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O “Hadith sobre Matar Judeus’’ e o mito de um Genocídio Antissemita na Escritura Islâmica

Como uma tradição apocalíptica é utilizada nas mãos de odiadores anti-judeus e anti-muçulmanos

 

Um clérigo jordaniano em recente visita ao Canadá citou de forma enganosa um hadith sem contexto ou explicação, oque justificadamente provocou condenações da comunidade muçulmana, assim como numerosas manchetes em todo o mundo. Um hadith é um relato oral que fora transmitido pelo Profeta Muhammad, e pode ser incrivelmente complexo, uma vez que é preciso avaliar todas as cadeias de transmissão de uma determinada declaração registrada em um hadith, a fim de chegar a uma conclusão adequada sobre de que se trata o hadith em particular. Nesse caso, uma única frase foi citada, uma descrevendo rochas e árvores clamando aos muçulmanos: “Há um judeu atrás de mim, venha matá-lo“.

Esta não é a primeira vez que este texto em específico tem sido usado para fomentar o sentimento anti-semita dentro da comunidade muçulmana. Os líderes e estudiosos muçulmanos devem denunciar com força tal retórica e esclarecer a condenação inequívoca do Islã de todas as formas de anti-semitismo, racismo, discriminação e xenofobia. É claro que os islamofóbicos se empenharam na oportunidade de soar os alarmes e gerar uma nova onda de propaganda acusando os muçulmanos de ambições genocidas em relação aos judeus, e de afirmar que o islã é inerentemente anti-semita e uma ameaça à civilização ocidental.

 

Explicação do hadith Descontextualizado

A história sobre uma batalha apocalíptica sobrenatural entre o bem e o mal

Quando olhamos através de diferentes narrações do hadith em questão, descobrimos que a frase sendo citada é realmente parte de uma narrativa maior no gênero da escatologia (a parte da teologia que trata do fim dos tempos e do Dia do Juízo), descrevendo o retorno de Jesus e a batalha apocalíptica entre Jesus e o Dajjal (Anticristo). [1] Nesta batalha que ocorrerá entre os exércitos de Jesus e do Dajjal, vários milagres sao previstos, incluindo que o Dajjal se derreterá quando Jesus o vê, e que as rochas e árvores inanimadas falarão e identificarão os soldados do Dajjal (Sunan Ibn Majah 4077).

Esta é uma história sobre a batalha entre dois grupos de soldados envolvidos na guerra, um lado do qual é claramente injusto; Não se refere a civis inocentes. e não é realmente uma batalha entre ‘’muçulmanos versus judeus’’! De fato, os muçulmanos acreditam que todos os cristãos, judeus e muçulmanos justos seguirão Jesus depois que ele retornar (Alcorão 4: 159), enquanto cristãos, judeus e muçulmanos equivocados estarão seguindo o Dajjal. De fato, outros hadiths demonstram que muitas das forças do Dajjal serão na verdade compostas de  muçulmanos equivocados (Sahih Ibn Majah 179). [2]

Os judeus estão entre os mocinhos do apocalipse muçulmano

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Além disso, a grande maioria dos judeus NÃO será seguidora do Dajjal, como  o comentário do hadith descreve que os seguidores do Dajjal virão de apenas duas das doze tribos israelitas, enquanto a maioria dos judeus será do povo justo entre as forças do bem igualmente com cristãos e muçulmanos (Fayd al-Bari, Anwar Shah Kashmiri, 4/197). [3] Afinal, o Dajjal será um ditador assassino que alega ser Deus, um anátema para todos os seguidores da tradição abraâmica, bem como para todas as pessoas de consciência.

Os muçulmanos não acreditam que as rochas e as árvores estarão apontando aleatoriamente para pessoas inocentes, mas sim para soldados dos combatentes do Dajjal que estarão envolvidos na matança de pessoas inocentes. A identidade religiosa dos soldados do Dajjal incluem malfeitores de todas as origens (incluindo os muçulmanos equivocados). Outras variantes do hadith afirmam que as rochas e as árvores simplesmente dirão: “Aqui está um rejeitador da verdade escondido atrás de mim!” (Musnad Ahmad 3546), e não usa a palavra “judeu” para descrevê-los.

Portanto, este hadith descreve uma batalha futura entre guerreiros e que só pode ocorrer após o retorno de Jesus; De modo nenhum este hadith pode ser interpretado como uma prescrição para sair e prejudicar civis ou membros pacíficos de qualquer comunidade de fé. O Alcorão condena explicitamente a violência contra civis e não-combatentes, afirmando que : “Quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade.” (5:32) e: “Se eles se retirarem, não vos combaterem e vos propuserem a paz, sabei que Deus não vos faculta combatê-los.“(4:90). A guerra só é permitida em defesa contra a agressão ou para ajudar os oprimidos, como no caso de Jesus lutando contra as forças do Dajjal.

A questão do anti-semitismo e do Armageddon

Todas as três religiões abraâmicas (Islã, Cristianismo e Judaísmo) têm tradições bem estabelecidas sobre um Messias profetizado que se envolverá em uma batalha contra as forças do mal nos tempos finais, seja o retorno de Cristo que combaterá todas as nações da terra, ou a vinda do Masiach ben Yossef que destruirá os edomitas e inimigos de Israel. [4] Os três grupos tiveram de explicar estas passagens escatológicas esotéricas, a fim de evitar antagonismos com outras comunidades. Em 2012, um politico membro do partido democrata americano renunciou o cargo após declarar: “Os cristãos apenas querem que estejamos lá para que possamos ser abatidos e convertidos e trazer a segunda vinda de Jesus Cristo.” [5] A Bíblia descreve o Armagedom em termos dolorosos a respeito dos inimigos de Cristo / Israel (Veja: Zacarias 14:12 [6]). É necessário que pessoas de todas as religiões não permitam que seus textos sobre o fim dos tempos sejam seqüestrados de uma forma que valide a fala ou as ações de ódio no presente. Todas as crenças abraâmicas têm ensinamentos escatológicos que são esotéricos e requerem uma interpretação crítica cuidadosa. Os principais líderes de todas as comunidades religiosas enfatizam consistentemente a tolerância e o respeito pelos outros.

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O Islã denuncia todas as formas de anti-semitismo e racismo

O Profeta Muhammad ensinou a seus companheiros a respeitar pessoas de todas as origens de fé e cuidar de todos. Ele disse: “Doe em caridade a pessoas de todas as fés” (Musannaf Ibn Abi Shaybah 3/177) [7] e ele pessoalmente costumava doar dinheiro regularmente para patrocinar uma família judia em sua comunidade. [8] Quando o Profeta viu o cortejo fúnebre de um judeu passando, ele se levantou por respeito. Quando alguns companheiros apontaram que o falecido não era muçulmano, ele os repreendeu dizendo: “Não é uma alma humana?” (Sahih Bukhari 1250). A lição aqui é respeitar toda a humanidade. Alguns judeus converteram-se ao Islã e outros, como o rabino Mukhayriq, continuaram a praticar o judaísmo e ainda permaneceram em bons termos com o Profeta (Seerah Ibn Hisham 1/518). Mesmo quando o Profeta faleceu, ele teve sua armadura hipotecada a um judeu (Sahih Bukhari 2759), uma narração que mostra que manteve boas relações com judeus até sua morte. Como diz o Alcorão: “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e eqüidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.” (60: 8). Segundo Al-Tabari, um dos primeiros comentaristas, este versículo encoraja boas relações com “todas as seitas, credos e religiões” (Tafsir al-Tabari 60: 8). Esses ensinamentos do Alcorão inspiraram muçulmanos ao longo dos tempos. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Grande Mesquita de Paris resgatou os judeus que fugiam dos nazistas e forneceu-lhes um porto seguro e meios de fuga. Este é o legado que os muçulmanos devem recordar e reviver.

Além de respeitar outras crenças, o Islã proíbe prejudicar os outros e coloca grande ênfase nos muçulmanos mantendo relações positivas com aqueles que estão alheios a sua fé. O Profeta Muhammad deixou um aviso severo sobre perseguir os outros, “Quem prejudicar um não-muçulmano em paz conosco nunca vai cheirar a fragrância do paraíso, embora sua fragrância possa ser sentida a uma distância de quarenta anos de viagem” (Sahih Bukhari 6516) . No Dia do Juízo, o próprio Profeta argumentará em favor de não-muçulmanos perseguidos e contra os muçulmanos que os perseguiram: “Se alguém prejudica um não-muçulmano em paz conosco, viola seus direitos, o sobrecarrega com mais trabalho do que ele é capaz de executar, ou toma algo dele sem seu consentimento, então eu serei seu advogado no Dia da Ressurreição. “(Sunan Abi Dawud 3052). Esta injunção atordoante deve fazer todo  muçulmano pensar duas vezes antes de ferir a qualquer um.

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[1] Fath al-Bari by Ibn Hajar al-’Aqsalani, Sharh Sahih Muslim by al-Nawawi, Umdatul-Qari por Badr al-Deen al-’Ayni.

[2]Esta narração afirma que ele irá surgir do grupo desviado conhecido como Khawarij (Sunan Ibn Majah 179) e de acordo com os comentários em Ibn Majah, ele irá emergir na liderança de um grande exercito (“jaysh al-adheem”) dos Khawarij (Shuruh Sunan Ibn Majah, editado por Raed Sabri Ibn Abi Ulfah). Outra narração (Sahih Bukhari 1881) afirma que ele irá se reunir com os munafiqeen de Meca e Medina- aqueles que externamente clamam serem muçulmanos porém a insinceridade na fé será evidente quando eles se aliarem com o Dajjal.

[3] Fayd al-Bari explains, “This is only about the Jews whom Jesus is fighting against, namely those in the armies of Dajjal.” In fact, if Dajjal is followed by a cult of seventy thousand wearing green shawls this amounts to less than 0.5% of the global population, a tiny fraction.

Fayd al-Bari explica, “Isto é apenas sobre os judeus contra os quais Jesus estará lutando, nomeadamente aqueles nos exercitos do Dajjal.” De fato, se o Dajjal for seguido por um culto de setenta mil vestindo xales verdes (como afirma uma narração) isso equivale a menos de 0,5% da população global, uma pequena fração.

[4] “Appendix II – Mashiach in Jewish Law by Rabbi Dr. J. Immanuel Schochet, from his book “Mashiach – the Messianic Era in Jewish Law” on Chabad.org. Dr. Schochet writes, “Interestingly enough, according to Pirkei deR. Eliezer ch. 28 (in non-censored versions), the Ishmaelites (Arabs) will be the final kingdom to be defeated by Mashiach.” http://www.chabad.org/library/moshiach/article_cdo/aid/101747/jewish/Appendix-II.htm#footnote6a101747

[5] http://americanvision.org/6370/christians-just-want-jews-slaughtered-and-converted/

[6] http://biblehub.com/zechariah/14-12.htm

[7] Musannaf ibn Abi Shaybah, and Silsilah al-Saheehah vol 6, p628. Árabe: ( تصدقوا على أهل الأديان كلها)

[8] Kitab al-Amwal, Abu Ubayd al-Qasim ibn Sallam d224H, pp727-728, Dar alShuruq 1989. Árabe: ( عن سعيد بن المسيب أن رسول الله صلى الله عليه وسلم تصدق على أهل بيت من اليهود بصدقة ، فهي تجري عليهم ).

 

Fontehttps://yaqeeninstitute.org/justin-parrott/the-jew-killing-hadith-and-the-myth-of-an-antisemitic-genocide-in-muslim-scripture/

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