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Aurangzeb e o reinado Islâmico na Índia

Quando os historiadores olham para o domínio muçulmano na Índia, a sua perspectiva molda muito a forma como eles apresentam personagens históricos. Algumas pessoas são vistas como líderes grandes e iluminados, enquanto outros são tiranos cruéis. Ninguém é mais controverso do que o Imperador Mughal Aurangzeb Alamgir, que governou entre 1658 e 1707.

Por Hindus e Sikhs, ele é visto como um imperador cruel e impiedoso que restringiu liberdades e impôs um regime religiosamente intolerante sobre o povo. Por muçulmanos ele é visto como um sultão justo, dedicado e religioso. Este artigo irá olhar além da retórica sobre Aurangzeb para entendê-lo como um governante muçulmano em um país dominado pelo Hinduismo.

Vida Pregressa

É importante quando se olha para o reinado de Aurangzeb que durou 49 anos procurar entender o seu reinado no contexto correto. Os Mongóis tomaram o poder na Índia durante o reinado de Babur em 1500. Mais de 150 anos depois, quando Aurangzeb assumiu o poder, o Império Mongol estava no auge. Ele controlava a maior parte do subcontinente indiano e foi um dos mais ricos (se não o mais rico) impérios do mundo.

Um exemplo da caligrafia corânica escrita por Aurangzeb

Um exemplo da caligrafia corânica escrita por Aurangzeb

Aurangzeb nasceu em um estado poderoso e cosmopolita com imensas riquezas em 1618. Seu pai era o lendário Shah Jahan, o construtor do Taj Mahal em Agra. Ele teve em companhia os melhores estudiosos e professores para educá-lo a partir de uma idade jovem. Como um jovem garoto, ele se tornou bem versado no Alcorão, nas ciências de Hadith e outros aspectos de ciências islâmicas. Ele era conhecido como um leitor muito entusiasmado. Ele leu e escreveu em árabe, persa e Chagatai turco, a língua de seus antepassados. Ele também foi treinado na arte da caligrafia. Alguns de seus trabalhos caligráficos ainda existem hoje.

Divulgação do Islam

Uma das principais metas de Aurangzeb era trazer a verdadeira governação islâmica ao Império Mongol. Imperadores anteriores, enquanto todos muçulmanos, não tinham governado totalmente de acordo com a lei islâmica. Seu bisavô Akbar, por exemplo, ia regularmente contra as crenças islâmicas através da adoção de muitas crenças e práticas religiosas não islâmicas em sua vida pessoal, bem como em seu governo do império. A insistência de Aurangzeb no domínio islâmico foi baseada em sua educação anterior e suas fortes convicções religiosas.

Al-Fatawa al-Hindiya, o livro da lei islâmica compilado por Aurangzeb

Al-Fatawa al-Hindiya, o livro da lei islâmica compilado por Aurangzeb

Aurangzeb tomou o poder antes que seu pai, Shah Jahan, falecesse. Apesar do respeito que ele tinha por seu pai, Aurangzeb discordou veementemente com muitas de suas ações, considerando-as como um desperdício e extravagância. Um exemplo de sua mentalidade religiosa era sua crítica ao Taj Mahal, que foi um túmulo construído por Shah Jahan para a mãe de Aurangzeb, Mumtaz Mahal. Aurangzeb considerou ser contra as leis religiosas do Islam construir uma estrutura sobre um túmulo, especialmente uma que foi tão ornamentada e cara. Ele declarou que “a legalidade de uma construção sólida sobre um túmulo é duvidosa, e não há nenhuma dúvida sobre a extravagância envolvida.” Ele também fez questão de se opor publicamente à veneração excessiva dos túmulos dos Sufis, quando notou que havia se tornando uma prática de culto, longe das crenças e práticas do Islam.

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Para praticar a lei islâmica no império corretamente, Aurangzeb insistiu em compilar a lei islâmica em um livro codificado que poderia ser muito mais facilmente seguido. Assim, ele reuniu centenas de estudiosos do Islam de todo o mundo muçulmano para organizar tais leis. O resultado foi um texto que fez seu marco na história do fiqh (jurisprudência) na escola Hanafi, conhecido como Fatawa-e-Alamgiri, significando “Os decretos religiosos de Alamgir”. Ele era conhecido como o Fatawa al-Hindiya (الفتاوى الهندية) no resto do mundo muçulmano e é muito respeitado como um compêndio de direito Hanafi.

Usando o Fatawa-e-Alamgiri como um guia, Aurangzeb enviou funcionários para todo o império para cumprirem a lei islâmica e acabarem com as práticas socialmente corruptas. Como tal, o alcoolismo, jogos de azar, prostituição, todas foram combatidas pelo governo imperial. Impostos que não estavam em conformidade com a lei islâmica também foram abolidos, uma política que foi muito popular entre os súditos do Império Mongol.

Para compensar a perda de receitas fiscais, Aurangzeb adotou um estilo de vida muito simples e não viveu de forma exuberante como seu pai tinha. Tradições reais que ele considerava extravagantes foram abolidas, como músicos na corte e festividades no aniversário do imperador.

Relações com Hindus e Sikhs

Enquanto os grandes feitos e a religiosidade do reinado de Aurangzeb são indiscutiveis, há aqueles historiadores e acadêmicos que insistem que o legado duradouro de Aurangzeb é a intolerância e opressão. Ele é comumente citado como um destruidor de templos e alguém que tentou eliminar os não-muçulmanos em seu império. Para a verdade, um pouco mais de contexto é necessário.

Com relação às suas atitudes em relação aos Hindus e Sikhs, em geral, ele claramente não foi prejudicial nem discriminatório. Dezenas de Hindus trabalharam em sua corte como funcionários e assessores. Haviam mais não-muçulmanos na sua corte na verdade do que havia na corte de Akbar, que é comumente citado como o imperador Mongol mais religiosamente tolerante. Com Hindus e Sikhs ocupando cargos em seu governo e exército, claramente Aurangzeb não era simplesmente um fanático religioso que se recusou a reconhecer as contribuições de seus súditos não-muçulmanos.

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A segunda questão que surge em análise do governo de Aurangzeb são as afirmações dele ter destruído templos hindus e sikhs e recusando-se a permitir que novos fossem construídos. Que ele ordenou tais ações é um fato histórico que não pode ser negado.

Corte de Aurangzeb incluindo dezenas de funcionários não-muçulmanos

Corte de Aurangzeb incluindo dezenas de funcionários não-muçulmanos

A preservação dos templos com a justificativa religiosa islâmica é uma tradição de longa data na Índia. O primeiro exército muçulmano a vir para a Índia em 711 sob Muhammad bin Qasim prometeu liberdade religiosa e segurança aos templos para os hindus e budistas. A mesma política foi seguida por centenas de anos antes dos Mongóis. No entanto, Aurangzeb não violou as leis islâmicas em matéria de proteção das minorias religiosas. Aurangzeb ainda fez a observação que islamicamente, profanação de templos não era permitida quando em 1659, ele escreveu: “De acordo com a sharia [lei islâmica] e do credo exaltado, foi estabelecido que os templos antigos não devem ser demolidos.” 1

Então, se Aurangzeb não demoliu templos por motivos religiosos, por que ele fez isso? A resposta reside na natureza político de templos em 1600. Os templos hindus e sikhs (ao contrário das mesquitas muçulmanas) não eram apenas locais de culto. Eles também tinham significados políticos. Templos eram como escritórios políticos e propriedade do Estado, e os sacerdotes que estavam à frente deles estavam a serviço do governo. Ao procurar obter o apoio de hindus em uma área particular, imperadores Mongóis (e até mesmo os reis hindus em áreas não Mongóis) iriam contar com os sacerdotes para reunirem a população local através do templo. Como tal, um templo era mais do que apenas um edifício religioso, foi também um instrumento político potencialmente poderoso.

Com esse entendimento dos templos e seus significados, podemos passar a entender a destruição de Aurangzeb de certos templos. Não há registros históricos que mostram que ele tinha uma política indiscriminada de destruição de templos em toda a Índia. Os templos que ele escolheu para destruir foram cuidadosamente selecionados e eram uma pequena fração do total de locais de culto hindu na Índia. Isto porque, quando Aurangzeb escolhia um templo para a destruição, era um ato politicamente motivado, e não religioso.

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Vendo a opulência e posterior tensão financeira dos Mongóis durante o reinado de Shah Jahan, vários governadores e sacerdotes locais decidiram se rebelar contra a autoridade Mongol durante o reinado de Aurangzeb. Quando uma rebelião eclodiu em uma parte do império, o templo local era a entidade política natural em que os rebeldes poderiam se reunir e confabular contra o Estado. Enquanto os líderes rebeldes e seus templos existiam, a ameaça ao governo Mongol também existia.

Tornou-se, assim, uma prática para lutar contra as rebeliões contra a autoridade central, sendo o templo que gerou essa rebelião também

Aurangzeb lendo o Alcorão

Aurangzeb lendo o Alcorão

destruído junto com a rebelião. Um exemplo disso foi uma rebelião em 1669 em Banaras liderada por um rival político, Shivaji, que usou o templo local para conseguir apoio para a sua causa. Após a captura de Shivaji, Aurangzeb destruiu o templo em Banaras que foi usado como um campo de recrutamento político contra o seu reinado. Outro exemplo ocorreu em 1670, em Mathura quando os Jats rebelaram e mataram um líder muçulmano local. Mais uma vez, para acabar com a rebelião Aurangzeb teve que destruir o templo que havia apoiado ele.

No geral, a política de profanação de templos foi usada como uma punição política para os funcionários hindus desleais, não como um sinal de intolerância religiosa, como alguns podem argumentar. Um outro argumento que alega que a falta de profanação de mesquitas significa que ele era religiosamente intolerante também, porém isso não tem nenhum fundamento, já que as mesquitas não eram instituições políticas como os templos eram. Embora a política de destruir uma base de operações do adversário político é algo que pode ter seus detratores, os argumentos de que as ações de Aurangzeb eram motivadas por religião são claramente infundadas. Em vez disso, Aurangzeb era um líder religioso que se esforçou muito para garantir um caráter islâmico em todas as suas ações como líder. Isso não significa, contudo, a intolerância religiosa já que ele seguiu as diretrizes para a proteção dos não-muçulmanos que é obrigatória na lei islâmica.

Notas

Eaton, Richard. “Temple Desecration and Indo-Muslim States.” Frontline. (2001): n. page. Print. <http://www.hindu.com/fline/fl1726/17260700.pdf>.

Bibliografia

Hodgson, M. G. S. The Venture of Islam, Conscience and History in a World Civilization. 3. Chicago, IL: University of Chicago Press, 1974.

Holt, P.M., Ann Lambton, and Bernard Lewis. The Cambridge History of Islam. 2A. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1970. Print.

Eaton, Richard. “Temple Desecration and Indo-Muslim States.” Frontline. (2001): n. page. Print. <http://www.hindu.com/fline/fl1726/17260700.pdf>.

Ikram, S.M. Muslim Civilization in India . New York City: Columbia University Press, 1964. Web.

Fonte: http://lostislamichistory.com/aurangzeb-and-islamic-rule-in-india/

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