a respeito da autenticidade dos hadiths que relata em seu livro. Porém os que conhecem a metodologia de Ibn Khuzayma se deram conta de que é muito provável que não considere esta narração como forte. Primeiro, não menciona o fato de por as mãos sobre o peito no titulo a principal deste capitulo (o qual é seu método habitual para indicar sua compreensão do status jurídico das narrações do capitulo). Segundo, ele dispôs a narração no fim do capitulo, o que indica também a fraqueza dela.

 

Mas de qualquer forma, uma olhada na cadeia de narradores deste hadih permite comprovar que contém Mu’ammal ibn Isma’il, que é um narrador fraco segundo os ditos da maioria dos sábios de hadith, devido a sua memória horrível! O Imam al-Bukhari o considerava como um ”munkar al-Hadith”, o que significa que os hadith que relatava são automaticamente rechaçados! Existem outras criticas a respeito desta narração, porém não as explicaremos aqui.

 

Agora, vemos onde está o problema: O jovem mujtahid não é realmente um mujtahid, a final! Na verdade, ele é um ”seguidor cego” da pior especie. Leu um capitulo de ”Fiqh as-Sunnah” e aceitou ”cegamente” oque leu neste, pensando haver realizado um formidável ijtihad! E nem imagina quantos erros se encontram neste livro. Hoje em dia, é um dos livros mais populares para os muçulmanos! Os erros citados mas acima são erros muito graves. Escutei um de meus professores declarar que os erros contidos neste livro são muito mais graves que os (benignos) que podemos as vezes encontrar nos escritos dos sábios. Indicam o contrário, a imperdoável e real ignorância do autor.

 

Em suma, a realidade é que você é um imitador cego (muqallid), sabendo ou não. Pois tens que simplesmente escolher quem queres seguir: o autor de ”Fiqh as-Sunnah”, Albani ou uma das quatro escolas juridicas sunitas reconhecidas. No final, o estudo das posições legais e evidencias não é ruim em si mesmo, mas precisa de um contexto e meios precisos para ser realizado.

Muitos outros comentários poderiam ser feitos a respeito, mas nos contentaremos com o que foi dito. Imploramos a Allah para que nos cubra com Sua Misericórdia e nos guie a verdade em todas as coisas, e para que nos permita seguir esta verdade e atuar continuamente segundo o que lhe satisfaz. Que a Paz e a Misericórdia de Allah esteja com Seu Mensageiro, sua família e todos os seus Companheiro. Todos os louvores pertencem a Allah, Senhor dos Universos.

 

Escrito pelo servidor da ciência sagrada, Ridhwan Ibn Muhammad Salim. Ramadan de 1424 H.

 

Fonte: http://www.sunnismo.com/pedir-laquo-pruebas-raquo-es-un-dalil-claro-de-tu-ignorancia—sheij-ridhwan-salim.html

Sobre Victor Peixoto

Victor Peixoto é um brasileiro convertido ao Islam, leitor frequente de livros sobre história islâmica e estudante de árabe clássico, que aprendeu no Egito durante sua morada naquele país.