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O Fenômeno do ”Sheikh Google”

O termo “sheikh google” de maneira geral refere-se a uma abordagem amadora no que diz respeito ao estudo do Islã, mais especificamente para o estudo da lei islâmica (fiqh) e teologia/crença ( ‘aqīda).

No entanto, é claro, isso não implica em um juízo totalitário negativo contra o estudo do Islã on-line, e sim destaca uma armadilha que alguns podem cair enquanto estudam a lei islâmica ou teologia por si mesmos: o que equivaleria a uma alfabetização básica.

Em outras palavras, simplesmente ”jogar no Google” algum tema (usando-o, portanto, no lugar de um teólogo especializado e graduado) e em seguida, pensar em si mesmo como um perito, ou, pelo menos, agir como um.

Um aspecto que tem atormentado muitos dos sites on-line que fornecem conhecimentos sobre o Islã é a polêmica; mesmo quando artigo(s) são escritos por um único autor, há ataques no estilo ”falacia do espantalho” sobre outras perspectivas islâmicas válidas.

Para quem quer uma compreensão equilibrada e matizada, esses sites devem ser evitados, ou eles podem ser usados como um trampolim para gerar perguntas, que podem então ser apresentadas e discutidas com um professor.

Isso ocorre porque quando se incia a aprendizagem de algo novo, é perigoso deixar visões profundamente idealizadas de alguém ter uma influência irrestrita no seu entendimento, sem você se envolver no material de forma crítica.

A abordagem exclusivista

Outro aspecto do material polêmico é o fato de que, geralmente, um lado está sempre tentando “ganhar” o argumento, e dando seu melhor para desacreditar os pontos de vista dos outros.

É, portanto, uma abordagem exclusivista. Esta abordagem exclusivista acaba por conduzir à estreiteza da mente e a uma incapacidade para apreciar ou até mesmo ouvir as opiniões dos outros.

Isso é agravado pelo fato de que os argumentos são algumas vezes apresentados com base em “religiosidade”, assim, um ponto de vista é apresentado como mais “religioso” que o outro.

Não entender completamente o que poderia ser entendido por isso, não só faz com que o indivíduo torne-se mais intolerante com aqueles que diferem  dele ou dela, mas também o faz se julgar mais piedoso do que os outros.

Tudo isso ajuda a criar um ego muito inflado, o que dá a falsa garantia de que “você está na verdade” e, finalmente, torna-se uma outra manifestação do fenômeno do “sheikh google.” Nesse sentido, Imam Al-Dhahabi (d. 748 AH) disse sobre o conhecimento que ele :

Não é a profusão de narração, mas uma luz que Deus pões no coração. Sua condição é seguir fielmente e o distanciamento do egoísmo e da inovação.

Isto deve servir como um ponto de referência útil para diferenciar quando alguém está honestamente buscando o conhecimento ou apenas acumulando informações: quando ele começa a alimentar nossos egos em vez de nos ajudar a superá-lo. Quando isso acontece, devemos soar o alarme espiritual.

Por isso, nesta abordagem muito confusa, onde as ideias são engolidas por outras pessoas, pode ser prejudicial para nosso desenvolvimento espiritual e intelectual. Aqui, a noção de Edmund Husserl de epoché pode ser útil, que significa “colocar entre parenteses” os próprios pontos de vista e subjetividades para o melhor das suas habilidades, a fim de apreciar ”objeto” ou fenômeno como ele é, o que é o objetivo principal da fenomenologia.

Isto parece fazer eco ao que nosso Profeta ﷺ suplicou quando disse:

Oh Deus, mostra-nos a verdade como verdade e concede-nos a capacidade de segui-la, e mostre a falsidade como falsidade e concede-nos a capacidade de abster-mos dela.

Percepções verdadeiras e corretas são, portanto, um dom de Deus. No entanto, este presente é geralmente concedido àqueles que o merecem, e assim cabe a um estudante em busca de conhecimento manter isso em mente, especialmente quando estudando o Islã, as questões controversas, especialmente relacionadas com o fiqh e ‘aqīda.

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Embora isso possa ser difícil, pode ser ainda mais difícil devido à mentalidade de grupo que existe em alguns fóruns on-line. Isso pode facilmente levar problemas de fiqh e ‘aqīda a se tornarem mais do que questões de conhecimento, acabando por torna-los polaridades que nos definem.

Nós não conseguimos ver que, nos tornamos emocionalmente ligados a determinadas posições, trazemos prejuízos para o nosso aprendizado. Nessa fase quase irrecuperável, nós nos tornamos polêmicos estúpidos para defendermos essas posições, o que destrói quase todas as bênçãos que o conhecimento traz.

Evitar sites que oferecem informações parciais é talvez mais fácil dizer do que fazer. Às vezes, podemos precisar de uma resposta imediata a uma questão premente, ou às vezes o problema é a timidez de se dirigir ao sheikhs local, etc.

Em tais cenários a utilidade de ser crítico não pode ser mais enfatizada. O que queremos dizer por ser crítico? Uma coisa é certa: certamente não significa ser rude e difícil; em vez disso, simplesmente significa fazer perguntas para esclarecer o que está sendo dito ou  para obter mais informações. No entanto, isto pode ser difícil de conseguir on-line.

Isso ocorre porque o processo de leitura envolve a leitura do que o autor tem a dizer, e depois o processo da informação, e, finalmente, fazer um juízo entre aceitar ou rejeitar a informação. Normalmente, não se pode estabelecer um diálogo crítico com o autor on-line, e fazer perguntas para esclarecer a situação, todas as quais ajudariam a refinar nossa compreensão.

E mesmo se nós tivéssemos esta oportunidade, seria geralmente limitada, sob a forma de comentários. Este fato deveria nos fazer ainda mais humildes (e menos agressivos) se nos tornamos ”super zelosos” em alguns assuntos, e se procuramos nos envolver em polêmicas ou agir como se nós fossemos um “sabe-tudo”.

O Imām Abu Hanifa (d. 150 AH) costumava sentar-se com vários de seus alunos, e se envolver em longas discussões sobre pontos de fiqh (jurisprudência), e só depois de ouvir tudo o que seus alunos tinham a dizer, que ele transmitia sua opinião. Assim, a compreensão de seus alunos era em um sentido validada pelo seu professor.

Embora isso não é sugerir que ele ditava sua opinião a eles, e isso é comprovado pelo fato de que seus dois estudantes mais famosos Abu Yusuf (AH d.189) e Muhammad (AH d.189) com frequência divergiam dele. No entanto, pelo menos isso fez com que eles não o entendessem mal.

É este aspecto vital que pode estar faltando quando lemos online. O que tomamos a partir de um texto pode não ser o que foi pretendido pelo autor, e apesar de a intenção do autor ter sido indeferido por alguns modernos teóricos da literatura, até onde sei, ela ainda tem a sua importância quando se estuda o Islã.

Ao Enfrentar Contradições

O acima também pode ajudar a realçar um outro desafio em aprender com o que o ”sheikh Google” e sites semelhantes possam apresentar.

Frequentemente nos deparamos com informações conflitantes e não sabemos qual aceitar, assim, enquanto um site diz “xyz é permitido”, outro não só diz que é proibido, como também faz parte dos grandes pecados!

Sem recorrer a um professor para mais esclarecimentos, a pessoa tem de decidir, inevitavelmente, de forma independente em qual opinião dar preferência. Isso pode ser vagamente identificado como “tarjīḥ.”

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O termo tarjīḥ normalmente se refere ao processo científico de um jurista dando preferência a um ponto de vista sobre o outro, o que pode ser um processo complexo e, portanto, normalmente é a atividade de estudiosos.

Por exemplo, a prática da escola de jusrisprudência Maliki de aceitar a prática (histórica) do povo de Medina como autoridade não foi aceita pelas outras escolas de fiqh. No entanto, o sheikh Ibn Taymiyyah (d.728 AH), apesar de um seguidor da escola hanbali, escreveu um tratado inteiro em apoio a esta doutrina.

Ele, assim, envolveu-se em uma ”tarjīḥ” acadêmica. Mais importante, isso geralmente habilita um estudioso a oferecer uma crítica acadêmica sobre o porquê de uma opinião ser fraca em sua opinião, baseando sua crítica em critérios objetivos, e não suas emoções.

De uma maneira similar, todos os muçulmanos que se envolvem em tarjīḥ quando confrontados com opiniões conflitantes, embora baseando-se em critérios diferentes que o do estudioso – que geralmente é baseado no poder de persuasão do argumento, ou que sábio emissor da opinião seja mais experiente e piedoso, ou leva a uma opinião difícil ou mais fácil, etc. Este último tipo de tarjīḥ é voltado principalmente para facilitar a prática, em vez de ser um compromisso acadêmico intelectual. Por isso, não é conveniente a alguém que, depois de ter lido algumas respostas a questões específicas (Fatawa. [singular Fatwa]) ir em seguida atacar  outras opiniões como fracas ou mal orientadas, simplesmente com base na fatwa que leem. Pois isso o faz fingir ser um estudioso, pois ele pretende sugerir que tenha lido livros sobre livros sobre o assunto, quando, na verdade, só se tem lido algumas Fatawa (vereditos). Isso não significa depreciar as fatawa emitidas por estudiosos qualificados on-line, mas sim reconhecer o propósito de tais sites, que é principalmente para informar e facilitar a prática, não produzir estudiosos.

Fatawa on-line

Não é difícil reconhecer o fato de que a Internet tem facilitado o acesso ao conhecimento de muitos grandes estudiosos, sem os quais muitas pessoas teriam sido privadas de tais conhecimentos. E para isso devemos ser gratos. Isto tem obviamente levado a ascensão de sites oferecendo fatawa. Mais uma vez, embora seja sem dúvida, útil para procurar respostas para perguntas que possamos ter, é importante lembrar que, embora respostas específicas podem ser úteis para a prática imediata, elas não devem ser usadas como fonte principal ou a única fonte de sua educação na custo de uma abordagem holística. Buscar respostas com esta finalidade pode formar  conhecimento espalhado, o que, sem orientação adequada, pode levar a confusão e ou um desequilíbrio na sua atitude.

Ser crítico também envolve certificar-se de uma fatwa que realmente se aplicam a sua situação. Na verdade, esta pode ser uma tarefa difícil às vezes, e, na verdade, como parte da formação de um mufti, algumas instituições oferecem treinamento específico sobre como aplicar fatawa a diferentes contextos. Em caso de dúvida, o melhor é pedir esclarecimentos antes de agir sobre a fatwa. Também é importante verificar as credenciais da pessoa que emitiu a fatwa, especialmente se eles costumam seguir uma abordagem exclusivista de por exemplo: ”todas as outras opiniões são fracas ou erradas. ” Se, contudo, alguém está simplesmente narrando as opiniões dos outros estudiosos, que eles não precisam ser muftis em si.

Em termos de temas de fatawa, vereditos podem ser encontrados dados sobre tudo que existe. Embora isso possa ser visto como algo positivo, é também preocupante devido às possíveis implicações da má aplicação de uma fatwa. Portanto, um bom critério a seguir é discutir previamente com um mufti as questões relacionadas com os direitos dos outros, como no casamento e divórcio, bem como herança. Isto também inclui o direito dos contratos. Tais questões têm implicações sociais imensas, e é melhor tratá-las com cuidado. Outra questão que realmente não deve ser a nossa preocupação, mas vem costumando ser, é a questão do takfir, que significa chamar outros descrentes ou apostatas. Qualquer site que considera um muçulmano conhecido por seu conhecimento como um herege ou descrente, deve ser sinalizado e evitado, e se existir alguma duvida, então é novamente melhor discuti-lo com um estudioso, e não com o muçulmano on-line mais próximo.

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Professores Digitais

É narrado que uma vez o Imam al-Shafi (d. 204 A.H.) estava sentado em uma mesquita, quando um homem veio até ele e pediu-lhe para apresentar as provas para a doutrina legal do ijma ‘(consenso). Se ele não fosse capaz de fazer isso, então o homem sugeriu que ele parasse de emitir fatawa. Sendo a pessoa humilde que era, al-Shafi procurou refúgio. Quando, depois de alguns dias mais tarde ele forneceu as provas, o homem perguntou se ele não poderia ensiná-lo. Este homem então tornou-se um dos alunos mais importantes do Imam al-Shafi, que conhecemos como al-Muzānī (d. 264 A. H.).

A importância de um professor na vida real, equilibrado e firmemente baseado no conhecimento é indispensável quando se trata de aprendizagem. Isto porque, quando nós aprendemos com pessoas reais, aprendemos conhecimento, bem como aprendemos boas maneiras (Adab). O professor certo pode repreender-nos se nós levantamos nossas vozes e nos disciplina se agirmos altiva e arrogantemente, o que ajuda a refinar nosso caráter e, finalmente, a nos tornar uma pessoa melhor, que é talvez uma das metas mais importantes da aprendizagem. E é a ausência de tal professor quando se trata de aprendizagem on-line, ou quando a Internet se torna a nossa única fonte de aprendizado, que nós podemos nos tornar auto-iludidos em qualificar-nos com atributos não condizentes com um estudante, adotando a atitude de um juiz, em vez de um buscador, sempre à procura de evidências para apoiar as nossas opiniões e rejeitar todas as outras. Isto reflete-se no ditado ”um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa”. Discutindo as origens deste ditado, Gary Martin identifica um escritor do século 17 que observa: “Isso foi bem observado pelo meu Sr. Bacon, de que um pouco de conhecimento é capaz de encher de orgulho e tornar os homens levianos, mas uma parcela maior irá defini-los bem, e trazê-los para pensamentos baixos e humildes sobre si mesmos. “

No entanto, para a aprendizagem de “uma parcela maior” é necessário encontrar um professor que não só seja capaz de transmitir esse conhecimento, como também que incorpore a ética da diferença(ikhtilāf), e que seja equilibrado. Al-Muzānī sabia isso muito bem, assim ele certificou-se de que al-Shafi era alguém correto para ensina-lo. No entanto, na ausência de tal professor, parece justo admitir o fato dos danos que podem resultar de um professor de mente sectária, danos estes que podem superar as deficiências de aprendizagem a partir de sites equilibrados e bem pesquisados online. Em tais casos, todos nós reconhecemos a utilidade do ”Sheikh Google’, que é útil quando utilizado corretamente, embora reconhecendo que o “sheikh Google” não deve nunca substituir um sheikh real e equilibrado.

Fonte: http://www.virtualmosque.com/personaldvlpt/seeking-knowledge/the-sheikh-google-phenomenon/

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