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Manuscrito recém descoberto mostra como evoluíram as interpretações do Islã

 

Rascunhos iniciais de uma obra canônica mostra como o entendimento dos muçulmanos de sua religião evoluiu.

“O que o Alcorão fala sobre…?” é talvez a pergunta mais comum que meus estudantes me perguntam nos cursos de história islâmica que leciono. É uma questão entendível, mas eles ficariam frustrados com a resposta se eles esperavam que isso explicaria como o Islã tem sido interpretado e praticado por toda a história.

No Ocidente pós-iluminista, uma sociedade influenciada historicamente pelo apelo “de volta à Bíblia” do protestantismo, muitos de meus estudantes cresceram tragando um discurso público obcecado com as origens religiosas e da tradição civil e os documentos fundamentais — a Bíblia Hebraica, o Novo Testamento, a Constituição — e por extensão, muitas vezes assumem que o único livro de consequência para os muçulmanos é o Alcorão. Depois do 11 de setembro, as vendas do Alcorão dispararam. Mais recentemente, na sequência do tiroteio da boate de Orlando, manchetes do Haaretz ao Newsweek lançaram artigos perguntando “O que o Alcorão Diz sobre Ser Gay?” E por todo o mês passado, com o ISIS clamando por aumentar seus ataques durante o ramadã, o Alcorão foi de novo escrutinizado como a fonte da violência.

Enquanto não há dúvida de que o Alcorão é um livro de grande consequência para os muçulmanos e não muçulmanos da mesma maneira, é importante particularmente desenvolver agora uma consciência ampla dos muitos tipos de textos, pessoas e movimentos que ajudaram a moldar o Islã como uma tradição viva com o passar do tempo.

Na biblioteca de manuscritos na Mesquita Süleymaniye em Istambul, descobri recentemente um manuscrito que mostra que o Islã está sempre sob revisão — e que essa revisão ocorreu mesmo dentro de um único livro islâmico, como seu autor considerou e reconsiderou suas interpretações por décadas de escrita.

O manuscrito que eu cacei foi uma obra monumental do Cairo do século XV que moldou o Islã sunita como o conhecemos hoje: o Fath al-Bâri de Ibn Hâjar, “Desbloqueio da Sabedoria Divina,” que explicava em ricos detalhes no que os sunitas criam e que eram os mais autênticos relatos sobre os ditos e práticas de Muhammad. Esse comentário massivo explicava milhares desses relatos, ou hadîth, e quase todo aspecto da experiência humana: adoração, amor, guerra, negócios, governança, história, lei, medicina e até mesmo higiene dental.

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Para sugerir algo como analogia, o Fath al-Bâri de Ibn Hâjar é para os sunitas o que os comentários dos Evangelhos de Tomás de Aquino é para os católicos, ou os comentários de Rashi do Talmude é para os judeus: uma proeza intelectual monumental que ajudou a remoldar o modo como uma comunidade religiosa via sua própria tradição. Depois que cada uma dessas obras medievais foram escritas, tornou-se impossível imaginar ler os hadîths, os Evangelhos ou o Talmude exatamente do mesmo modo. Esse é o poder do comentário.

Em seu próprio tempo, o Fath al-Bâri foi um clássico instantâneo: sultães do Egito, Pérsia, Tunísia, Iêmen e Índia ofereceram receitas generosas de terra e dinares de ouro em troca de até mesmo uma cópia parcial dele.

Hoje, pode-se encontrar o Fath al-Bâri à venda virtualmente em qualquer livraria em que livros islâmicos são vendidos, e virtualmente em qualquer biblioteca que adquira livros em árabe. Sua autoridade é tão grande que é frequentemente invocado por figuras religiosas, de muftis estatais a clérigos do mainstream televisivo na Al-Jazeera e a propagandistas do ISIS em suas revistas eletrônicas. E a popularidade do livro imortalizou seu autor; uma novela egípcia foi feita recentemente sobre Ibn Hâjar, sua obra de vida e seu mundo.

Os clássicos tem um certo brilho de finalidade neles. Os leitores os encontram na sua forma mais polida é muitas vezes os leem como obras estáticas, como se tivessem sido escritas numa única tarde por autores “maiores que a vida”. E ainda assim, uma obra tão monumental como o Fath al-Bâri levou pelo menos três décadas para se completar. Será que Ibn Hâjar já reconsiderou o sinificado de um hadîth particular, explicando-o de uma maneira aos seus 40 e de outra maneira aos seus 70? Embora Ibn Hâjar aparentemente leu os rascunhos iniciais em voz alta para uma audiência de estudantes, é largamente assumido que as únicas cópias existentes do Fath al-Bâri eram essas edições “finais”. Então o mundo tem poucas maneiras de sabê-lo.

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É por isso que parti para Istambul: para caçar um rascunho inicial do Fath al-Bâri. E depois de verificar a data e o copista em incontáveis varreduras eletrônicas na biblioteca da Süleymaniye, finalmente o encontrei. Ali, na porção inferior da última página, estava a data do manuscrito: 1419, vinte anos antes da cópia final do Fath al-Bâri ser declarada completa. O nome do copista era um aluno de Ibn Hâjar, que rabiscou precipitadamente a obra depois de a escutar em voz alta da boca do autor mesmo. E o livro foi marcado com revisões e adições posteriores. O Islã não pode ser reduzido a um só livro sagrado, congelado no tempo.

Essa versão manuscrita contém diferenças significativas com as versões do Fath al-Bâri agora em circulação em livrarias e bibliotecas. Por exemplo, há uma discussão de um relato sobre a prática de um chamado à reza adicional no mercado às sextas, um dos pontos mais delicados da adoração ritual sobre o qual xiitas e sunitas costumavam há muito debater um com o outro. A prática era aceitável, como muitos sunitas afirmaram, ou um dos califas abominados por alguns xiitas o introduziu como uma inovação corrupta, inautêntica ao exemplo original de Muhammad?

Em seu rascunho inicial de Fath al-Bâri, Ibn Hâjar assumiu que o chamado à reza adicional era perfeitamente aceitável, e ofereceu um pequeno comentário lidando com o problema de suas origens controversas. É somente nas revisões posteriores feitas nas margens que podemos ver que Ibn Hâjar foi pressionado a endereçar o assunto de frente, repreendendo seus rivais em semear confusão sobre quem introduziu a prática, fazendo circular o que ele considerava hadîth não confiável. Em retrospectiva, o que ele estava apontando nem era tanto sobre a legitimidade do chamado à reza adicional, mas mais sobre quê tipos de fontes os muçulmanos deveriam confiar e das quais transmitir através das gerações. Ibn Hâjar sequer quis incluir relatos não confiáveis no seu rascunho mais antigo, por medo de fazê-los de trampolim, mesmo que só para descreditá-los.

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Outra seção do manuscrito nos mostra que Ibn Hâjar continuou a expandir o significado de um hadîth sobre os sete tipos de muçulmanos que encontrariam abrigo de Deus no Dia da Ressureição, que cada pessoa encarará depois da morte. De acordo com o hadîth, os sete incluíam um amigo amável, um líder justo, uma pessoa caridosa e assim vai. No rascunho inicial, parece que para Ibn Hâjar a lista de de sete não era para ser tomada literalmente como um limite, como alguns dos comentadores assumiram. Ao invés disso, ele ofereceu um outra lista de sete que seriam abrigados por Deus, além dos sete originais listados no hadîth: um herói de guerra e um mercador honesto, entre outros. Em revisões posteriores, Ibn Hâjar adiciona outros sete, e ainda mais! Ele revisou continuamente sua obra não só para ultrapassar seus rivais, mas também para se pôr contra uma leitura excessivamente estreita do hadîth que inibiria a multidão dos meios pelos quais os muçulmanos poderiam gozar do favor de Deus.

Nos tempos do ISIS, é tentador buscar os modos mais simples de achar sentido no Islã. Mas a revelação de que Ibn Hâjar revisou e rerrevisou seu comentário de hadîth oferece um lembrete importante: o Islã não pode ser reduzido a só a um livro sagrado, congelado no tempo. É uma tradição dinâmica e complexa que foi revisada e rerrevisada continuamente por muitos períodos de vida, e mesmo dentro de um só período de vida. Você poderia até dizer que a história do Islã é uma história na qual os muçulmanos estão sempre reconsiderando como as muitas camadas de sua herança textual se enquadram com suas circunstâncias sociais e políticas presentes. Na próxima vez em que meus alunos me perguntarem “O que o Alcorão fala sobre…?”, espero que eles deem uma olhada no manuscrito bem gasto do século XV — marcado e riscado através dos anos — e considerem revisar seu próprio entendimento dessa rica tradição.

Fonte: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/06/islam-manuscript-discovery-istanbul/531699/

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