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Guerras de Aqida – Uma Conversa com Sheikh Said Fodeh

Na segunda, 5 de janeiro de 2016, Mohamed Ghilan entrevistou Shaykh Sa’id Fodeh para obter sua contribução em alguns assuntos relacionados à teologia Islâmica. Shaykh Fodeh é provavelmente o mais proeminente teólogo muçulmano da escola Ash’ari vivo hoje, um mestre da tradição do Kalam e autor de uma extensa lista de 80 livros nessa disciplina. Ele vive em Amman, Jordânia.

 

Essa conversa é dividida em duas partes. A primeira é sobre as divisões dentro da comunidade muçulmana na América, e em geral no ocidente, junto com linhas de falha teológicas, nas quais o campo dos Salafis sob a bandeira do Imam Ibn Taymiyyah enfrentam o campo dos Tradicionalistas sob a bandeira do Imam Al Ghazali. A parte dois é uma discussão sobre a relação entre racionalismo e empirismo, e como isso se relaciona com o Islam, ciência e ateísmo. Abaixo segue uma tradução da parte um da conversa:

 

Mohamed Ghilan: Temos uma situação no ocidente, onde a comunidade Muçulmana tende a se dividir em diferentes campos. Os dois campos mais proeminentes hoje em dia são aqueles que se referem a si mesmos como Salafis versus aqueles que se referem a si mesmos como Sunnitas Tradicionais ou Ash’aris/Maturidis. Infelizmente, há membros em cada campo que são bastante vocais em denunciar o lado oposto, e alguns vão muito longe em seus ataques. Muitos dos assuntos sendo levantados são históricos em sua natureza e não têm muita relevância prática para os muçulmanos vivendo hoje. De fato, o que faz isso mais problemático é o atual crescimento da islamofobia, exemplificado por fenômenos como a subida de Trump e seus apoiadores. Qual sua visão sobre esse assunto?

 

Shaykh Sa’id Fodah: Vou me dirigir a isso de forma mais breve e direta possível. As diferenças entre os muçulmanos nunca irão cessar, independentemente de que eles estejam na América, Europa, aqui na Jordânia, ou em qualquer lugar no mundo. Esse foi o caso historicamente desde o início, continuou sendo até hoje, e será assim até o Dia do Julgamento. Entretanto, tendo dito isso, é imperativo para os muçulmanos respeitarem aqueles com quem eles têm diferenças. Se nós somos comandados no Corão a respeitar aqueles que não compartilham de nossa crença no Islam, o que isso diz sobre como devemos tratar nossos co-religiosos, quando nós diferimos? – “E argumente com eles na melhor das maneiras.” [16:125].

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Nosso problema enquanto muçulmanos é que muitos de nós vão além dos limites aceitáveis quando debatemos um ao outro, e muitos começam a acusar ao outro até mesmo de destruir a religião. Na realidade, a maioria daqueles que se engajam nessas discussões e conflitos é ignorante e tem a inteligência muito limitada. Eu, na verdade, culpo os eruditos e pessoas de conhecimento que não mostram, com o exemplo, como debater e discutir na melhor das maneiras. Quando digo maneiras, não me refiro a ser simpático e cordial. Nós somos de fato bons em fingir essas coisas. As maneiras que os eruditos mencionam em seus textos não são sobre a pessoa ser agradável. Na verdade, as etiquetas de discordância (adab al-ikhtilaf) expostas pelos eruditos de teologia significam ouvir e entender a posição do outro lado da maneira que ele entende, não da maneira que eu projeto nela. Isso requer a capacidade de escutar, clarificar e confirmar antes de responder. Eu não acredito que nosso problema está em termos diferenças ou disputas. Nosso problema real é a nossa falta de etiquetas na discordância.

 

Existe uma diferença entre ser um ouvinte e em ser um orador. Dê uma olhada nos debates públicos que ocorrem entre teólogos e ateístas. Você vê o público inteiro discutindo uns com os outros? Ou você vê os eruditos debatendo e o público escutando? Nosso problema é que falhamos em reconhecer quem deve estar falando e quem deve estar escutando. Nós aparentamos ter problema em discernir quem tem o direito de debater. Nós temos muitos candidatos; engatinhando na escada dos eruditos para obter plataformas com as quais eles não têm nada a ver em ocupar. A pessoa deve passar muito tempo sentada quieta e aprendendo antes de obter o direito de falar. No momento em que você ver pessoas lançando insultos e acusações contra as outras de quem elas diferem, saiba que você está na presença de tolos ignorantes.

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Pessoas que estão genuinamente buscando conhecimento e verdade discutem os assuntos em questão de forma quieta. Até mesmo se, no fim, eles forem embora com discordâncias, eles fazem isso se tornando mais próximas umas das outras do que estavam antes de começar.

Finalmente, temos que lembrar que chamamos as pessoas para o Islam de uma maneira geral. Eu mesmo sou um Ash’ari, apoio a escola Ash’ari e creio que ela seja o caminho mais autêntico no Islam Sunni. Entretanto, eu não chamo as pessoas para a escola Ash’ari, eu chamo as pessoas para o Islam. O que eu represento é uma escola, um método de entender o Islam. Mas eu não reivindico que esse seja o único caminho, e minha compreensão e convicções aqui são minha declaração final sobre esse assunto. Islam é maior e mais abrangente do que eu, do que aqueles que vieram antes de mim, depois de mim, ou do que uma escola específica.

 

A armadilha na qual muitos Ash’aris caem, e eu tenho muitas discordâncias com muitos Ash’aris sobre isso, é que eles fazem Islam o título da escola Ash’ari. De fato, essa é a mesma armadilha na qual outros grupos caem. Nós podemos afirmar que a escola Ash’ari é o mais autêntico caminho de compreender o Islam. De fato, outras escolas, incluindo os Salafis com Ibn Taymiyyah, ou mesmo os Zaydis, Ibadis e Mu’tazilitas, têm também o direito de fazer essa afirmação. Essa não é uma chamada para se ter falsa humildade sobre isso, ou ter uma afirmação de equivalência. Nós podemos afirmar que os Ash’aris são os mais próximos e têm a mais correta compreensão de teologia Islâmica, e por sua vez oferecer nossas razões para ter essa crença. Da mesma forma outros grupos podem fazer afirmações sobre ser o mais correto em suas estimativas e oferecer suas razões. Os eruditos podem então sentar todos, discutir e debater com respeito mútuo e de acordo com as etiquetas que mencionei.

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No final das contas, diferenças e discordâncias permanecerão. O que precisamos fazer é tratar uns aos outros com respeito e boas maneiras, e ter tolerância com as diferenças dos outros. Essa é a forma pela qual podemos estar todos unidos. O que prejudica mais os muçulmanos não é que eles tenham divergências, e sim que eles administrem mal a maneira com que eles lidam com suas divergências.

Fonte: http://almadinainstitute.org/blog/aqeedah-wars-a-conversation-with-shaykh-saeed-fodeh/

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