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A escravidão no Brasil por Jean-Baptiste Debret (1.834-1.839). Um proprietário de escravos pune escravo no Brasil do século 19 Islam Allah Muhammad Islamismo
A escravidão no Brasil por Jean-Baptiste Debret (1834-1839). Um proprietário de escravos pune escravo no Brasil do século 19.

A Revolta dos Escravos Muçulmanos da Bahia

A partir do ano de 1500 até o ano 1800, as nações europeias estavam envolvidas em uma prática trágica e bárbara conhecida como o tráfico de escravos. Durante esse período, mais de 12 milhões de africanos foram embarcados em navios e levados para a América do Norte e Sul para trabalharem como escravos. O legado desse tratamento desumano vive ainda hoje, sob a forma de racismo e de desvantagem econômica para os negros nas Américas e desunião e da guerra na África. Um dos aspectos da escravidão que tem sido negligenciado nos estudos históricos é o impacto das revoltas dos escravos. É desnecessário dizer que os escravos africanos não iam voluntariamente para suas novas vidas. Em muitos casos, eles lutaram contra seus mestres, recusando-se a aceitarem a vida que tinham sido forçados a viver.

Uma das mais notáveis (e bem sucedidas) destas rebeliões foi a Revolta da Bahia, que aconteceu em 1835 no Brasil. Esta revolta, ao contrário de algumas outras, foi planejada e conduzida inteiramente por muçulmanos. A história de como eles foram capazes de planejar uma revolta em condições tão horríveis e ter um impacto tão grande é notável. O fator mais interessante e definitivo da revolta foi o seu caráter islâmico.

Contexto

O Brasil foi originalmente uma colônia Portuguesa até 1822, quando ele conquistou sua independência. Independentemente do governo, no entanto, o comércio de escravos ocorreu desde os primeiros assentamentos portugueses até o final dos anos 1800. No estado oriental da Bahia

A localização da revolta, Salvador, no Brasil

A localização da revolta, Salvador, no Brasil

, os escravos representavam cerca de um terço da força de trabalho. Compreender a origem desses escravos é muito importante para a compreensão de como a revolta foi tão bem sucedida. A maioria dos escravos vieram tanto de Senegâmbia (na costa oeste da África), ou a partir do Golfo do Benim (atual Benin, Togo e Nigéria). Os escravos dessas áreas eram quase inteiramente muçulmanos. O povo Wolof e mandinga da Senegâmbia eram inteiramente muçulmanos por volta de 1400 e foram muito eruditos em assuntos islâmicos, com muitos estudiosos entre eles. O povo Yoruba, Nupe e Hausa de Benin também foram inteiramente muçulmanos desde pelo menos o ano de 1500.

Quando esses escravos muçulmanos chegaram ao Brasil, eles levaram com eles as suas crenças religiosas, com a maioria deles se recusando a se converterem ao catolicismo como seus mestres portugueses e brasileiros. Mesmo como escravos eles conseguiram criar uma comunidade islâmica com imãs (eruditos), mesquitas, escolas e oração comunitária. Na capital da Bahia, Salvador, onde a revolta ocorreu, mais de 20 mesquitas diferentes existiram, que foram construídas por ambos os escravos muçulmanos e libertos (ex-escravos que ganharam a liberdade).

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Organizando a Revolta

Em 1814 e em 1816, os muçulmanos da Bahia tentaram organizar uma revolta contra os portugueses. Eles queriam derrubar a aplicação da lei local, livrar todos os escravos e comandar navios de volta à África. Infelizmente, alguns escravos estavam servindo como informantes para a polícia local e a revolta foi esmagada antes mesmo de começar, com os seus líderes sendo mortos. Ao longo dos próximos 20 anos, revoltas menores intermitentes feitas por muçulmanos e não-muçulmanos não tiveram sucesso em levar a liberdade aos escravos da Bahia.

Antes de discutir a revolta em 1835, temos que entender o fator unificador que o Islam desempenhou na organização dos escravos. O Wolof, mandinga, Hausa, Nupe e Yoruba, todos falavam línguas diferentes. Enquanto algumas pessoas têm idéias ignorantes sobre a África ser uma entidade monolítica, é um continente diverso de pessoas diferentes, culturas e nações. Esses escravos muçulmanos na Bahia eram tão diversos quanto um grupo de falantes de francês, alemão, russo e grego. Apesar de suas diferenças étnicas, o fator unificador entre todas elas foi o Islam. O Islam forneceu-lhes uma linguagem comum para falar (em árabe), os costumes comuns, hábitos alimentares e comportamentos. Os muçulmanos da Bahia seriam muito mais

Escravos muçulmanos na Bahia, Brasil

Escravos muçulmanos na Bahia, Brasil

ligados à outros muçulmanos de uma etnia diferente do que os não-muçulmanos que falavam a mesma língua que eles. Ao longo da história islâmica, a unidade foi o que levou à grande força e solidariedade na comunidade.

As revoltas fracassadas de 1814 e 1816 forçou os muçulmanos da Bahia a se esconderem. Expressões exteriores do Islam foram reprimidas pelas autoridades. Apesar disso, ao longo dos anos 1820 e 1830, os líderes muçulmanos e acadêmicos focaram na conversão de outros africanos (sejam eles católicos ou animista) ao Islam. Mesmo as autoridades brasileiras notando um aumento no número de pessoas que praticavam o islamismo, eles não deram muita atenção à situação.

As pessoas que organizaram a revolta eram estudiosos exclusivamente muçulmanos. Devido à força da comunidade muçulmana, eles eram respeitados pelo povo e mantidos em uma posição de honra e estima. Dentre esses líderes estavam homens tais como:

  • Shaykh Dandara – um liberto rico que era um imã
  • Shaykh Sanim – um escravo idoso que fundou uma escola para ensinar as pessoas sobre o Islam
  • Malam Bubakar Ahuna – o maior estudioso em toda Bahia, que organizou eventos da comunidade muçulmana
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Estes estudiosos muçulmanos, assim como muitos outros, usaram as mesquitas como uma base de operações. Lá eles discutiram planos para a revolta, armazenaram armas e educaram os africanos locais. Foi através dessas mesquitas que Malam Bubakar distribuiu seu chamado à jihad (guerra santa, ou resistência militar). Ele escreveu um documento em árabe que pediu aos muçulmanos para se unificarem em preparação para a vinda da revolta contra seus mestres brasileiros.

A Revolta

As autoridades receberam algumas informações de que uma rebelião estava se formando, assim tomaram medidas proativas e exilaram Malam Bubakar seis meses antes da revolta ser agendada. Apesar disso, os planos para a revolta já haviam sidos finalizados e distribuídos para os muçulmanos em toda Bahia.

Uma cópia de Surat al-Qadr do Alcorão. Ela pertencia a um dos escravos muçulmanos revoltantes da Bahia e foi escrito em um estilo tradicional do Oeste Africano do Árabe.

Uma cópia de Surat al-Qadr do Alcorão. Ela pertencia a um dos escravos muçulmanos revoltantes da Bahia e foi escrito em um estilo tradicional do Oeste Africano do Árabe.

A revolta era para acontecer após a oração do Fajr (amanhecer) no dia 25 de janeiro de 1835, que era o dia 27 de Ramadan, 1250 no calendário muçulmano. Alguns muçulmanos consideram o dia 27 como a data mais provável para Laylat al-Qadr, a Noite do Decreto, quando o Alcorão foi revelado ao profeta Muhammad saws. Os muçulmanos da Bahia escolheram esta data na esperança de que o estado espiritual elevado da comunidade oferecesse maiores chances de sucesso.

Devido ao enorme tamanho da revolta planejada, a informação era muito provável que chegasse até a polícia da Bahia sobre a revolta. Na noite antes que a revolta foi programada para acontecer, eles invadiram uma das mesquitas locais e encontraram muçulmanos armados com espadas e outras armas. A luta que se seguiu levou à morte de um policial. Assim, a revolta teve que começar mais cedo do que planejado.

Sendo assim, algumas horas mais cedo, os revolucionários muçulmanos desta mesquita marcharam para fora da mesquita, prontos para começarem a revolta na calada da noite. Eles estavam vestidos com thobes longos e túnicas brancas e kufis (chapéu islâmico) que claramente os identificavam como muçulmanos. Já que a revolta estava marcada para começar ao amanhecer, nem todas as mesquitas saíram em revolta ao mesmo tempo. Independentemente disso, aqueles que começaram a revolta em torno da meia-noite marcharam pelas ruas de Salvador, reunindo outros escravos (tanto muçulmanos e não-muçulmanos) para se juntarem a eles na sua revolta. Antes de o resto das mesquitas se unirem, havia cerca de 300 escravos e libertos marchando pela cidade.

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Eventualmente, o governador da Bahia conseguiu mobilizar as forças armadas locais para enfrentarem os rebeldes. As poucas centenas de africanos agora confrontaram mais de 1000 soldados profissionais com armamento avançado nas ruas de Salvador. A batalha durou cerca de uma hora e provocou a morte de mais de 100 africanos e 14 soldados brasileiros. As autoridades brasileiras claramente venceram a batalha. A revolta nunca conseguiu derrubar o governo local, nem embarcar navios que iriam de volta à África. Parecia ser um fracasso.

Resultado

Os líderes da revolta, os estudiosos muçulmanos, foram levados a julgamento e mortos. Os numerosos escravos que participaram da revolta receberam punições que vão desde a prisão até chibatadas. Embora superficialmente a revolta parecesse uma falha, vai além do que isso.

Após a revolta, um medo geral dos africanos, especialmente dos muçulmanos, assombrou o povo do Brasil. O governo brasileiro aprovou leis que levaram a uma deportação em massa de africanos à África. Um dos objetivos originais da Revolta da Bahia era voltar à África, de modo que isto pode ser visto como uma vitória parcial para a rebelião.

Mais importante, no entanto, a Revolta da Bahia estimulou o movimento anti-escravidão em todo o Brasil. Embora a escravidão continuou a existir no Brasil até 1888, a revolta começou a discussão pública sobre o papel dos escravos e do benefício ou prejuízo que forneceram para a sociedade brasileira. Ela é vista como um dos eventos mais importantes que conduziram para a liberdade dos escravos brasileiros.

É importante notar que o único fator determinante para a Revolta da Bahia era seu caráter islâmico. Foi organizada e liderada por estudiosos muçulmanos, planejadas em mesquitas muçulmanas e apoiada por uma população Africana de maioria muçulmana. Sem o Islam como um fator unificador, tal revolta nunca teria sido possível, nem o efeito que teve teria sido tão grande.

Além disso, o Islam continuou como uma grande força no Brasil há décadas. A reação brasileira violenta para oprimir o Islam no rescaldo da revolta não fez nada para acabar com o Islam. Estima-se que em 1910, ainda havia mais de 100.000 muçulmanos em todo o Brasil. Esta é uma prova da força da comunidade muçulmana do Brasil e sua dedicação ao Islam.

Qualquer discussão sobre a história do Islam no Hemisfério Ocidental deve incluir as ações heróicas desses muçulmanos. O Islam não é uma religião nova no Norte e Sul da América, trazida por imigrantes recentes do Oriente Médio e sul da Ásia, como muitos tendem a acreditar. Pelo contrário, é uma religião que influenciou muito o curso da história da América do Norte e Sul no passado, e continuará a fazê-lo no futuro.

Bibliografia

Shareef, Muhammad. The Islamic Slave Revolts of Bahia, Brazil. Pittsburg: Sankore Institute, 1998. Print.

Fonte: http://lostislamichistory.com/the-bahia-muslim-slave-revolt/

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