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Abu Hasan al-Ash’ari – O Fundador da Maior Escola Teológica do Mundo Islâmico

“Allah está acima dos céus, em cima do Trono, acima de tudo, com uma elevação (fauqiyya) que não Lhe deixa mais perto do Trono ou dos céus, assim como não Lhe deixa mais longe da Terra. Está perto de tudo o que existe, está mais perto do servo que sua própria veia jugular, e é uma testemunha sobre todas as coisas.”

– Abû al-Hasan al-Ash’arî (m. 324) em sua obra, “Al-Ibâna fî Usûl al-Diyâna”

Seu nome é Abû al-Hasan ‘Ali Ibn Ismâ’îl Ibn Ishâq Ibn Sâlim Ibn Ismâ’îl Ibn ‘AbdAllah Ibn Mûsâ Ibn Bilâl Ibn Abî Burda Ibn Abî Mûsâ al-Ash’arî, companheiro do Profeta. (Tabiyîn p.34 Siyar T.11 p.540)

Nasceu em 260 da Hégira em Basra no Iraque, onde a atividade científica alcançava seu apogeu no fim do século IX da era gregoriana.

Sua juventude, seus estudos:

Abû al-Hasan al-Ash’arî viveu toda sua infância em Basra, antes de ir para Bagdá, a capital do Califado, para seguir com seus estudos. Estudou, entre outras coisas, o Direito com o sábio shâfi’i Abû Ishâq al-Marwazî e o Hadîth com o Hâfidh Zakariyyâ Ibn Yahyâ al-Sâjî, com Abû Khalîfa al-Jumahî, com Sahl Ibn Sarh, com Muhammad Ibn Ya’qûb al-Muqrî e com ‘Abd al-Rahmân Ibn Khalaf.

Estudou igualmente a teologia (kalâm) com seu sogro (o esposo de sua mãe) Abû ‘Alî al-Jubbâ’î (morto em 915), que era o Shaikh dos mu’tazilitas e que marcou de uma maneira indelével seu jovem genro.

O Imâm al-Ash’arî se tornou um brilhante discípulo da escola teológica mu’tazilita, famoso por suas competências excepcionais em dialética e controvérsia. Além de suas aptidões em teologia escolástica, era também um jurista e um tradicionalista, tendendo para uma vida modesta e ao ascetismo. Algumas fontes precisam que era sufi.

Desde sua juventude, foi seduzido pelas teorias mu’tazilitas fortemente apoiadas por al-Jubbâ’î, que era então o representante da escola mu’tazilita de Basra.

A princípio, Abû al-Hassan era seu aluno, e logo se tornou seu sócio ajudando-o ardentemente em defender suas teses. Tornou-se mestre na arte de usar a razão para defender sua doutrina.

Ficou com seu mestre al-Jubbâ’î aproximadamente quarenta anos, até que chegou o dia em que, subitamente, tomou consciência do verdadeiro perigo que representava o mu’tazilismo para o Islã. Deixou o I’tizâl e se afiliou à doutrina da ortodoxia sunita: “Ahl Al-Sunna wa’al-Jamâ’a”.

A Mudança de Abu al-Hasan al-Ash’ari do Mu’tazilismo para o Sunismo:

Esta separação nos está relatada pelo Imâm al-Subkî em “Tabaqât al-Shâfi’iyya al-Kûra”. Disse:
{Al-Jubbâ’î ensinava o sentido racional do sofrimento da compensação de Allah. Esta doutrina mu’tazilita estipula que Allah sempre faz o bem (al-salâh) e deve sempre fazer o melhor.

Abû al-Hasan fez a pergunta seguinte a seu mestre:
“Suponhamos que há três irmãos, um morre adulto na obediência de Allah (mu’min);
o segundo morre adulto na desobediência (kufr);
o terceiro morre sendo criança (sabî).
O que acontecerá com eles?”

Al-Jubbâ’i lhe respondeu:
“A recompensa do primeiro é o Paraíso, o segundo será castigado no Inferno, o terceiro não será nem recompensado, nem castigado!”

“Bem!” Replicou Abû al-Hasan, “…mas se o terceiro diz:
‘Ó Senhor, por que me deixou morrer sendo criança e não me deixou viver para que Te obedeça e entre no Paraíso?’ “O que lhe dirá então o Senhor?”

Al-Jubbâ’î respondeu:
“O Senhor lhe dirá: ‘Sei que se tivesse crescido, teria desobedecido e teria entrado no Inferno; assim que o melhor para você foi morrer sendo criança!'”

Abû al-Hasan seguiu:
‘E se o segundo diz: ‘Ó Senhor meu, por que não me deixou morrer sendo criança, para que não tivesse entrado no Inferno? O que dirá o Senhor?’

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Al-Jubbâ’î ficou mudo! ( fa’inqata’a al-Jubbâ’î)
(Tabaqât: T3, p. 256 – Ver também Madhâhib: p. 498-499)}

Desde então, Abû al-Hasan se separou dos mu’tazilitas e refez sua doutrina.

Depois desta controvérsia, Abû al-Hasan viu o Profeta em sonho, e este o incitou a seguir aos verdadeiros crentes. (Tabiyîn: p. 40-41)

 

Depois desta separação de seu mestre, Abû al-Hasan al-Ash’arî decidiu anunciar publicamente sua ruptura com o mu’tazilismo.

Numa sexta-feira, diante de uma gente reunida na mesquita de Basra, levantou-se depois da reza e declarou em voz o mais alta possível:

‘Ó gente, (…) sustentei antigamente que o Alcorão era criado, que os olhos dos crentes não veriam a Allah jamais, que éramos os criadores dos nossos atos. Agora, volto para a verdade. Renuncio a estas teses e tomo a resolução de refutar as doutrinas mu’tazilitas e de expôr sua infâmia e sua ignomínia!’ (Madhâhib: p. 492-493)

Assim, o antigo discípulo de al-Jubbâ’i se voltou contra seus antigos companheiros, e seu conhecimento profundo das teses mu’tazilitas fez dele um adversário temível.

O Imâm Abû al-Hasan al-Ash’arî renegou a si mesmo em público as teses mu’tazilitas. No momento de sua elaboração e para mostrar que havia definitivamente se separado da sua antiga doutrina, tirou simultaneamente uma roupa que estava usando e jogou fora todos os seus livros de tendência mu’tazilita que havia escrito antigamente.

Várias fontes relatam como o Imâm al-Ash’arî abandonou o mu’tazilismo para se voltar para a doutrina sunita.
Uma das mais fiáveis é certamente a que dá ele mesmo:
“Numa noite, fui invadido pelas dúvidas acerca de uma questão doutrinal. Levantei-me e rezei pedindo a Deus que me guiasse ao caminho reto. Logo dormi.

Vi em sonho o Mensageiro de Allah e me queixei diante dele a respeito das dúvidas que me atormentavam.
O Mensageiro de Allah disse então:
“Contente-se com a minha Tradição!”
“Tomei nota desta recomendação e comecei a considerar as questões teológicas à luz do Alcorão e dos ahâdîth. Guardava o que confirmavam e deixava de lado o que não concordavam.”

O Imâm al-Ash’arî fundou assim sua própria escola teológica, o ash’arismo, cuja fonte é o credo simples das primeiras gerações de muçulmanos. Esta escola se inscrevia na linha reta da doutrina islâmica clássica. Para chegar até isso, a metodologia do Imâm seguiu uma lógica articulada ao redor de 6 eixos:

O primeiro eixo é o do inventário de todas as teses e doutrinas islâmicas que foram tratadas no contexto da controvérsia teológica. É na sua obra-prima (Maqâlât al-Islâmiyyîn wa’Ikhtilâfât al-Musallîn = As Doutrinas Islâmicas e Suas Divergências), verdadeira enciclopédia das seitas islâmicas, que o Imâm Abû al-Hasan al-Ash’arî consagrou esta primeira etapa descritiva. Explicou, entre outros, como a questão da sucessão do Profeta (sallAllahu ‘alaihi wasallam) deu luz a várias seitas islâmicas, como os khârijitas, que afirmam que o pecado, seja qual for, faz sair do Islã, ou como os xiitas que defendem a doutrina do imamato, dos murji’itas que, contrariamente aos khârijitas, pretendem que o pecado não altera a fé, da jabriyya que sustentam que o homem não tem nenhuma margem de livre-arbítrio e que está inteiramente predestinado, ou como a qadariyya que rechaça a ideia de predestinação (qadar) e que pretendem que o homem é um ser que se autodetermina, e que é o único criador de seus atos.

O segundo eixo é o da classificação metódica das doutrinas inventariadas. Estas são consideradas no contexto histórico e estudadas de tal maneira que possamos tirar daí as grandes famílias doutrinais. O Imâm al-Ash’arî dividiu assim as seitas islâmicas em dez grandes categorias: os xiitas, os khârijitas, os murji’itas, os mu’tazilitas, os jahmitas, os dirâritas, os hussainitas, os bakritas, os sunitas e os kilâbitas.

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O terceiro eixo é o do estudo das implicações de cada doutrina, a partir de seus postulados de princípio, sobre as diferentes questões que haviam tratado. O Imâm al-Ash’arî citou assim as opiniões de cada seita, mencionando as divergências que poderiam existir no seio duma mesma corrente. Estendeu-se particularmente sobre a seita mu’tazilita, à qual consagrou a maior parte da sua obra pré-citada.

O quarto eixo é o da avaliação racional da exatidão e da consistência destas diferentes doutrinas.

O quinto eixo é o da resposta a seus desvios.

O sexto e último eixo é o do estabelecimento pelo Imâm Abû al-Hasan al-Ash’arî de sua própria doutrina, que é uma síntese da doutrina sunita.

Sua própria doutrina

Os teólogos qualificam esta etapa de sua vida a mais perigosa e a mais audaciosa, dado que havia se separado dos mu’tazilitas e que se confrontava com eles.
Al-Ash’ari se opunha às correntes mu’tazilitas em vários pontos essenciais:

– O conhecimento, a palavra, a vista… são atributos eternos de Allah, segundo al-Ash’ari. Os mu’tazilitas, ao contrário, declaravam que Allah não tinha atributos distintos de Sua essência.

– A interpretação das expressões alcorânicas: a mão, a face de Deus têm o sentido de “graça”, “essência”, segundo os mu’tazilitas. Embora al-Ash’arî afirma que não havia significado material, físico… mas sustentava que estas expressões eram atributos reais cuja natureza exata permanece desconhecida…

– As opiniões dos mu’tazilitas e de al-Ash’arî divergiam também a respeito da criação do Alcorão. (os ash’aris creem que o Alcorão é a palavra de Allah e não uma criatura)

Para os mu’tazilitas, o Alcorão é uma criação de Allah, enquanto que para al-Ash’ari, o Alcorão, atributo eterno, não pode ser a criação de Allah: é a Sua palavra.

– Contrariamente aos mu’tazilitas que declaravam que não se poderia ver Allah no sentido literal do termo, ou senão implicaria que seria de natureza corporal e limitada; Al-Ash’ari sustentava que a visão de Allah no Além era uma realidade cuja manifestação permanece misteriosa.

– A realidade da escolha nos atos humanos: os mu’tazilitas davam una grande importância ao livre-arbítrio. Quanto a al-Ash’arî, insistia sobre a onipotência de Allah. Segundo ele, os acontecimentos, bons ou maus, dependem somente da vontade de Allah. É ao mesmo tempo o Criador das ações dos homens e do seu poder de agir em todas as circunstâncias (isto constituirá mais tarde a doutrina da “aquisição” (kasb) na Ash’ariyya).

Influência do Imâm al-Ash’arî

O Imâm Abû al-Hasan al-Ash’arî respondeu assim às polêmicas provocadas por uns e outros contra a doutrina trazida pelo Profeta e transmitida por seus Companheiros.

Refutou as escolas teológicas desviadas com suas próprias ferramentas intelectuais e mostrou que suas posições eram racionalmente e logicamente insustentáveis. Foi ao seu redor e ao redor de um dos seus confrades, o Imâm Abû Mansûr al-Mâturîdî, que se reuniu a maioria esmagadora da Comunidade muçulmana, a qual lhe consagrou, com toda a razão, o Imâm dos Sunitas. De fato, soube aliar o poder da razão com a autoridade da revelação.

Muitos sábios muçulmanos escreveram biografias do Imâm al-Ash’arî, apresentando-o como o campeão da doutrina autêntica que desarticulou pela força da razão todas as inovações heréticas que existiam em seu tempo.

Entre estes sábios, podemos citar o Imâm Ibn ‘Asâkir em seu Tabiyîn Kadhib al-Muftarî ‘alâ Abî al-Hasan al-Ash’arî (Desarticulação das Mentiras contra Abû al-Hasan al-Ash’arî),

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o historiador Ibn Khallikân em suas Wafiyyât al-A’yân (Necrologia dos Notáveis),

o Imâm Ibn Kathîr em Al-Bidâya wa’l-Nihâya (O Começo e o Fim),

o Shaikh Ibn Khaldûn em sua famosa Muqaddima,

o Imâm Ibn al-‘Imâd al-Hanbalî enm suas Shadharât al-Dhahab fî A’yan Man Dhahab (As Pepitas de Ouro nas Personalidades Desaparecidas),

o Imâm Tâj al-Dîn al-Subkî em suas Tabaqât al-Shâfi’iyyah al-Kubrâ (As Grandes Crônicas Shâfi’is),

o Imâm al-Khatîb al-Baghdâdî que escreveu em seu Târîkh Baghdâd (História de Bagdá) :
“Os mu’tazilitas haviam levantado a cabeça até que Allah fizesse aparecer al-Ash’arî que lhes relegou ao nada.”

Palavras de sábios sobre ele:

Ibn ‘Asâkir nos relata o aviso do erudito Abû al-Qâsim ‘Alî Ibn Ismâ’îl al-Qushairî (morto em 465 h. / 1072 d.C.) que afirmava:
“[…] que al-Ash’arî era um imâm entre os imâms do povo do hadîth, e que sua escola era a do hadîth; e se expressou sobre os fundamentos dogmáticos pela via do povo da Sunna, e refutou os hereges e os inovadores; assim, era para os mu’tazilitas, os xiitas e os inovadores tal como um sabre sacado de sua bainha”. (Ibid p.112-113)

O Imâm al-Dhahabî (morto em 748 h. / 1347 d.C.) disse do Imâm al-Ash’arî:
“Tinha uma inteligência excepcional e desenvoltura na compreensão”,

Acrescenta também: “E sua inteligência era prodigiosa, destacou-se nas ciências, fez obras piedosas e a maior parte de seus escritos mostram claramente a amplitude de seu conhecimento”. (Siyar T.11, p. 540-541 – Ver também Mu’taqad : p. 13)

O Qâdî Abû Bakr ibn al-Bâqillânî (morto em 404 h. / 1013 d.C.) falou sobre ele:
“Meus melhores momentos são os quais consigo entender a palavra, os escritos de al-Ash’arî.” (Tabaqât : T.3, p. 351 – Mu’taqad : p. 13-14)

Al-Subkî (morto em 771 h. / 1369 d.C.) disse:
“[…] Depois do Imâm Ahmad ibn Hanbal, o mais eminente do povo da Sunna é Abû al-Hasan al-Ash’arî, e seu credo é o do Imâm Ahmad, não há nenhuma divergência sobre isto, é o que expressou claramente o Imâm al-Ash’arî em seus escritos […]”

O erudito Ibn Taimiyya (morto em 768 h. / 1376 d.C.) relatou que entre os antigos imâms da Escola Hanbali, tais como Abû Bakr ibn ‘Abd al-‘Azîz , Abû al-Hasan al-Tamîmî e muitos outros, relatavam em suas obras as palavras do Imâm al-Ash’arî . (Mu’taqad: p. 46)

Disse também:
“Al-Ash’arî era o mais próximo do Imâm Ahmad ibn Hanbal notavelmente quanto às questões acerca do Alcorão e dos Atributos Divinos.” (Ibid: p. 47)

Hamad Ibn Muhammad al-Ansârî relata na biografia sobre al-Ash’arî, que Ibn Taimiyya disse:
“Quando al-Ash’arî se separou da doutrina mu’tazilita, se reuniu com o povo do hadîth e da Sunna tal como o relatou em seu livro Al-Ibâna.” (Abu Hasab al-Ash’arî: p. 19)

O Imâm Abû Al-Hasan al-Ash’arî deixou para as gerações posteriores muitas obras nas quais combateu o pensamento mu’tazilita e reafirmou sua própria doutrina, as mais famosas sendo:
Al-‘Umad (Os Pilares)
Maqâlât al-Islâmiyyîn wa’Ikhtilâfât al-Musallîn (As Doutrinas Islâmicas e Suas Divergências)
Al-Radd ‘alâ al-Mujassima (Resposta aos Antropomorfistas)
Istihsân al-Khaud fî ‘Ilm al-Kalâm (A Utilidade da Teologia)

Escreveu antes de sua morte muitas obras.

Ibn ‘Asâkir nos relatou os títulos de seus escritos em seu “Tabiyîn” ; e podemos citar estes, entre os mais conhecidos:
Al-‘Amd fi al-Ru’ya
Fusûl fi al-Radi ‘ala al-Mulhidîn
Kitâb al-Luma’ fî al-Radi ‘alâ Ahli al-Zaighi wa’l-Bida’
Al-Luma’ al-Kabîr
Al-Luma’ al-Saghîr
Al-Jawâbât fi al-Sifât ‘an Masâ’il alu al-Zaighi wa’al-Shubuhât
Al-Mukhtasar fî al-Tauhîd wa’l-Qadar
Al-Rad ‘alâ al-Falâsifa

Fonte: http://fiqh-maliki.blogspot.com.br/2010/12/al-imam-abu-al-hasan-al-ashari.html

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