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A Definição Sunita de Bid’a (Inovação) como Sendo Boa ou Má – Sheykh GF Haddad

Esse artigo tem duas partes:

  • I. A definição de Al-Shâfi’î de bida’a como sendo boa ou má;
  • II. A divisão de bid’a em boa e má entre o Ahl al-Sunna e outros.

I. A definição de Al-Shâfi’î de bid’a como sendo “boa” ou “má”

Uma contribuição grandiosa do Imâm al-Shâfi’î (ra) nos Fundamentos da Jurisprudência (usûl al-fiqh) é sua divisão da inovação (al-bid’a) e assuntos inovados (al-muhdathât) como “bons” ou “maus” dependendo de sua conformidade ou não conformidade com as diretrizes da Religião. Isso é narrado autenticamente de al-Shâfi’î de dois de seus estudantes mais prestigiosos no último período de sua vida, os mestres de hadîth egípcios Harmala ibn Yahyâ al-Tujaibî e al-Rabî’ ibn Sulaimân al-Murâdî:

Harmala disse: “Ouvi al-Shâfi’î (ra) dizer:
‘A inovação é de dois tipos (al-bid’atu bid’atân): inovação aprovada (bid’a mahmûda) e inovação desaprovada (bid’a madhmûma). O que quer que se conforma com a Sunna é aprovado (mahmûd) e o que quer que se oponha é abominável (madhmûm).’

Ele usava como prova a afirmação de ‘Umar ibn al-Khattâb (ra) sobre as rezas [congregacionais] noturnas super-rogatórias no mês do ramadã: “Que inovação boa é esta!” Isto mostra que al-Shâfi’î nunca interpretou as palavras de ‘Umar figurativamente do jeito que os ultrainterpretadores “salafis” (mu’attila) fazem.

Al-Rabî’ disse: “Al-Shâfi’î disse:
‘Os assuntos inovados são de dois tipos (al-muhdathâtu min al-umûri darbân):
um é a inovação que contradiz (mâ uhditha yukhâlifu) algo no Alcorão ou na Sunna ou um relato de um Companheiro (athar) ou Consenso (ijmâ’): aquela inovação é um desvio (fahâdhihi al-bid’atu dalâla).
O outro tipo é a inovação de todas e quaisquer coisas boas (mâ uhditha min al-khair) contradizendo nenhuma das acima, e essa é uma inovação sem culpa (wahâdhihi muhdathatun ghairu madhmûma).
‘Umar (ra) disse, quanto as rezas do ramadã: “que bid’a boa é esta!”, querendo dizer que foi inovada sem ter existido antes e, ainda assim, não havia nada nela que contradizia o acima.’”

Então al-Shâfi’î lançou o critério essencial e indispensável para a determinação da bid’a verdadeira, como definida, entre outros, pelo Imâm al-Haitamî, Qâdî Abû Bakr Ibn al-‘Arabî e pelo Imâm al-Lacknawî respectivamente:

“Bid’a em termos de lei é tudo que é inovado em contravenção do comando do Legislador e a prova específica e geral do último.”

“Somente a bid’a que contradiz a Sunna é condenável.”

“Bid’a é tudo aquilo que não existia nas primeiras três gerações e aquela que não tem base entre as quatro fontes do Islã” i.e. Alcorão, Sunna, Ijmâ’ e Qiyâs.

Consequentemente, não é bastante para algo ser simplesmente uma novidade para ser uma bid’a; deve ser algo que contradiga a Religião.

Al-Baihaqî commentou sobre o relato de al-Rabî’ assim:

“Similarmente, debate-se com o povo das inovações – quando eles tornam públicas suas inovações ou vêm com suas insinuações – para refutá-los e expor suas falácias; ainda que seja uma inovação, entretanto é uma louvável porque consiste em refutar o que acabamos de mencionar. O Profeta (s.a.w.s.) foi perguntado sobre o preordenamento divino (al-qadar) e assim foram alguns dos Companheiros, e eles responderam com respostas que lhes foram narradas deles para nós. Naquele tempo, eles se contentavam com as palavras do Profeta (s.a.w.s.) e, logo mais, com os relatos para esse efeito. Entretanto, no nosso tempo, os inovadores não se contentam com tais relatos nem os aceitam. Logo, é necessário refutar suas insinuações – quando eles as tornam públicas – com o que eles mesmos consideram como provas. E o sucesso é através de Allah.”

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Essa é uma defesa clara da necessidade e caráter da Sunna do kalâm na defesa contra inovadores da parte do Imâm al-Baihaqî. Algo semelhante é relatado de Ibn ‘Asâkir, Ibn al-Salâh, al-Nawawî, Ibn al-Subkî, Ibn ‘Âbidîn e outros dos grandes Imâms que citamos.

II. Divisão de Bid’a em Boa e Má entre o Ahl al-Sunna e Outros

Definição Idêntica de Al-Ghazzâlî

Hujjat al-Islâm al-Ghazzâlî disse em suas discussão sobre adicionar pontos à escrita alcorânica:

“O fato de que isso é inovado (muhdath) não forma nenhum impedimento para isso. Quantos assuntos inovados são excelentes! Como foi dito quanto ao estabelecimento de congregações no Tarâwîh que está entre as inovações de ‘Umar (ra) e que essa era uma inovação excelente (bid’a hasana). A bid’a condenável é somente aquela que se oponha à antiga Sunna ou que possa levar a mudá-la.”

Definição Idêntica de Ibn al-‘Arabî al-Mâlikî

O Qâdî Abû Bakr Ibn al-‘Arabî disse em sua discussão sobre bid’a:

“Saiba – que Allah te conceda conhecimento! – que assuntos inovados são de dois tipos (al-muhdathâtu darbân).
1.) Um assunto inovado que não tem nenhuma base além de lascívia e prática arbitrária. Tal é categoricamente inválido. E:
2.) Um assunto inovado entendido a corresponder a algo [estabelecido]. Tal é a Sunna dos califas e aquela dos eminentes Imâms. Assuntos inovados e inovações não são condenáveis meramente por serem chamados de muhdath e bid’a, só por causa de seu significado! Allah O Altíssimo disse: {Nunca lhes chegou uma nova (muhdath) mensagem de seu Senhor}(21:2) e ‘Umar (ra) disse: “Que bid’a boa é esta!” Antes, é somente a bid’a que contradiga a Sunna que é condenável e somente os assuntos inovados que convidam ao desvio que são condenáveis.”

Definição Idêntica de Ibn Hazm e Ibn al-Jauzî

Ibn Hazm al-Dhâhirî disse:

“Bid’a na Religião é tudo que não vem para nós no Alcorão nem do Mensageiro de Allah, exceto aquela que é recompensada por algo disso e aqueles que a fazem são desculpados se tiverem boas intenções. Disso vem o recompensável e excelente (hasan), nomeadamente o que é permitido originalmente (mâ kâna asluhu al-ibâha) como foi narrado de ‘Umar (ra): “Que bid’a boa é esta!” Tal se refere a todos os bons atos que os textos estipularam em termos gerais de desejabilidade ainda que sua prática não esteja fixada no texto. E disso vem o condenável pelo qual não há desculpas tais como o que tem provas contra sua invalidade.”

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Ibn al-Jauzî fala em termos semelhantes no começo de seu Talbîs Iblîs:
“Certos assuntos inovados (muhdathât) aconteceram que não se opõem à Lei Sagrada nem a contradiz, assim eles [os Salaf] não viram nenhum perigo em praticá-los, tal como a reunião das pessoas por ‘Umar (ra) para a reza noturna no ramadã, depois da qual ele as olhou e disse: ‘que bid’a boa é esta!’”

Definição Idêntica de Ibn al-Athîr al-Jazarî

O lexicógrafo Ibn al-Athîr disse em sua obra-prima, al-Nihâya fî Gharîb al-Hâdîth wal-Athar:

“Bid’a é de dois tipos: a bid’a de guia e a bid’a de desvio (bid’atu hudâ wa-bid’atu dalâla). O que quer que contradiga o comando de Allah e Seu Mensageiro: essa está dentro da esfera da culpa e condenação. E o que quer que entre na generalidade do que Allah e Seu Profeta comandaram ou frisaram: essa está dentro da esfera do louvor. O que quer que não tenha precedência tal como extrema generosidade ou bondade – tal está entre os atos louváveis. É impermissível que tal seja considerado como contravenção da Lei porque o Profeta (s.a.w.s.) estipulou que tal coisa traria recompensa quando disse: “Quem quer que institua uma prática boa no Islã (man sanna fîl-islâmi sunnatan hasana) tem sua recompensa e a recompensa de todos aqueles que a praticarem.” E ele disse, por outro lado, “quem quer que institua uma prática má no Islã (waman sanna fîl-islâmi sunnatan sayyi’atan) arcará com seu ônus e o ônus de todos aqueles que a praticarem.” Assim é quando o ato vai contra o que Allah e Seu Mensageiro comandaram… É neste sentido que o hadîth “toda inovação é desvio” é entendido: quer dizer o que quer que contradiga as bases da Lei e não concorde com a Sunna”[12]

Classificação Final Quíntupla de Ibn ‘Abd al-Salâm

Shaikh al-Islâm, Sultân al-‘Ulamâ’ Imâm al-‘Izz Ibn ‘Abd al-Salâm disse semelhantemente:

“Há tipos diferentes de inovações (bida’). O primeiro tipo é o que quer que a Lei indicou como louvável ou obrigatório e o semelhante a isso que não tenha sido feito no primeiro período do Islã. O segundo tipo é o que quer que a Lei tenha indicado como proibido ou desagradável, e o que não foi feito no primeiro período do Islã. O terceiro tipo é o que quer que a Lei indicou com permitido indiferentemente e o que não foi feito no primeiro período do Islã.”

Em outro lugar ele afirma que as categorias de bid’a são cinco, idênticas à classificação dos juristas sobre os atos:

  • “obrigatória” (wâjib),
  • “proibida” (harâm),
  • “recomendada” (mandûb),
  • “desrecomendável” (makrûh) e
  • “permitida indiferentemente” (mubâh).

Endossamento de Al-Nawawî da Classificação Quíntupla

Shaykh al-Islâm, Imâm al-Nawawî disse:

“Al-Bid’a na Lei é a inovação do que não existia no tempo do Mensageiro de Allah e é dividida em “excelente” e “má” (wahya munqasimatun ilâ hasana wa qabîha). O Shaikh, o Imâm cuja proeminência em liderança, grandeza, reputação e brilho em todo tipo de ciências islâmicas é consensual, Abû Muhammad ‘Abd al-‘Azîz ibn ‘Abd al-Salâm – que Allah tenha misericórdia dele esteja satisfeito com ele! – disse já para o fim de seu livro, al-Qawâ’id [al-Kubrâ]:

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“A inovação é dividida em ‘obrigatória’ (wâjiba), ‘proibida’ (muharrama), ‘recomendada’ (mandûba), ‘ofensiva’ (makrûha) e ‘indiferente’ (mubâha).
O jeito para [discriminar] isso é que a inovação seja examinada à luz do regulamento da Lei (qawâ’id al-sharî’a). Se entrar no regulamento de obrigatoriedade (îjâb) então é obrigatória; sob o regulamento da proibição (tahrîm) então é proibida; recomendabilidade, então recomendada; ofensividade, então ofensiva; indiferença, então indiferente.”

Endossamento de Ibn Hajar da Classificação Quíntupla

O Hâfidh Ibn Hajar disse:

“O significado da raiz de inovação é o que é produzido sem precedência. É aplicado na lei em oposição à Sunna e logo condenável. Estritamente falando, se é parte do que é classificado como louvável pela lei então é uma inovação boa (hasana), enquanto que se é uma parte do que é classificado como condenável pela lei então é condenável (mustaqbaha), de outro modo cai na cateoria do que é permitido indiferentemente (mubâh). Pode ser dividido nas cinco categorias conhecidas.”

Concordância das Escolas Quanto à Classificação Quíntupla

A concordância formada nas Quatro Escolas sobre a classificação quíntupla de bid’a como ilustrada pelo endossamento das maiores autoridades de cada Escola.

(1) Entre os hanafis: al-Kirmânî, Ibn ‘Âbidîn, al-Turkmânî, al-‘Ainî e al-Tahânawî.

(2) Entre os mâlikis: al-Turtûshî, Ibn al-Hâjj, al-Qarâfî e al-Zurqânî, enquanto al-Shâtibî tenta refutar isso e alega que a classificação quíntupla é “um assunto inovado sem prova na Lei”!

(3) Consenso entre os shâfi’is.

(4) Aceitação relutante entre os hanbalis mais recentes, que alteraram a terminologia de al-Shâfi’î e Ibn ‘Abd al-Salâm para que se leia “inovação léxica” (bid’a lughawiyya) e “inovação legal” (bid’a shar’iyya), respectivamente – embora imprecisamente – combinando com o “aprovado” e “abominável” de al-Shâfi’î. Essa maneira de dividir cabelos se tornou o shibboleth do wahhâbismo em todo microdebate sobre bid’a, embora o modo correto – como de praxe – é patentemente aquele do Jumhûr.

Shaikh Muhammad Bakhît al-Mutî’î disse: “A bid’a legal é aquela que é desvio e condenada; assim é quanto à bid’a, que os ‘Ulamâ’ a dividiram em obrigatória e proibida e assim vai, tal é a bid’a léxica que é mais inclusiva que a legal porque a legal é somente parte dessa.”[21]

Al-Shaukânî concluiu em Nail al-Autâr que a divisão fundamental das inovações em “boas” e “más” é a posição mais sadia e correta.

Basta dizer que um Imâm mujtahid principal dos Salaf disse assim sobre as bases do Alcorão e da Sunna independente de argumentações dos séculos posteriores – mesmo que de um aspirante a murajjih como al-Shaukânî ou um suposto censor como al-Shâtibî – à luz da concordância do Jumhûr sobre a explicação de al-Shâfi’î e as injunções divinas e proféticas para seguir o caminho dos crentes e ficar com a maioria.

E Allah sabe melhor.

Fonte: http://www.livingislam.org/n/sdb_e.html

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