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''Nós seguimos apenas o Alcorão e a Sunnah!'' - Será?

”Nós seguimos apenas o Alcorão e a Sunnah!” – Será?

Sentado na reunião do conselho da mesquita, com um problema após o outro sendo exposto, vou confessar que era difícil não me distrair em meus próprios pensamentos. No entanto, uma questão foi levantada que me chamou a atenção que era, talvez não surpreendentemente, a questão do financiamento e captação de recursos: A mesquita precisava de fundos para renovar o lugar da ablução (área de fazer wudu). Sem muito progresso sendo feito, eu identifiquei uma possível fonte, embora não tenha sido isenta de problemas. A fonte que sugeri tinha uma grande proporção obtida de fontes ilegais; no entanto, havia um parecer no Fiqh (jurisprudência), que permitia a utilização de tais fundos para o bem público (maslaha ). 1 Alguém levantou uma objeção a isso, e quando comecei a explicar que havia uma opinião acadêmica. a pessoa disse: “Esqueça os estudiosos !! Nós só seguimos o Alcorão e a Sunnah, ” gritou ele, a quem eu encontrei atípico uma vez que este irmão parecia ser uma pessoa calma. Ele então explicou como os muçulmanos deveriam seguir o Alcorão e a Sunnah somente e deixar de lado os estudiosos a seus próprios murmúrios. Infelizmente (ou felizmente) ele era mais velho, tinha uma posição mais sênior do que eu, e definitivamente tinha uma voz mais alta do que a minha, assim, o ditado “o poder faz o direito” teve efeito completo. Olhei para baixo; embora eles aceitando a minha sugestão, eu estava um pouco frustrado com a compreensão bastante superficial do Islam que este irmão manifestou. Ele era um irmão de bom caráter e uma pessoa que normalmente tinha um comportamento muito agradável, mas mesmo ele, quando se tratava de Fiqh , não podia escapar dessa atitude intolerante.

Este artigo visa lançar brevemente um olhar para a reivindicação de alguns que dizem que eles seguem nada mais que o ” Alcorão e a Sunnah” ou apenas o ” Alcorão e hadiths sahih (autênticos ditos do profeta)“.

Qual é o propósito deste slogan? Por que usando este termo parece que a pessoa alega que qualquer membro da comunidade que não esteja afiliado com o seu grupo ou compreensão não está seguindo o Alcorão e a Sunnah. Quando uma pessoa justapõe a validade legal ( Fiqhī opinião) do que você está seguindo com “mas você deve seguir o Alcorão e a Sunnah, ” isso implica que você não está. Essa atitude sugere na verdade o monopólio de uma pessoa ou grupo em detrimento de outras pessoas, que parecem estar condenadas.

O que isso também mostra é que uma pessoa que toma esta atitude mostra uma falta de compreensão do processo pelo qual as fontes primárias – o Alcorão e Hadith (ditos do profeta) – são interpretadas, e através do qual conclusões são alcançadas.

Compreendendo como os estudiosos entendem ( Fahm )

Olhe para o diagrama a seguir:

fig1haq

As fontes primárias no Islã são o Alcorão e os Hadith (ditos do profeta), ambos se originam de Allah. Enquanto o Alcorão é diretamente a palavra de Deus, os hadiths são retransmitidos para nós através das palavras do Profeta ﷺ com os seus significados divinos. Estas palavras são então gravadas na forma de um texto, assim, ambos os textos são fontes primárias. Estes textos são então entendidos por estudiosos / juristas / intérpretes no esforço para decifrar o que Deus pretendeu (através da revelação). 2 Esta formula é conhecida como ” fiqh (ou jurisprudência) “. 3

Um Entendimento

Agora em algumas questões ( Aijma’, ou entendimento coletivo), há apenas uma compreensão, um fiqh (como indicado pela cor vermelha na fig. 1). Isto significa que toda a comunidade de juristas estão certos (mediante a provas) de que o que eles têm entendido é realmente o pretendido pela revelação divina. Isto é por que:

  • Quando fontes primárias são claras ( qat’i ) em ambas suas autenticidades ( thubūth ) e significados (dalāla ). Por exemplo: a crença no monoteísmo, na predestinação, o fato de que as cinco orações diárias são Fard (obrigatório).
  • Ou quando as fontes primárias não são claras ( dhannī ) em ambas autenticidade e significado, no entanto, um nitido ( ṣarīḥ ), consenso legítimo e verdadeiro foi atingido. Isto significa que há um consenso e não apenas uma reivindicação de consenso. 4 Contudo, tais questões de acordo, são as exceções e não a regra, como uma breve olhada em qualquer enciclopédia de Fiqh (jurisprudência) prova. Com base nisso, Ibn Hazm explica como o consenso é muitas vezes erroneamente reivindicado. 5 O que é interessante é que o próprio Ibn Hazm, que Allah esteja satisfeito com ele, parece cair neste erro quando ele elaborou a sua própria lista de problemas em que ele pensou que um consenso tinha sido atingido. 6 Ibn Taymiyyah posteriormente, elaborou uma lista de questões de alegado consenso de Ibn Hazm, e mostrou algumas áreas em que Ibn Hazm reivindicou erroneamente a um consenso, quando não havia de fato nenhum. 7
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Assim, em tais questões, todos estão “seguindo o Alcorão e a Sunnah”, portanto, repetidamente alegar ” só o Alcorão e Sunnah ” torna-se redundante.

Muitos Entendimentos

A maioria dos problemas no entanto têm uma ampla gama de entendimentos acadêmicos (na fig 1.. BIkhtilāf, os diferentes pontos de vista indicados pelas cores diferentes), as quais não remontam ao Alcorão e Hadith . Estes pontos de vista diferentes podem ser devido a várias razões, que podem ser resumidas no seguinte 8 :

  • Embora as fontes que se relacionem com a decisão particular sejam acordadas, o entendimento daquele especifico hadith difere; portanto, é o Fahm (entendimento) que está levando ao Ikhtilāf(diferença de opinião). Um exemplo claro disso durante a época dos companheiros do profeta é o incidente da oração do Asr no episódio de  Banī Qurayza. 9
  • A fonte em relação a essa questão especifica é diferida sobre, devido a razões tais como uma disputa na autenticidade, ou se foi revogada ou não, ou se ela está relacionada diretamente com a questão em discussão. 10 Assim, enquanto alguns juristas usam um certo hadith e decisões com base nele, outros não devido às razões acima mencionadas.

Menos do Que Certo – Ainda Não Censurado

Às vezes juristas não estão 100% certo de que o que eles têm entendido ou a decisão que eles chegaram a é realmente o que Deus revelou. Isto resulta no processo como:

  1. Sua compreensão / visão são baseadas em uma interpretação sólida( Ijtihād );
  2. As fontes primárias não são claras, o que significa que Allāh deliberadamente não revelou a Sua vontade claramente; 11
  3. Não há outros meios para verificar a vontade de Deus que não sejam através da compreensão das fontes primárias, pois a revelação cessou com a morte do Profeta ﷺ.

Ninguém pode condenar uma outra pessoa por seguir um ponto de vista válido. “Não há inkār (repreenção) em matéria de ikhtilāf  (divergencia)12 ” e “um Ijtihād (entendimento) não é redundante por outro Ijtihād 13 “. Isso significa que essas diferenças vão sempre existir e nenhuma quantidade de insistência em “hadiths sahih (ditos autênticos) vão ajudar a unificar-las.

Existe uma maneira para a segurança nestas questões?

Não. A única situação em que se pode se estar completamente certo ( Yaqīnan )  que se está na opinião correta em assuntos de fontes primárias quando são menos claras, é se receberem mais esclarecimentos da parte de Deus. Isto é conhecido como revelação ( wahi ). Isso aconteceu com o Profeta ﷺ quando ele fez um ijtihad e decidiu tomar o resgate dos cativos da batalha de Badr. Um de seus companheiros, Abu Bakr (ra) concordou com o Profeta ﷺ mas Omar (ra) discordou. Allāh concordou com Omar (ra) e fez isto ser conhecido do Profeta ﷺ usando palavras duras (Alcorão 8: 67-68 ), o que fez com que o Profeta ﷺ e Abu Bakr (ra) chorassem. Como o Profeta ﷺ não está mais entre nós, e não há nenhum profeta vindo depois dele, este meio de esclarecimento de Deus terminou, e, portanto, ninguém pode reivindicar essa autoridade. E mesmo se o fizessem, eles teriam ido contra claros ( qat’i) textos, que negam tal possibilidade (ou seja revelação ) após o Profeta ﷺ e, assim, qualquer um que dissesse isso cometeria blasfêmia e tornaria o seu iman (fé) vazio.

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Pontos a considerar

Há vários pontos, 14 que valem a pena manter em mente para que a simples noção de ” eu sigo o Alcorão e a Sunnah” seja evitada.

1. Uma percepção simplista

Se tudo o que foi mencionado foi entendido, então é fácil ver como inútil é continuamente repetir o slogan de “apenas o Alcorão e Hadith Sahih 15 ” especialmente na questão de diferença de opinião (desconsiderando as razões pelas quais as diferenças surgem em primeiro lugar 16 ). De fato, como Ibn Taymiyyah afirmou, 17 tais diferenças surgem raramente porque os estudiosos baseiam suas opiniões e decisões em capricho ou decisões arbitrariamente formadas. Se fosse esse o caso, então o slogan” só Hadith Sahih ” seria compreensível, como se poderia pensar, “se eles soubessem do Hadith, então todas as diferenças cessariam.” No entanto, este não é o caso, portanto, é inútil sugerir que seguindo o Alcorão e hadiths sahih  todas as diferenças cessariam.

Consequentemente, cada vez que alguém age sobre uma opinião sobre a qual o Alcorão e os Hadiths (ditos do profeta) não são claros, eles estão seguindo a compreensão de alguém. Essa pessoa pode ser um estudioso ou um não-estudioso. Assim Hanafis, Malikis, Hanbalis e Shāfi’īs estão simplesmente sendo honestos quando eles admitem que eles estão seguindo a compreensão das fontes primárias de muitos. No entanto, a pessoa que se recusa a aderir às escolas legais de jurisprudência mencionadas, e nem admitem seguir qualquer outro estudioso / jurista, mas em vez disso dizem seguir o Alcorão e a Sunnah diretamente e de forma independente, a questão que permanece é: a  compreensão de quem eles estão seguindo? 18

2. Certeza Pretensiosa

Além disso, o que isso também mostra é que, se alguém, um estudioso ou não-estudioso, dá a impressão de que seu ponto de vista a respeito de um assunto dhannī (não claro), é de alguma forma objetivo a única visão correta, que de alguma forma eles têm contornado o ” Fahm (entendimento) ” como indicado na fig. 1 acima, e aproximado-se do Alcorão e Hadith diretamente como eles podem dizer, então deve-se ter cautela sobre a metodologia dessa pessoa, pois isso é impossível. A sua opinião é apenas uma de muitas (como indicado pelas diferentes cores na Fig. 1). Não se pode negar a história, ou o processo natural do ser humano de interpretação. Cada texto assim se aproximou e cada decisão emitida, foi atingida pelo agente humano através da interpretação. Se a pessoa não é um profeta, então não se pode afirmar apenas “saber”. Isto significa que tem de haver uma metodologia em que  tal entendimento baseou-se. É vital que nós saibamos qual é essa metodologia para então analisemos a logica ou evidencia de uma determinado opinião. Se este for o caso, e se a pessoa esteja negando este aspecto muito humano, ou eles:

  • Não sabem de sua metodologia e de alguma forma acham que são realmente aproximados ”diretamente” dos textos, semelhante à forma como Profetas recebia a informação desconectada de história e contexto.
  • Estão intencional ou não intencionalmente (boa opinião obriga-nos a manter a precedente) escondendo sua metodologia, para injetar sua opinião com uma aura de falsa objetividade, e através disso eles desejam adquirir mais seguidores. Em outras palavras, para colocá-la sem rodeios, é apenas uma jogada de marketing. 19

Um exemplo

Esta atitude também parece manifestar-se no sentido de como as pessoas abordam o texto Fiqh al-Sunnah. É como se muitas pessoas não entendessem o propósito do texto e acham que isso é literalmente o que o título sugere, “A compreensão da Sunnah ” sem o agente humano ou Fahm .No entanto, isto é desmentido pelo fato de que o autor, Sayyid Sabiq, afirma vários entendimentos, quando ele cobre as muitas questões diferentes. Assim tomar este livro como representando a ”a Sunnah verdadeira “, e tomar, por exemplo, o texto Hanafi Mukhtasar al-Qudūrīou ou o texto Maliki Mukhtasar al-Khalīl como sendo” tendencioso ” mostra uma falhar clara ao entender a dinâmica do texto, pois se isso se aplica a todos os seres humanos, certamente aplicada ao autor do livro Fiqh al-Sunnah. 20 A culpa, neste caso, no entanto, recai sobre o leitor e não sobre o autor. É preciso ter cuidado ao ter fetiche por segurança em uma área que não oferece nenhuma. Essas indulgências são tão más quanto o desejo de especulação em uma área que é clara

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1. As fontes secundárias e terciárias

Outro fato óbvio que parece ser ignorado quando se insiste em que tudo o que deve ser mencionado é a partir de fontes primárias é explicitamente a negação de várias outras fontes, secundárias e terciárias. O fato é que tudo não é explicitamente mencionado nos textos primários (Alcorão e Sunnah). Um rápido olhar para o legado jurídico islâmico mostra que não só estavam lá fontes primárias, mas com base nisso, haviam também fontes secundárias de autoridade –  consenso ( ijma ) e Analogia ( Qiyas) , bem como várias fontes terciárias. Além disso, houveram diferentes máximas desenvolvidas após ​​decisões pesquisadas por diferentes estudiosos, a fim de facilitar o jurista para abranger los com facilidade. Esta atitude também tem vista para as altamente desenvolvidas teorias maqasid (teleológica) da lei islâmica pelos gostos de estudiosos como Imam Al-Shatibi.

2. Ḥasan Hadith

Por último, quando se insiste em aceitar nada menos que hadiths sahih, que implicam a não aceitação de uma outra categoria de hadith, que está abaixo do sahih na autenticidade, embora ainda seja utilizado para fins de direito. Este tipo “menor classificado” de hadith é conhecido como o hadith hassan.

Isto é realmente relevante?

Sim. Este assunto é relevante, uma vez que se fosse apenas “alguns irmãos na mesquita” adotando tal atitude, ela poderia ser facilmente evitada ou alterada. No entanto, é preocupante pois quando se sintonizam canais islâmicos (ou mesmo sites e videos na internt) para encontrar ”estudiosos aceitaveis”, os mesmos forçam esta linha de pensamento, ajudando a criar uma cultura de estreiteza e intolerância. Não é de se surpreender que algumas das massas estão adotando essa mesma atitude. Assim, fica-se a pensar que o estudioso da TV (ou mesmo do vídeo no Youtube) é o possuidor da única opinião autêntica, e o resto são infundadas ou fracas. Mas isso tem muitos problemas sociológicos negativos, desde quebrar a unidade na mesquita, causar rupturas no seio da família a, eventualmente, criar uma comunidade em guerra uns contra os outros. Em última análise, isso significa que a comunidade muçulmana se torna o que o Profeta Ibrahim (Abrão) suplicou contra: de se tornar “a fitna 21 para os não-muçulmanos” (Alcorão 60: 5 ) com nossa discórdia social, projetando o Islã como uma fé retrograda e intolerante.

Se alguém ouve alguém adotar tal atitude pode ajudar mantendo cautela, perguntando-lhe se há uma diferença de opinião sobre o assunto, e a base de tal diferença. Pode-se também pedir a outro estudioso uma orientação diferente, a fim de manter o equilíbrio e não se tornar um fanático (muta’aṣṣib ).

Conclusão

O objetivo deste breve artigo não foi atacar membros específicos da comunidade muçulmana ou grupos específicos. E sim  destacar uma tendência doentia que gera uma cultura de intolerância. Por fim, foi para destacar e enfatizar o fato de que as diferenças legais em assuntos dhannī (não claros) são parte e parcela do Islã, e simplesmente insistir em seguir hadiths sahih não vai diminuir isso. Os juristas do passado e do presente, direta ou indiretamente, em última instância baseiam seus entendimentos no Alcorão e na Sunnah, portanto, é nada menos do que auto-ilusório pensar que isso é o luxo de uns poucos indivíduos em exclusão do resto.

Fonte: http://www.virtualmosque.com/ummah/community/we-follow-only-the-quran-and-sunnah/

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