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Khayâl – Imaginação Criativa nos Ensinamentos de Muhyiddîn Ibn ‘Arabi

Por W.C. Chittick e editado por Omar K Neusser

1. Introdução

O conceito islâmico de imaginação (khayâl) compreende uma área vasta e é interconectado com toda ideia principal de pensamento islâmico, fora onde palavras são somente indicadoras insuficientes. Assim é uma faculdade importante, sem a qual o homem não conseguiria entender nada além de sua faculdade racional, que é exatamente o problema de muitos seres humanos hoje. Sem Imaginação Criativa, o simbolismo não pode ser entendido.

Imaginação no contexto islâmico “designa um realidade ou ’presença’ que se torna manifesta no cosmo, no macrocosmo e no microcosmo. Também designa num sentido mais estrito ’a faculdade da imaginação,’ considerada uma das várias faculdades da alma, junto com a razão, reflexão e memória.”

A Imaginação a que estamos nos referindo aqui não deve ser confundida com fantasia, a qual Paracelso já observou como sendo um execício de pensamento sem fundamento na natureza, chamando-a de ‘a pedra angular do louco’. Não ‘cria o ser’. O conceito gnóstico de Imaginação se põe quanto ao ser real, longe de um agnosticismo puro e simples.

Isso então está intimamente ligado à habilidade do homem de criar ou sua ‘criatividade’, que naturalmente sempre tem que ser entendida como uma criatividade metafórica na visão da Criatividade pelo Real.

2. Desvelamento e Imaginação

”O desvelamento é geralmente associado com a Imaginação, porque ocorre tipicamente através da imaginação de várias entidades e realidades invisíveis.” E “o desvelamento é uma ocorrência cotidiana para profetas. Para os Amigos de Deus, é uma HERANÇA dos profetas. O POVO DO DESVELAMENTO é do patamar mais alto dos Amigos de Deus.”

Coisas “que são normalmente inacessíveis à percepção dos sentidos ou à razão são dadas formas por Deus e então percebidas dentro da imaginação por aqueles a quem [uma pequena fenda para] as coisas invisíveis foram abertas.”

“Imaginação é fundamentalmente uma realidade intermediária; como tal é intrinsecamente ambígua… assim é um barzakh por excelência.”

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3. As palavras khayâl (Kh-Y-L) e tamaththala

3.1
No Alcorão e hadîth há poucos casos de khayâl. O conceito de khayâl é usado tanto para a faculdade mental da imaginação quanto para o mundo como ela se manifesta, como um tipo de “imaginação.” Ibn al-‘Arabi explica isso assim:

“Imaginação não é nem existente nem não existente, nem conhecida nem desconhecida, nem negada nem afirmada. Por exemplo, uma pessoa percebe sua forma num espelho. Ela sabe por certo que percebeu sua forma num aspecto e sabe por certo que não percebeu sua forma por outro aspecto… Ela não pode negar que viu sua forma, e sabe que sua forma não está no espelho, nem entre ela mesma e o espelho…”

3.2
Moisés {E eis que lhe pareceu que suas cordas e seus cajados se moviam, em virtude da magia.} Sura 20:66

3.3
O exemplo de Sulaimân (a.s.) e Bilqîs, quando seu trono desapareceu num lugar e reapareceu no lugar de Sulaimân. Então Bilqîs “reconheceu a impossibilidade de uma transferência material,” e exclamou:

{“O teu trono é assim?” Ela respondeu: “Parece que é o mesmo!”}
Sura 27:42

3.4
Nesse contexto, há a palavra tamaththala (mithâl), que não é usada para a faculdade imaginativa em si, mas só para o mundo objetivo, como se apresenta para nós.

Como um sinônimo para “imaginação”: tamaththala é lembrar, parecer, imitar, personificar, aparecer na semelhança de algo. É usada repetidamente no Alcorão e hadîth, como por exemplo na Sûrat Maryam (19:17):

{que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito} ou melhor ainda: {ele foi personificado por ela como um homem sem falta.}

ou no hadîth:
“Satanás não pode se personificar (tamaththal) na minha imagem (mithl)” ou “na minha forma.”
(Bukhâri, Livro ‘Ilm nº3, hadîth 110; Muslim, Livro Ruyâ nº29, hadîth 5639)

3.5
Outro exemplo no hadîth profético de Gabriel (a.s.):
“Diga: adore a Allah como se O visse, pois se não O vê, certamente Ele vê você.”

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Comenta o Shaikh Muhyiddin Ibn ‘Arabi: “Tivesse o Legislador não sabido que você tem uma realidade conhecida como “imaginação que possui essa propriedade, não teria dito a você “como se O visse” com seus olhos… Pois a visão não percebe nada além de uma parede…”

4. Formas e Imaginação

O Shaikh Muhyiddin Ibn ‘Arabi escreveu que “a imaginação não tem a capacidade de aceitar nenhum assunto, seja sensorial, suprassensorial (ma’nawi), relações, atribuições, a majestade de Deus ou Sua Essência, exceto através da forma… (e) a imaginação “não pode nunca descobrir significados dos substratos. Daí a percepção sensorial é a coisa mais próxima da imaginação, já que a imaginação toma formas da percepção sensorial, então revela significados através dessas formas sensoriais,… para que nada possa ser descrito por falta de delimitação, por não delimitação em existência e {porque Ele dispõe como Lhe apraz} (11:107), exceto Deus em Si, sobre o qual é dito: {nada se assemelha a Ele.}(42:11).”

5. O Coração como o Local da Imaginação

O coração sozinho é capaz de perceber as autorrevelações de Deus através da faculdade da imaginação.

Ao contrário das percepções (pós-)modernas, na Tradição Islâmica o coração é o “local do conhecimento, em vez dos sentimentos ou sensações.”

A esse respeito, somos lembrados pelo hadîth qudsi:

“Meus céus e Minha terra não podem Me conter, mas o coração do Meu servo crente Me contém.”

{Parece que é o mesmo…} (ka’annahu huwa) Sura 27:42

6. Três Tipos de Imaginação

5.1
“Ibn al-‘Arabi nomeia a imaginação nos seu sentido amplo de “Imaginação Não Delimitada” (al-khayâl al-mutlaq), já que designa a situação de existência.” Mas como pode toda existência ser considerada idêntica à imaginação?

5.2
Então há três distinções que podem ser feitas:

• A imaginação no seu sentido mais amplo designa a situação de toda a existência:
É a Imaginação Não Delimitada (al-khayâl al-mutlaq)

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• O mundo intermediário da imaginação existe independentemente daquele que vê.
Essa é a imaginação descontínua (al-khayâl al-munfasil)

• A alma humana junto com a faculdade da imaginação está conectada ao assunto visto.
Essa é a imaginação contínua (al-khayâl al-muttasil)

7. Transcendendo Barreiras Mentais

Muitos tipos de conhecimento (que na verdade são os mais importantes) são normalmente escondidos de nossas mentes racionais, mas a imaginação [espiritual] é capaz de transcender essas barreiras mentais rígidas levantadas por nossa racionalidade e assim a imaginação é capaz de combinar aparentes oposições e contradições.

É por isso que entender a imaginação é tão essencial para o buscador da verdade (divina), e nas palavras do Shaikh Muhyiddin Ibn ‘Arabi, é um dos pilares do conhecimento verdadeiro:

Porque ”nosso objetivo é (…) estabelecer a existência da imaginação. (…) Foi estabelecido que (ela) possui uma propriedade governante (hukm) em toda modalidade e sobre todo estado, o sensorial e o inteligível, sentidos e faculdades racionais, formas e significados, o originado temporariamente e o eterno, o impossível, o possível e o Necessário.”

”Aquele que não conhece o nível da imaginação não tem qualquer conhecimento que seja; se esse pilar do conhecimento verdadeiro não tiver sido efetivado pelos conhecedores, eles nem sentiram o cheiro do conhecimento verdadeiro.”

Hadîth: ”Adore a Deus como se O visse!”

Imagine isso e pense sobre o dito:

”Deus está na qibla daquele que realiza a reza,” já que vai estar diante d’Ele, tenha vergonha diante d’Ele e observe a cortesia quanto a Ele. O Shaikh diz mais:

Daí “o Legislador Se dirigiu a você para que você imagine que está encarando Deus na sua qibla, que de acordo com a Lei você deve encarar nas suas rezas…”

Então aí está uma exposição de como a imaginação faz para usar formas para interpretar qualquer coisa. A imaginação dá forma para qualquer coisa que, “de acordo com a demonstração racional, não pode provavelmente ter forma ou assumir formas (tasawwur) ”.

Fonte: http://www.livingislam.org/d/khyl_e.html

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