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Ben Shapiro diz que boa parte dos muçulmanos são radicais, será?

O crescimento do grupo Estado Islâmico e seu uso estratégico de decapitações selvagens gerou um debate acalorado neste país a respeito da natureza do Islã. Alguns críticos dizem que as crenças islâmicas principais incitam à violência. Os defensores da tolerância religiosa dizem que os radicais representam apenas uma pequena minoria dos muçulmanos.

O comentarista político conservador Ben Shapiro veio à lume dizer que a natureza do Islã é irrelevante. Mais importante, de acordo com ele, é em que seus seguidores acreditam, “porque é nisso que eles baseiam suas ações”. Através destas lentes, Shapiro pintou um retrato perturbador da fonte religiosa das pessoas que jogam aviões em torres e decapitam seus prisioneiros. Shapiro é editor principal do website conservador Breitbart.com e coo fundou o grupo conservador de análise da mídia, TruthRevolt.

Em um vídeo, Shapiro reuniu dados de pesquisa e estatística populacionais de 15 países. Um bom exemplo da tese dele sobre o Islã, está na maneira como fala sobre a Indonésia, nação islâmica mais populosa do mundo.

“Lá existem quase 205 milhões de muçulmanos”, disse Shapiro. “De acordo com uma pesquisa de 2009, foi mostrado que quase 50 por cento dos indonésios apoiam a lei Sharia estrita., não apenas na Indonésia, mas em vários paíeses. E 70 por cento culpam os Estados Unidos, Israel e ou algum outro pelo 11-09.  Se você fizer o cálculo, são aproximadamente 143 milhões de pessoas que estão radicalizadas. Você já está assustado? Estamos apenas começando”.

Para chegar aos 143 milhões de muçulmanos “radicalizados”, Shapiro pegou os 70 por cento de muçulmanos indonésios que culpam qualquer outro exceto a Al-Qaeda pelos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2011.

Shapiro então tirou conclusõs similares utilizando dados de pesquisas de outros países, frequentemente medindo o apoio a lei Sharia – códigos de comportamento no Islã. Então Shapiro somou e aplicou a mesma porcentagem aos “muçulmanos radicalizados” de 15 países a outros países de maioria muçulmana e, com 1.6 bilhões de muçulmanos no mundo, chegou a uma conclusão chocante.

“Existem mais de 800 milhões de muçulmanos radicalizados, mais da metade dos muçulmanos na Terra”, disse Shapiro. “Isto não é uma minoria. Isto é agora uma maioria.”

Shapiro falou com grande segurança, mas quando analisamos a sua conclusão de que a maioria dos muçulmanos são radicais, fomos deixados coçando nossas cabeças. Em primeiro lugar, Shapiro utilizou consistentemente as altas percentagens disponíveis nas pesquisas para maximizar o número de muçulmanos que ele poderia classificar como “radicais”. Em segundo lugar, ele utilizou uma definição ampla de radical. Para darmos um exemplo principal, existe uma grande variedade na forma como as pessoas interpretam a lei Sharia, e o apoio a ela diz pouco a respeito das crenças específicas de cada pessoa.

Outros números contam uma história diferente

Shapiro citou o trabalho do Pew Research Center em algumas das suas análises e muito do seu trabalho se baseia na mesma fonte. Tentamos contactar Shapiro e não tivemos sucesso.

Em aproximadamente metade dos países que ele pesquisou,  Shapiro se focou no apoio à lei Sharia. De acordo com o Council on Foreign Relations, “A Sharia guia todos os aspectos da vida islâmica, incluindo as rotinas diárias, obrigações familiares e religiosas, e transações financeiras.” É um código moral que cobre o casamento, crime e negócios. Diferentes ramos do Islã utilizam versões diferentes da lei. Alguns elementos são amplamente aceitos, como a imoralidade da fraude. Mas para países e seitas que seguem as versões mais duras, nas quais ladrões têm suas mãos cortadas e mulheres infiéis são apedrejadas até à morte, a oposição do Ocidente, e igualmente de partes do mundo muçulmano, é forte e visceral.

Para Shapiro, o apoio a qualquer forma de lei Sharia significa uma coisa – o crente é um radical. Da mesma forma, Shapiro olha para um lugar como o Paquistão e diz que 76 por cento dos muçulmanos quer a lei Sharia em todos os países muçulmanos. O Paquistão tem 179 milhões de muçulmanos, portanto, “isto significa outros 135.4 milhões de radicais”.

Mas olhando para um relatório do Pew de 2013 sobre os muçulmanos, achamos que a imagem é mais complicada. O Pew relatou que 84 por cento dos muçulmanos paquistaneses querem a lei Sharia, mas destes, aproximadamente dois terços dizem que ela deve se aplicar somente aos muçulmanos. Analise estes número e você terá por volta de 54 milhões de muçulmanos que pensam que todos os paquistaneses devem estar sujeitos a lei Sharia. Isto é por volta de 60 por cento a menos do que foi dito por Shapiro.

Não estamos dizendo que o Paquistão tem 54 milhões de muçulmanos radicais. Nossa questão é que uma pesquisa mais detalhada muda bastante os resultados.

Shapiro escolheu um critério. Outros analistas poderiam com pelo menos tanta justificação escolher mais um. O impacto de qual pergunta é utilizada se torna ainda mais claro se olharmos para o apoio a atentados suicidas contra alvos civis.

Shapiro disse que os verdadeiros terroristas retiram “apoio moral, financeiro e religioso daqueles que não são, eles mesmos, terroristas”. Mesmo se você acreditar em Shapiro, não significa que as atitudes em relação ao terrorismo são irrelevantes. O Pew perguntou aos muçulmanos se eles apoiam atentados suicidas contra civis. No Paquistão, 13 por cento dos muçulmanos disseram que tais ataques em defesa do Islã poderiam frequentemente, ou às vezes, ser justificados.

Se esta é a sua definição de radicais, então o Paquistão tem aproximadamente 23 milhões deles. Dificilmente um número pequeno, mas bem menor do que os 135 milhões apontados por Shapiro.

A tabela seguinte mostra como a utilização de medidas alternativas e razoáveis para medir o radicalismo, podem transformar a maioria de Shapiro em uma distinta minoria. Você pode ver como Shapiro atingiu seus resultados assistindo o vídeo.

 

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País População (milhões) Total de Radicais (Shapiro, milhões) Percentagem alternativa Total alternativo (milhões)
Indonésia 205 143 Pew: 7% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados 14.4
Egito 80 55.2 Pew: 29% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 23.2
Paquistão 179 135.4 Pew: 13% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 23.3
Bangladesh 149 121.9 Pew: 26% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 38.7
Nigéria 75.7 53.7 Pew: 22% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 16.7
Irã 74.8 62.1 ICP/Charney: 47% aboliriam a polícia moral. 35.2
Turquia 74.7 23.9 Pew: 15% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 11.2
Marrocos 32.4 24.6 Pew: 9% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 2.9
Iraque 31.1 24.3 Pew: 7% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 2.2
Afeganistão 24 24 Pew: 39% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 9.4
Jordânia 6.4 3.8 Pew: 15% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 1
Territórios Palestinos 4.3 3.83 Pew: 40% dizem que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados. 1.7
França 4.7 1.6 Nenhuma alternativa utilizada 1.6
Grã Bretanha 2.8 2.2 Manchester Policy: 2% expressaram algum apoio ao terrorismo. 0.06
Estados Unidos 2.6 0.5 Pew: Em 2009, 8% disseram que os atentados suicidas podem ser às vezes justificados 0.2
Total 946.5 680.03 181.76
Percentagem total 72% 19%

 

Para ser claro, não estamos dizendo que existem 181 milhões de muçulmanos radicais. Estamos simplesmente dizendo que, ao aplicar critérios razoáveis aos mesmos dados, você pode chegar a resultados vastamente diferentes.

Sharia radical

Dado que Shapiro utilizou o apoio à lei Sharia em 7 dos 15 países como uma marca de radicalismo, devemos notar que os especialistas que contactamos nos aconselharam uma abordagem mais cautelosa. O Pew percebeu que quando se pergunta a muçulmanos sobre elementos específicos da lei Sharia, o apoio muda.

De acordo com James Bell, diretor do International Survey Research em Pew, muitos muçulmanos dirão que eles querem juízes religiosos para decidir disputas familiares ou de propriedade. Mas pergunte a eles sobre punições físicas para criminosos ou sobre a pena de morte para apóstatas e apoio decresce consideravelmente.

“A principal informação é que os muçulmanos diferem no que eles entendem por Sharia e na maneira como querem aplicá-la.”

Jim Zogby, presidente do Arab American Institute, um grupo que defende os interesses e promove para Árabes Americanos, disse que a maioria dos muçulmanos não pensa sobre todos os elementos da sharia.

“Isto indica um grau de fidelidade nominal”, Zogby disse. Se eu disser que apoio a lei em abstrato, isto não me compromete a apoiar vários e diversos aspectos”.

Em dois países, Shapiro focou no apoio a crimes de honra. Zogby disse que por mais cruéis que os crimes de honra sejam, eles não estão ligados às crenças que subjazam às decapitações e atentados suicidas. “Um não tem nada a ver com o outro”, disse Zogby.

Maria Sobolewska, uma palestrante em metodologias políticas e quantitativas na Universidade de Manchester, Inglaterra, estudou pesquisas naquele país na onda dos ataques à bomba ao ônibus e metrô em 2005.

“O que recebemos como um retrato fiel do que os muçulmanos pensam é na maioria das vezes um artefato do que se pergunta a eles”, Sobolewska escreveu.

Devemos observar que não encontramos nenhuma estimativa sólida sobre o número de radicais muçulmanos a nível mundial. Por exemplo, um relatório de 2014 sobre o terrorismo jihadista feito pelo Bipartisan Policy Center, não quantificou o tamanho da população jihadista.

Nossa conclusão

Shapiro disse que a maioria dos muçulmano são radicais. Para fazer estes números trabalharem, ele teve que manipular certos resultados das pesquisas de opinião pública. Dada a escolha entre duas possíveis percentagens, ele escolheu a maior. Shapiro também se baseou principalmente na ideia de que qualquer um que defende a lei Sharia é radical.

Alguns dos melhores trabalhos de pesquisa mostram que as crenças muçulmanas são muito mais nuançadas. Alguns países onde altas percentagens de muçulmanos apoiam a lei Sharia, apontam um fraco apoio a ataque suicidas contra civis. Grandes frações dos muçulmanos que endorsam a lei Sharia não querem impô-la aos outros. O significado da lei Sharia varia de grupo para grupo e de nação para nação.

A definição de radical segundo Shapiro, é tão delicada que praticamente não tem sentido e assim são os números que ela traz.

Classificamos a acusação de Shapiro como falsa.

Fonte: http://www.politifact.com/punditfact/statements/2014/nov/05/ben-shapiro/shapiro-says-majority-muslims-are-radicals/

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