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Cristãos e Muçulmanos no Egito

Cristãos perseguidos, muçulmanos malvados!

Em uma bela tarde de quinta-feira, estava eu a caminho de uma lanchonete na cidade de Cuiabá, quando na calçada em frente ao estabelecimento um homem me vê e diz: ”Marhaba!”(bem vindo em árabe) e logo se aproxima de mim me cumprimentando e se apresentando como Paulo, um filho de libanês católico que estava muito feliz em ver um muçulmano nas ruas de sua cidade. Apos me despedir do simpático senhor, continuei meu caminho e pensamentos me vieram a cabeça. que me levam a escrever este artigo. Certamente, o pai árabe-católico do senhor Paulo não o alertou que com muçulmano cristão não brinca, e que ele deveria ter medo daqueles ”que perseguem seus correligionários no Oriente Médio”.

Certamente estas minhas ultimas palavras grifadas não passam de pura ironia. Eu mesmo já morei no pais árabe de maioria islâmica que por séculos abriga uma grande população cristã, o famoso Egito. Que mesmo sendo governado por omíadas, abássidas, fatímidas, aiúbidas, mamelucos, e otomanos manteve ate os dias atuais as igrejas do cristianismo copta. E falando de Egito, me vem a lembrança mais uma passagem de minha vida na terra das piramides. Um dia, estava eu na magnifica Fortaleza de Saladino em Fustat no Cairo, quando parei em uma pequena loja de fotografia para contratar os serviços de um fotografo local.

Na porta do estabelecimento, sentado em uma cadeira, estava um senhor egípcio tipico que logo soltou algumas palavras para mim em inglês, e se identificou como cristão, e iniciou sua pregação e debate querendo me converter ao cristianismo. Eu meio que fiquei em choque com aquilo. Sempre me foi dito (apesar de eu nunca ter acreditado) que cristãos egípcios vivam oprimidos pela maioria muçulmana há seculos, e que a simples menção a ”Jesus” já era motivo de morte por mãos muçulmanas. Porém nenhuma dessas mentiras tornou-se verdade, e o pregador copta continuou até que eu me cansei, e virei as costas. O fato ficou na minha cabeça por dias, então questionei a um amigo egípcio por que da permissão de um missionário cristão pregar num ponto turístico em um país majoritariamente muçulmano, e os muçulmanos não fazerem nada. O meu amigo me explicou que no Egito onde os cristãos são 10% da população, existe uma lei para impedir o proselitismo, sem essa lei, muitos muçulmanos não veriam problema em assediar a fé dos cristãos em suas casas ou em seus templos (coisa que o Islã proíbe). Ou seja, essa lei é para proteger a ordem social local e a integridade das minorias. O que não impedia que cristãos fizessem o contrario.

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Outro fato que me impressionou no Egito foi que nem em Olinda ou Recife (minha cidade natal) eu vi igrejas tão imensas como vi no Cairo e Alexandria. As igrejas erguem-se nas maiores cidades do Egito como montanhas. Mesmo para um muçulmano como eu, tal visão é de tirar o folego.

Mais uma curiosidade dos cristãos do Egito é fato deles andarem com pequenas cruzes tatuadas nas mãos para que ninguém os confunda com muçulmanos. Percebi no país uma grande tolerância religiosa, apesar de uma leve tenção de identidade por parte dos cristãos.

Mas voltando as perseguições, elas foram por séculos pretextos para os crimes mais bárbaros da cristandade. As próprias cruzadas foram inflamadas pelos papas com discursos exagerados de cristãos sofrendo nas mãos dos muçulmanos. Ao longo da história islâmica tais atos de perseguição a cristãos só se provam mentiras. Nas próprias palavras do profeta Muhammad, ele dizia que quem prejudicasse um cristão sobre proteção muçulmana tinha prejudicado a ele. O Alcorão incentiva as boas relações entre cristãos e muçulmanos. O diagrama do olho humano de Hunayn ibn Ishaq, um cientista cristão da Bagdá abássida é um legado que sobreviveu aos séculos para mostrar a realidade dos cristãos na era de ouro do Islã.

O protestantismo (atualmente tão anti-islâmico) sobreviveu a perseguição católica na Europa sendo abrigado em braços otomanos pelo sultão Sulayman, o Magnifico, que não só concedeu liberdade aos novos cristãos como os ajudou em sua guerra por autonomia e poder contra os católicos.

Porém obviamente, não sou tão santificador de meus correligionários muçulmanos ao ponto de dizer que não existe nenhuma violência contra os cristãos. Sim, existem tenções entre cristãos e muçulmanos em algumas partes do mundo, e as vitimas são feitas dos dois lados. Sejam pelas milicias cristãs do exercito sírio que massacra muçulmanos opositores ao governo, ou pelos cristãos mortos em surtos de ódio por alguns extremistas islâmicos. E por falar em extremismo islâmico, como poderíamos esquecer o atualmente tão famoso Estado Islâmico! Ele que vem sendo protagonista de tantas noticias mirabolantes de sites gospel que renderiam filmes. Vai desde cristãos crucificados a queimados vivos por unicamente acreditarem em Jesus (crença esta também partilhada por muçulmanos).

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Oque o povo esquece (ou a mídia os faz esquecer) é de Srebrenica e seus cristãos destroçando dezenas de muçulmanos, ou do Estado Cristão.Sim, os EUA, um país esmagadoramente cristão protestante, que há alguns anos com seus soldados cristãos invadiu o Iraque e fez mais aberrações de que o próprio Sadan Hussein a quem eles foram combater, em busca de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Os crimes de cristãos americanos contra muçulmanos iraquianos vão desde tortura a roubo de orgãos para o trafico internacional. E não vamos esquecer de cidades explodidas e estupros.

Mas deixando este passado tão presente de lado, a questão que deve estar vindo a mente do leitor é: Oque originou todo este conflito recente?

A resposta está no norte da Europa, no país da rainha Elizabete. Que após invadir o Império Otomano, e dividirem seus habitantes nos países árabes modernos, os britânicos infiltraram na sociedade islâmica um sentimento que nunca existiu, o nacionalismo. Por séculos o Império Otomano foi uma potencia mundial que abrigava quase todas as formas de cristianismo conhecidas, bem como judeus. Seguindo extramente a lei islâmica, os otomanos governavam diferentes raças de diferente credos num sistema de governo que permitia a cada grupo ser julgado sob suas próprias leis, e terem seus próprios representantes no governo.

Porém, com a invasão ao império e seu enfraquecimento, iniciaram-se conflitos sectários. Aos novos colonizadores europeus das terras islâmicas coube a missão de desenhar as novas linhas dos novos países que nunca tinham existido. E em meio ao vácuo de poder, ditadores foram postos no comando. E dai, o vizinho cristão do egípcio muçulmano, passou a ser visto como um intruso a sua nacionalidade, e não mais um dhimi a ser tolerado como o Alcorão ordena.

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No fim das contas quem acabou criando os conflitos atuais entre os cristãos e muçulmanos no Oriente, foram os cristãos do Ocidente.

Bem, espero que estas minhas breves linhas, embora mal elaboradas, sejam uteis para a reflexão do leitor toda vez que lhe chegar aos ouvidos as ”perseguições dos muçulmanos malvados”.

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